sábado, 28 de fevereiro de 2026

O COMMENTÁRIO DA SEMANA

 

Educar para a vida em fraternidade, com base na justiça e no amor

O CAJU” – Jornal Científico e Cultural de Bela Cruz – pede-me uma reflexão sobre o tradicional Tempo Quaresmal da Liturgia da Igreja Católica, instituído no Concílio de Nicéia, pelo ano 325, e sua atual Campanha da Fraternidade, instituída durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, em Roma, 1962. A

edição sairá no fim de Abril, já passada a Quaresma e a C.F. – mas me interessei em divulgá-la neste blog dentro ainda do Tempo Quaresmal e C.F.

            Cuidadosamente, expliquei o significado das duas em reflexões feitas, neste Blog, em que mostrava a pregação da tradicional Quaresma, exigindo mortificação no alimento, na língua, nas bebidas, até em más palavras, embora logo depois, voltasse a cometer todos os erros de novo. Não havia conversão.

            Em contrapartida, a Campanha da Fraternidade, que surgiu 1.640 anos depois, começou a pedir uma mortificação na mente, uma conversão na alma, por dentro, na mentalidade conservadora, ‘negacionista’, mas, transformadora.

            É nesta linha de raciocínio, que atendo ao “Caju”, como já fiz antes em meu blog semanal, onde afirmei: “é mais difícil a gente abrir a consciência para entender a realidade social, do que fazer pequenos sacrifícios como: deixar de comer carne, ou um pouco de doce, ou refrear a língua para não falar da vida alheia como penitencia e depois voltar a fazer tudo de novo. Isto é conversão?”

            Se no modo antigo de viver a Quaresma, a gente não se convertia, nós estamos aceitando ‘o modo novo de vivê-la, como a mesma Igreja tem pedido?’

            É claro que estamos tratando de posturas diferentes em Tempos diferentes. Eu dizia em meu Comentário da Semana do meu blog de 14 de fevereiro que no dia 04 de agosto deste ano eu estaria completando 58 anos de sacerdócio e que eu me teria preparado para minha Missão, no início da década de 1960. Estudara no Seminário de Olinda, mais tarde, Instituto de Teologia do Recife – ITER, e que, “estava acontecendo o Concílio Ecumênico Vaticano II”, causador da instituição da CNBB e da Campanha da Fraternidade.

            Toda a abertura que estas três Instituições nos deram desde o início e que nos dariam sustentação para toda a vida, foram sendo atrapalhadas pela concomitante Ditadura Militar que surgiu logo no início de 1964 para obstruir a base de nossos estudos e os novos ensinamentos provenientes do Concílio.

            Sentíamo-nos orientados pelo novo modo de ser Igreja, mas impedidos pelas imposições militares da nova orientação política da ditadura. O mau que ela nos fez não foi somente enquanto durou. Seus “filhotes” continuam a nos perturbar até hoje. Daí, a dificuldade que a Igreja tem encontrado, sobretudo no Brasil, de levar adiante seus projetos e realizações através das suas C.F.

            Os “filhotes da ditadura”, militares ou não, têm feito muito barulho e se metido, tremendamente, até abusando de religiões, mesmo cristãs, para irem dando seus golpes. Todos nos lembramos da maneira que recente líder político se referia a um servidor da justiça que ele nomearia: tinha de ser terrivelmente evangélico. Tais acontecimentos – ditadura, concílio, CNBB, C.F. – são mais ou menos coetâneos, isto é, apareceram na mesma época. Houve confrontos, dificuldades de entendimentos, choque de mentalidades, acusações mútuas, prisões, mortes, desaparecimentos, enfim, houve incompreensões, sofrimentos e acusações de lado a lado e isto ainda nos leva a nos desentendermos. Daí, a não aceitação de nossas Campanhas da Fraternidade com enfoque social.

            É, exatamente, neste “enfoque social” que está todo o trabalho de conscientização das C.F. e a mentalidade reacionária de nossos dirigentes políticos.

Eles não vêem a ligação entre os temas propostos pela C.F. e a ‘missão cristã’.

Enquanto nós refletíamos, cantávamos, rezávamos e nos conscientizámos dos Temas mais variados, embora baseados numa necessidade nacional do povo brasileiro, nossos militares e analfabetos políticos, chamados governantes e alguns setores mais antiquados da Igreja não se agradavam de nada.

Em 62 anos, tivemos, pelo menos, 62 Temas. À exceção de alguns repetidos, para serem aprofundados, nós nos detivemos em: “Fraternidade e Libertação”. “Reconstruir a Casa”. “Fraternidade é repartir”. “Fraternidade e Saúde”. “Educação e Fraternidade”. “Fraternidade e Violência”. “Fraternidade e Fome” e outras sequencias de “Fraternidade e Negro”, e “Mulher”, e “Política”, e “Mundo do Trabalho”, e “Excluídos”, e “Drogas”, e “Idosos”, e “Saúde Pública” e “Amazônia”, e “Tráfico Humano”, e “Moradia” (deste ano) e outras repetidas.

Em união com o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) foram realizadas as C.F. ecumênicas: Fraternidade e “Dignidade Humana”, e “Solidariedade e Paz”, e “Economia e Vida”, e “Meio Ambiente e a Vida de todos os seres vivos”, e “Diálogo, compromisso de todos”. Nestes 04 últimos anos ainda tivemos aprofundamento de temas, como: “Fraternidade e Educação”, e “Fome”, e “Amizade Social”, e “Ecologia” e, como já disse ali acima, e Moradia.

Eu, padre idoso que sou, tomei conhecimento das Aulas Conciliares e do início da CNBB e da C.F., desde o começo. Aprendi tudo, ainda no Seminário.

Tornando-me Padre, assumia as C.F., divulgando-as no Rádio, nas salas de aula, nas Paróquias - onde eu permanecia, apenas por cinco anos - enfim, ao terminar o ano em curso, já começava a me preparar para vivenciar a C.F. do ano seguinte, pois era assim a nova dinâmica da Igreja: “não parava”.

Fundamentávamos os Temas das C.F. em Lemas tirados da Bíblia, por exemplo, do Livro dos Provérbios 31,26: “fala com sabedoria, ensina com amor”. Para Moradia, o Tema deste ano, tem-se o Lema Bíblico, tirado de João 1,14, referindo-se a Jesus: “Ele veio morar entre nós”.

Como eu já disse, para aqueles inúmeros Temas, voltados para a nossa realidade social, havia um correspondente Lema, baseado na Palavra de Deus. E eu pergunto: por que tanta oposição de setores conservadores às C.F.? E eu vou encaminhando já a resposta: “porque eles morrem de medo do comunismo sem saberem nem o que é, e que tal palavra é de raiz grecocristã (koinonia) que origina: comum, comunidade, bem comum, comunhão”. Pura ignorância!...

Deveriam, ao menos, saber os dois objetivos de todas as C.F. inclusive da atual:

     - Educar para a vida em fraternidade, com base na justiça e no amor, exigências centrais do Evangelho.

     - Renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja Católica na evangelização e na promoção humana, tendo em vista uma sociedade justa e solidária.

 Agora, pense comigo, caro leitor: se pra levar a sério esses 02 objetivos gerais, a Igreja foi, imensamente, incompreendida, imagine quando se tratava de cada Tema em particular, com seus objetivos específicos. Não foi fácil. A oposição a qualquer abertura para o social ia-se impondo. Os conservadores foram instalando suas trincheiras. Nós, da Igreja do Vaticano II, não podemos enfraquecer ou ser pessimistas. Afinal, Jesus é maior. É nosso único Salvador. Foi Ele quem instituiu o Sacramento da Comunhão e nos mandou Viver em Comunidade, e ainda prometeu ficar conosco até o fim dos tempos (Mt 28,20).

Até 10 anos atrás eu usava Imprensa, Paróquias, Escolas, E.C.C. para Evangelizar. Ao me aposentar não perdi o conhecimento, mas perdi o meu raio de ação. Este pouco que ainda tento fazer é pra não pecar por omissão.

           



 

 









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