Como é que somos seres humanos, capazes de tanta barbárie?
Depois de um mês e meio de guerra em Israel e de ouvir tantas
informações desconexas entre católicos, imprensa, comunicadores, políticos –
sobretudo analfabetos políticos – arrisco-me a fazer meu Comentário semanal,
despretensiosamente, sem querer impor nada, muito menos convencer alguém das
minhas intenções ou maneira de refletir. Vou dizer o que me vem à mente, embora
tenha ouvido e lido pessoas mais sábias e entendidas do que eu. Como já
afirmei, vou arriscar-me.
A
figura central aqui é Abraão. Idoso, casado com idosa e sem filhos. Àquela
época, não ter filho era uma maldição. Deus havia prometido a Abraão que ele
teria uma grande descendência. Como, se já eram idosos? Pensava Abraão: “por
acaso, um homem de cem anos pode ser pai? Será que Sara, com os seus noventa
anos poderá ter um filho?” Apesar da promessa de Deus, o velho casal tinha suas
dúvidas. Sara quis colaborar.
Como
não tinha dado um filho a Abraão, permitiu que ele se deitasse com sua serva
egípcia, Agar, e assim tiveram um filho, a quem chamaram de Ismael (= o Deus
que vê). Mesmo com o filho da escrava, Deus não desistiu de sua promessa e
falou para Abraão: “Sara, sua mulher, lhe dará um filho e você o chamará de
Isaque. Eu os abençoarei e darei a eles muitos filhos e descendentes”. (Confira
tudo, lendo cuidadosamente, sobretudo Gn. 16).
Diz
o Gênesis 32,23, na referência citada acima, que, uma noite, Jacó, com suas
duas mulheres e seus filhos, atravessaram o rio Jaboque, conduzindo presentes
para Esaú, seu irmão. Mandou-os na frente, levando os presentes, enquanto ele
ficou para trás, sozinho.
“Aí veio um homem que lutou com
ele até o dia amanhecer. Quando o homem viu que não podia vencer, deu um golpe
na junta da coxa de Jacó, de modo que ela ficou fora do lugar. Então o homem
disse: ‘solte-me, pois já está amanhecendo’. ‘Não solto enquanto o senhor não
me abençoar” – respondeu Jacó. Aí o homem perguntou: ‘como você se chama’?
‘Jacó’ – respondeu ele. Então o homem disse: ‘o seu nome não será mais Jacó.
Você lutou com Deus e com os homens e venceu; por isso o seu nome será ISRAEL’.
‘Agora me diga o seu nome’ – pediu Jacó. O homem respondeu: ‘porque você quer
saber o meu nome’? E ali ele abençoou Jacó, então Jacó disse: ‘eu vi Deus face
a face, mas ainda estou vivo’.
“Eu sou Deus, o Senhor. Eu o
tirei da Babilônia, da cidade de UR, a fim de lhe dar Canaã para ser sua
propriedade. Esta aliança eu manterei com seus filhos. Olhe para o céu e conte
as estrelas se puder. Pois bem, será esse o número de seus descendentes. Farei
também que eles sejam tantos como o pó da terra”.
E Deus prossegue: “assim como ninguém pode
contar os grãozinhos do pó, assim também não será possível contar os seus
descendentes” (Gn 13).
Cristãos
(católicos, ortodoxos ou evangélicos), Judeus (ortodoxos, refor-mistas e
conservadores) e Islamitas ou Muçulmanos (xiitas e sunitas) vivemos,
palpavelmente desunidos, embora tenhamos a mesma origem: Abraão, em Ur, na
Caldeia. Somos muitos; muitos os descendentes de Abraão, como ele disse:
incontáveis como os grãos de areia da terra ou as estrelas do firmamento.
Já
pensaram? O Oriente Médio tem 15 países diferentes: Afeganistão, Arábia
Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Iêmen, Irã, Iraque, ISRAEL, Jordânia,
Kuwait, Líbano, Omã, Síria e Turquia.
O
Extremo Oriente tem mais 06: Parte da China, Japão, Coréia do Norte, Mongólia,
Coréia do Sul e Taiwan. Noventa por cento deles são Muçulmanos.
Em
um desses países, ISRAEL, nasceu Jesus, o Príncipe da Paz. Está em guerra,
mantendo uma tradição anterior à sua instalação como país livre, em 1948: no
Egito, Síria, Iraque, Jordânia, Líbano e Arábia Saudita. Depois da emancipação
piorou: Arábia Israelense, Guerra de Suez, Guerra dos seis dias, Guerra de Yom
Kippur em 1973: Israel contra o Egito e a Síria, no canal de Suez, pelo
petróleo; e agora, contra os próprios palestino-islâmicos: o Hamas.
O Papa Francisco tem-se
posicionado quanto ao conflito, em busca da paz, como o fez há dois anos, indo
ao Iraque, unindo-se à espiritualidade do Pai Abraão entre os irmãos
muçulmanos, em contatos com autoridades políticas, sobretudo na visita ao Sítio
Arqueológico de Ur, onde se acredita ter nascido Abraão. Diante de uma praça,
repleta de muçulmanos e de poucos cristãos, o Papa disse: “este lugar sagrado
nos traz de volta às nossas origens. A hostilidade, o extremismo e a violência
não nascem de um coração religioso. São a traição da religião. Nós crentes, não
podemos nos silenciar quando o terrorismo abusa da religião”.
Com o Papa no Iraque e agora
diante dos conflitos de Israel ele mantém a linha de raciocínio: “o cristão
deve ser o primeiro a dar o exemplo, começando pela prática do diálogo
ecumênico”. Será que o chefe de estado Islamita ir-se-ia encontrar com o Papa
por sua própria iniciativa?
Do texto bíblico (Lc. 10,29) do
Bom Samaritano, tiramos uma lição: se não fosse sua iniciativa, o coitado que
caíra nas mãos dos ladrões, nunca teria sido acudido. Infelizmente, muitos têm
até medo da palavra “ecumenismo”, evocada pelo papa. Não sabem o seu
significado, confundem-na com comunismo e adeus diálogo. Se houvesse um mínimo
de boa vontade, de diálogo, de entendimento entre todos, certamente se chegaria
a acordos pra solução dos problemas. A guerra destrói. Torna os homens,
irracionais. Estamos agora acompanhando mais de uma. Cada qual a mais
destruidora.
Dada a violência empregada,
vitimando milhares de pessoas de cada lado, com o uso de foguetes, mísseis,
drones, bombas, tanques, soldados, caças, alarme ecológico, chegamos mesmo a
perguntar angustiados: como é possível alcançarmos tais patamares de
destruição? Ou, como é que somos seres humanos, capazes
de tanta barbárie? E o pior: as guerras estão-se tornando cada vez mais
guerras totais: destroem civis e combatentes. Lástima

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