sábado, 28 de outubro de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

“Ninguém dizia que as coisas que possuíam era somente suas” (Atos 2,43)

Neste meu último Comentário, ainda dentro do Mês Missionário, gostaria de aprofundar o exemplo concreto que eu dei no final da mensagem do Papa Francisco, sábado passado, véspera do Dia Mundial das Missões, sobre uma importante Pontifícia Obra Missionária da Igreja Católica, que está acontecendo na Bacia Amazônica, desde 2019, através do Barco Hospital Papa Francisco.

             Dizia até que é um dos 120 exemplos concretos de Ação da Igreja, pelo mundo afora, que a gente pouco conhece, até pra divulgar, defender, conhecer e rezar pelo bom êxito de tão benemérita missão entre os mais abandonados.

            E como nasceu tão magnífica Obra?

            Em 2013, logo que o Papa Francisco assumiu seu Pontificado, ele fez sua 1ª viagem internacional, vindo ao Brasil para a Jornada Mundial da Juven-tude. Ele teve vários contatos oficiais com Jovens de todo o Mundo, mas teve contatos com outros movimentos, com a CNBB, visitou comunidades religiosas e de carentes sociais, hospitais e outros encontros extra agenda.

            Um dos Hospitais, visitados pelo Papa, foi à Associação e Fraternidade Franciscana, à época dirigida por Frei Francisco, a quem Sua Santidade perguntou: “vocês já estão presentes na Amazônia”?

            Diante do não do Frade-diretor, o Papa disse: então devem ir. Passou a ser uma ordem, pensaram os frades e iniciaram os contatos preliminares, idas e vindas à região, enfim, tiveram 06 anos de pesquisas, demarcação de postos de trabalho e localizaram dois pontos ou dois hospitais na área: Óbidos e Juriti. Mas, ainda não acharam suficiente para desenvolverem a obra. Tudo era muito distante e muito difícil para acessar. Ou se ia de avião ou de barco.

            Com muita reflexão e oração, acharam que era mais difícil o povo ir aonde eles estavam, do que eles mesmos irem até onde o povo morava. Foi quando surgiu a ideia do Barco Hospital. Demoraria mais a realização do desejo do Papa, mas o atendimento seria mais abrangente: em vez do povo ir às maiores cidades, de barco, em busca de atendimento, o Barco iria aonde o povo morava, levando a assistência completa. Assim foi planejado e realizado.

            Passados os contatos, visitas, localização e planejamento dos serviços, tinha que ser construído ou adquirido o Barco Hospital. Não o havia pronto. Tinha que ser fabricado. Procuraram a ENGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais) no Mucuripe, em Fortaleza – CE e projetaram, desenharam e construíram o tão sonhado e desejado Barco, chamado de Papa Francisco.

            Foi inaugurado aos 17 de Agosto de 2019, em Belém do Pará, sede da Arquidiocese, mas destinado, inicialmente, às Comunidades de Óbidos e Juriti. Depois de 04 anos já abrange mais de mil comunidades ribeirinhas da região, e como eu já disse no Comentário de sábado passado, o Barco Papa Francisco tem 32 metros de extensão, conta com 20 tripulantes fixos e 10 voluntários que se revezam em expedições que duram entre 07 e 10 dias.

            Segundo o próprio Frei Francisco, o Barco Hospital “é uma realidade muito especial; percebemos que a população que vivia nas margens do rio amazonas tinha dificuldade para chegar aos Hospitais; então pensamos que o único meio era o hospital ir até elas, como a Igreja que o Papa Francisco quer que vá ao encontro das pessoas”.

              

O Barco Hospital Papa Francisco é o caminho para levar assistência e saúde à população ribeirinha. Tem como apoio aos atendimentos, duas “ambu-lanchas” que atuam com o Barco Hospital. Enquanto uma faz as triagens nas comunidades para otimizar os atendimentos, a outra é munida de equipamento

de urgência e emergência para fazer a retaguarda em qualquer intercorrência mais grave. Além de todo o trabalho de saúde, o Barco Hospital tem a coordenação de um Sacerdote Frade Franciscano que é o responsável em levar a Palavra de Deus, espiritualidade sacramental e a humanização a todos os atendidos pelas equipes médicas voluntárias. É a dupla cura de corpo e alma.

Os próprios engenheiros da ENGEPRON - secção Fortaleza – disseram que seria impossível encontrar um Barco, já feito, como foi o idealizado pela Igreja para ser um Hospital. Não existiria no Brasil outra embarcação com estrutura hospitalar tão completa, incluindo sala de cirurgia, salas de exames de diagnóstico, totalmente equipadas e diversos consultórios. O Barco já é considerado um dos maiores hospitais civis marítimos do mundo. É bom ouvir isso, mas nós cearenses pensamos assim. O engenheiro deve ser conterrâneo.

                   Brincadeiras a parte, não podemos negar que a obra é fantástica. Basta dizer que, neste anos, completados em Agosto, com previsão até dezembro, teremos 420 mil atendimentos. Além da tripulação técnica de controle, manobra e demais profissionais de serviços, a embarcação conta com equipe médica e de enfermagem permanente, cirurgiões, dentistas e oftalmologistas, bem como voluntários de outros estados da federação. Mais de 900 já passaram por lá.

            O Barco Hospital Papa Francisco manteve todos esses intensos serviços e ainda enfrentou a Pandemia, distribuindo cestas básicas, refeições ao povo mais carente, graças a recursos enviados, diretamente, pelo Vaticano.

            Sobretudo durante a pandemia foram servidas, a bordo da embarcação, mais de 75 mil refeições às comunidades carentes. Não podemos negar que instituições públicas ou políticas se sensibilizaram com a atuação da Igreja e prestaram sua solidariedade, juntando-se a ela, na execução do trabalho. Essa união de esforços faz parte da ação missionária da Igreja. Ninguém é excluído.

            Como dissemos no decorrer de nossos Comentários do Mês de Outubro, bem como durante os Meses da Bíblia e Vocacional, cabe á Igreja unir teoria e prática, fé e obra, oração e ação, substancia e acidente, forma e matéria, conteúdo filosófico e vivencia pastoral que devem levar a uma transformação nas atitudes. Isso sim deve pôr o Evangelho na vida. Estamos cansados de blá-blá-blá. Há muitos falsos cristãos que nem gostam de ouvir esse tipo de reflexão. A melhor coisa que dizem pra se livrar de quem assim fala, é chamá-lo de comunista.

            Agora há pouco, ao abordar a Carta aos Efésios como tema principal do Mês da Bíblia, dizíamos que o autor, São Paulo, não tem meio termo. Destaca-se por sua densidade teológica, relevando o Cristo-Deus na Igreja de Cristo. Chamava de falsos irmãos àqueles que não haviam entendido sua mensagem cristã, mesmo quando ele dizia: não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.

            Será que não são “falsos muitos irmãos de hoje” que criticam a Igreja por sua ação missionária, sem aceitar sua orientação? Paulo escrevia para várias “comunidades”: de Corinto, de Éfeso, de Tessalônica, de Roma, etc. Na cabeça de “falsos irmãos” de hoje, “comunidade”, “bem comum”, “comunhão” é tudo coisa de “comunista”. Porque formam tantas “novas comunidades”? São diferentes as antigas das de agora? Será que as de lá, poderiam ser chamadas de “comunistas”? Para mim, etimologicamente, é a mesma coisa.

            Por favor, leia no Livro dos Atos dos Apóstolos capítulo 2, versículos 43 e seguintes e capítulo 4, versículos 32 em diante, que falam da atitude dos cristãos do início da Igreja: “pondo tudo em comum, participavam das refeições e ninguém dizia que as coisas que possuíam era somente suas”. Boa Missão!


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