sábado, 22 de novembro de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

Esta bela inspiração de Vinicius de Morais, extraída de seu famoso e extenso “Samba da Bênção” me levou à reflexão que quero fazer hoje. Inclui meu sobrinho bisneto e “neto do coração”, João Murilo – menor de 18 anos, Carateca faixa preta, o Carateca Francisco ATHOS Vasconcelos, ainda faixa verde, maior de 30 e o Carateca Pedro Heitor, 08 anos. O desencontro das idades não os torna maior ou menor atleta que o outro.  Mostra só a diferença de oportunidades. Os três e outros Atletas do DOJÔ de Acaraú (sob a responsabilidade do Sensey Robson Regis) estão convocados pela Confederação Esportiva e Educacional Brasileira de Karatê (CEEBK) a participarem do Campeonato Pan-americano que se está realizando em Natal – RN, dessa 4ª feira, dia 19, até Domingo, 23/11/25. 

         O João, por ser “meu neto do coração” eu o tenho comigo, desde seu 1º aninho de nascido. Desde os 05, faz Karatê; daí, a precocidade da faixa.

         Ao ATHOS, eu conheço há 02 anos. É bom atleta. É maior. É casado com a Prof.ª Maria Geiciane Araújo, formada em Pedagogia e Segurança do Trabalho. Têm um filho: Pedro Heitor Araújo, já encaminhado no Karatê, faixa laranja. O que lhes aconteceu? O que eu disse acima: ‘o bom uso das oportunidades’. O Athos, para chegar ao estágio em que se encontra na sustentação de sua família, junta ao estudo e trabalho da esposa, seu próprio estudo e especializações: formador em Matemática e sua docência no Município de Acaraú; especialista em Neuro Educação e Contabilidade Pública desde 2009 e é Concludente do Curso de Ciências Contábeis.

         Os 03 atletas (João, Athos e Heitor) independente de suas “cores de faixa” e do Estado da Federação onde vivam, estão representando a CEEBK, isto é, toda a Confederação Esportiva e Educacional de Karatê Nacional. 

 

Mas eu gostaria de voltar ao Vinícius: meu ponto de partida. Chamou-me a atenção, o nome de ATHOS: ‘era assim escrito, ou tinha origem nos Atos dos Apóstolos’? Minha surpresa foi muito maior. Os Atos dos Apóstolos narram fatos muito mais recentes. Têm menos de dois mil anos.

         O ATHOS que nomina o nosso atleta é antiquíssimo e se reporta à Grécia antiga. Em nossos “encontros”, conversamos sobre a minha viagem à Grécia, por 15 dias, dos quais, uma Semana Santa no Monte Athos. Nosso amigo já sabia a origem do seu nome, mas não conhecia alguém que já tivesse passado por lá. Num final de treino na Academia de Karatê, na cidade de Acaraú, onde o Athos mora e trabalha com sua família, nas despedidas, descobrimos a novidade do seu nome, sua origem e que, por acaso, eu tinha passado pelo Monte Athos, há mais de 50 anos. Talvez na idade que o nosso ATHOS tem hoje. Eu estou com 85. Ali mesmo surgiu-me a ideia de escrever sobre este fato. Imediatamente fui coletando dados a respeito.

O Monte Athos, conhecido como Montanha Sagrada, abriga preciosos tesouros artísticos: antigos manuscritos, ícones e afrescos pintados pelos mais ilustres representantes da pintura bizantina. Desde a sua origem a Montanha Santa hospedou místicos e mestres espirituais cujos escritos foram recolhidos numa célebre Antologia – a Filocalia – que influenciou tão profundamente, todo o Mundo Ortodoxo. 

         Para chegar ao Monte Athos, o Mineiro Pe. João Bosco e Eu fomos: 06 horas de trem (Roma-Brindisi); 20 horas de navio pelo Mar Jônico (Brindisi na Itália-Patrassos na Grécia); + duas horas de carona (Patrassos-Atenas); + 03 horas de trem (Atenas-Tessalônica): + 01 hora de ônibus (Tessalônica-Uranópolis) e de barco, ao redor do Monte Athos – circundado pelo Mar Egeu - para chegar a Kariê, o pequeno porto final, único acesso ao “Monte”.  

         Para realizarmos aquela aventura, enfrentamos um problema crucial: o da comunicação. Ambos líamos grego, placas de endereços e até entendíamos alguma coisa do grego antigo, por causa do grego bíblico que havíamos estudado e lido no Seminário. Mas, para falar e entender o grego atual era dificílimo. Comparecíamos aos Atos Religiosos da Semana Santa e os seguíamos pelos livretos litúrgicos. Mas, é claro, não participávamos bem.

         Havia 20 Mosteiros ou Conventos em todo o Monte Athos com 50 frades em cada um. Andava-se a pé, por todos eles. Só era permitido acesso, a homens. Todos os Conventos eram, totalmente, abertos para receber-nos a qualquer hora: para dormir em bancadas, onde podíamos também sentar-nos, conversar um pouco e ir a algum banheiro, dependendo da necessidade. Não havia empregados, cozinheiros ou qualquer prestador de serviço. Tudo dependia dos Frades. Não se pagava nada para pousar ali, nas mais precárias condições. Era um local de silêncio, repouso e muita meditação e a gente se alimentava do mínimo que eles punham à mesa, para todos. As celebrações ou horários de orações comunitárias se davam em cada um dos Mosteiros, com a presença dos frades de cada comunidade e dos hóspedes que estivessem por ali. Todos devíamos seguir, restritamente, seus horários. Tudo era muito bonito, bem rezado, bem cantado, com muito incenso ao redor dos altares e, ali mesmo, quando morriam, eram enterrados. 

         Os Frades entram lá, vivem e morrem, são sepultados e renovados, à medida que vão chegando os novos irmãos para integrarem a comunidade. Isto é uma tradição das mais antigas do mundo e tem como nome oficial da Unidade Política e Religiosa de Estado Monástico Autônomo da Montanha Sagrada da Grécia, com um número constante de cerca de Mil habitantes.

         Como eu disse acima: ‘só é permitido acesso a homens’. Homens leigos, acrescento eu. Como nós éramos dois Padres Católicos, não poderíamos ter ingressado naqueles ambientes “da Montanha Sagrada”. Entramos, como pessoas comuns, como todos os homens que lá entraram, com licença da SSP da Grécia, assinada pela autoridade competente, que guardo de lembrança.

         Vale à pena informar que, do grupo de homens estrangeiros que lá estava, só eu tinha o cabelo e costeletas grandes, e não poderia entrar e ‘dar a entender que era uma mulher’. Um dos frades teve de aparar-me o cabelo e eu fiquei durante toda a permanência na Ilha ou no Monte, sem recortá-lo no modo correto, a não ser depois de voltar ao Continente, mais precisamente - pelo Mar Egeu - à Ilha de Creta para onde viajamos após a Semana Santa. 

Quero lembrar que o meu colega de viagem, Pe. João Bosco de Faria é quase meu coetâneo, é emérito como eu, tem 86 anos de idade, 57 de Sacerdócio, foi Bispo Auxiliar de Pouso Alegre, Bispo Titular de Patos de Minas e Arcebispo de Diamantina. Encontramo-nos, uma vez só, na CNBB, em Itaici, almoçamos em Campinas - SP e recordamos essa aventura... 

Nesse ínterim - enquanto parti da “vida, arte do encontro” de Vinícius de Morais e desenvolvi este “Comentário” até agora - aconteceu mais um ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio, em vez do Vestibular desde 2009), que teve como Tema da Redação ‘Perspectivas acerca do envelhecimento na Sociedade Brasileira’. E eu fiquei a pensar: se eu não tivesse estado no Monte Athos, quando ainda jovem, para aventurar-me com um colega Padre, da minha idade, nós dois, hoje, envelhecidos, com mais de 85 anos, poderíamos fazer a mesma aventura, empreendida outrora? Por lá, nada mudou. Tudo está como antes. O que podemos fazer é recontar a história, é repassar a experiência. À época, só tínhamos mesmo a “perspectiva”, o armazenamento para mais de 50 anos depois, ir recontando, indo em frente.

                                        
                                                                           Os dois, nos dias atuais.

  O Pe. João Bosco se tornou Bispo, Arcebispo e está emérito, isto é, aposentado, ainda muito capaz de dar um recado, transmitir uma mensagem. Eu também me aposentei. Formei-me em Comunicação Social, escrevo neste blog. Estou vivo nas “mídias” que me acolhem e feliz com minha maturidade. Não tenho o que reclamar. Reconheço que nem todo idoso teve este preparo. 

Basta, por hoje, amigos: Athos, D. Geiciane e Heitor. Vamo-nos encontrar para aprofundar mais esta conversa? Se nossos atletas voltarem, amanhã, com medalhas, parabéns. Se não trouxerem medalhas, parabéns por terem competido e aberto mais horizontes para vencerem. É a isso que o tema do vestibular abriu para todos: perspectivas. Como dizia o “o velho” Ulisses Guimarães, “no caminho da volta, ninguém se perde”. 

         Você, que acabou de ler-me agora: haverá alguém com nome tão pouco revelado como Athos? Quem sabe! Alguém o esclarecerá. Até um dia!    

                    













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