sábado, 21 de fevereiro de 2026

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 


HÁ PESSOAS MORANDO MAL, NA SUA COMUNIDADE?

           

No sábado passado (14/02), famoso ‘sábado gordo’ que antecedeu o Tempo da Quaresma, iniciado na Quarta feira de Cinzas (18/02), comentei sobre a histórica e tradicional Quaresma - Tempo de Penitencia e conversão – preparatório para a Páscoa, e pelos últimos 64 anos de evangelização, através da Campanha da Fraternidade, originada no Concílio Ecumênico Vaticano II.

            Dizia-lhes que o enfoque dado pela Campanha da Fraternidade em apenas 40 dias, mexeu muito mais com a cabeça e a mente das pessoas, do que todas as Quaresmas do passado, pois estas exigiam sacrifícios no corpo (deixar de comer carne, privar-se de doce, de tomar cerveja, por ex.) enquanto a proposta da nova maneira de evangelizar conscientizava-nos dos nossos deveres sociais e exigia uma tomada de atitude de fé e de política que levasse a uma mudança radical. A isto é que se dá o nome de “conversão”.

 Passada a Quaresma, voltar-se-ia a fazer tudo como era antes. Era conversão? Daí a falta de compromisso com o significado de Quaresma e com a mudança proposta pela nova maneira de se converter. É claro que os mais ricos e poderosos, os maus políticos, os sem consciência social ir-se-iam opor.

Os que entendemos a boa fé do Concílio, que acompanhamos os passos e os esquemas da C.F. e demos o suporte necessário, teórico e prático para que tudo acontecesse como o Concílio esperava, não pusemos em dúvida que a Igreja estava no caminho certo. Daí ter eu colocado em meu Comentário da Semana passada aquela afirmação de Dom Francisco, que era a mesma de outros bispos, sacerdotes e leigos: “medo não existe em meu Dicionário”.

Certamente aqueles homens corajosos, tipo D. Francisco e tantos colegas dele que participaram do Concílio, já estão na eternidade. Muitos que não aprenderam com eles, nem com alguém que sabe, ou não se deram ao trabalho de ler alguns Documentos Conciliares, é claro, estão apoiando negacionistas, reacionários, ou como comentei sábado passado: são “gente, terrivelmente evangélica, ou católicos, terrivelmente conservadores”. Muitos desses estão denegrindo as Campanhas da Fraternidade, não as divulgam, não cantam seus hinos, não rezam suas Orações da Fraternidade e torcem para que nada dê certo.

Como eu disse no início do meu Comentário da Semana passada, desde nossos estudos no Seminário Maior, em Olinda, nós já nos preparávamos ao conhecer os Documentos Conciliares, as novas orientações da CNBB e C.F. nascentes, para um melhor desempenho de nossa Missão futura. Pena é que, muitos “missionários”, condutores do trabalho pioneiro, estão desanimando, esquecendo o compromisso e até engrossando as fileiras “negacionistas”.

Não é pessimismo ou descrédito de minha parte, mas é uma observação que tenho feito e uma vontade enorme de que os objetivos iniciais se acertem.

A Igreja oficial tem mantido a orientação, tem preparado seus conteúdos e tem lembrado seus esquemas de Evangelização. Desde o Papa Francisco e agora, com o Papa Leão, a gente tem sentido uma retomada dos objetivos e uma presença mais tecnológica, até com uso de logaritmos, mais aceitos por uns e bem mais criticados por outros, sobretudo por aqueles que se assustam com as “modernidades”, com a visão mais voltada para o social, como é a crítica feita às Campanhas da Fraternidade.

Até 10 anos atrás eu me ligava em Paróquias, Pastoral da Comunicação e dava algumas opiniões sobre o trabalho de Evangelização. Ao me aposentar, não perdi o conhecimento que tinha, mas perdi o meu raio de influencia e ação.

Todos nós, os interessados nos Temas e Lemas propostos à reflexão nas Campanhas da Fraternidade e os desinteressados, acompanhávamos o que os Governos Municipal, Estadual ou Federal, respectivamente iam criando ou inventando para maquiarem o problema da ‘Moradia’ ou da ‘Casa Própria’: as COHABs para os Municípios, as CDHUs para os Estados e as M.C.M. Vs  para o Governo Federal. Como tais “brindes” não atingiam a todos, mas eram “sorteados” entre “afilhados políticos”, as Campanhas da Fraternidade que se dirigiam à coletividade, sem “apadrinhamentos” eram criticadas e malvistas. Daí as constantes disparidades entre o que a Igreja ensinava e a prática das estruturas e das políticas públicas, em confronto com o ensinamento da Igreja.

Quem, dos mais velhos, não se lembra do Conjunto musical, “Demônios da Garoa”, interpretando “Saudosa Maloca” de Adoniram Barbosa que, há tanto tempo já ‘mostrava a realidade da Moradia no Brasil’? É o tema da atual CF!...

Dir-me-ão: mas ainda estão falando disso? Oh! Igreja teimosa! E eu pergunto: “por acaso, melhorou”? Leiam a composição de Adoniram. Ouçam-na, se puderem. Vão sentir que não é a Igreja que é teimosa. Há muita gente que nem quer ouvir. Prefere acreditar na desinformação dos “negacionistas”.

Jesus Cristo dizia: “tenho pena desse povo” .... Mt.15,32 e Mc.8,2. Eu também tenho. O nosso querido e saudoso Papa Francisco em sua Exortação Apostólica, “Christus Vivit”, dirigida aos Jovens em 2019, ensinava: “não fiqueis na varanda olhando a vida; mergulhem nela. Jesus não ficou na varanda; mergulhou”. Todos somos convidados a mergulhar na realidade da moradia precária no Brasil.

Faz 64 anos que, oficialmente, fazemos a Campanha da Fraternidade, em todo o Brasil. Faz 64 anos que seguimos o mesmo esquema de visão da realidade, iluminação ou julgamento à luz da Palavra de Deus e ação ou prática na Missão. Isto é uma herança da Ação Católica, estudada, aprofundada e vivenciada, antes mesmo da existência da CNBB, da C.F. e do próprio Concílio acontecer. Deve-se ao Belga Padre Joseph-Léon Cardijn, em 1925, bem antes do Concílio, ao fundar a Juventude Operária Católica/JOC e sua equipe de Padres Operários que trabalhava em Fábricas Europeias.

Este esquema de trabalho completou um século, neste ano passado, chegou ao Brasil, como eu disse, faz 64 anos. Para nós nos desfazermos dele porque os empresários, os partidos políticos conservadores, os negacionistas e falsos cristãos ou católicos de mente fechada não o aceitam, para ficarem na contramão da Igreja Oficial é, realmente, de não se entender.

Neste tempo em que me sinto desligado de atividades pastorais - até porque me tornei emérito - tenho sentido certo descompromisso por parte de “eclesiásticos” quanto ao investimento da Igreja Oficial, no sentido de terem deixado de cobrar de suas “comunidades eclesiais de base” aqueles passos, aquele compromisso maior com as reformas advindas do Concílio e mantidas em vigor através de Exortações Pastorais em todos os níveis. Dedicar-se à atual C.F. sobre MORADIA, com uma fundamentação bíblica, tirada de João 1,14, referindo-se a Cristo – Ele veio morar entre nós – é assegurar-nos que a Morada é sagrada. Nada a temer.

Vamos todos nos unir ao esquema centenário da Ação Católica, na sexagenária presença da Campanha da Fraternidade, comprometida com uma Quaresma Renovada e diferenciada das Quaresmas tradicionais e vamos festejar a Páscoa – de 04 para 05 de abril – totalmente, renovados, com Jesus morando conosco e ressuscitado entre nós.

            






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