sexta-feira, 19 de maio de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

SABER OUVIR, É FUNDAMENTAL!

Logo que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II, começou-se a celebrar o Dia Mundial das Comunicações, na Festa móvel da Ascensão de Jesus aos Céus, que este ano se comemora, no dia de amanhã: 21 de Maio.

 Todos os bispos do mundo, reunidos em Roma, durante o Concílio instituíram tal costume, que já se festeja pela 57ª vez, sempre com uma Mensagem do Papa, apropriada para o momento. Como das vezes anteriores, onde eu estivesse, comentei pelos Meios de Comunicações Sociais a Mensagem do Papa reinante. Não seria agora, neste ‘site’ do Prof. Leunam, que eu me omita.

             Certamente, alguns de meus leitores se lembram do meu Comentário de anos passados, já aqui neste ‘site’, abordando a Mensagem de Francisco, em que ele nos convidou a ‘ir e ver’ e até escutar para descobrir a realidade e poder narrá-la a partir da experiência dos acontecimentos e do encontro com as pessoas.

            Em sua mensagem deste ano, ele quer fixar a atenção em uma expres-são verbal: ‘falar com o coração – testemunhando a verdade no amor’ (Ef.4,15) e coloca o novo tema em conexão com os anteriores. Francisco constata que estamos perdendo a capacidade de ouvir a pessoa que temos em nossa frente. Dar-lhe atenção e escutá-la continua sendo essencial para a comunicação humana. Exemplificando esta sua afirmativa, o Papa disse: “a um médico ilustre, habituado a cuidar das feridas da alma, foi-lhe perguntado qual era a maior necessidade dos seres humanos. Respondeu: o desejo ilimitado de serem ouvidos”.

            Certamente esta resposta deve interpelar a toda pessoa chamada a ser educadora, formadora ou que desempenhe de algum modo o papel de Comuni-cador: pais, professores, pregadores, agentes pastorais, catequistas, locutores e tantos outros que prestam um serviço social e político.

            De fato, “escutar” não é somente o som que entra em nosso ouvido, ou “ouvir” simplesmente. É uma percepção, essencialmente ligada à relação dialogal entre Deus e a humanidade. Em Deuteronômio, 6,4, as palavras que iniciam o 1º Mandamento do decálogo, dizem: “escuta, Israel”, que São Paulo retoma em Romanos, 10,17: “a fé vem da escuta”. De fato, a iniciativa é de Deus que nos fala, e a ela correspondemos, escutando-O; e mesmo este escutar, fundamentalmente provém da Sua graça. É o próprio Deus quem privilegia o ouvido, talvez por ser menos invasivo, mais discreto do que a visão.

            A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus. Ela permite a Deus revelar-Se, como Aquele que, falando, cria o homem à sua imagem e, ouvindo-o, reconhece-o como seu interlocutor. Deus ama o homem: por isso lhe dirige a Palavra; por isso “inclina o ouvido” para escutá-lo.

            O homem, ao contrario, tende a fugir da relação, a virar as costas e “fechar os ouvidos” para não ter de escutar. Esta recusa de ouvir acaba muitas vezes por se transformar em agressividade sobre o outro, como aconteceu com os ouvintes do diácono Estêvão que, tapando os ouvidos, atiraram-se todos juntos contra ele (At. 7,57).

            Nunca devemos esquecer os dois lados da escuta: da parte de Deus, que sempre se revela, comunicando-se, livremente; e da parte do homem, a quem é pedido para sintonizar-se, colocar-se à escuta. O Senhor chama, explicitamente o homem, a uma aliança de amor, para que possa tornar-se, plenamente, aquilo que é: imagem e semelhança de Deus na sua capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro. No fundo, a escuta é uma dimensão de amor. Por isso Jesus ensinou os discípulos a verificar sua qualidade de escuta.

Ao dizer-lhes “vede, pois, como ouvis” (Lc. 8,18) sugeriu que não basta ouvir, é preciso fazê-lo bem. Somente quem acolhe a palavra com o coração “bom e virtuoso”, guardando-a fielmente, é que produz frutos de vida e salvação (Lc. 8,15). Também prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos e ao modo como ouvimos é que podemos crescer na comunicação. Ouvidos, todos temos. Mas, nem todos os têm tão perfeitos que possam escutar o outro. Existe uma surdez interior, pior do que a física. A escuta não tem a ver apenas com o sentido do ouvido, mas com a pessoa toda. A sede verdadeira da escuta é o coração.

            O Rei Salomão, apesar de ainda muito jovem, demonstrou-se sábio ao pedir ao Senhor que lhe concedesse “um coração que escuta” (I Reis, 3,9).

            Santo Agostinho convidava a escutar com o coração (corde audire) e acrescentava: ‘não tenhais o coração nos ouvidos, mas os ouvidos no coração’.

            S. Fco. de Assis exortava seus irmãos a ‘inclinar o ouvido do coração’. Enfim, a escuta é condição para a boa comunicação. É o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo. Para alguém se comunicar tem que antes, escutar. Será bom, o jornalista que não tem capacidade de escutar? Sua informação será sólida, equilibrada, confiante e completa sem ter sido escutada prolongadamente? Merecerá crédito a narração de um acontecimento ou a descrição de uma realidade sem tê-la escutado, maturado, dialogado a ponto de até mudar de ideia ou modificar as próprias hipóteses iniciais?

            Na verdade, temos que sair do monólogo para se chegar àquela real comunicação ou diálogo tão necessários ao entendimento humano. Todos temos que escutar várias vezes, ouvir-nos entre irmãos e irmãs, falar com o coração, permitir-nos o exercício do discernimento se nos quisermos orientar numa sinfonia de vozes ou se nos quisermos comunicar cordialmente.

            A reciprocidade do escutar e do falar deve sempre fazer parte do diálogo entre as pessoas ou da comunicação cordial entre elas. Quem assim procede, falando ou ouvindo, se comporta como os discípulos de Emaús, que tiveram suas mentes abertas enquanto dialogavam com Jesus, pelo caminho, em que seus corações ardiam enquanto Ele lhes explicava as escrituras (Lc.24,32).

            Desta Solenidade da Ascensão que celebramos amanhã, até a não menos solene Festa de Pentecostes, que comemora o nascimento da Igreja Católica no próximo Domingo, 28, vivenciamos a Semana da Unidade dos Cristãos. Será a Semana do dom da Comunicação, que a Igreja o tem por excelência, devido à presença do Divino Espírito Santo nela. Daí, a justificativa maior para a instituição do Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado neste Domingo da Ascensão, fundamentado no Decreto Inter Mirifica do Concí-lio Ecumênico Vaticano II que manda “promover a comunhão entre homens e mulheres e o progresso de toda a sociedade, através do reto uso dos Meios de Comunicação, tendo em vista servir ao bem comum”.

            A Igreja do Brasil está tentando fazer o reto uso de seus Meios de Comunicação escritos e através de suas redes de rádio e televisão, sobretudo neste tempo pós-conciliar, instruindo, educando, evangelizando e conscientizando suas comunidades eclesiais, chegando a lugares, antes nunca visitados, transmitindo sua mensagem libertadora e salvadora, independentemente de sua cor partidária, da pele, religiosa ou financeira. Seu objetivo é a unidade de todos. Jesus deu a norma: “para que sejamos um, como Ele e o Pai são UM”.  





            


2 comentários:

  1. Monsenhor Assis Rocha, portador de um conhecimento e uma sabedoria inigualável.
    Não vou falar que sinto uma inveja branca, porque essa é uma fala típica do racismo brasileiro, mas sinto uma profunda admiração.
    Outro dia, eu comentei com a minha psicóloga sobre o fato de as pessoas não nos ouvirem. Ou quando ouvem, retrucam imediatamente, é como se fosse uma queda de braço. Por outro lado, estou com dificuldade para ouvir os outros, principalmente se a criatura quiser me catequizar, ou seja, quiser que eu virei evangélica. É preciso tomar cuidado para não se tornar invasivo e ao, mesmo tempo, é preciso botar limite no invasor. É uma linha muito tênue. Finalmente...
    Vou continuar lendo o que o senhor escreve, porque é como se o sol se virasse para mim, e me iluminasse.
    Vida longa, Monsenhor! Saúde e paz!

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  2. Diretamente de Brasília, vinda da Sussuarana!
    Lourdinha, Renata e Sansão.

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