segunda-feira, 20 de março de 2023

 EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA NO CURSO DE DIREITO DA F5, EM SOBRAL


CONTEXTUALIZAÇÃO

 No dia 06 de maio de 2022, promovemos, dentro da disciplina de Introdução ao Estudo do Direito, na turma do 1° período (manhã), a realização de atividade resultante das formações pedagógicas do Programa Ensino Jurídico e Formação do Curso de Direito da Faculdade 05 de Julho -F5, bem como de sugestões de práticas metodológicas do Projeto Imersão em Direito – práticas exitosas que fazem parte do referido Programa. A ideia do método da aprendizagem jurídica em círculo envolve a promoção de conhecimento, por meio de experiências ativas, em que a atividade é vivenciada de forma cíclica, com a formação de círculos, em que cada etapa da atividade exige que os alunos formem novos grupos com colegas que ainda não tenham trabalhado em grupos anteriores. Algo como uma engrenagem sempre em movimento na sala de aula.

Nesta perspectiva, o presente trabalho apresenta um relato de experiência de Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula com o intuito de construir uma nova educação jurídica. A proposta considera que a construção do conhecimento em círculos vivenciais gera uma interação dinâmica do saber, respeitando, para isso, as diferentes respostas para uma mesma pergunta sobre o conteúdo ou tema em debate. A atividade didático-pedagógica veio promover a reflexão, interação, inclusão e conexões de todo o sistema vivente de uma sala de aula a partir de uma perspectiva sociocultural. Os métodos utilizados envolveram a prática dos Círculos de Aprendizagem Jurídica em Sala de Aula, como uma das estratégicas pedagógica do campo da Educação Biocêntrica, que é norteada por valores universais de natureza antropocêntrica como participação, diálogo, socialização, igualdade, respeito ao modo de cada um pensar, sentir e agir necessários no mundo da vida. A atividade em sala de aula resultou em um momento de partilhar significativa de experiências e na reflexão sobre as possibilidades de cada aluno participar de diversos grupos, discutindo questões diferentes, bem como socializando as discussões de forma descontraídas e em movimento (CAVALCANTE, 1999).

OBJETIVOS

O principal objetivo da experiência é levar os alunos a aprenderem, uns com os outros, nos círculos, passando de um círculo para outro, construindo novas discussões e saberes. Assim, os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula têm o objetivo de integrar o aprendizado jurídico à experiência dialógica, para uma convivência em sala de aula a serviço da vida, corroborando com a inovação pedagógica, utilizando o diálogo entre grupos como instrumento de interação, inclusão social, aprendizagem significativa, promovendo a comunicação entre os alunos, de maneira a fortalecer a aprendizagem teórica e prática.

METODOLOGIA

A metodologia da atividade se define e ganha contornos durante a aula de vivência e convivência, com diferentes etapas, que visam tornar o egresso do Curso de Direito da F5 em um futuro profissional bem sucedido, por meio do desenvolvimento dialógico e respeito pelos outros colegas como pessoas e flexibilidade na compreensão das respostas, dentro de cada grupo, em relação aos posicionamentos diferentes de outros grupos de que já fizeram parte; capacidade de demonstrar compreensão do conhecimento jurídico, caminhando por diferentes grupos e a simpatia gerada a partir da troca de experiência; e, acima de tudo, disposição para ficar de pé nos grupos, ora fazendo escuta qualificada das respostas dos colegas, ora como agente das discussões. A atividade teve a capacidade metodológica de criar um ambiente cheio atitudes dialógicas, com produção de vida, de construção e reconstrução de respostas sobre sete questões (4 objetivas e 3 subjetivas).

A experiência envolveu os seguintes procedimentos:

 >Estudo do conteúdo da Avaliação Parcial 1 (AP1) trabalhado em sala;

>Recebimentos das provas da AP1 com a nota, mas sem feedback do professor porque o intuito foi levar os próprios alunos a construírem feedbacks entre si;

·        > Os alunos receberam orientações da professora, que aplicou princípios da Educação Biocêntrica e pediu que eles formassem grupos com três membros para discussão de uma questão temática da prova;

·        > Cada grupo ficou responsável por uma pergunta e discutir entre os seus membros as possíveis respostas.

·     >Em seguida, os alunos foram mudando de grupos e aumentando a quantidade de membros, sempre tentando entrar em um grupo diferente do anterior de modo que todos pudessem debater entre si todo o conteúdo aplicado na AP1 e sucessivamente os alunos foram mudando de grupo;

·     >Ao final a turma foi dívida em dois grandes grupos, um grupo assumiu o papel de entrevistadores e outro entrevistados, de modo que todos tivessem a oportunidade de falar em sala;

·     >A correção da AP1 rompeu com a sistemática do ensino tradicional, em que os próprios alunos assumiram o protagonismo de construírem feedbacks inéditos sobre a avaliação parcial. Uma atividade em que os alunos ficaram sempre em ação e movimento dentro da sala de aula, sob a mediação docente. 

MARCO TEÓRICO

Com base na obra “Introdução à ciência pós-moderna” de Boaventura Sousa Santos (1983), acreditamos que “todo conhecimento científico-natural é científico-social ... a física das partículas nos fale do jogo entre partículas, ou a biologia nos fale do teatro molecular ou a astrofísica do texto celestial, ou ainda a química da biologia das relações químicas” (p. 64).

Nesta perspectiva, a proposta pedagógica de aplicar os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula, possibilitou gerar novos posicionamentos discursivos dos discentes sobre os instrumentos de avaliação como um caminho alternativo para a superação de possíveis limitações na compreensão do conteúdo. O feedback da avaliação parcial não veio pela voz do professor, o que possibilitou gerar de novos espaços e inéditas veredas na sala de aula.

Esta atividade surgiu a partir da formação docente do “II Encontro de Educação Biocêntrica: vivência e convivência em sala de aula”, promovido pelo Programa Ensino Jurídico e Formação Continuada do Curso de Direito da F5, com o professor Leunam Gomes. Durante a formação, os professores tiveram acesso, pela manhã, à base teórica de uma educação dialógica e no turno da tarde a parte prática da Educação Biocêntrica. Assim, a professora Vânia Pontes adaptou os métodos didáticos com os alunos da turma do 1° período do turno da manhã. 

                                      Acervo do Curso de Direito da F5 – Formação docente

A Educação Biocêntrica nesta perspectiva, apresentada pelo professor Leunam, é um portal de acesso   à inteligência afetiva, quando trabalhada de forma planejada com grupos em sala de aula. A experiência com os alunos do Curso de Direito da turma do 1° período teve resultados significativos.

Educação Biocêntrica nos remete à ideia de Bio =Vida; Cêntrica =Centro. Os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula  segue a orientação de uma educação pautada na preservação da vida no centro de toda atividade educacional a partir da interação e do diálogo, cuja vida do outro e de todo ser vivente numa vinculação com a totalidade de modo que os conteúdos gere sentido no mundo da vida. Desta forma, prioriza a capacidade de compartilhar conhecimento entre os grupos, de dar e receber, de se entregar, de ter participação comunitária, com compromisso e solidariedade em sala de aula (CAVALCANTE, 2015a).

Os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula que aplicamos é fruto do Programa Ensino Jurídico e Formação Continuada, que vem qualificando o processo de ensino e aprendizagem, bem como observando as necessidades do cenário atual e o perfil do egresso na área jurídica. Para tanto, todas as etapas das atividades foram orientadas sob a perspectiva da Formação Biocêntrica, como uma corrente pedagógica centrada na valorização da vida, que fomenta o fortalecimento de vínculos saudáveis e prioriza a vivência nos processos de aprendizagem por meio do diálogo reflexivo.

A atividade com círculos foi compreendida, dialeticamente, pelos alunos, em que o lugar de fala de cada um em sala de aula foi manifesto, sendo um potente instrumento de conscientização, construindo grupos, com habilidades que os aproximam uns dos outros durante o processo de aprendizagem, o que impacta na produção de novos saberes, representando de forma concreta o acesso ao conhecimento jurídico e as condições ambientais da sala de aula, para que seja um lugar de encontro de sujeitos, em que se busca o conhecimento. Para tanto, a capacidade de estabelecer diálogos na sala de aula é o que pode elevar o processo educacional a uma esfera libertadora para os sujeitos que dela fazem parte (FREIRE, 1967).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula trouxeram para os alunos a possiblidade de aprender a conhecer uns aos outros e discutir a própria avaliação, realizada por eles, na condição de alunos, sujeitos do processo de aprendizagem. Desta forma, o alargamento dos saberes trabalhados em diferentes grupos, veio ajudá-los a compreender melhor os assuntos temáticos sob os seus diversos aspectos, favorecendo o despertar da curiosidade intelectual, que estimula a consciência crítica e permite compreender o real, mediante a aquisição de autonomia a capacidade de discernir.

Na etapa que os grupos começaram a aprender a construir respostas e argumentos, as tarefas de produção mais intelectuais ou mentais começaram a acontecer de forma natural, na medida que foram percebendo o quanto são capazes de aprender juntos em sala, o que implica em aprender a viver com os outros. Na última etapa da constituição dos grupos de entrevistadores e entrevistados aprendem a ser: a preocupação em desenvolver a imaginação e a criatividade em se posicionar na entrevista revaloriza a cultura oral e os conhecimentos retirados da experiência dentro da disciplina de Introdução ao Estudo do Direito (DELORS, 1996).

Acervo do Curso de Direito da F5 – alunos do 1° período manhã

Nestas fotos percebemos, empiricamente, como os alunos foram construindo os grupos e formando novos grupos sempre em movimento na sala de aula. Toda a condução levou em consideração os princípios da Educação Biocêntrica. A atividade em sala se tornou algo dinâmico e prazeroso para os alunos como destacam os registros fotográficos e depoimento docente e de representante do corpo discente envolvido na atividade. 

Acervo do Curso de Direito da F5 – alunos do 1° período manhã  

Na nossa visão, novos espaços-tempos educacionais requerem novas práticas metodológicas. O direito de aprender do aluno exige um processo de ensino-aprendizagem em que seja possível ultrapassar a forma de ensino tradicional. Além do mais, o exercício da advocacia na contemporaneidade demanda novas habilidades que podem ser adquiridas pela experimentação prática de temática de um estudo, em que o aluno passa por alguns grupos, aprendendo no diálogo uns com os outros, sentindo, pensando e realizando de forma participativa o que acabou de entender. 

Acervo do Curso de Direito da F5 – alunos do 1° período manhã

Vale ressaltar que a aprendizagem jurídica em círculos é um processo no qual o conhecimento é construído a partir da experiência de aprendizagem plural. O método de contínua formação de novos grupos dentro da sala de aula gera um movimento significativo de aprendizagem e de produção de conhecimento.

"Eu adorei a metodologia. Diferente do que é comum, que é aquela correção de questão por questão em que há discussão e opinião sobre a questão, a senhora trouxe de uma maneira mais dinâmica e interativa, que deixou os alunos mais focados no objetivo. Através da discussão, além de conhecermos a opinião e visão do colega. Pude entender mais sobre questões que ainda tinha dúvida, e achei isso extremamente importante. Em suma, foi ótimo!” (Depoimento da Ana Carolina de Paiva Sousa, 1° período/ manhã).

 A partir do depoimento da aluna, podemos perceber que os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula apresentam instrumentos da educação do viver para o mundo da vida, o que eleva o nível de formação dos participante. A metodologia vivencial aqui relatada levou os alunos a perceberem o próprio ritmo de aprendizagem dentro da disciplina em sincronização com o que outro também aprendeu durante as aulas. Assim, a prática pedagógica apresentada demonstrou como o ensino-aprendizagem com vivência de círculos geram conexões integradoras entre os alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da prática didático-pedagógica com os Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial em Sala de Aula, trabalhados dentro da disciplina de Introdução ao Estudo do Direito, foi possível perceber  que a atividade foi favorável para o desenvolvimento da aprendizagem significativa, da socialização de conhecimento, da inclusão, comunicação ativa e interação entre os participantes. Durante a atividade, os alunos passaram por um processo de descoberta, ao perceberem o quanto sabiam sobre os conteúdos temáticos, sendo eles mesmos capazes construir um feedback da avaliação parcial, realizada na semana anterior e trabalhada em sala por meio dos Círculos de Aprendizagem Jurídica Vivencial. O relato desta experiência é um convite, para que o ensino jurídico mergulhe no universo metodológico da Educação Biocêntrica, em que se aprende com ação e movimento na sala de aula. É uma possibilidade de despertar os diversos sentidos dos alunos para um processo de aprendizagem, entregue às vivência dos círculos.


REFERÊNCIAS

SANTOS, B. S. Introdução à ciência pós-moderna. Porto: Afrontamento, 1989.

DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 1996.

CAVALCANTE, Ruth (org.). Educação Biocêntrica – Ciência, Arte, Mística, Amor e Transformações. Sobral: Edições: UVA, 2015a.

FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967.

 

                (*) MARIA VÂNIA ABREU PONTES -  Doutoranda em Psicologia (UFC). Professora do Curso de Direito (Faculdade 05 de Julho – F5).   CV: http://lattes.cnpq.br/5764996071976534


O trabalho  CIRCULOS DE APRENDIZAGEM JURÍDICA VIVENCIAL EM SALA DE AULA, de autoria da Professora Mestra e Doutoranda MARIA VANIA ABREU PONTES, está publicado neste livro organizado por Cleber Bianchessi.  





       









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