O DIA EM QUE DESAFIEI PATATIVA
Autor: José Hairton Carvalho (*)
I XIII
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Eu ontem acordando nervoso e afobado Azedo, abusado e metido a poeta Pus ordem na mente, tracei minha meta Vi verso bulindo por tudo que é lado Vi rima perfeita, vi verso quebrado Da minha cabeça querendo saltar Prá onde eu olhava eu via pular Um verso, uma rima, uma quadra e um
tema Por onde eu passava ia caindo poema Nos dez de galope da beira do mar II Liguei o meu Rádio na Educadora E aquela emissora falou de um programa Juntar repentistas, poetas de fama E uma Academia seria promotora Aquela conversa eu achei promissora Do tal desafio quis participar Do jeito que eu tava de tanto versar Pegando poema e jogando prá cima Ninguém me vencia na métrica e na rima
Nos dez de galope da beira do mar III E já resolvido daquela viagem Juntei a bagagem de tudo que eu tinha Poemas, sonetos, cordéis e quadrinhas Meus versos melhores de pura linhagem Eu não poderia manchar minha imagem De bom repentista versado em rimar Talento e coragem eu tinha prá dar Um rio de rimas trazia na memória Do tal desafio eu queria a vitória Nos dez de galope da beira do mar IV Chegado o momento da grande disputa Parti para a luta disposto a vencer E tendo a certeza de nada temer Tomei meu lugar e fiquei na escuta Eu tava tão certo da minha batuta Que quase não via o povo chegar Já tinha plateia por todo lugar Poetas, nem falo, fazia até lama Só cabra danado, só gente de fama Nos dez de galope da beira do mar V Mas mesmo na peia o tal repentista Levantando a vista me disse: - poeta, Agora se aprume prá entrar na reta Que eu já botei o meu carro na pista Sou
advogado, sou radialista, Poeta, escritor, já
fui parlamentar ... Deu muito trabalho
dele se calar E eu fiz tanto
verso prá Pedro Bandeira Deixei o matuto
falando besteira Nos dez de galope
da beira do mar VI Depois que Bandeira acabou toda a fama Armou uma trama prá me dar castigo E trouxe um sujeito prá cantar comigo Um tal de William, Gerente do
IBAMA Chegou já cantando e fazendo um
programa De ecologia pegou a falar Mas se ele pensava que eu ia me calar Quebrou o focinho, pois no meu estudo De mato e de bicho eu entendo é de
tudo Nos dez de galope da beira do mar. VII -Eu sou William Brito e sou
competente Já fui Presidente desta Academia Me guarde respeito, pois na poesia Sou grande e sou forte, sou brabo e
valente – Pois eu sou pequeno, mas parto na
frente Que a sua grandeza não vai me assustar
Eu quando começo não sei terminar Mas quando termino já sei do começo Cantando repente não tenho tropeço Nos dez de galope da beira do mar VIII Venci o poeta da Academia Mas minha euforia foi logo acabando Pois logo outro cabra foi se
aproximando E olhando me disse: - colega, bom dia Eu muito admiro a sua poesia É bom o seu verso, não vou lhe negar Porém eu lhe aviso, não vá se assustar
Me peça licença, não seja teimoso Que eu sou Paulo Veras poeta famoso Nos dez de galope na beira do mar IX O tempo ia passando e nenhum começava E o povo chiava com a incompetência Pedi a plateia pra ter paciência Mas nem meu pedido o povo escutava Ao ver que nem um nem o outro cantava Pus ordem na casa pro povo acalmar Os dois não souberam nem mesmo falar Chegaram sem fala e saíram calados Fiquei foi com pena dos pobres
coitados Nos dez de galope da beira do mar X Chamaram depois Luciano Carneiro,
Alegre e faceiro um tal Zé Joel
Chico Nascimento trazendo um cordel
E uma tal de Bastinha chegou do
Lameiro Atrás Elói Teles e Gilvan
Grangeiro Professor Eugênio, querendo
ajudar Chamou Maranhão prá poder me atacar Com Geraldo Amâncio fizeram uma
trama: Fazer uma junta e zerar minha fama Nos dez de galope da beira do mar XI Que força era aquela nem mesmo eu sabia A minha poesia pintava e bordava E enquanto esta junta seu plano
tramava Aquela plateia meus versos pedia Bastava eu falar e o povo aplaudia Porém eu não tinha com quem disputar E a junta juntava e tornava a juntar E dela eu não via sair uma ideia Ninguém decidia animar a plateia Nos dez de galope da beira do mar XII E aqueles amigos, poetas de fama Caíram da cama com a junta quebrada Pois toda a conversa no fim deu em
nada Não teve sucesso aquele programa Falharam no verso, na rima e na trama Não veio ninguém prá me desafiar Venci um a um sem sair do lugar E todos ficaram com a cara mexendo Chegaram sem nada e saíram perdendo Nos dez de galope na beira do mar
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Chegou minha vez e não teve demora E eu disse: é agora que eu sento a
correia Me chame o coitado que vai levar peia Até esquecer o lugar onde mora Foi eu me calar e em cima da hora Chegou um sujeito prá me provocar Um tal de Oliveira das bandas
de lá Que foi me dizendo um tanto raivoso: -
Eu sou Oliveira, poeta famoso Nos dez de galope da beira do mar – XIV Pois seu Oliveira, eu não tenho fama Mas hoje de cama você não descansa Cantando comigo você pula e dança E as suas panelas eu encho de lama A tal Paraíba que você proclama No fim da conversa vai lhe renegar E não adianta você implorar Que hoje eu lhe pego, lhe ensebo as
canelas Arrombo a cozinha, lhe amasso as
panelas Nos dez de galope da beira do mar XV - Eu sou Oliveira, poeta que
canta Mas não adianta cantar prá você Um B é um A e um A é um B A janta é o almoço e o almoço é a
janta – Pois cabra Oliveira você não me
espanta Você hoje estuda é no meu beabá Um B é um B e um A é um A A janta é a janta e o almoço é o
almoço Os seus trocadilhos não causam
alvoroço Nos dez de galope da beira do mar XVI Com este repente o tal de Oliveira Disse umas besteiras sem pé nem cabeça
E eu disse cantando: antes que
anoiteça Mande outro poeta de rima ligeira Aí me chegou um tal Pedro Bandeira
Que disse que vinha prá me derrubar Mas quando me ouviu começou gaguejar Fiquei foi com pena que eu não sou
perverso Mas dei-lhe uma surra de rima e de
verso Nos dez de galope da beira do mar XVII - Amigo poeta, não diga besteira Pois desta maneira, você não me
assusta Não peço licença, pois nada me custa Fazer Paulo Veras sair na
carreira Teimoso é você, seu poeta de feira, Não banque o esperto, não queira
enganar Se é tão famoso comece a cantar Não fique enrolando como é seu feitio Que o povo quer mesmo é ouvir desafio Nos dez de galope da beira do mar XVIII Com meu desempenho eu estava
assombrado Porque do meu lado eu não via
concorrente Sentia poemas saindo da mente E o povo aplaudindo meu verso rimado E o tal Paulo Veras todo atrapalhado Tossiu, gaguejou, começou a babar Foi se preparando prá se retirar Pegou sua fama e pôs dentro do saco Saiu tropeçando, catando cavaco Nos dez de galope da beira do mar XIX Lá de Missão Velha um tal Biu
Pereira Sentou na cadeira e me disse: - poeta,
A festa acabou prá você, pegue a reta Quero outro poeta na sua cadeira E eu disse: - se cale, não diga
besteira Melhor que você desocupe o lugar Me peça licença e vá se limpar Estou avisando e não peço segredo Quem canta comigo se caga de medo Nos dez de galope da beira do mar XX Trouxeram Edésio, um bom
repentista, Abraão Batista esboçou valentia Mas mal começou já chamou Zé Maria Um outro poeta que estava na lista E quando me viu tirou onda de artista Bateu, remexeu, sem saber começar Chamou Dede França para lhe ajudar Um funga e outro funga e tempera a
garganta Enquanto a plateia pedia: - Canta,
canta Nos dez de galope da beira do mar XXI E quando eu não tinha mais alternativa
Chegou Patativa e sentou do meu
lado Me disse:- Poeta, tú tá é lascado Tempera a garganta e engole a saliva Teu verso é bem-feito, tua mente é
ativa Porém não tens fama prá desafiar Prá dizer besteira é melhor nem falar Tu ia pro caju eu já vinha da castanha
Tu hoje escorrega, tropeça e apanha Nos dez de galope da beira do mar – XXII Meu mestre poeta lhe guardo respeito Mas sou um sujeito de muita coragem Quando entro no fogo não perco a
viagem E todo serviço eu só faço é bem-feito Capriche na rima e no verso perfeito Senão quem apanha é quem veio açoitar Não tenha receio, comece a rimar Que eu não sou poeta, mas quando me
meto Eu faço repente, cordel e soneto Nos dez de galope da beira do mar XXIII E enquanto a plateia de pé aplaudia A minha alegria não tinha limite Foi quando na mente eu tive um palpite
Vencer Patativa fazendo poesia Mas quando meu plano pensei que
cumpria A minha mulher começou me chamar Acorda que é hora de ir trabalhar Não era real o que eu tava pensando Não tinha desafio, eu tava sonhando Nos dez de galope da beira do mar XXIV Que história mais besta, que sonho
mais chato Fazendo de pato tão grandes poetas Usando disfarce e maneiras secretas Fazendo papel de poeta barato Eu peço desculpas por tal desacato Por esta besteira vou me castigar Ler muito cordel e, além disso, rezar Quarenta Pai Nossos e cem Ave Marias Prá ver se eu aprendo a fazer poesia Nos dez de galope da beira do mar (*) Autor: HAIRTON CARVALHO, de Bela Cruz - Ce. publicitário, cordelista, compositor, poeta, residente em Crato- Ce.
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