O Dom que vive em nós
Ao terminar, em 1959, meu
Seminário Menor, em Sobral, concluindo os 1º e 2º graus, entrei no Seminário
Maior de Fortaleza, em 1960, para iniciar os Cursos Superiores ou Acadêmicos,
necessários para as ordens sacerdotais. Éramos chamados de “Cursistas”: aqueles que fariam Cursos de Filosofia, Teologia,
Direito Canônico, Sagradas Escrituras, Grego Bíblico, Liturgia, Canto
Gregoriano e tudo o mais que nos diferenciava dos estudos iniciais em Sobral.
A gente começou a se sentir tão diferente, que o Seminário Maior nos fez entender o que já seria a “maioridade”. Tínhamos que dar logo um passo à frente, talvez maior que nossa perna. Fizemos o 1º Ano de Filosofia em Fortaleza e, em 1961, com um grupo maior de motivados, combinamos com nossos bispos, até de outras Dioceses, e nos transferimos para o Seminário Regional do Nordeste – onde funcionaria o ITER (Instituto de Teologia do Recife) com um renomado Corpo Docente, formado na Europa. A própria sigla: ITER, já sugeria: é o caminho. É um novo caminho para nós.
Um santo e bom professor, Padre Paulo Ponte, falou-nos da equipe de direção e docente do ITER. Muitos tinham sido seus colegas, em Roma, inclusive o Reitor, Padre Marcelo Carvalheira era muitíssimo seu amigo. E foi logo nos orientando e pondo em prática a busca dos Caminhos do ITER.
Foi
uma grande debandada. Muitos deixaram o Seminário. Uns 26 – 28 pegaram o nosso
caminho. InTERagimos por novos rumos. Sem olhar pra traz.
Olinda
era e continua sendo, encantadora. O Seminário bem localizado nos sugeria um
mergulho na história. Todos os cursos eram bem conduzidos e os professores, os
sacerdotes e os leigos eram bons exemplos para todos nós.
Em 1964, os que havíamos concluído a Filosofia, já estávamos cursando Teologia e as demais disciplinas, sobretudo empolgados com os Documentos Conciliares que nos encaminhavam na Igreja do Vaticano II. Veio o Golpe Militar para atrapalhar a todos: os que estudávamos, os que nos ensinavam e eram perseguidos e exilados, quando tivemos a felicidade de receber como Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara. No meio do sufoco e de tantas interrogações e dúvidas, ele nos disse: ”quanto mais negra for a noite, mais clara será sua aurora”. E chamou-nos a todos para buscar a claridade.
Nós que tivemos a graça de conviver com ele - faz 60 anos - de ter acompanhado seus passos, à época, e que estamos esperando a sua Canonização ou declaração de Santidade, pela Igreja, nós damos testemunho sobre Dom Helder que tanto nos ensinou a “fazer de um limão, uma limonada”. Que deu tanta esperança a seu povo. Não podemos traí-lo.
Há dois anos, passei uma semana em Recife, à época do Natal. Vi amigos, revi locais que me deram tanta saudade e pessoas que, fazia tanto tempo, não as via. Foi muito bom. Por acaso, tive notícias do Dr. Pedro Eurico, que havia escrito um livro sobre D. Helder, recordando sua passagem pelo Recife e como se havia integrado à Arquidiocese, a convite do próprio Dom Helder, na defesa de presos políticos, moradores de ocupações de terra, de gritantes injustiças institucionalizadas e dos direitos humanos, tudo em sintonia com as ideias e as atitudes defendidas pelo Dom. O livro se intitulava: O Dom que vive em nós. Nessa semana, em Recife, dividi bem meu tempo entre visitas a amigos e recebi outros no Lar Sacerdotal onde estava hospedado. Li-o todo, nas horas livres, no conteúdo literário, organizado pelo Dr. Pedro Eurico, para aproveitar melhor toda a temática da obra que eu tinha em mãos: 445 páginas de leitura e umas 50 para contemplar as fotografias. Que maravilha!
Entre os 23 entrevistados havia alguns nomes de pessoas que eu não conhecia, embora tivesse ouvido falar nelas. Mas, encontrei alguns não só, ligados a mim, pela amizade, como me senti feliz por vê-los em sintonia com o que aprendi e até vivenciei, pessoalmente, ao lado do Dom. Foi assim em Amaraji e Primavera, onde fui pároco. Também em Afogados da Ingazeira e Serra Talhada para participar de solenidades e palestras, a convite de Dom Francisco; e de 1973 a 1976, quando estudei em Roma, recebendo-o no aeroporto ou embarcando-o de volta depois de proferir palestras, ou dar entrevistas em canais de televisão, ou encontrar-se com suas equipes de “minorias abraâmicas” ou com grupos de refugiados políticos brasileiros na época de chumbo da ditadura militar aqui no Brasil. Dom Helder lhes levava mensagens de suas famílias e trazia, de volta, correspondências para elas.
Gostei muito de todos os depoimentos, sobretudo daqueles que eu conhecia o depoente. Até tentei conseguir algum contato telefônico para estes a fim de comentar o que eles disseram e o carinho e destemor do próprio Pedro Eurico na condução da mensagem que ele queria passar.
Se eu pudesse, entraria
em contato com Leda Alves, Padres Reginaldo Veloso, Ernane Pinheiro e Vito
Miracapillo; com D. Sebastião Armando, biblista, meu colega de
seminário, em Olinda, como também Abdalaziz Moura e Bosco.
Graças a Deus, reatei-o
com Pedro Eurico. Tenho recordado duros momentos que presenciei: em Ribeirão,
nas escaramuças de Donos de Engenhos que invadiram a Matriz, em plena
celebração da Missa, exigindo a expulsão do Padre Vito, de Ribeirão e do
Brasil. Infelizmente, conseguiram.
Numa periferia, em ocupação de terra, junto a moradores indefesos, o Dr. Pedro Eurico - enfrentando um trator que teimava em derrubar as casas e, na iminência de atropelá-lo - resistia diante do Dom, de Padre Edvaldo, Luciano Bezerra (um acadêmico de direito, estagiário na Comissão de Justiça e Paz, hoje Defensor Público) e o tratorista não o matava, porque seria um absurdo: além de derrubar os casebres, sacrificaria um corajoso advogado diante de tantas testemunhas. Lembro-me tanto disto, meu amigo.
O fato que chamou a atenção de todos os depoentes foi o assassinato e funeral do Padre Antônio Henrique (1969) meu colega de seminário, nascido no mês de outubro de 1940, como eu. O féretro partiu da Matriz do Espinheiro, até o Cemitério da Várzea, por 12 km, ocupando toda a mão direita da Av. Caxangá. Dom Helder presidiu tudo, pedindo o silencio total de todos. Seria a melhor maneira de protestar contra a ditadura: o silencio. E conseguiu.
O Pe. Antônio Henrique, com apenas 29 anos de
idade, foi sequestrado, torturado e, brutalmente, assassinado pela ditadura
militar. A atuação do Dr. Pedro Eurico, à frente da Comissão de Justiça e Paz
foi fundamental na defesa de Dom Helder e de sua Arquidiocese a quem o mártir,
Pe. Henrique servia, relacionando “política e religião”, lutando por moradia e
para que os pobres fossem evangelizados pelos pobres, como defendia o Dom. O
Dr. Pedro Eurico assumia esta mentalidade, sabedoria e postura de Dom Helder como
sua própria bandeira e o comparava a tantos outros símbolos de resistência,
como: Luther King, Gandhi, Mandela ou a mais recente líder Malala Yousafzai
que, segundo “famoso negacionista” não passa de uma “pirralha”, enquanto os
demais foram “agitadores” e até “energúmeno” como apelida a Paulo Freire. É a
mentalidade de alguns que não querem reverenciar D. Helder nos altares.
Estou muito feliz, meu
caro Pedro Eurico, pelo rápido contato que tive com o seu livro. Li-o todo, sem
pular uma página. Gostei, imensamente. Revi a história que tanto conheço e
vivi, em boa parte, junto ao Dom. Já a indiquei para que outras pessoas também
leiam. Neste momento em que o Dom está sendo indicado para o culto da Igreja,
rumo à santidade, já o reverenciamos como “Servo de Deus” e como “Venerável”.
Todo o acervo está em Roma: 60.520 páginas digitalizadas e impressas, como
falamos sábado passado. Faltou só O Dom que vive em nós, porque
ainda não tinha sido editado.
Tudo o que foi pra Roma
está sendo estudado, minuciosamente, para que seja dado o 3º passo: o da
Beatificação. Para isto, tem que haver um milagre, cientificamente, comprovado.
Depois, o último passo: a Canonização. A prova para outro milagre tem que ser a
fé. É algo extraordinário que nem a Ciência comprova. Só assim o nosso dom
será declarado Santo. Toda a nossa torcida é para que isto aconteça. O mundo
todo vai venerá-lo nos altares.
Enquanto isso, vamos
invocar ao Servo de Deus e ‘Venerável’ D.Helder! Rogai por
nós! Mantenhamo-nos unidos. Com o nosso
Dom, venceremos.
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