Em minhas duas últimas reflexões apresentei, resumidamente, a história do Carnaval antes da Quaresma, das 58 Campanhas da Fraternidade, sempre abordando um tema de acordo com a realidade nacional e das tensões criadas entre Igreja e Estado na execução das tarefas. Disse também que, dentre as Campanhas, duas trataram de Educação (1982 e 1998) e a deste ano (2022) volta ao Tema, na celebração dos 40 anos da Pastoral da Educação de 1982.
No
final, eu perguntava ao meu supervisor/Leunam,
se eu poderia voltar ao assunto e que ele me aguardasse. Aqui estou.
Os
que temos bom senso, ligamo-nos à Educação, conhecemos Paulo Freire, pessoalmente
e através de seu método participativo “Círculo de Cultura” e até fizemos parte
da Pastoral da Educação nos últimos 40 anos, sempre estivemos atentos para
alguns entraves de caráter histórico
e cultural que tanto impediram o povo de alcançar seu direito constitucional de
ser educado.
Mas
que entraves foram estes?
-
A desigualdade social. O descaso dos governantes quanto à cultura. O
preconceito racista e excludente e outras atitudes que levam a um círculo
vicioso de desigualdade, extremamente perverso e difícil de romper. Além disto
a condição de pobreza extrema impossibilita o acesso integral à rede pública de
educação. Sem estudo, sem diploma e sem capacitação profissional, a porta para
o mercado de trabalho permanece fechada, levando sérios obstáculos a outros direitos:
à habitação, à saúde, ao transporte e a tantas carências já aprofundadas em C.
F., anteriormente estudadas.
A
C.F. 2022 nos propõe voltar ao Tema: Fraternidade e Educação e nos
coloca diante de um Lema, tirado do Livro dos Provérbios
31,26: “fala com sabedoria, ensina com
amor”. Desde a 4ª feira de
cinzas estamos espalhando por todo o Brasil a 58ª C.F. com Tema e Lema, acolhidos
pela CNBB, enviados a todas as Dioceses, distribuídos entre todas as Paróquias,
comunidades eclesiais e capelas, a fim de que, toda a Igreja do Brasil realize
a 58ª C.F.
Desde o início,
contamos com uma mensagem do Papa. Desta vez, do Papa Francisco que nos
incentiva a abraçar o “Pacto Educativo Global” já sugerido por ele em 2019,
numa Mensagem às autoridades e a todo o Mundo, repetida agora no lançamento da
C.F. a realizar-se no Brasil: “nunca,
como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla aliança educativa
para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes, e
reconstruir o tecido das relações em ordem a uma humanidade mais fraterna”.
Francisco ainda
acrescenta: “desejo de todo o coração que
a escolha do Tema: Fraternidade e Educação torne-se causa de grande esperança
em cada comunidade eclesial e de efetiva renovação nas escolas e universidades
católicas, a fim de que, tendo como modelo de seu projeto pedagógico a Cristo,
transmitam a sabedoria, educando com amor, tornando-se assim modelos desta
formação integral para as demais instituições educativas”.
Não nos admira que políticos
negacionistas, pentecostais cristãos - tanto evangélicos como católicos - ou
outros tipos de pessoas ou instituições de mentalidade fechada, ditas
conservadoras se metam em criticar mais esta C.F., chamando-a de comunista,
dirigida por comunistas e fechando-se ao diálogo. Não é possível que todos não
estejam observando erros na maneira como está sendo dirigida a educação em
nosso país. Será que o Ministro, terrivelmente evangélico, está conduzindo sua
“pasta” com sabedoria e competência? Meu Deus! É preciso ser muito apaixonado
ou cego para não ver!
Nós precisamos de servidores públicos,
terrivelmente evangélicos ou, absolutamente preparados, competentes, sábios no
exercício de suas funções?
Não será porque
evocamos um Educador cristão, sábio, preparado e competente, como Paulo Freire,
que cause tanto frisson entre
conservadores?
Será que neste momento histórico
em que nos encontramos não dá para percebermos as condições sociais ao redor de
nós, merecedoras de uma atenção prioritária? A Igreja tem que calar ou cruzar
os braços?
É claro que não. Temos
que enfrentar os desafios que se impõem pelo anuncio do Evangelho em busca do
bem comum: o valor da dignidade humana, o empenho pela paz, a capacidade de
cuidar e dialogar, o direito e acesso à Educação e à Cultura. Esta 58ª C.F. retorna
à Educação como um dos pilares fundamentais que promovem e favorecem o valor da
dignidade humana e, por isso mesmo, necessita de uma atenção prioritária.
Sob o tema: fraternidade
e educação e sob o lema tirado do Livro dos Provérbios 31, 26: fala
com sabedoria, ensina com amor vamos entrar de cheio em mais esta C.F.,
comprometida com o bem comum, com a promoção de uma Educação Integral, à luz da
Palavra de Deus, como lembra São João no 4º Evangelho 10,10: para
que todos tenham vida e vida em abundancia.
Estamos enfrentando
dois cenários pandêmicos: o da Covid 19 e o da Governança Oficial do Brasil. Uma,
interferindo na outra. A da Covid, se formos vacinados e obedecermos aos
protocolos recomendados pela Ciência, a gente está confiante na vitória. A do
Governo, sem a conscientização política que leve à mudança tão desejada, vamos
ter que penar muito para nos tranquilizar.
Neste tempo quaresmal,
somos interpelados pela realidade da Educação que está exigindo profunda
conversão de todos para que algo possa e deva ser mudado nesse contexto. Para
que isso aconteça, Francisco está retornando à proposta de uma adesão ao Pacto
Educativo Global, inserido na
compreensão de um mundo fraterno, no qual, a Educação é o meio que se pode criar
e encontrar o verdadeiro humanismo integral e solidário.
Ao mesmo tempo em que,
elogiamos a Igreja através de seus chefes maiores – os Papas – enviando
mensagens e apoios nas C.F. passadas, agradecemos, imensamente ao Papa
Francisco pela sua compreensão diante do Tema da C.F. deste ano, incluindo-nos
em seus pronunciamentos e nos convidando a fazer parte do Pacto Educativo
Global. Ainda temos cerca de 1,5 milhão de crianças que nunca foram a uma
escola. Temos inúmeros que se afastaram dela por causa da pandemia e por não
terem condição de assistirem às aulas, virtualmente. Quantas mães tinham um
“celularzinho” para servir a mais de um filho, nem sempre com acesso à Internet?
Mas o que era isso para atender duas, três ou mais crianças ou para acudir em tantas
necessidades?
Os opositores às
Campanhas de Evangelização da Igreja, ou os que nada entendem da sua Missão,
deixem-nos trabalhar. Não se metam a nos dar normas. Façam a sua parte; nós
faremos a nossa. Deixem de nos atrapalhar!
Nós não “achamos” nada do
que estamos pregando. Nós acreditamos. Temos certeza. Nosso roteiro de
trabalho está na Palavra de Deus. Nós não a pronunciamos em vão. Não a
misturamos com “politicagem”. Para nós, Deus está mesmo acima de tudo e só a
verdade nos libertará. Nós não aterrorizamos ninguém com o Evangelho. Nós o
transmitimos com amor. Para nós ele é a boa nova, a grande novidade. Nada de ‘terrível’,
de ameaçador. Ele é a Palavra de Deus e Deus é PURO AMOR. Até breve! Eu
voltarei.
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