sexta-feira, 21 de abril de 2023

IDEIAS & NOTICIAS

 

O DIA EM QUE DESAFIEI PATATIVA

Autor: José Hairton Carvalho (*)

                    I                                                                                XIII

Eu ontem acordando nervoso e afobado

Azedo, abusado e metido a poeta

Pus ordem na mente, tracei minha meta

Vi verso bulindo por tudo que é lado

Vi rima perfeita, vi verso quebrado

Da minha cabeça querendo saltar

Prá onde eu olhava eu via pular

Um verso, uma rima, uma quadra e um tema

Por onde eu passava ia caindo poema

Nos dez de galope da beira do mar

                          II 

Liguei o meu Rádio na Educadora

E aquela emissora falou de um programa

 Juntar repentistas, poetas de fama

E uma Academia seria promotora

Aquela conversa eu achei promissora

Do tal desafio quis participar

Do jeito que eu tava de tanto versar

Pegando poema e jogando prá cima

Ninguém me vencia na métrica e na rima

Nos dez de galope da beira do mar

                            III

E já resolvido daquela viagem

Juntei a bagagem de tudo que eu tinha

Poemas, sonetos, cordéis e quadrinhas

Meus versos melhores de pura linhagem

Eu não poderia manchar minha imagem

De bom repentista versado em rimar

Talento e coragem eu tinha prá dar

Um rio de rimas trazia na memória

Do tal desafio eu queria a vitória

Nos dez de galope da beira do mar

                      IV

Chegado o momento da grande disputa

Parti para a luta disposto a vencer

E tendo a certeza de nada temer

Tomei meu lugar e fiquei na escuta

Eu tava tão certo da minha batuta

Que quase não via o povo chegar

Já tinha plateia por todo lugar

Poetas, nem falo, fazia até lama

Só cabra danado, só gente de fama

Nos dez de galope da beira do mar

                           V

Mas mesmo na peia o tal repentista                   

Levantando a vista me disse: - poeta,     

Agora se aprume prá entrar na reta            

Que eu já botei o meu carro na pista          

Sou advogado, sou radialista,

Poeta, escritor, já fui parlamentar ...

Deu muito trabalho dele se calar

E eu fiz tanto verso prá Pedro Bandeira

Deixei o matuto falando besteira

Nos dez de galope da beira do mar

                           VI

 Depois que Bandeira acabou toda a fama

Armou uma trama prá me dar castigo

E trouxe um sujeito prá cantar comigo

Um tal de William, Gerente do IBAMA

Chegou já cantando e fazendo um programa

De ecologia pegou a falar

Mas se ele pensava que eu ia me calar

Quebrou o focinho, pois no meu estudo

De mato e de bicho eu entendo é de tudo

Nos dez de galope da beira do mar.

                            VII

-Eu sou William Brito e sou competente

Já fui Presidente desta Academia

Me guarde respeito, pois na poesia

Sou grande e sou forte, sou brabo e valente –

Pois eu sou pequeno, mas parto na frente

Que a sua grandeza não vai me assustar

Eu quando começo não sei terminar

Mas quando termino já sei do começo

Cantando repente não tenho tropeço

Nos dez de galope da beira do mar

                          VIII

Venci o poeta da Academia

Mas minha euforia foi logo acabando

Pois logo outro cabra foi se aproximando

E olhando me disse: - colega, bom dia

Eu muito admiro a sua poesia

É bom o seu verso, não vou lhe negar

Porém eu lhe aviso, não vá se assustar

Me peça licença, não seja teimoso

Que eu sou Paulo Veras poeta famoso

Nos dez de galope na beira do mar

                             IX

O tempo ia passando e nenhum começava

E o povo chiava com a incompetência

Pedi a plateia pra ter paciência

Mas nem meu pedido o povo escutava

Ao ver que nem um nem o outro cantava

Pus ordem na casa pro povo acalmar

Os dois não souberam nem mesmo falar

Chegaram sem fala e saíram calados

Fiquei foi com pena dos pobres coitados

Nos dez de galope da beira do mar

                              X   

Chamaram depois Luciano Carneiro,

Alegre e faceiro um tal Zé Joel

Chico Nascimento trazendo um cordel

E uma tal de Bastinha chegou do Lameiro

Atrás Elói Teles e Gilvan Grangeiro

Professor Eugênio, querendo ajudar

Chamou Maranhão prá poder me atacar

Com Geraldo Amâncio fizeram uma trama:

Fazer uma junta e zerar minha fama

Nos dez de galope da beira do mar

                            XI

 Que força era aquela nem mesmo eu sabia

A minha poesia pintava e bordava

E enquanto esta junta seu plano tramava

Aquela plateia meus versos pedia

Bastava eu falar e o povo aplaudia

Porém eu não tinha com quem disputar

E a junta juntava e tornava a juntar

E dela eu não via sair uma ideia

Ninguém decidia animar a plateia

Nos dez de galope da beira do mar

                        XII

E aqueles amigos, poetas de fama

Caíram da cama com a junta quebrada

Pois toda a conversa no fim deu em nada

Não teve sucesso aquele programa

Falharam no verso, na rima e na trama

Não veio ninguém prá me desafiar

Venci um a um sem sair do lugar

E todos ficaram com a cara mexendo

Chegaram sem nada e saíram perdendo

Nos dez de galope na beira do mar

 















                                                                   














        





Chegou minha vez e não teve demora

E eu disse: é agora que eu sento a correia

Me chame o coitado que vai levar peia

Até esquecer o lugar onde mora

Foi eu me calar e em cima da hora

Chegou um sujeito prá me provocar

Um tal de Oliveira das bandas de lá

Que foi me dizendo um tanto raivoso: -

Eu sou Oliveira, poeta famoso

Nos dez de galope da beira do mar –

                           XIV

Pois seu Oliveira, eu não tenho fama

Mas hoje de cama você não descansa

Cantando comigo você pula e dança

E as suas panelas eu encho de lama

A tal Paraíba que você proclama

No fim da conversa vai lhe renegar

E não adianta você implorar

Que hoje eu lhe pego, lhe ensebo as canelas

Arrombo a cozinha, lhe amasso as panelas

Nos dez de galope da beira do mar

                           XV

- Eu sou Oliveira, poeta que canta

Mas não adianta cantar prá você

Um B é um A e um A é um B

A janta é o almoço e o almoço é a janta –

Pois cabra Oliveira você não me espanta

Você hoje estuda é no meu beabá

Um B é um B e um A é um A

A janta é a janta e o almoço é o almoço

Os seus trocadilhos não causam alvoroço

Nos dez de galope da beira do mar

                           XVI

Com este repente o tal de Oliveira

Disse umas besteiras sem pé nem cabeça

E eu disse cantando: antes que anoiteça

Mande outro poeta de rima ligeira

Aí me chegou um tal Pedro Bandeira

Que disse que vinha prá me derrubar

Mas quando me ouviu começou gaguejar

Fiquei foi com pena que eu não sou perverso

Mas dei-lhe uma surra de rima e de verso

Nos dez de galope da beira do mar

                       XVII

- Amigo poeta, não diga besteira

Pois desta maneira, você não me assusta

Não peço licença, pois nada me custa

Fazer Paulo Veras sair na carreira

Teimoso é você, seu poeta de feira,

Não banque o esperto, não queira enganar

Se é tão famoso comece a cantar

Não fique enrolando como é seu feitio

Que o povo quer mesmo é ouvir desafio

Nos dez de galope da beira do mar

                        XVIII

Com meu desempenho eu estava assombrado

Porque do meu lado eu não via concorrente

Sentia poemas saindo da mente

E o povo aplaudindo meu verso rimado

E o tal Paulo Veras todo atrapalhado

Tossiu, gaguejou, começou a babar

Foi se preparando prá se retirar

Pegou sua fama e pôs dentro do saco

Saiu tropeçando, catando cavaco

Nos dez de galope da beira do mar

                        XIX

Lá de Missão Velha um tal Biu Pereira

Sentou na cadeira e me disse: - poeta,

A festa acabou prá você, pegue a reta

Quero outro poeta na sua cadeira

E eu disse: - se cale, não diga besteira

Melhor que você desocupe o lugar

Me peça licença e vá se limpar

Estou avisando e não peço segredo

Quem canta comigo se caga de medo

Nos dez de galope da beira do mar

                            XX

Trouxeram Edésio, um bom repentista,

Abraão Batista esboçou valentia

Mas mal começou já chamou Zé Maria

Um outro poeta que estava na lista

E quando me viu tirou onda de artista

Bateu, remexeu, sem saber começar

Chamou Dede França para lhe ajudar

Um funga e outro funga e tempera a garganta

Enquanto a plateia pedia: - Canta, canta

Nos dez de galope da beira do mar

                      XXI

E quando eu não tinha mais alternativa

Chegou Patativa e sentou do meu lado

Me disse:- Poeta, tú tá é lascado

Tempera a garganta e engole a saliva

Teu verso é bem-feito, tua mente é ativa

Porém não tens fama prá desafiar

Prá dizer besteira é melhor nem falar

Tu ia pro caju eu já vinha da castanha

Tu hoje escorrega, tropeça e apanha

Nos dez de galope da beira do mar –

                         XXII

Meu mestre poeta lhe guardo respeito

Mas sou um sujeito de muita coragem

Quando entro no fogo não perco a viagem

E todo serviço eu só faço é bem-feito

Capriche na rima e no verso perfeito

Senão quem apanha é quem veio açoitar

Não tenha receio, comece a rimar

Que eu não sou poeta, mas quando me meto

Eu faço repente, cordel e soneto

Nos dez de galope da beira do mar

                         XXIII

 E enquanto a plateia de pé aplaudia

A minha alegria não tinha limite

Foi quando na mente eu tive um palpite

Vencer Patativa fazendo poesia

Mas quando meu plano pensei que cumpria

A minha mulher começou me chamar

Acorda que é hora de ir trabalhar

Não era real o que eu tava pensando

Não tinha desafio, eu tava sonhando

Nos dez de galope da beira do mar

                      XXIV

Que história mais besta, que sonho mais chato

Fazendo de pato tão grandes poetas

Usando disfarce e maneiras secretas

Fazendo papel de poeta barato

Eu peço desculpas por tal desacato

Por esta besteira vou me castigar

Ler muito cordel e, além disso, rezar

Quarenta Pai Nossos e cem Ave Marias

Prá ver se eu aprendo a fazer poesia

Nos dez de galope da beira do mar


(*) Autor: 

HAIRTON CARVALHO, de Bela Cruz - Ce.   publicitário, cordelista, compositor, poeta, residente em Crato- Ce.













 


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