sábado, 6 de janeiro de 2024

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

A misericórdia de Deus não os impede de serem felizes e abençoados!

Dedicamos nossos dois últimos comentários ao Tempo do Natal, por que o Natal não é só o dia 25 de dezembro. Ele se está prolongando até depois de amanhã, dia 08, com a Solenidade do Batismo de Jesus. Dada a importância da data, o Tempo do Natal é mais longo, para que ninguém tenha desculpas para não tê-lo festejado.

            Apareceu-nos um tema de propagação mundial entre católicos e não católicos, cristãos conservadores e cristãos pós-conciliares, admiradores do Papa Francisco e críticos à sua maneira de conduzir a Igreja, que repercutiram à sua maneira de pensar, um dos resultados dos estudos finais do Sínodo sobre a Declaração Doutrinária de Bênçãos a pares, ou duplas do mesmo sexo, ou a “casais irregulares”, mas unidos em segundas núpcias porque os dois, ou uma das partes estão ligados por uma união anterior, que os impede de casar de novo, mas a misericórdia de Deus não os impede de serem felizes e abençoados. Eles não têm direito de receber o sacramento do Matrimônio, mas Deus não os deixa de abençoar. Um Pai sério não abandona seu filho.

            A declaração doutrinária de bênçãos, assinada pelo Papa Francisco, faz parte do elenco tradicional de bênçãos, transmitido ao longo da História da Igreja, que ninguém nunca pôs em dúvida. Sempre se usou água, vela, óleo, cinza, saliva, sal, fumaça ou o que chamamos de “sacramentais” que fazem parte da celebração dos sacramentos, mas não são “o sacramento”.

            Quem de nós já rejeitou a bênção com a água benta, no Sábado Santo, ou das velas na Festa das Candeias ou de São Braz? Quem já não chamou um Padre para benzer sua casa, ou seu automóvel, ou ao pãozinho de S. Antônio, ou a uma imagem, crucifixo e até Escola? Você sabia que há bênçãos para fogueira de S. João, animais doentes, abelhas, quarto de casal e até de avião?

            Nestas últimas semanas, depois do Documento “Fiducia supplicans” que trata das Bênçãos e Súplicas de Confiança, todo mundo se meteu a dar opinião e a desfazer da função do Papa, sobretudo grupos que não praticam a fé cristã, que não têm nenhuma ligação com a Igreja e, muito pior, até gente que se diz católico tradicional, conservador, este sim, que faz doer o coração da Igreja.

            Desde a pastoral mais antiga da Igreja e de sua orientação para celebrar o Sacramento do Matrimônio, que se fala da Nulidade do Matrimônio, isto é, quando o Sacramento não é celebrado de acordo com as normas do bom cristão: preparação, conhecimento dos compromissos, amor mútuo, desejo de constituir uma família, casamento por obrigação ou sob coação, que a Igreja zela para que tudo esteja preparado para dar certo. Se o casal fugir desse esquema, o casamento pode ser negado. Se o casal teima em casar, mesmo sem tal preparação, o casamento poderá ter sua “nulidade” declarada. É uma compreensão da Mãe Igreja para que os casamentos dêem certo.

Na minha Diocese de Afogados da Ingazeira, eu fazia parte do Tribunal Eclesiástico que tratava disto, como Defensor do Vínculo: uma última tentativa para ver se o casal se acertava e continuava no reto caminho. Quantos não queriam fazer o Processo, porque dava trabalho, demorava muito e o povo dizia “que casamento da Igreja não separa nunca”. E não usavam o recurso.

            Meu bispo sempre dizia: “não deixem que um casal mal casado permaneça com a obrigação do compromisso não assumido. Encaminhem para a Nulidade”. É nessa compreensão que está a maternidade da Igreja e é sob este aspecto que devemos abraçar a Declaração Doutrinária de Bênçãos que o mundo estremeceu diante da coragem do Papa em praticar Lc.10,5.

            A bênção tem como destino pessoas, objetos de devoção, lugares de vida em que o abençoado possa corresponder aos desígnios de Deus, inscritos na Criação. Se alguém merece a bênção, ela permanece naquele que a pede. Senão, ela volta para quem a deu. É o que disse Lucas na citação acima.

            A bênção não é um sacramento. Não imprime caráter. Mas um ministro ordenado que a administra pode pedir paz, saúde, espírito de paciência, ajuda mútua e diálogo, bem como a luz e a força de Deus para poder cumprir, plena-mente a Sua vontade. Será um mal pedir e administrar uma bênção?

            Eu tenho 55 anos de Padre, com 83 de idade. Lembro-me de, quando padre jovem, os homossexuais escondiam um pouco sua situação, as famílias os preservavam ou protegiam e eles nem procuravam mostrar-se como tais, à sociedade. Muito menos, queriam casar ou assumir uma vida a dois, ou a duas, como um par ou uma dupla. Casar mesmo, nem pensar. Pedir uma bênção a um sacerdote, ou à Igreja, era totalmente, impossível. Será que o que se deu de três semanas para cá não foi um avanço?

     Inicialmente, a Declaração assinada por Francisco pede aos Sacerdotes “que adotem uma abordagem pastoral para estarem disponíveis às pessoas que reconhecem a necessidade da ajuda e da presença de Deus em suas vidas sem reivindicar a legitimidade de seu status particular”.  

Já é um passo à frente, dado pelas pessoas que desejam graça e apoio e acreditam que Jesus esteja presente em suas vidas. Vai depender muito dos ministros ordenados, ou dos Padres ou Pastores de Igrejas acolherem com paciência e caridade àqueles que os procurarem para serem ‘abençoados’. É uma cerimônia privada sem o enfeite ou a pompa da celebração de um casamento. Mas é muito bom.

            São filhos de Deus que confiam na sua misericórdia, que desejam ser reconhecidos, amados e respeitados, mesmo sem palavras, gestos, decoração ou solenidade apropriados para um casamento. Isso se aplica tanto a “casais irregulares”, como a pares ou duplas do mesmo sexo. Por isso é que tais bênçãos devem ocorrer em outros contextos onde não há intenção de legitimar nada, mas sim, de abrir a vida a Deus, de pedir Sua ajuda para viver melhor e também de invocar o Espírito Santo para que os valores do Evangelho possam ser vividos com maior fidelidade. Daí, a minha pergunta acima: “será um mal pedir e administrar uma bênção”?

            Para quem, há 50 anos, nem dizia ser homossexual, nunca falava em unir-se a outrem, muito menos, em casar, tem uma abertura como essa e encontra um sacerdote, propenso ao diálogo e até, a abençoar, a oportunidade, aberta pela Igreja, é uma graça que não pode ser desperdiçada.

            Fica claro que a doutrina sobre o matrimônio não muda. A Declaração da Doutrina da Fé mantém o ensinamento tradicional da Igreja sobre o Casamento. A bênção não significa aprovação da união. Ela ocorre em outro contexto e em outras circunstancias. Não há intenção em legitimar nada. Mas o avanço foi muito grande. A porta está aberta ao diálogo, ao entendimento, à compreensão de que a Igreja é Mãe e que a Misericórdia Divina não se mede pelo nosso entendimento de misericórdia. Deus está conosco até o fim. Ele não descarta um pecador. O menor passo que ele der de arrependimento, de busca da graça, Deus está ali para acolhê-lo.

            Leitor, amigo! Procure ler a Declaração Doutrinária de Bênçãos até o fim e entenda que: “mesmo quando o relacionamento com Deus está obscurecido pelo pecado, sempre é possível pedir uma ‘bênção’, estendendo a mão a Ele e desejá-la pode ser o melhor possível em algumas situações”.

 

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