quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

IDEIAS & NOTICIAS

 

CULTURA NEGRA

EUDES DE SOUSA

Não apenas de pão, política e economia vivem as pessoas. Não nos esquecemos de abordar as manifestações artísticas, extraordinariamente criativas, que representa a  cultura negra, das quais devemos muitos nos orgulhar.

Mas infelizmente, a cultura negra enfrenta preconceito enraizado  ao quadro histórico do país, a exemplo disso, a intolerância religiosa, por seu reflexo de um pensamento ignorante, como aconteceu o incêndio da estátua da baiana de carajé, na Bahia. Isso está além da guerra ideológica que quer problematizar tudo e atear fogo na cultura.

A cultura é a voz de um povo.  O povo negro tem uma trajetória que começou muito antes da escravização, sendo alicerçada em território africano e formada por reis, rainhas, guerreiros e guerreiras de tribos que ali viviam. No Brasil, antes da chegada dos portugueses, estudos arqueológicos mostram que os primeiros habitantes eram indígenas; A chegada dos negros em solo brasileiro se confunde com a escravidão, uma vez que eles eram traficados da África para trabalharem, de forma forçada e desumana, para o império e  os poderosos coloniais.

Uma forma de preservar a cultura africana foi associando os Santos Católicos aos Orixás. Porque os europeus eram cristãos e não admitiam o culto aos deuses pagãos. Os afrodescendentes passaram a cultuar os Orixás de forma escondida, fingindo que estavam cultuando os Santos. Todo o sacrifício para preservar a cultura, está se perdendo. Pois muitas pessoas utilizam os objetos, danças e afins, por serem exóticos e não sabem seu significado.

Como se sabe, a Rita Baiana, personagem de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, retrata a figura da problematização da questão étnica no Brasil, enquanto representa uma mulher mestiça preferindo um homem branco. Segundo  Durkheim, o fato social é a forma coletiva de agir e de pensar. Ao ter em mente esse pensamento, nota-se que essas identificações coletivas podem entrar em choque. Porque houve uma apropriação  cultural indevida, pois a cantora Anitta apenas se fantasia de negra, enquanto é embranquecida em outro contexto social.

Apropriação cultural e o preconceito andam de mãos dadas. Um exemplo é com os praticantes do Candomblé ou da Umbanda pois, a grande maioria da população relaciona essas práticas a bruxaria e a possessão por demônios. O antropólogo Patrício Carneiro diz que ser um candomblé é assumir o risco de ser discriminado o tempo todo.

No Brasil, nada é puro, tudo é fruto de miscigenações. Tal afirmativa remete  a um país formado, principalmente, por indígenas, portugueses e afrodescendentes, e a cada cultura a  gene, está no DNA de cada brasileiro, todos são mestiços. Dessa forma, coibir o uso de objetos do determinada cultura à outros de diferentes, é algo radical e até contraditório às origens de cada indivíduo brasileiro.

Como se sabe,  tais símbolos e acessórios usados de forma errada, gera o não reconhecimento da real  história desse povo. Nesse sentido, muitas vezes se vê pessoas usando turbantes ou cabelos  com  dreads. Símbolos da cultura afrodescendentes, onde viram objetos de consumo ou modinhas pela indústria cultural. E são esquecidos  os valores reais, a história por trás. Por exemplo o turbante é símbolo de resistência da religião umbanda-religião afrodescendente que só foi permitida em 1930 no Brasil.                                           

Portanto, o comportamento vindo do período colonial, ainda reflete na sociedade contemporânea, costumes, religiões. Hábitos e vestimentas trazidos por inúmeros imigrantes, transpassaram o tempo e integram-se a outras formas de vidas já existentes no país. Simbolismos de diversos lugares desembarcaram no Brasil e como forma da adaptação, muitos deles incorporam na cultura local, um exemplo é a capoeira, que trazida pelos escravos, foi incluída como conteúdo das escolas pelo presidente Getúlio Vargas e hoje é considerada patrimônio imaterial do Brasil.

 

Como sabemos, o mundo moderno passou por diversas revoluções, as quais ocasionam mudanças políticas, econômicas e sociais. O modo de vida própria do século XXI gera problemas no que se refere as diversas culturas. Cabe ressaltar ainda que a apropriação cultural a carreta em consequências para a sociedade, a qual é formada por alta diversidade.

Afinal, gerando assim, uma desvalorização da cultura e uma maior falta de compreensão,. Observa-se também que toda prática, símbolo e ideias de uma cultura surgiram num determinado momento, por alguma razão, esta que deve ser respeitada. Por exemplo nos tempos de escravidão as mulheres negras usavam o turbantes como forma de esconder seus cabelos, já que por ser escrava não conseguiam cuidar dele. Hoje em dia as mulheres negras fazem uso do turbante como forma de protesto aos tempos de escravidão e ao preconceitos gerado por ele, presente até atualmente na sociedade.

Em virtude dos argumentos apresentados. Pode-se concluir que a apropriação  cultural é muito decorrente no Brasil, e deve ser combatida. Somente deste modo seremos capaz respeitar todas as diferentes culturas do povo brasileiro.

EUDES SOUSA 
Jornalista, historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, crítico literário e presidente da Academia Massapeense de Letras e Artes.






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