O APOIO DA IGREJA A EXILADOS POLÍTICOS,
NA DITADURA!
Por causa do 1º de Abril:
60 anos do Golpe Militar de1964 e do dia 03, cem anos do nascimento de D.
Francisco, 2º Bispo de Afogados da Ingazeira-PE, comecei uma série de artigos,
mostrando os golpistas ”pretendendo com a
força, vencer os que tinham a fé”. Exemplifiquei com casos concretos: em
Afogados, em Pernambuco, no Brasil e no Mundo como vocês acompanharam.
Dentro do mesmo tema e esquema seguidos, gostaria de aprofundar a reflexão iniciada porque lendo para amigos que não me haviam lido nesse blog, encontrei pessoas, até esclarecidas e algumas, com cursos superiores, que ignoravam ter existido a conhecida “época de chumbo”, tão recente entre nós.
Nas proximidades do ano
2024, os que havíamos resistido à ditadura, começamos a nos preparar para
divulgar, mais intensamente, os terríveis fatos, acontecidos na inesquecível e
terrível “época de chumbo”,
internamente no Brasil e externamente, pelo mundo afora, ajudando nossos irmãos
no exílio.
Num desses encontros de finais de semana, anterior ao ano 2024, reunimo-nos no aprazível e acolhedor Centro de Vivencias Raio de Sol na praia de Quixaba, Município de Aracati, entre Canoa Quebrada e Majorlândia.
No encontro na Quixaba: Mons. Assis Rocha, Fred, Ruth, Barbara e João de Paula
O Professor Leunam Gomes, responsável pela Coluna Primeiro Plano, deste blog, o intitulou como “um reencontro histórico que, cerca de 50 anos depois, reuniu amigos que se conheceram no exílio, na Europa, foragidos pela ditadura militar, embora acolhidos pela Anistia Internacional ou por voluntários que se dispuseram em atendê-los”.
À época, eu estava lá,
com eles, sempre acompanhado de um colega e irmão no sacerdócio, Padre José
Maria, que já está com Deus. Naquele Encontro de Quixaba, eu estive presente,
fisicamente, embora o Padre Zé-maria tivesse sido lembrado, o tempo todo, pela
saudade, pelo seu testemunho e pelas inúmeras cartas que dirigia aos exilados,
de qualquer país onde ele estivesse.
Todas essas correspondências foram entregues ao Professor Leunam para
que ele pudesse sistematizá-las, organizar seus conteúdos e dar-lhes uma forma
literária para uma possível divulgação que historiasse o exílio de cada um e o
alento que tinham através de pessoas ou de instituições solidárias.
Entre estas, estava o
casal alemão, Fred e Bárbara que, dentre outros voluntários alemães,
moraram no Nordeste Brasileiro ao tempo em que a ditadura acontecia, fazendo-os
não só conhecer os horrores do regime militar, como também, ao voltarem, se
solidarizarem com os brasileiros que, lá fora, sofriam a solidão e os horrores
do exílio e muito fizeram por eles.
Além de lhes prestarem
assistência oficial, pela Anistia Internacional, ainda lhes ajudavam,
pessoalmente, providenciando soluções práticas para problemas de adaptação,
interpretação da língua, diálogo entre órgãos oficiais, enfim, Fred e Bárbara, Juarez
e Gabriela e outros alemães que sabiam bem as duas línguas, ajudaram,
fraternalmente, a brasileiros que tinham dificuldades de comunicação ou de
adaptação em terras estrangeiras.
Outro assunto que muito
nos tocou no “Reencontro de Quixaba”
foi a recordação do Frei Tito de Alencar e sua morte. Já havíamos feito sua
memória, em abril do ano passado, numa “live”,
que reuniu o Dr. João de Paula, o Prof. Leunam e Eu, em Diálogos pela Democracia, numa promoção da Comissão Especial pela Anistia: Wanda Sidou.
Lembro bem que Tito de
Alencar Lima nascera em Fortaleza – CE, aos 14/09/1945. Pelos seus 18 anos, já
fazia parte do Regional NE II da Juventude Estudantil Católica e ia muito
ao Seminário de Olinda onde estudávamos.
Com o golpe militar de
1964, ele ia fazer 20 anos no ano seguinte, mas por causa de seu posicionamento
político de conscientização, alimentado pela Ação Católica da Igreja, e pelo suporte
ideológico do governo de Pernambuco, foi perseguido e vigiado. Em 1966
ingressou no noviciado dos Dominicanos em Belo Horizonte e depois da profissão
dos votos, entrou na USP para estudar filosofia. Em 1968 ficou mais vigiado
ainda e, ao participar do 30º congresso da UNE, em Ibiúna tornou-se alvo de
perseguição da ditadura. Foi preso e exilado.
Àquela época, desde
1973, estávamos em Roma: Padre José Maria e Eu. Já começávamos a tomar contato
com ‘minorias abraâmicas’ de D.Helder
e com os ‘refugiados políticos
brasileiros’. Já havíamos tentado visitar Frei Tito na França (em Lyon e Éveux).
Tudo em vão. Um colega dele - Pe. Zamagna
– ainda nos levou lá, mas ele já estava ‘desequilibrado’.
Nem conheceu o colega.
De volta a Roma, aos 10
de Agosto de 1974, chega a fatídica notícia: os nomes que lhe vinham à mente (FLEURI,
DOPS, OBAN, CHOQUE ELÉTRICO, PALMATÓRIA, TELEFONE) que tanto o atordoavam,
levaram-no à morte.
A notícia que se
espalhou era que ele se suicidara. Não o tínhamos visto, quando o fomos visitar.
Mas entendemos logo que não foi um suicídio. Será que as torturas, os choques
elétricos: na língua (dizendo ser a Hóstia), no ânus ou no pênis, ou os ‘telefonemas’ i.é, as palmadas com
as duas mãos nos dois ouvidos, até estourarem, ou os tratamentos grosseiros dos
“Fleuris”, da Oban, do DOPS ou dos demais torturadores ou formas de torturas
não o levaram ao desespero e a sentir que era melhor morrer? Foi consciente o
seu “suicídio” ou ele “foi suicidado” ou “levado ao suicídio”?
Comentei isto no Centro
de Vivencias Raio de Sol e na “live –
Diálogos pela Democracia” com o Dr. João de Paula, Leunam e Eu, como falei
antes. No entanto, acrescentei alguma coisa que a imprensa jamais registrou
que, por certo, muito colaborou para a atitude de Frei Tito, sem ele ter
gritado um ai.
Quando o Frei Tito foi
banido do Brasil, em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos,
trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, pelo ditador Médici, seguiu
para o Chile e depois pra Itália. Em Roma, procurou o Colégio Pio Brasileiro,
onde só habitavam brasileiros. Todos falavam português e italiano, onde ele não
teria muita dificuldade de comunicação. Mas os padres jesuítas se recusaram em
recebê-lo, alegando ser ele, comunista.
Dá pra entender? Foi então para um Convento dos Padres Dominicanos, em Lyon, na
França. Não sabia francês, não ouvia bem, por causa dos ouvidos estourados.
Como aprender outra língua? Haja sofrimento! Escondia-se de tudo e de todos.
Subia nas árvores mais altas e por lá se refugiava.
Submeteu-se a um
tratamento psiquiátrico e foi piorando, até o gesto fatal, aos 10 de agosto de
1974. Foi isto um “suicídio” ou desespero? Foi ele o causador de sua morte ou
há muitos atores em seu lugar?
E mais ainda: quando
chegou a notícia de sua morte em Roma, os mesmos Padres Jesuítas - que dirigiam
o Colégio Brasileiro - discordaram da concelebração que os colegas fizemos,
alegando ser ele um suicida. Coitado! Outrora, comunista. Agora, suicida.
Os ‘ditadores’ ficaram isentos
e anistiados.
Depois de 60 anos da ditadura, 50 anos da morte de Frei Tito, da “anistia” de tantos criminosos; depois da abertura democrática que levou à eleição, filhotes da ditadura, que até ameaçam novo golpe, estamo-nos deparando com intromissão indébita de bilionário estrangeiro, querendo se meter no supremo para dar-lhe ordens, não estará na hora de batermos a mão na consciência e conduzir melhor nossos destinos? Não se pode mais retardar.
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