“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro
pela vida”’.
Esta bela inspiração de
Vinicius de Morais, extraída de seu famoso e extenso “Samba da Bênção” me levou
à reflexão que quero fazer hoje. Inclui meu sobrinho bisneto e “neto do
coração”, João Murilo – menor de 18 anos, Carateca faixa preta, o Carateca Francisco
ATHOS Vasconcelos, ainda faixa verde, maior de 30 e o Carateca Pedro Heitor, 08
anos. O desencontro das idades não os torna maior ou menor atleta que o
outro. Mostra só a diferença de oportunidades. Os três e outros Atletas
do DOJÔ de Acaraú (sob a responsabilidade do Sensey Robson Regis) estão
convocados pela Confederação Esportiva e Educacional Brasileira de Karatê
(CEEBK) a participarem do Campeonato Pan-americano que se está realizando em
Natal – RN, dessa 4ª feira, dia 19, até Domingo, 23/11/25.
O João, por ser “meu neto do coração” eu o tenho comigo, desde seu
1º aninho de nascido. Desde os 05, faz Karatê; daí, a precocidade da faixa.
Ao ATHOS, eu conheço há 02 anos. É bom atleta. É maior. É casado
com a Prof.ª Maria Geiciane Araújo, formada em Pedagogia e Segurança do
Trabalho. Têm um filho: Pedro Heitor Araújo, já encaminhado no Karatê, faixa
laranja. O que lhes aconteceu? O que eu disse acima: ‘o bom uso das
oportunidades’. O Athos, para chegar ao estágio em que se encontra na
sustentação de sua família, junta ao estudo e trabalho da esposa, seu próprio
estudo e especializações: formador em Matemática e sua docência no Município de
Acaraú; especialista em Neuro Educação e Contabilidade Pública desde 2009 e é
Concludente do Curso de Ciências Contábeis.
Os 03 atletas (João, Athos e Heitor) independente de suas “cores
de faixa” e do Estado da Federação onde vivam, estão representando a CEEBK,
isto é, toda a Confederação Esportiva e Educacional de Karatê Nacional.
Mas eu gostaria de voltar ao Vinícius: meu ponto de partida.
Chamou-me a atenção, o nome de ATHOS: ‘era assim escrito, ou tinha
origem nos Atos dos Apóstolos’? Minha surpresa foi muito maior. Os
Atos dos Apóstolos narram fatos muito mais recentes. Têm menos de dois mil
anos.
O ATHOS que nomina o nosso atleta é antiquíssimo e se reporta à
Grécia antiga. Em nossos “encontros”, conversamos sobre a minha viagem à
Grécia, por 15 dias, dos quais, uma Semana Santa no Monte Athos. Nosso amigo já
sabia a origem do seu nome, mas não conhecia alguém que já tivesse passado por
lá. Num final de treino na Academia de Karatê, na cidade de Acaraú, onde o
Athos mora e trabalha com sua família, nas despedidas, descobrimos a novidade
do seu nome, sua origem e que, por acaso, eu tinha passado pelo Monte Athos, há
mais de 50 anos. Talvez na idade que o nosso ATHOS tem hoje. Eu estou com 85.
Ali mesmo surgiu-me a ideia de escrever sobre este fato. Imediatamente fui
coletando dados a respeito.
O Monte Athos, conhecido como Montanha Sagrada, abriga preciosos
tesouros artísticos: antigos manuscritos, ícones e afrescos pintados pelos mais
ilustres representantes da pintura bizantina. Desde a sua origem a Montanha
Santa hospedou místicos e mestres espirituais cujos escritos foram recolhidos
numa célebre Antologia – a Filocalia – que influenciou tão
profundamente, todo o Mundo Ortodoxo.
Para chegar ao Monte Athos, o Mineiro Pe. João Bosco e Eu fomos:
06 horas de trem (Roma-Brindisi); 20 horas de navio pelo Mar Jônico (Brindisi
na Itália-Patrassos na Grécia); + duas horas de carona (Patrassos-Atenas);
+ 03 horas de trem (Atenas-Tessalônica): + 01 hora de ônibus (Tessalônica-Uranópolis)
e de barco, ao redor do Monte Athos – circundado pelo Mar Egeu - para chegar a
Kariê, o pequeno porto final, único acesso ao “Monte”.
Para realizarmos aquela aventura, enfrentamos um problema crucial:
o da comunicação. Ambos líamos grego, placas de endereços e até entendíamos
alguma coisa do grego antigo, por causa do grego bíblico que havíamos estudado
e lido no Seminário. Mas, para falar e entender o grego atual era dificílimo.
Comparecíamos aos Atos Religiosos da Semana Santa e os seguíamos pelos livretos
litúrgicos. Mas, é claro, não participávamos bem.
Havia 20 Mosteiros ou Conventos em todo o Monte Athos com 50
frades em cada um. Andava-se a pé, por todos eles. Só era permitido acesso, a
homens. Todos os Conventos eram, totalmente, abertos para receber-nos a
qualquer hora: para dormir em bancadas, onde podíamos também sentar-nos,
conversar um pouco e ir a algum banheiro, dependendo da necessidade. Não havia
empregados, cozinheiros ou qualquer prestador de serviço. Tudo dependia dos
Frades. Não se pagava nada para pousar ali, nas mais precárias condições. Era
um local de silêncio, repouso e muita meditação e a gente se alimentava do
mínimo que eles punham à mesa, para todos. As celebrações ou horários de
orações comunitárias se davam em cada um dos Mosteiros, com a presença dos
frades de cada comunidade e dos hóspedes que estivessem por ali. Todos devíamos
seguir, restritamente, seus horários. Tudo era muito bonito, bem rezado, bem
cantado, com muito incenso ao redor dos altares e, ali mesmo, quando morriam,
eram enterrados.
Os Frades entram lá, vivem e morrem, são sepultados e renovados, à
medida que vão chegando os novos irmãos para integrarem a comunidade. Isto é
uma tradição das mais antigas do mundo e tem como nome oficial da Unidade
Política e Religiosa de Estado Monástico Autônomo da Montanha Sagrada da
Grécia, com um número constante de cerca de Mil habitantes.
Como eu disse acima: ‘só é permitido acesso a homens’.
Homens leigos, acrescento eu. Como nós éramos dois Padres Católicos, não
poderíamos ter ingressado naqueles ambientes “da Montanha Sagrada”. Entramos,
como pessoas comuns, como todos os homens que lá entraram, com licença da SSP
da Grécia, assinada pela autoridade competente, que guardo de lembrança.
Vale à pena informar que, do grupo de homens estrangeiros que lá
estava, só eu tinha o cabelo e costeletas grandes, e não poderia entrar e ‘dar
a entender que era uma mulher’. Um dos frades teve de aparar-me o cabelo e
eu fiquei durante toda a permanência na Ilha ou no Monte, sem recortá-lo no
modo correto, a não ser depois de voltar ao Continente, mais precisamente -
pelo Mar Egeu - à Ilha de Creta para onde viajamos após a Semana Santa.
Quero lembrar que o meu colega
de viagem, Pe. João Bosco de Faria é quase meu coetâneo, é emérito como eu, tem
86 anos de idade, 57 de Sacerdócio, foi Bispo Auxiliar de Pouso Alegre, Bispo
Titular de Patos de Minas e Arcebispo de Diamantina. Encontramo-nos, uma vez
só, na CNBB, em Itaici, almoçamos em Campinas - SP e recordamos essa
aventura...
Nesse ínterim - enquanto parti
da “vida, arte do encontro” de Vinícius de Morais e desenvolvi este
“Comentário” até agora - aconteceu mais um ENEM (Exame Nacional
do Ensino Médio, em vez do Vestibular desde 2009), que teve como
Tema da Redação ‘Perspectivas acerca do envelhecimento na Sociedade
Brasileira’. E eu fiquei a pensar: se eu não tivesse estado no Monte Athos,
quando ainda jovem, para aventurar-me com um colega Padre, da minha idade, nós
dois, hoje, envelhecidos, com mais de 85 anos, poderíamos fazer a mesma
aventura, empreendida outrora? Por lá, nada mudou. Tudo está como antes. O que
podemos fazer é recontar a história, é repassar a experiência. À época, só
tínhamos mesmo a “perspectiva”, o armazenamento para mais de 50 anos depois, ir
recontando, indo em frente.
Basta, por hoje, amigos: Athos,
D. Geiciane e Heitor. Vamo-nos encontrar para aprofundar mais esta
conversa? Se nossos atletas voltarem, amanhã, com medalhas, parabéns. Se não
trouxerem medalhas, parabéns por terem competido e aberto mais horizontes para
vencerem. É a isso que o tema do vestibular abriu para todos: perspectivas.
Como dizia o “o velho” Ulisses Guimarães, “no caminho da volta, ninguém se
perde”.
Você, que acabou de ler-me agora: haverá alguém com nome tão pouco
revelado como Athos? Quem sabe! Alguém o esclarecerá. Até um
dia!






Nenhum comentário:
Postar um comentário