VEM AÍ
ENCÍCLICA “RERUM DIGITALIUM”
No meu Comentário de
Sábado passado, empolgado como estou com o início do Pontificado de Leão XIV,
tentei externar a minha alegria, na acolhida e compreensão dos motivos que o levaram
a fundamentar sua ação missionária, não só na Encíclica Rerum Novarum que foi fundamental na linha pastoral de seu
predecessor, Leão XIII, como foi a tônica doutrinária dos Papas que se lhe
seguiram, até a revolução causada por Francisco e sua ação evangelizadora.
O Papa Leão XIV ainda foi além:
desafiou-nos a avançar no caminho das Rerum Digitalium. Para isso,
já está atualizando toda a estrutura de suas secretarias de Estado, dos
Arquivos Pontifícios para darem mais segurança e agilidade ao Estado Cidade do
Vaticano. Não será isso, importantíssimo para maior eficácia na Missão e nas
ações da Igreja? Não era a hora de acontecer?
No
sábado, 24/05, ao encerrar o meu Comentário, eu prometia dar continuidade ao
assunto iniciado sobre as Coisas Novas, comentadas pelos
Papas, depois de Leão XIII, indo até Francisco; mas acrescentando a novidade Prevostiana, isto é, indo até a Rerum Digitalium.
Ao
parar no Santo João XXIII, citei dois feitos de Sua Santidade que, em tão pouco
tempo marcaram o seu Papado: a Encíclica Mater et Magistra – nos 70 anos
da Rerum
Novarum - e a abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ambos os feitos chamaram a atenção para duas
palavras-chave: Comunidade e Socialização em que ele convocava
a Igreja para colaborar e construir uma comunhão autêntica.
Dez
anos depois, o Papa Paulo VI promulgou uma Carta Apostólica - Octogesima
Adveniens – que preparava a chegada da Encíclica Populorum Progressio,
referindo-se à mudança profunda do mundo e ao crescimento excessivo urbano.
Dizia-se preocupado com “o crescimento
excessivo das cidades, embora acompanhasse sua expansão industrial, sem se
identificar com ela. Baseava-se na pesquisa tecnológica e na transformação da
natureza”.
Diante
de tantas inquietações, Paulo VI ainda se expressava: “a industrialização continua seu caminho sem parar, demonstrando uma
criatividade inexaurível. Enquanto algumas empresas se dissolvem e se
concentram, outras se extinguem ou se deslocam, criando novos problemas
sociais: desemprego profissional ou regional, requalificação e mobilidade das
pessoas, adaptação permanente dos trabalhadores, desigualdade de condições nos
vários setores da indústria”.
Até
aqui, já se foram 80 anos “daquele
chute inicial” de que falamos ao nos referirmos a Leão XIII. Relendo o
que já comentamos dos Papas que se seguiram, é claro que não estamos
encontrando uma “unanimidade” entre eles, mas não queremos dizer que eles estão
desunidos na doutrina social que nos repassam. Unidade na Igreja, sim. Mas,
uniformidade, isso não. Afinal, são pessoas diferentes, culturas diversas e
mundo, Igreja, sociedade, ideologia e até sentimentos vão sofrendo as mutações
de cada época. Isso não é para invalidar a nossa reflexão. É para completá-la.
Vamos em frente.
Chegamos
ao 90º Aniversário da Rerum Novarum. É a vez do
Papa João Paulo II. Ele nos chega com a Encíclica Laborem Exercens. “referindo-se aos novos progressos nas
condições tecnológicas, econômicas e políticas que, segundo muitos
especialistas, influenciarão o mundo do trabalho e da produção, não menos do
que a revolução industrial do século passado”.
Dez anos depois, o mesmo João Paulo II
lança a Encíclica Centesimus Annus como ele mesmo disse: “é uma releitura da Encíclica Leonina”.
E
acrescenta: “vamos olhar para trás. Vamos
redescobrir a riqueza dos princípios fundamentais formulados na Rerum
Novarum. Mas também convido a olhar
ao redor, para as coisas novas que nos cercam e nas quais nos encontramos
imersos, muito diferentes das coisas novas que caracterizaram a última década
do século passado. Por fim, convido a olhar para o futuro, quando já podemos
vislumbrar o 3º Milênio da era cristã, cheio de incógnitas, mas também de promessas que apelam
à nossa imaginação e criatividade”.
Entre
João Paulo II e Francisco tivemos o Pontificado de Bento XVI. Era um famoso
teólogo alemão, professor de Universidades que deixou a ala mais conservadora
da Igreja e o mundo político mais reacionário, de certo modo, esperançosos de
que a já histórica Doutrina Social da Igreja sofreria abalos, exatamente porque
não tinham aquela visão eclesial Divina: ‘não
tenhais medo: eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos’
(Mt.28,20).
Até
‘a releitura da Encíclica Leonina’,
sugerida por João Paulo II, ali acima, confirma esta citação de Mateus. O Papa
Bento XVI lançou a Encíclica Caritas in Veritate para calar
conservadores e surpreender reacionários, ao retratar várias mudanças que
afetavam o tecido social e trabalhista: “o
conjunto de mudanças sociais e econômicas significa que os sindicatos enfrentam
maiores dificuldades para cumprir sua tarefa de representar os interesses dos
trabalhadores, também porque os governos, por razões de utilidade econômica
limitam as liberdades sindicais ou a capacidade de negociação dos próprios sindicatos.
As redes tradicionais de solidariedade encontram, assim, obstáculos crescentes
a serem superados”. E ainda acrescenta: “o
convite da Doutrina Social da Igreja, a partir da Rerum Novarum – para
criar associações de trabalhadores para defender direitos – deve, portanto, ser
honrado hoje ainda mais do que ontem, antes de tudo, dando uma resposta pronta
e clarividente à urgência de estabelecer novas sinergias em nível internacional
e local” e assim Bento XVI continuou a surpreender e a calar conservadores
e reacionários.
Ao
fazer essa pequena ligação entre João Paulo II e Bento XVI, já fizemos algo
semelhante entre Bento XVI e Francisco (no 1º sábado de Maio) quando falamos da
Encíclica Lumen Fidei, assinada pelos dois (a 04 mãos – no dia
29/06/13) colocando em relevo, a preferencia e o cuidado com os pobres,
especialmente, com os migrantes, como última mensagem do Papa que se ia, pela
renuncia, e o Papa que tomava posse, na chegada. Não foi bonito? Mais uma
pequena mostra de unidade e não, de uniformidade.
Bento
XVI permaneceu morando com Francisco, até morrer a 31.12.22 e Francisco nos
ofereceu aos 24.05.2015 sua grande Encíclica Laudato Si sobre o
Cuidado da Casa Comum. Segundo Comentários àquela época, a Laudato Si era a Rerum
Novarum na prática.
Aos
03/10/2020 Francisco nos chega com a Encíclica Fratelli Tutti, conclamando o mundo a vivermos como
irmãos: sem guerra e buscando a paz.
Aos
24/10/2024, mais uma Encíclica de Francisco: Dilexit nos, sobre
o amor do Coração de Jesus para conosco. O amor é necessário para que se
elimine a guerra e se viva em paz.
Esses
temas permearam toda a Missão de Francisco, que via nas nossas tensões sociais
e a nossa falta de diálogo, de entendimento, de sentar para conversar, toda a
razão da efervescência social que tanto nos separa.
Agora
nos vem o Papa Leão XIV pedindo a humanização daquilo que mais nos afasta do
contato pessoal e humano, que é a linguagem digital. É o que há de menos
comunitário. É o apelo à solidão. Ficar sozinho vai resolver?


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