Educar para a vida em fraternidade, com
base na justiça e no amor
“O CAJU” – Jornal Científico e Cultural de Bela Cruz
– pede-me uma reflexão sobre o tradicional Tempo Quaresmal da Liturgia da
Igreja Católica, instituído no Concílio de Nicéia, pelo ano 325, e sua atual
Campanha da Fraternidade, instituída durante o Concílio Ecumênico Vaticano
II, em Roma, 1962. A
edição sairá no fim de Abril, já passada a Quaresma e a C.F. –
mas me interessei em divulgá-la neste blog dentro ainda do Tempo Quaresmal e
C.F.
Cuidadosamente,
expliquei o significado das duas em reflexões feitas, neste Blog, em que
mostrava a pregação da tradicional Quaresma, exigindo mortificação no alimento,
na língua, nas bebidas, até em más palavras, embora logo depois, voltasse a
cometer todos os erros de novo. Não havia conversão.
Em
contrapartida, a Campanha da Fraternidade, que surgiu 1.640 anos depois,
começou a pedir uma mortificação na mente, uma conversão na alma, por dentro,
na mentalidade conservadora, ‘negacionista’, mas, transformadora.
É
nesta linha de raciocínio, que atendo ao “Caju”, como já fiz antes em meu blog
semanal, onde afirmei: “é mais difícil a
gente abrir a consciência para entender a realidade social, do que fazer
pequenos sacrifícios como: deixar de comer carne, ou um pouco de doce, ou
refrear a língua para não falar da vida alheia como penitencia e depois voltar
a fazer tudo de novo. Isto é conversão?”
Se
no modo antigo de viver a Quaresma, a gente não se convertia, nós estamos
aceitando ‘o modo novo de vivê-la, como a
mesma Igreja tem pedido?’
É claro que estamos tratando de posturas
diferentes em Tempos diferentes. Eu dizia em meu Comentário da Semana do meu blog de 14 de fevereiro que no dia 04
de agosto deste ano eu estaria completando 58 anos de sacerdócio e que eu me
teria preparado para minha Missão, no início da década de 1960. Estudara no
Seminário de Olinda, mais tarde, Instituto
de Teologia do Recife – ITER, e que, “estava acontecendo o Concílio Ecumênico
Vaticano II”, causador da instituição da CNBB e da Campanha da
Fraternidade.
Toda
a abertura que estas três Instituições nos deram desde o início e que nos
dariam sustentação para toda a vida, foram sendo atrapalhadas pela concomitante
Ditadura Militar que surgiu logo no início de 1964 para obstruir a base de
nossos estudos e os novos ensinamentos provenientes do Concílio.
Sentíamo-nos
orientados pelo novo modo de ser Igreja, mas impedidos pelas imposições
militares da nova orientação política da ditadura. O mau que ela nos fez não
foi somente enquanto durou. Seus “filhotes” continuam a nos perturbar até hoje.
Daí, a dificuldade que a Igreja tem encontrado, sobretudo no Brasil, de levar
adiante seus projetos e realizações através das suas C.F.
Os
“filhotes da ditadura”, militares ou
não, têm feito muito barulho e se metido, tremendamente, até abusando de
religiões, mesmo cristãs, para irem dando seus golpes. Todos nos lembramos da
maneira que recente líder político se referia a um servidor da justiça que ele
nomearia: tinha de ser terrivelmente evangélico. Tais
acontecimentos – ditadura, concílio, CNBB, C.F. – são mais ou menos coetâneos,
isto é, apareceram na mesma época. Houve confrontos, dificuldades de
entendimentos, choque de mentalidades, acusações mútuas, prisões, mortes,
desaparecimentos, enfim, houve incompreensões, sofrimentos e acusações de lado
a lado e isto ainda nos leva a nos desentendermos. Daí, a não aceitação de
nossas Campanhas da Fraternidade com enfoque social.
É,
exatamente, neste “enfoque social” que está todo o trabalho de conscientização
das C.F. e a mentalidade reacionária de nossos dirigentes políticos.
Eles não vêem a ligação entre os temas
propostos pela C.F. e a ‘missão
cristã’.
Enquanto nós
refletíamos, cantávamos, rezávamos e nos conscientizámos dos Temas mais
variados, embora baseados numa necessidade nacional do povo brasileiro, nossos
militares e analfabetos políticos, chamados governantes e alguns setores mais
antiquados da Igreja não se agradavam de nada.
Em 62 anos, tivemos,
pelo menos, 62 Temas. À exceção de alguns repetidos, para serem aprofundados,
nós nos detivemos em: “Fraternidade e Libertação”. “Reconstruir a Casa”.
“Fraternidade é repartir”. “Fraternidade e Saúde”. “Educação e Fraternidade”.
“Fraternidade e Violência”. “Fraternidade e Fome” e outras sequencias de
“Fraternidade e Negro”, e “Mulher”, e “Política”, e “Mundo do Trabalho”, e
“Excluídos”, e “Drogas”, e “Idosos”, e “Saúde Pública” e “Amazônia”, e “Tráfico
Humano”, e “Moradia” (deste ano) e
outras repetidas.
Em união com o CONIC
(Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) foram realizadas as C.F. ecumênicas:
Fraternidade e “Dignidade Humana”, e “Solidariedade e Paz”, e “Economia e
Vida”, e “Meio Ambiente e a Vida de todos os seres vivos”, e “Diálogo,
compromisso de todos”. Nestes 04 últimos anos ainda tivemos aprofundamento de
temas, como: “Fraternidade e Educação”, e “Fome”, e “Amizade Social”, e
“Ecologia” e, como já disse ali acima, e Moradia.
Eu, padre idoso que
sou, tomei conhecimento das Aulas Conciliares e do início da CNBB e da C.F.,
desde o começo. Aprendi tudo, ainda no Seminário.
Tornando-me Padre,
assumia as C.F., divulgando-as no Rádio, nas salas de aula, nas Paróquias -
onde eu permanecia, apenas por cinco anos - enfim, ao terminar o ano em curso,
já começava a me preparar para vivenciar a C.F. do ano seguinte, pois era assim
a nova dinâmica da Igreja: “não parava”.
Fundamentávamos os
Temas das C.F. em Lemas tirados da Bíblia, por exemplo, do Livro dos Provérbios
31,26: “fala com sabedoria, ensina com
amor”. Para Moradia, o Tema
deste ano, tem-se o Lema Bíblico, tirado de João 1,14, referindo-se a Jesus: “Ele veio morar entre nós”.
Como eu já disse, para
aqueles inúmeros Temas, voltados para a nossa realidade social, havia um
correspondente Lema, baseado na Palavra de Deus. E eu pergunto: por que tanta
oposição de setores conservadores às C.F.? E eu vou encaminhando já a resposta:
“porque eles morrem de medo do comunismo
sem saberem nem o que é, e que tal palavra é de raiz grecocristã
(koinonia) que origina: comum, comunidade, bem comum, comunhão”. Pura
ignorância!...
Deveriam, ao menos,
saber os dois objetivos de todas as C.F. inclusive da atual:
- Educar para a vida em fraternidade, com base
na justiça e no amor, exigências centrais do Evangelho.
- Renovar a consciência da
responsabilidade de todos pela ação da Igreja Católica na evangelização e na
promoção humana, tendo em vista uma sociedade justa e solidária.
Agora, pense comigo, caro leitor: se pra levar a sério esses 02 objetivos gerais, a Igreja foi, imensamente, incompreendida, imagine quando se tratava de cada Tema em particular, com seus objetivos específicos. Não foi fácil. A oposição a qualquer abertura para o social ia-se impondo. Os conservadores foram instalando suas trincheiras. Nós, da Igreja do Vaticano II, não podemos enfraquecer ou ser pessimistas. Afinal, Jesus é maior. É nosso único Salvador. Foi Ele quem instituiu o Sacramento da Comunhão e nos mandou Viver em Comunidade, e ainda prometeu ficar conosco até o fim dos tempos (Mt 28,20).
Até 10 anos atrás eu
usava Imprensa, Paróquias, Escolas, E.C.C. para Evangelizar. Ao me aposentar
não perdi o conhecimento, mas perdi o meu raio de ação. Este pouco que ainda
tento fazer é pra não pecar por omissão.


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