Para alguém se
comunicar tem que, antes, escutar!
Disse que esta comemoração foi instituída pelos Bispos de todo o mundo, reunidos em Roma, por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II e que amanhã será lembrada pela 56ª vez, como nos anos anteriores, com uma Mensagem do Papa, apropriada para o momento. Situei na história dessas quase seis últimas décadas e prometi para hoje, véspera do 56º Dia Mundial das Comunicações Sociais, comentar a Mensagem do Papa Francisco para amanhã, intitulada: escutar com o ouvido do coração.
Como
podeis lembrar, em sua mensagem do último ano, ele chamou-nos a ir e ver para descobrir a
realidade e poder narra-la a partir da experiência dos acontecimentos e do
encontro com as pessoas.
Em
sua mensagem deste ano, ele quer fixar a atenção em outro verbo: ‘escutar’, que é decisivo em matéria
de comunicação e condição para um autêntico diálogo. Francisco constata que
estamos perdendo a capacidade de ouvir a pessoa que temos em nossa frente.
Dar-lhe atenção e escutá-la continua sendo essencial para a comunicação humana.
Exemplificando essa sua afirmativa, o Papa disse: “a um médico ilustre, habituado a cuidar das feridas da alma, foi-lhe
perguntada qual era a maior necessidade dos seres humanos. Respondeu: o desejo
ilimitado de serem ouvidos”.
Certamente,
esta resposta deve interpelar a toda pessoa chamada a ser educadora, formadora
ou que desempenhe de algum modo o papel de Comunicador: pais, professores,
pregadores, agentes pastorais, catequistas, locutores e tantos outros que
prestam um serviço social e político.
De
fato, “escutar” não é somente o som que entra em nosso ouvido, ou “ouvir”
simplesmente. É uma percepção, essencialmente ligada à relação dialogal entre
Deus e a humanidade. Em Deuteronômio, 6,4, as palavras que iniciam o 1º
Mandamento do decálogo, dizem: “escuta, Israel”, que São Paulo
retoma em Romanos, 10,17: “a fé vem da escuta”. De fato, a
iniciativa é de Deus que nos fala, e a ela correspondemos, escutando-O; e mesmo
este escutar, fundamentalmente provém da Sua graça. É o próprio Deus quem privilegia
o ouvido, talvez por ser menos invasivo, mais discreto do que a visão.
A
escuta corresponde ao estilo humilde de Deus. Ela permite a Deus revelar-Se,
como Aquele que, falando, cria o homem à sua imagem e, ouvindo-o, reconhece-o
como seu interlocutor. Deus ama o homem: por isso lhe dirige a Palavra; por
isso “inclina o ouvido” para escutá-lo.
O
homem, ao contrario, tende a fugir da relação, a virar as costas e “fechar os
ouvidos” para não ter de escutar. Esta recusa de ouvir acaba muitas vezes por
se transformar em agressividade sobre o outro, como aconteceu com os ouvintes
do diácono Estêvão que, tapando os ouvidos, atiraram-se todos juntos contra ele
(At. 7,57).
Nunca
devemos esquecer os dois lados da escuta: da parte de Deus, que sempre se revela,
comunicando-se, livremente; e da parte do homem, a quem é pedido para
sintonizar-se, colocar-se à escuta. O Senhor chama, explicitamente o homem, a
uma aliança de amor, para que possa tornar-se, plenamente, aquilo que é: imagem
e semelhança de Deus na sua capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro. No
fundo, a escuta é uma dimensão de amor. Por isso Jesus ensinou os discípulos a
verificar sua qualidade de escuta.
Ao
dizer-lhes “vede, pois, como ouvis” (Lc.
8,18) sugeriu que não basta ouvir, é preciso fazê-lo bem. Somente quem acolhe a
palavra com o coração “bom e virtuoso”,
guardando-a fielmente, é que produz frutos de vida e salvação (Lc. 8,15). Também
prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos e ao modo como ouvimos é
que podemos crescer na comunicação. Ouvidos, todos temos. Mas, nem todos os têm
tão perfeitos que possam escutar o outro. Existe uma surdez interior, pior do
que a física. A escuta não tem a ver apenas com o sentido do ouvido, mas com a
pessoa toda. A sede verdadeira da escuta é o coração.
O
Rei Salomão, apesar de ainda muito jovem, demonstrou-se sábio ao pedir ao
Senhor que lhe concedesse “um coração que escuta” (I Reis, 3,9).
Santo
Agostinho convidava a escutar com o coração (corde audire) e acrescentava: ‘não
tenhais o coração nos ouvidos, mas os ouvidos no coração’.
S.
Fco. de Assis exortava seus irmãos a ‘inclinar
o ouvido do coração’. Enfim, a escuta é condição para a boa comunicação. É
o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo. Para
alguém se comunicar tem que antes, escutar. Será bom, o jornalista que não
tem capacidade de escutar? Sua informação será sólida, equilibrada, confiante e
completa sem ter sido escutada prolongadamente? Merecerá crédito a narração de
um acontecimento ou a descrição de uma realidade sem tê-la escutado, maturado,
dialogada a ponto de até mudar de ideia ou modificar as próprias hipóteses
iniciais?
Na
verdade, temos que sair do monólogo para se chegar àquela real comunicação ou
diálogo tão necessários ao entendimento humano. Todos temos que escutar várias
vozes, ouvir-nos entre irmãos e irmãs, permitir-nos o exercício do discernimento
se nos quisermos orientar numa sinfonia de vozes.
O
Cardeal Agostinho Casaroli, experiente diplomata do Vaticano, falava do
“martírio da paciência”, necessário para escutar e fazer-se escutar nas
negociações com os interlocutores mais difíceis a fim de obter o maior bem
possível em condições de liberdade limitada. Se a Igreja tem que dialogar com
os mais difíceis interlocutores, mesmo com liberdade limitada, porque não
adotar “a pastoral do ouvido” em sua ação evangelizadora? Afinal de contas,
estudiosos da Teologia, tradicionalmente ensinam que “devemos escutar através do ouvido de Deus se quisermos poder falar
através da sua Palavra”, o que significa dizer que “quem não sabe
escutar o irmão, bem depressa deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus”.
Como
já se pode observar, o Papa Francisco resumiu em três verbos, suas duas últimas
Mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais: ir, ver e escutar. O
Comunicador tem que ser abrangente, cuidadoso, preciso na hora de transmitir um
recado. Tem que aguçar bem os órgãos dos sentidos se quiser fazer um reto uso
da Palavra de Deus, ou do verbum Dei ao pregar.
Quando
administramos o Sacramento da Unção dos Enfermos ungimos com os Santos Óleos
cada um desses órgãos que possam ter sido motivos de pecado ou mal utilizados,
em vida, por aquele idoso ou enfermo que o recebe.
Houve
uma mudança de foco: em vez de ser chamado de “extrema unção” com destino à morte,
recebeu o nome de “unção dos enfermos” com apelo à vida, à integração na
comunidade, à volta aos afazeres do dia a dia.
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