Relembrando a ideia do SETEMBRO DOM
JOSÉ
Em dezembro de 2001, voltava eu para o
meu Ceará, depois de 40 anos em Pernambuco. Vinha na intenção de passar um ano
sabático e, dependendo de minha readaptação com minha família, com a Diocese e
com meus conterrâneos, voltaria em definitivo para cá. Sem dificuldades me
readaptei, inclusive, arranjando logo um trabalho. O Professor Teodoro com
outros colegas – o Leunam à frente - contemporâneos nos Seminários de Sobral,
Fortaleza, Olinda e Roma me convidaram a trabalhar na UVA, para fazer o que eu
mais havia feito na vida: comandar o setor de Comunicação e, mais tarde, também
de Articulação da Universidade. Interagi muito bem com os demais professores e
tive uma boa e nova experiência.
Por ter sido seminarista de Dom José
e por ter convivido com ele de um modo muito especial, ao assumir as
Pró-reitorias de Articulação e Comunica-ção (Pro-Art.com) logo
no início do ano de 2002, teria que integrar, pela própria função, a equipe já
existente do Setembro Dom José, cujo encargo aceitei, com prazer, do
3º ano a ser celebrado até o 6º ano, em 2005, quando saí da UVA. Fui convocado por
Dom Fernando Saburido para ser Assessor de Comunicação da Diocese de Sobral,
coordenando a Rádio Educadora e o Jornal Correio da Semana, cabendo também a
mim a parceria com o Setembro Dom José, que se
mantinha desde o início com uma coordenação tripartite: a UVA, a Diocese e a
Prefeitura de Sobral.
A brilhante ideia saiu da cabeça do
Professor Teodoro, ao tempo em que era Reitor da Universidade Vale do Acaraú.
Motivou o Prefeito de Sobral e o seu Bispo Diocesano, respectivamente, Cid Gomes
e Dom Aldo, para realizarem o intento que aconteceu em 17 anos consecutivos,
mesmo depois que mudaram Prefeito e Bispo. Dom José havia passado, mas um outro
José – o Teodoro Soares - seu fiel e grato discípulo, sustentou a memória até
ir-se também ele aos 18 de agosto de 2016.
Já nos estávamos preparando para
celebrar o 17º Setembro Dom José, como nos anos anteriores, com o apoio total
do Prof. Teodoro. Sua partida não nos impediu de comemorar, pois, certamente,
na eternidade, com o próprio Dom José, se alegraram bastante. Nós aqui, naquele
ano, rememoramos os dois. Nunca esquecemos, nesses últimos 16 anos, de enumerar
o Curriculum de Dom José, os inúmeros títulos universitários conquistados na
Universidade Gregoriana, em Roma, inclusive o fato de “ter sido recebido em audiência pelo Papa Pio X, por ter obtido a melhor
nota na famosa Universidade Pontifícia”.
Nossa referência à Audiência
Pontifícia é porque do dia 13 de Maio de 1899 ao dia 06 de Junho de 1906 D.
José estudava em Roma, fazendo seus Cursos de Filosofia, Teologia, Sagrada
Escritura e Direito Canônico, com os respectivos Doutorados em todos. Até 1903,
o Papa era Leão XIII. Foi substituído por D. José Sarto, que escolheu o nome de
Pio X. Até 1906, com o aluno D. José, ainda em Roma, embora seu pontificado tenha
ido até 1914.
Em junho de 1906 D. José foi
laureado em Teologia com o mais alto conceito dado pela Universidade
Gregoriana: summa cum laude.
Para coroar a magnitude de sua proeza, foi recebido em audiência pelo Papa Pio
X que queria parabenizar o “gênio brasileiro” que alcançara tão alto conceito
ou avaliação tão excepcional naquela tradicional Universidade Pontifícia. Esse
gesto de Sua Santidade deixou em D. José uma marca especial. Foi, como que, a
glória ou o coroamento de seus esforços, até então, empreendidos. D. José nunca
esqueceu isso.
Em 1914 o Papa Pio X morreu.
Substituiu-o Bento XV, que logo em 1915 criou a Diocese de Sobral, nomeando D.
José, com apenas 33 anos, o seu 1º Bispo. O “amigo” já se tinha ido, com 79
anos de idade, mas o sucessor não lhe desconheceu o valor. Fê-lo, tão jovem
ainda, Bispo da nova Diocese.
Sabemos sua história. Contamo-la e
recordamo-la sempre, como já o fizemos inúmeras vezes: seu nascimento no dia 10
de Setembro de 1882 e a sua morte no dia 25 de Setembro de 1959. Daí o motivo
do Setembro Dom José: seu nascimento e sua morte aconteceram em
SETEMBRO.
Quarenta anos após a morte de Pio X,
em 1954, o Papa era Pio XII. Ele o elevou à honra dos altares, canonizando-o
como um dos santos da Igreja. Eu ia fazer meus 14 anos de idade e me lembro
bem: D. José decretou feriado no Seminário São José de Sobral, não só para
aquele dia 21 de agosto, mas para todos os anos no dia da celebração litúrgica
de São Pio X.
Poucos anos depois, em Junho de
1959, D. José teve uma crise de “edema
pulmonar” e eu estava com ele em sua residência episcopal. Era cedo da
noite quando ele se sentiu mal. Pediu-me para, apressadamente, chamar seu
médico e amigo – o Dr. Guarany Montalverne - que habitava em frente à sua casa.
Imediatamente eu o chamei e ao chegar, tomou as providências necessárias para
debelar a crise e D. José voltou ao normal. Quando todos saíram – médico,
padres, seminaristas e alguns amigos e familiares – D. José me segredou: “eu tinha certeza que não ia morrer. Quando você
saiu para chamar o médico, apareceu-me, ali naquela parede, sorrindo, irradiante
de felicidade, o meu querido São Pio Décimo. Eu tive certeza de que não
morreria dessa vez”. De fato, permaneceu vivo até 25 de Setembro do mesmo
ano.
Além de recordá-lo a cada ano, ainda
guardamos inúmeras lições de vida, mesmo após 140 anos de seu nascimento e 63
anos de sua morte. D. José continuará inesquecível.
Depois do 17º Setembro Dom José em
2016 - um mês após a morte do Prof. Teodoro - ainda teimamos em promover o 18º
Evento em Setembro de 2017, reunindo familiares, amigos, diretores dos
Institutos criados por ele, o Museu Dom José, a Escola de Artes Universo da
Música e a sociedade Sobralense em Geral para prestarmos uma dupla homenagem
aos “02 JOSÉs”: o tradicional homenageado, Dom José Tupinambá
e o criador e incentivador do Setembro Dom José, o Professor José Teodoro.
O Teatro São João ficou repleto de
gente, aplaudindo, incentivando os artistas, motivando até um pronunciamento
público na hora do agradecimento: ‘não
podemos trair essa memória; para o ano queremos estar aqui e colaborar’.
O fato é que, já se vão 05 anos sem
que sejam lembrados os Setembros Dom José. No ano passado, surgiu uma luz: um
grupo comandado pelo Padre João Paulo, Cura da Catedral da Sé, em Sobral,
mobilizou pessoas de boa vontade para recomeçarem a falar sobre Dom José, como
alguém tão importante em nossa história, que deve ser lembrado.
Ao receber a boa notícia do Padre
João Paulo, dei-lhe todo o incentivo para persistir na ideia, sobretudo ele,
que é padre novo e já parte na frente como um dos integrantes da equipe
“tripartite”, representando a Diocese.
Falei-lhe da possibilidade de arregimentar
novos integrantes da UVA, do Governo Municipal, da Sociedade Civil, do Museu D.
José, do Teatro S. João – coetâneo do ilustre Bispo, filho da terra – e da
Escola de Artes: Universo da Música que, nos últimos 10 anos fora parceira do
Setembro D. José, promovendo o Festival “Amigos
e a Música”, sempre com muito sucesso, abordando um ritmo musical.
Com quase 82 anos, não me vejo mais
com garra, tempo, ousadia e disponibilidade para integrar tal equipe, embora
reconheça como necessária para manter uma tradição em honra de alguém que tanto
fez por Sobral. Não é para humilhar ninguém, mas Sobral nunca teve um
administrador tão corajoso e tão desapegado, até dos seus próprios recursos,
para investir nesta cidade com a sua mensagem de fé, sua obra material sempre
na esperança de fazer de Sobral, uma “Nova
Roma”. Não era sonhar demais? E ele conseguiu.
Dom José - sem ter estudado a
Teologia da Libertação, sem falar de CEBs ou de “Comunidade de Comunidades”,
sem adesão alguma às ideias liberais ou ao positivismo de sua época, sem
propagar a nascente Doutrina Social da Igreja, nem mesmo sem ser um visionário
socialista – enveredou pela junção de fé e obra, de esperança e política, de
oração e ação como o fizeram e ainda fazem tantos outros homens de Igreja.
Colocou até seu patrimônio pessoal a serviço da Paróquia da Conceição, como seu
12º Pároco e, mais tarde, a serviço da Diocese, como seu 1º Bispo a partir de
1915, com aquela pertinaz ideia de fazer de Sobral uma miniatura de Roma. Não
mediu esforços.
Criou muitas Associações Religiosas,
Irmandades, Catequese, Ordens Terceiras, para vivenciarem as Festas de
Padroeiros, as procissões e demais práticas religiosas. Imprimiu no povo as
tradições essenciais da vida cristã, dando ênfase à Santa Missa, aos
Sacramentos, à Ação Missionária de tal modo que plantou muitas raízes e boas
tradições no coração da família sobralense, que perduram até hoje.
Também, pudera! Um homem culto; falava,
fluentemente, várias línguas. Conhecia música erudita e tinha um ouvido
afinadíssimo. Ao ouvir uma voz destoante no Coral do Seminário, em pleno
Pontifical na Igreja da Sé, corrigia publicamente e mandava cantar de novo,
desfazendo o erro.
Como não homenagear este homem, como deixá-lo no esquecimento ou não lhe ter tanto respeito pelo “monstro sagrado” que ele foi? Avante, Pe. João Paulo! Reanime-se e dê prosseguimento a esse projeto. “Como deixar apagar a luz que ainda fumega... ou esmagar um galho que está quebrado”? (Is.42,3).
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