“A Igreja celebra o nascimento de João como um
acontecimento sagrado.
Assim que iniciamos o Mês de Junho,
vêm-nos logo á mente, reflexões sobre o folclore, as festas animadas com
fogueira, milho assado, forró e as famosas e tradicionais Festas Juninas. As
famosas Cidades Sertanejas se candidatam logo ao troféu de Capital do Forró e a
disputa é aguerrida na conquista do título: Campina Grande, na Paraíba;
Caruaru, em Pernambuco, Mossoró, no Rio Grande do Norte; São Luís, no Maranhão
e por aí vão as competições que se prolongam para aquém e além do mês junino.
O que dissemos sobre Santo Antônio, queremos repetir sobre São João e, mais tarde sobre São Pedro porque, tais santos comandam todas as festividades folclóricas por todo o Nordeste e pelo Brasil afora.
Festa de São João já é
sinônimo de Festa Junina. E o folclore, a sabedoria popular, as danças
populares e folguedos do povo e sua criatividade funcionam até amanhecer o dia.
Mesmo que São João ou São Pedro não nos tenham deixado tradição folclórica, ou
Santo Antônio nada tenha a ver com casamento, a criatividade popular e a
animação própria do povo, criaram o mito que não se apaga de nossas mentes.
Quisemos juntar logo à reflexão sobre Santo Antônio,
a homenagem – neste sábado, 22 - a São João, outro grande santo junino, festejado
pelo nosso folclore sertanejo, nesta segunda feira, 24 de junho, dia do seu
nascimento.
Sua mensagem nos chegou pelo seu modo de
ser, de falar, de vestir, de se apresentar ao público e, sobretudo de tomar
posição ética e política diante do adultério do Rei Herodes.
De sua infância, nada se sabe. Só
aparece aos 30 anos, chamando muito, a atenção de todos, pela vestimenta de
couro de camelo, pelo alimento de gafanhoto com mel, e por percorrer toda a
região do Jordão, pregando um batismo de arrependimento para remissão dos
pecados.
Falava, comunicava ou transmitia
uma mensagem, dizendo que depois dele viria alguém muito mais poderoso, de
quem não era digno de lhe desatar a correia das sandálias. Era, realmente, a
voz que clamava no deserto.
Pelas respostas que João dava a seus
interlocutores, a vinda de Jesus traria também uma mensagem política, ética e
justa, com fortes implicações sociais: quem tem duas túnicas, dê uma a quem
não tem, e quem tem o que comer, faça o mesmo. Não exijais mais do que vos foi
ordenado. Não pratiqueis a violência, nem roubeis a ninguém. Contentai-vos com
o vosso salário. Raça de víboras. Fazei penitência, pois está próximo o reino
de Deus.
Assim como ele enfrentou o próprio Rei, reclamando
de seu comportamento moral e foi levado à prisão, assim também devemos ter
coragem de reclamar pelo erro de quem quer que seja, visando uma mudança na
comunidade. Muitas pessoas têm medo de imitá-lo e até, metem medo em quem tem
coragem de denunciar injustiças, falcatruas e outros erros. Ele saiu na frente.
Era realmente “o precursor”. Perguntavam até se ele não era o Cristo.
Ele dizia que não, mas queria que Cristo crescesse e ele diminuísse.
Jesus ouviu dizer que João fora preso devido
sua ousadia em denunciar o adultério do Rei. Saiu então de Nazaré e foi pra
Cafarnaum, onde começou a pregar, usando o mesmo linguajar de J. Batista: “fazei
penitência, pois o reino de Deus está próximo”. E mais um elogio do maior
comunicador do mundo: “entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior
que João Batista”.
Ao falarmos
sobre Sto. Antônio, 12 séculos depois de João. Batista relevamos a sua coragem
ao denunciar o pecado, defender o pobre e punir o rico.
Com João,
muito antes, o esquema já era o mesmo. Releiam as citações acima. Desde o
começo, foi “este” o modelo deixado por Jesus. Foi Jesus quem mudou, ou fomos
nós, seus seguidores, que perdemos o foco?
São João é
tão único em seu modo litúrgico de celebrar, que temos uma data para o seu
nascimento (24/06) e uma data para a sua morte (29/08).
Por que se dá
tanto valor ao folclore, inventado por nós, e não valorizamos o significado
divino que têm essas festas e outras de nosso ritual?
A festa de
São João Batista deveria ser uma preparação para o advento de Jesus, pois até
as circunstancias relatadas no Novo Testamento são também milagrosas. Senão,
vejamos: o único relato bíblico sobre o nascimento do Profeta está no Evangelho
de Lucas. Os pais de João, Zacarias, sacerdote judeu, e Isabel não tinham
filhos e já haviam passado da idade de tê-los.
Durante uma
jornada de trabalho, servindo no templo de Jerusalém, ele foi escolhido por
sorteio para oferecer incenso no Altar Dourado no Santo dos Santos. O Anjo
Gabriel apareceu-lhe e anunciou que sua esposa daria à luz uma criança e que
ele deveria chamá-lo João. Porém, por não ter acreditado na mensagem de Gabriel,
Zacarias perdeu a voz. Com o nascimento de seu filho, seus parentes quiseram
então dar-lhe o nome do pai, Zacarias, que sem poder falar, escreveu: “seu nome
é João”. Sua voz lhe foi devolvida.
A importância
desse nome: JOÃO está no seu significado: Deus é propício.
Tanto que, depois de ter obedecido o comando de Deus, Zacarias recebeu o dom da
profecia e previu o futuro de João, entoando o Benedictus, rezado ou cantado (quando em comunidade), todos
os dias, nas Completas, ou na Oração da Noite dos sacerdotes:
“Deixai, agora, vosso servo ir em paz,
Conforme prometestes, ó Senhor.
Pois
meus olhos viram vossa salvação
Que
preparastes ante a face das nações:
Uma luz que brilhará para os gentios
E para a glória de Israel, o vosso povo.
Gloria
ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como
era no princípio, agora e sempre. Amém.
E para encerrar,
tal Comentário, reporto-me a Santo Agostinho, em um de seus sermões, intitulado
‘Voz do que clama no deserto’
bem apropriado para a nossa reflexão:
“A Igreja celebra o
nascimento de João como um acontecimento sagrado. Dentre os nossos
antepassados, não há nenhum cujo nascimento seja celebrado solenemente.
Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: tal fato tem, sem dúvida,
uma explicação. E se não a soubermos dar tão bem, como exige a importância desta
solenidade, pelo menos meditemos nela mais frutuosa e profundamente. João nasce
de uma anciã estéril. Cristo nasce de uma jovem virgem.
O pai de João não acredita que ele possa
nascer e fica mudo. Maria acredita e Cristo é concebido pela fé. Eis o assunto
que quisemos meditar e prometemos tratar. E se não formos capazes de alcançar
toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de aptidão ou de tempo,
aquele que fala dentro de vós, mesmo em nossa ausência, vos ensinará melhor.
Nele pensais com amor filial, a ele recebestes no coração, dele vos tornastes
templo.
João apareceu, pois, como ponto de
encontro entre os dois testamentos, o antigo e o novo. O próprio Senhor o chama
de limite quando diz: a lei e os
Profetas até João Batista (Lc. 16, 16).
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