MEB - A EDUCAÇÃO PELO RÁDIO: UMA EXPERIÊNCIA
QUE DEU
CERTO NO CEARÁ Leunam
Gomes
Dando continuidade ao artigo do
Mons. Assis Rocha da semana passada, em que falou das atualização técnica e da própria história
da Rádio Educadora do Nordeste, fui desafiado por ele a dar sequência ao
assunto, nesta semana.
O meu primeiro trabalho
profissional foi em 1967, com Alfabetização de Adultos, pelo Rádio, na
Coordenação do Movimento de Educação de Base – MEB, em Sobral. Posteriormente,
em Fortaleza, na mesma instituição, onde construímos com a equipe, uma
experiência extraordinária. Éramos ouvidos por mais de trezentos grupos
comunitários organizados. Não havia professores.
Em Sobral assumimos a Coordenação
de uma equipe composta por jovens entusiasmadas pelo trabalho: Edna Barreto,
Fransquinha Dias, Hermínia Liberato, Lúcia Bezerra, Miriam Moreira, Laélia
Portela e Núbia Andrade. De homens, somente eu e seu Valter Araújo que era
o motorista de nossa Rural Willys que nos conduzia às comunidades rurais para
acompanhamento pedagógico aos grupos.
Eram as lideranças comunitárias
locais que assumiam o comando das atividades em cada grupo. Os encontros aconteciam em locais disponíveis: um alpendre de uma casa, uma
capela, uma sala de algum grupo escolar, uma casa de farinha, um salão
comunitário. Tudo de acordo com as condições da comunidade. O entusiasmo do
grupo era o mais importante. O apoio dos vigários era fundamental. Em março de 1969,
transferi-me para o MEB/Fortaleza.
O nosso trabalho era desenvolvido
de duas formas: pela Rádio Assunção Cearense, então pertencente à
Arquidiocese de Fortaleza, no programa A ESCOLA EM SUA CASA, com duração de
meia hora, das 18 às 18,30, de segunda à sexta feira. A outra modalidade, feita
concomitantemente, era pelo acompanhamento direto às comunidades, com frequentes
visitas.
Os resultados eram
extraordinários por causa da metodologia que criamos para os Programas Radiofônicos.
Os conteúdos eram transmitidos de duas forma: Num dia, com a apresentação de
dois locutores. Uma voz feminina e uma voz masculina. No dia seguinte, o mesmo
conteúdo era levado ao ar por meio de personagens que se assemelhavam aos nossos ouvintes da
zona rural. Aquela foi a chave do sucesso. Os nossos cuidados eram com o conteúdo
e menos com a forma de falar. E os ouvintes entendiam tudo. E davam retorno
quase imediato.
Anteriormente, recebíamos cerca
de cinco cartas por semana. Geralmente dirigidas aos nossos violeiros que se
apresentavam aos sábados. Iniciamos com
a adoção de personagens, situados numa comunidade imaginária: Riacho Seco.
A quantidade de cartas começou a aumentar. Eram dez, quinze, vinte por dia. Houve época em que recebíamos cem cartas da
zona rural onde o povo tinha dificuldade de escrever e, muito mais, de enviar à
Rádio.
A estratégia adotada foram cursos
de duração limitada a 30 ou quarenta programas de rádio e o formato com a introdução
dos personagens que se assemelhavam aos moradores das zonas rurais que
visitávamos. Tivemos curso de Agricultura, Higiene e Saúde, Sindicalismo e
Cooperativismo. A cada curso
aumentava o número de participantes. Diariamente, anunciávamos as cartas recebidas,
indicando os remetentes e suas comunidades. Tínhamos o Controle de Correspondência
Diária.
Nas visitas às comunidades, tínhamos
o cuidado de prestar atenção ao universo vocabular das pessoas com quem conversávamos.
Muitas daquelas palavras, frase, expressões, comparações nós as colocávamos na
boca dos personagens e aquilo gerava
muita identificação. Referindo-se aos programas havia que dissesse: “É mesmo
que nós estar conversando aqui”.
Os conteúdos dos programas de
rádio se transformavam em atividades concretas nas comunidades. Se os personagens
do Riacho Seco criavam uma atividade, aquilo se repetia, de formas variadas, em
cada comunidade. Por exemplo: Os personagens, durante o curso de Higiene e
Saúde, criaram uma horta de plantas
medicinais. Nas comunidades reais,
aquilo se reproduzia com a criação de farmácias comunitárias, campanhas de uso
de filtro etc.
A identificação com os ouvintes
no conteúdo e na forma e o estímulo à participação de cada um na discussão dos
conteúdos, após a aula do Rádio, era o grande segredo. Todos se sentiam
valorizados. Ninguém era superior ou dono dos conhecimentos. Todos sabiam
alguma coisa e eram estimulados a compartilhar as experiências.
O nosso trabalho terminou em 1971
quando a ditadura começou a nos perseguir com intimações frequentes para explicar
o conteúdo dos programas. A censura foi-se amiudando até a chegada do cabograma
de nossa demissão e, simultaneamente da Equipe Técnica Nacional do MEB que nos
acompanhava.
Para todos os que tivemos o
privilégio de trabalhar no MEB, aquela foi a experiência mais marcante para
nossas vidas profissionais, no ramos da Educação. Constatamos e comprovamos que
é possível fazer um trabalho eficaz, por meio do Rádio. Na época, a partir da adoção do novo modelo
de comunicação, era o programa que recebia a maior quantidade de correspondências
na Rádio Assunção Cearense.
Tínhamos até este anúncio que era
lido, nas transmissões esportivas, sobre o nosso programa A ESCOLA EM SUA CASA:
Depois
do “Alô Sertão”
E
antes do “Show de Bola”
Todo
mundo está atento
Ao
Programa da Escola
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