sábado, 24 de fevereiro de 2024

 

“QUERO FICAR, SEMPRE, AO LADO DA VERDADE”

Neste final de semana – sobretudo a partir de 5ª feira, 22 – o Município de Bela Cruz esteve comemorando, seus 67 anos de emancipação política. Em cada ano, as lideranças municipais desenvolvem vasta programação, incluindo Missa, Show em praça pública, sessão solene, práticas esportivas e algumas homenagens, medalhas de honra e outras criatividades muito variadas.

             Estando em Bela Cruz, algumas vezes estive presente, a partir mesmo da instalação do Município, aos 23 de fevereiro de 1957. Eu tinha meus 16 anos de idade e estava de férias do Seminário de Sobral, onde eu já estudava desde 1952. Ao longo desses anos, apareci em alguma solenidade em que meu pai presidia a Câmara de Vereadores, em seu 1º e único mandato, e em mais alguma outra ocasião em que era lembrado por ter sido seu 1º presidente.

            Neste ano, graças à origem mineira do Vereador Franklin Mendes – por sua avozinha, DIVINA – com mais dois homenageados, recebemos uma “Moção Honrosa”. De minha parte, agradeci e aproveitei para dar um recado. Deu tempo, ‘mesmo na hora da prorrogação’. Estou com 83 anos.

            Em 2018, quando completei 50 anos de Padre, o Jornal Correio da Semana me entrevistou e fez sua 1ª pergunta: “Como surgiu sua vocação”?

            Respondi, imediatamente: “como a de qualquer vocacionado. Não é assim que diz o profeta Jeremias? Antes que te formasses dentro do ventre de tua mãe. Antes que tu nascesses, te conhecia, te consagrei. Para ser meu profeta entre as nações eu te escolhi. Onde te envio irás. O que te mando proclamarás”. Um dos escolhidos por Deus, foi o profeta Amós. Ele era filho de quem? De um vaqueiro ou de um agricultor braçal. Eu sou filho de um vaqueiro e de uma mãe doméstica. Sou um vocacionado dentro dos planos de Deus. Não sou diferente de ninguém. Quero só ser como Deus nos chama. Isso me tem incomodado demais, devido ao incômodo causado a muita gente.

            Muitos me avaliam logo como o mundo avalia. Não aceitam a verdade como Jesus nos mandou pregá-la. Misturam o ensinamento cristão, como uma ideologia política. Taxam logo de “comunista” tudo aquilo que Jesus chamava de “bem comum”, “comunidade” e até de “comunhão”, o nome mais perfeito para quem pode “comungar” ou receber o “sacramento da eucaristia”. Todas essas palavras têm uma única origem no termo grego: “koinonia”. Porque os ignorantes da etimologia das palavras se sentem tão ofendidos com uma explicação como esta e não a aceitam como uma ocasião de se esclarecerem?

            Como eu disse acima, estou usando o tempo da prorrogação e até dos pênaltis para terminar a partida, para ver se ainda consigo a vitória final. Não quero ser induzido ao erro de seu ninguém. Quero ficar sempre do lado da verdade para ser fiel ao Evangelho de João, 8,32: “a verdade vos libertará”.

            Porque eu ouço essas palavras, partidas de boca errada, e aceito tanto, e não acredito quando partem da boca de Deus ou de sua Igreja?

            Faz 45 anos (eu tinha 10 anos de Padre) eu estive aqui, a convite da Sociedade de São Vicente de Paulo, para pregar o novenário da Capelinha, já existente em Bela Cruz, antes mesmo de ser erigida a grande e bela Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Vim com muito prazer e nunca esqueci da ação missionária, aqui realizada, pois àquela época eu integrava uma equipe de pregadores missionários por todo o Nordeste. Pensei que aquela semente aqui lançada fosse aguada, cuidada, adubada e firmada dali pra frente. Qual nada!

            Nem a Sociedade de São Vicente de Paulo existe mais! Que tristeza! Há mais de 20 anos, voltei à Diocese. Experiências em Sobral, Santana do Acaraú e, aqui perto de nós, na Paróquia de Cruz, como Vigário Paroquial em Aranaú.

            Tenho usado a frase de São Paulo em sua 2ª Carta a Timóteo 4,7-8 e a tenho repetido por onde passo: “combati o bom combate; terminei a minha carreira; guardei a fé”. Se não tenho mais forças para combater, para correr, não quero abandonar minha fé; é com ela que devo alcançar o prêmio, ou a vida eterna. Não combater, não correr, não lutar, vá lá que aconteça. Mas, perder a fé, jamais!

Em Aranaú, passei dois anos e oito meses. Era uma Comunidade Eclesial, rodeada de pequenas comunidades e, mensalmente, todas visitadas.

            Passava de segunda a sexta feira em Sobral: no Jornal, na Rádio e na UVA. Retornava na tarde da sexta feira e já passava numa comunidade rural.  Á noite já havia Missa em Aranaú, também sábado e domingo. As manhãs e tardes eram dedicadas às Comunidades Rurais. Que maravilha! Depois de dois anos neste movimento, fizemos uma avaliação com todas as comunidades. Meu curso de sociologia me havia treinado em fazer e apurar pesquisa.

            Reuni numa Sala grande, representantes de todas as Comunidades e Capelas e distribuí com todos, alguns questionários bem explicados, tirando dúvidas e pedindo que respondessem, anonimamente, contanto que externas-sem a verdade. Parti do Evangelho de Lucas 9,18-20 em que Jesus pergunta aos discípulos: “quem diz o povo que eu sou? E vós, quem dizeis que eu sou”?

01) Você observa alguma mudança (positiva ou negativa) nesses 02 anos?

02)  Você aprendeu algo novo? Dê exemplo. Se não, qual a causa?

03)  Que defeito grande você observa em seu Vigário? Sugira uma melhora.

04)  Que coisa boa, por acaso, ele está fazendo que pode continuar?

05)   Seria melhor ficar sem ele? Voltar a ser como era antes ou vir outro?

Na semana seguinte, voltaram com o resultado, altamente confiante, positivo e bom que deu novo rumo àquela área pastoral. Pena é que eu só fiquei lá por mais oito meses. O novo bispo, D. Fernando me chamou.

Tenho ainda os resultados comigo com data de 09 de Abril de 2005. Talvez esta pequena mostra lhes faça entender que eu tenha uma visão de mundo, um tanto diferente da compreensão que se tem a respeito de um Padre.

            Todos temos uma formação básica: bíblica, catequética, canônica, filosófica, teológica, mariológica e litúrgica para desempenhar a função sacerdotal. Eu acrescentei a este “curriculum”, uma formação Sociológica, com as graduações acadêmicas e com especialização em Religiosidade Popular. Desde o meu Seminário Maior, em Olinda, com D. Helder, D. Francisco, Dom Marcelo Carvalheira e com a atualização dos estudos do Concílio Ecumênico Vaticano II, eu tentei me aprofundar numa parte interessantíssima da Pastoral da Igreja, que é sua Religiosidade Popular. Minha ida à Terra Santa, a Fátima, a Lourdes, a Medjugorge, às Catacumbas Romanas, aos roteiros de São Paulo-Apóstolo, incluindo todas as Comunidades visitadas por ele e minhas andanças por onde passava Fr. Damião, ou passara Pe. Cícero, S. Francisco e Fr. Pio, enfim, vi tudo o que estivesse ligado a tais santos, canonizados ou não, mas que o povo os tem como santos e os respeita e divulga como tais.

            Certamente, todas estas influências, todos os conhecimentos armazenados e todo o acompanhamento missionário de cada um me tornaram alguém diferenciado na divulgação da Palavra de Deus. Sou muito grato a vocês que me oportunizaram na prorrogação final, dividir esta reflexão com todos. Grato!                                                      


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