sábado, 31 de maio de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

      VEM AÍ ENCÍCLICA       “RERUM DIGITALIUM”

No meu Comentário de Sábado passado, empolgado como estou com o início do Pontificado de Leão XIV, tentei externar a minha alegria, na acolhida e compreensão dos motivos que o levaram a fundamentar sua ação missionária, não só na Encíclica Rerum Novarum que foi fundamental na linha pastoral de seu predecessor, Leão XIII, como foi a tônica doutrinária dos Papas que se lhe seguiram, até a revolução causada por Francisco e sua ação evangelizadora.

 

            O Papa Leão XIV ainda foi além: desafiou-nos a avançar no caminho das Rerum Digitalium. Para isso, já está atualizando toda a estrutura de suas secretarias de Estado, dos Arquivos Pontifícios para darem mais segurança e agilidade ao Estado Cidade do Vaticano. Não será isso, importantíssimo para maior eficácia na Missão e nas ações da Igreja? Não era a hora de acontecer?

            No sábado, 24/05, ao encerrar o meu Comentário, eu prometia dar continuidade ao assunto iniciado sobre as Coisas Novas, comentadas pelos Papas, depois de Leão XIII, indo até Francisco; mas acrescentando a novidade Prevostiana, isto é, indo até a Rerum Digitalium.

            Ao parar no Santo João XXIII, citei dois feitos de Sua Santidade que, em tão pouco tempo marcaram o seu Papado: a Encíclica Mater et Magistra – nos 70 anos da  Rerum Novarum - e a abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II.  Ambos os feitos chamaram a atenção para duas palavras-chave: Comunidade e Socialização em que ele convocava a Igreja para colaborar e construir uma comunhão autêntica.

            Dez anos depois, o Papa Paulo VI promulgou uma Carta Apostólica - Octogesima Adveniens – que preparava a chegada da Encíclica Populorum Progressio, referindo-se à mudança profunda do mundo e ao crescimento excessivo urbano. Dizia-se preocupado com “o crescimento excessivo das cidades, embora acompanhasse sua expansão industrial, sem se identificar com ela. Baseava-se na pesquisa tecnológica e na transformação da natureza”.

            Diante de tantas inquietações, Paulo VI ainda se expressava: “a industrialização continua seu caminho sem parar, demonstrando uma criatividade inexaurível. Enquanto algumas empresas se dissolvem e se concentram, outras se extinguem ou se deslocam, criando novos problemas sociais: desemprego profissional ou regional, requalificação e mobilidade das pessoas, adaptação permanente dos trabalhadores, desigualdade de condições nos vários setores da indústria”.

            Até aqui, já se foram 80 anos “daquele chute inicial” de que falamos ao nos referirmos a Leão XIII. Relendo o que já comentamos dos Papas que se seguiram, é claro que não estamos encontrando uma “unanimidade” entre eles, mas não queremos dizer que eles estão desunidos na doutrina social que nos repassam. Unidade na Igreja, sim. Mas, uniformidade, isso não. Afinal, são pessoas diferentes, culturas diversas e mundo, Igreja, sociedade, ideologia e até sentimentos vão sofrendo as mutações de cada época. Isso não é para invalidar a nossa reflexão. É para completá-la. Vamos em frente.

            Chegamos ao 90º Aniversário da Rerum Novarum. É a vez do Papa João Paulo II. Ele nos chega com a Encíclica Laborem Exercens. “referindo-se aos novos progressos nas condições tecnológicas, econômicas e políticas que, segundo muitos especialistas, influenciarão o mundo do trabalho e da produção, não menos do que a revolução industrial do século passado”.

            Dez anos depois, o mesmo João Paulo II lança a Encíclica Centesimus Annus como ele mesmo disse: “é uma releitura da Encíclica Leonina”.

            E acrescenta: “vamos olhar para trás. Vamos redescobrir a riqueza dos princípios fundamentais formulados na Rerum Novarum. Mas também convido a olhar ao redor, para as coisas novas que nos cercam e nas quais nos encontramos imersos, muito diferentes das coisas novas que caracterizaram a última década do século passado. Por fim, convido a olhar para o futuro, quando já podemos vislumbrar o 3º Milênio da era cristã, cheio de incógnitas, mas também de promessas que apelam à nossa imaginação e criatividade”.

            Entre João Paulo II e Francisco tivemos o Pontificado de Bento XVI. Era um famoso teólogo alemão, professor de Universidades que deixou a ala mais conservadora da Igreja e o mundo político mais reacionário, de certo modo, esperançosos de que a já histórica Doutrina Social da Igreja sofreria abalos, exatamente porque não tinham aquela visão eclesial Divina: ‘não tenhais medo: eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos’ (Mt.28,20).

            Até ‘a releitura da Encíclica Leonina’, sugerida por João Paulo II, ali acima, confirma esta citação de Mateus. O Papa Bento XVI lançou a Encíclica Caritas in Veritate para calar conservadores e surpreender reacionários, ao retratar várias mudanças que afetavam o tecido social e trabalhista: “o conjunto de mudanças sociais e econômicas significa que os sindicatos enfrentam maiores dificuldades para cumprir sua tarefa de representar os interesses dos trabalhadores, também porque os governos, por razões de utilidade econômica limitam as liberdades sindicais ou a capacidade de negociação dos próprios sindicatos. As redes tradicionais de solidariedade encontram, assim, obstáculos crescentes a serem superados”. E ainda acrescenta: “o convite da Doutrina Social da Igreja, a partir da Rerum Novarum – para criar associações de trabalhadores para defender direitos – deve, portanto, ser honrado hoje ainda mais do que ontem, antes de tudo, dando uma resposta pronta e clarividente à urgência de estabelecer novas sinergias em nível internacional e local” e assim Bento XVI continuou a surpreender e a calar conservadores e reacionários.

            Ao fazer essa pequena ligação entre João Paulo II e Bento XVI, já fizemos algo semelhante entre Bento XVI e Francisco (no 1º sábado de Maio) quando falamos da Encíclica Lumen Fidei, assinada pelos dois (a 04 mãos – no dia 29/06/13) colocando em relevo, a preferencia e o cuidado com os pobres, especialmente, com os migrantes, como última mensagem do Papa que se ia, pela renuncia, e o Papa que tomava posse, na chegada. Não foi bonito? Mais uma pequena mostra de unidade e não, de uniformidade.

            Bento XVI permaneceu morando com Francisco, até morrer a 31.12.22 e Francisco nos ofereceu aos 24.05.2015 sua grande Encíclica Laudato Si sobre o Cuidado da Casa Comum. Segundo Comentários àquela época, a Laudato Si era a Rerum Novarum na prática.

            Aos 03/10/2020 Francisco nos chega com a Encíclica Fratelli Tutti, conclamando o mundo a vivermos como irmãos: sem guerra e buscando a paz.

            Aos 24/10/2024, mais uma Encíclica de Francisco: Dilexit nos, sobre o amor do Coração de Jesus para conosco. O amor é necessário para que se elimine a guerra e se viva em paz.

            Esses temas permearam toda a Missão de Francisco, que via nas nossas tensões sociais e a nossa falta de diálogo, de entendimento, de sentar para conversar, toda a razão da efervescência social que tanto nos separa.

            Agora nos vem o Papa Leão XIV pedindo a humanização daquilo que mais nos afasta do contato pessoal e humano, que é a linguagem digital. É o que há de menos comunitário. É o apelo à solidão. Ficar sozinho vai resolver? 

  






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