quinta-feira, 31 de março de 2022

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

MEB - A EDUCAÇÃO PELO RÁDIO: UMA EXPERIÊNCIA                              QUE DEU CERTO NO CEARÁ                                                                                                                  Leunam Gomes

Dando continuidade ao artigo do Mons. Assis Rocha da semana passada, em que falou  das atualização técnica e da própria história da Rádio Educadora do Nordeste, fui desafiado por ele a dar sequência ao assunto, nesta semana.

O meu primeiro trabalho profissional foi em 1967, com Alfabetização de Adultos, pelo Rádio, na Coordenação do Movimento de Educação de Base – MEB, em Sobral. Posteriormente, em Fortaleza, na mesma instituição, onde construímos com a equipe, uma experiência extraordinária. Éramos ouvidos por mais de trezentos grupos comunitários organizados. Não havia professores.

Em Sobral assumimos a Coordenação de uma equipe composta por jovens entusiasmadas pelo trabalho: Edna Barreto, Fransquinha Dias, Hermínia Liberato, Lúcia Bezerra, Miriam Moreira, Laélia Portela e Núbia Andrade. De homens, somente eu e seu Valter Araújo que era o motorista de nossa Rural Willys que nos conduzia às comunidades rurais para acompanhamento pedagógico aos grupos.

Eram as lideranças comunitárias locais que assumiam o comando das atividades em cada grupo.  Os encontros aconteciam em locais  disponíveis: um alpendre de uma casa, uma capela, uma sala de algum grupo escolar, uma casa de farinha, um salão comunitário. Tudo de acordo com as condições da comunidade. O entusiasmo do grupo era o mais importante. O apoio dos vigários era fundamental. Em março de 1969, transferi-me para o MEB/Fortaleza.

O nosso trabalho era desenvolvido de duas formas: pela Rádio Assunção Cearense, então pertencente à Arquidiocese de Fortaleza, no programa A ESCOLA EM SUA CASA, com duração de meia hora, das 18 às 18,30, de segunda à sexta feira. A outra modalidade, feita concomitantemente, era pelo acompanhamento direto às comunidades, com frequentes visitas.

Os resultados eram extraordinários por causa da metodologia que criamos para os Programas Radiofônicos. Os conteúdos eram transmitidos de duas forma: Num dia, com a apresentação de dois locutores. Uma voz feminina e uma voz masculina. No dia seguinte, o mesmo conteúdo era levado ao ar por meio de personagens  que se assemelhavam aos nossos ouvintes da zona rural. Aquela foi a chave do sucesso. Os nossos cuidados eram com o conteúdo e menos com a forma de falar. E os ouvintes entendiam tudo. E davam retorno quase imediato.

Anteriormente, recebíamos cerca de cinco cartas por semana. Geralmente dirigidas aos nossos violeiros que se apresentavam aos sábados.  Iniciamos com a adoção de personagens, situados numa comunidade imaginária: Riacho Seco. A quantidade de cartas começou a aumentar. Eram dez, quinze, vinte por dia.  Houve época em que recebíamos cem cartas da zona rural onde o povo tinha dificuldade de escrever e, muito mais, de enviar à Rádio.

A estratégia adotada foram cursos de duração limitada a 30 ou quarenta programas de rádio e o formato com a introdução dos personagens que se assemelhavam aos moradores das zonas rurais que visitávamos. Tivemos curso de Agricultura, Higiene e Saúde, Sindicalismo e Cooperativismo.  A cada curso aumentava o número de participantes. Diariamente, anunciávamos as cartas recebidas, indicando os remetentes e suas comunidades. Tínhamos o Controle de Correspondência Diária.

Nas visitas às comunidades, tínhamos o cuidado de prestar atenção ao universo vocabular das pessoas com quem conversávamos. Muitas daquelas palavras, frase, expressões, comparações nós as colocávamos na boca dos personagens  e aquilo gerava muita identificação. Referindo-se aos programas havia que dissesse: “É mesmo que nós estar conversando aqui”.

Os conteúdos dos programas de rádio se transformavam em atividades concretas nas comunidades. Se os personagens do Riacho Seco criavam uma atividade, aquilo se repetia, de formas variadas, em cada comunidade. Por exemplo: Os personagens, durante o curso de Higiene e Saúde, criaram  uma horta de plantas medicinais.  Nas comunidades reais, aquilo se reproduzia com a criação de farmácias comunitárias, campanhas de uso de filtro etc.

A identificação com os ouvintes no conteúdo e na forma e o estímulo à participação de cada um na discussão dos conteúdos, após a aula do Rádio, era o grande segredo. Todos se sentiam valorizados. Ninguém era superior ou dono dos conhecimentos. Todos sabiam alguma coisa e eram estimulados a compartilhar as experiências.

O nosso trabalho terminou em 1971 quando a ditadura começou a nos perseguir com intimações frequentes para explicar o conteúdo dos programas. A censura foi-se amiudando até a chegada do cabograma de nossa demissão e, simultaneamente da Equipe Técnica Nacional do MEB que nos acompanhava.

Para todos os que tivemos o privilégio de trabalhar no MEB, aquela foi a experiência mais marcante para nossas vidas profissionais, no ramos da Educação. Constatamos e comprovamos que é possível fazer um trabalho eficaz, por meio do Rádio.  Na época, a partir da adoção do novo modelo de comunicação, era o programa que recebia a maior quantidade de correspondências na Rádio Assunção Cearense. 

Tínhamos até este anúncio que era lido, nas transmissões esportivas, sobre o nosso programa  A ESCOLA EM SUA CASA:

Depois do “Alô Sertão”

E antes do “Show de Bola”

Todo mundo está atento

Ao Programa da Escola

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