A misericórdia de Deus não os impede de serem felizes e
abençoados!
Dedicamos nossos dois últimos comentários ao Tempo do
Natal, por que o Natal não é só o dia 25 de dezembro. Ele se está
prolongando até depois de amanhã, dia 08, com a Solenidade do Batismo de Jesus.
Dada a importância da data, o Tempo do Natal é mais longo, para que ninguém
tenha desculpas para não tê-lo festejado.
Apareceu-nos
um tema de propagação mundial entre católicos e não católicos, cristãos conservadores
e cristãos pós-conciliares, admiradores do Papa Francisco e críticos à sua
maneira de conduzir a Igreja, que repercutiram à sua maneira de pensar, um dos
resultados dos estudos finais do Sínodo sobre a Declaração Doutrinária de
Bênçãos a pares, ou duplas do mesmo sexo, ou a “casais irregulares”,
mas unidos em segundas núpcias porque os dois, ou uma das partes estão ligados
por uma união anterior, que os impede de casar de novo, mas a misericórdia de
Deus não os impede de serem felizes e abençoados. Eles não têm direito de
receber o sacramento do Matrimônio, mas Deus não os deixa de abençoar. Um
Pai sério não abandona seu filho.
A
declaração doutrinária de bênçãos,
assinada pelo Papa Francisco, faz parte do elenco tradicional de bênçãos,
transmitido ao longo da História da Igreja, que ninguém nunca pôs em dúvida.
Sempre se usou água, vela, óleo, cinza, saliva, sal, fumaça ou o que chamamos
de “sacramentais” que fazem parte da celebração dos sacramentos, mas não são “o
sacramento”.
Quem
de nós já rejeitou a bênção com a água benta, no Sábado Santo, ou das velas na
Festa das Candeias ou de São Braz? Quem já não chamou um Padre para benzer sua
casa, ou seu automóvel, ou ao pãozinho de S. Antônio, ou a uma imagem,
crucifixo e até Escola? Você sabia que há bênçãos para fogueira de S. João,
animais doentes, abelhas, quarto de casal e até de avião?
Nestas últimas semanas, depois do Documento “Fiducia
supplicans” que trata das Bênçãos e Súplicas de Confiança, todo mundo se meteu
a dar opinião e a desfazer da função do Papa, sobretudo grupos que não praticam
a fé cristã, que não têm nenhuma ligação com a Igreja e, muito pior, até gente
que se diz católico tradicional, conservador, este sim, que faz doer o coração
da Igreja.
Desde
a pastoral mais antiga da Igreja e de sua orientação para celebrar o Sacramento
do Matrimônio, que se fala da Nulidade do Matrimônio, isto é, quando o
Sacramento não é celebrado de acordo com as normas do bom cristão: preparação,
conhecimento dos compromissos, amor mútuo, desejo de constituir uma família,
casamento por obrigação ou sob coação, que a Igreja zela para que tudo esteja
preparado para dar certo. Se o casal fugir desse esquema, o casamento pode ser
negado. Se o casal teima em casar, mesmo sem tal preparação, o casamento poderá
ter sua “nulidade” declarada. É uma compreensão da Mãe Igreja para que
os casamentos dêem certo.
Na minha Diocese de
Afogados da Ingazeira, eu fazia parte do Tribunal Eclesiástico que tratava
disto, como Defensor do Vínculo: uma última tentativa para ver se o casal se
acertava e continuava no reto caminho. Quantos não queriam fazer o Processo,
porque dava trabalho, demorava muito e o povo dizia “que casamento da Igreja não separa nunca”. E não usavam o recurso.
Meu
bispo sempre dizia: “não deixem que um casal mal casado permaneça com a
obrigação do compromisso não assumido. Encaminhem para a Nulidade”.
É nessa compreensão que está a maternidade da Igreja e é sob este aspecto que
devemos abraçar a Declaração Doutrinária
de Bênçãos que o mundo estremeceu diante da coragem do Papa em praticar Lc.10,5.
A
bênção tem como destino pessoas, objetos de devoção, lugares de vida em que o abençoado possa corresponder aos desígnios
de Deus, inscritos na Criação. Se alguém merece a bênção, ela permanece
naquele que a pede. Senão, ela volta para quem a deu. É o que disse Lucas na
citação acima.
A
bênção não é um sacramento. Não imprime caráter. Mas um ministro ordenado que a
administra pode pedir paz, saúde, espírito de paciência, ajuda mútua e diálogo,
bem como a luz e a força de Deus para poder cumprir, plena-mente a Sua vontade.
Será um mal pedir e administrar uma bênção?
Eu
tenho 55 anos de Padre, com 83 de idade. Lembro-me de, quando padre jovem, os
homossexuais escondiam um pouco sua situação, as famílias os preservavam ou
protegiam e eles nem procuravam mostrar-se como tais, à sociedade. Muito menos,
queriam casar ou assumir uma vida a dois, ou a duas, como um par ou uma dupla.
Casar mesmo, nem pensar. Pedir uma bênção a um sacerdote, ou à Igreja, era
totalmente, impossível. Será que o que se deu de três semanas para cá não foi
um avanço?
Inicialmente, a Declaração assinada por Francisco pede aos
Sacerdotes “que adotem uma abordagem
pastoral para estarem disponíveis às pessoas que reconhecem a necessidade da
ajuda e da presença de Deus em suas vidas sem reivindicar a legitimidade de seu
status particular”.
Já é um passo à frente, dado pelas pessoas que desejam
graça e apoio e acreditam que Jesus esteja presente em suas vidas. Vai depender
muito dos ministros ordenados, ou dos Padres ou Pastores de Igrejas acolherem
com paciência e caridade àqueles que os procurarem para serem ‘abençoados’. É uma cerimônia privada
sem o enfeite ou a pompa da celebração de um casamento. Mas é muito bom.
São
filhos de Deus que confiam na sua misericórdia, que desejam ser reconhecidos,
amados e respeitados, mesmo sem palavras, gestos, decoração ou solenidade
apropriados para um casamento. Isso se aplica tanto a “casais irregulares”,
como a pares ou duplas do mesmo sexo. Por isso é que tais bênçãos devem ocorrer
em outros contextos onde não há intenção de legitimar nada, mas sim, de abrir a
vida a Deus, de pedir Sua ajuda para viver melhor e também de invocar o
Espírito Santo para que os valores do Evangelho possam ser vividos com maior
fidelidade. Daí, a minha pergunta acima: “será
um mal pedir e administrar uma bênção”?
Para
quem, há 50 anos, nem dizia ser homossexual, nunca falava em unir-se a outrem,
muito menos, em casar, tem uma abertura como essa e encontra um sacerdote,
propenso ao diálogo e até, a abençoar, a oportunidade, aberta pela Igreja, é
uma graça que não pode ser desperdiçada.
Fica
claro que a doutrina sobre o matrimônio não muda. A Declaração da Doutrina da
Fé mantém o ensinamento tradicional da Igreja sobre o Casamento. A bênção não
significa aprovação da união. Ela ocorre em outro contexto e em outras
circunstancias. Não há intenção em legitimar nada. Mas o avanço foi muito
grande. A porta está aberta ao diálogo, ao entendimento, à compreensão de que a
Igreja é Mãe e que a Misericórdia Divina não se mede pelo nosso entendimento de
misericórdia. Deus está conosco até o fim. Ele não descarta um pecador. O menor
passo que ele der de arrependimento, de busca da graça, Deus está ali para
acolhê-lo.
Leitor,
amigo! Procure ler a Declaração
Doutrinária de Bênçãos até o fim e entenda que: “mesmo quando o relacionamento com Deus
está obscurecido pelo pecado, sempre é possível pedir uma ‘bênção’,
estendendo a mão a Ele e desejá-la pode ser o melhor possível em algumas
situações”.
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