quarta-feira, 18 de março de 2026

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 


Campanha da Fraternidade:

VER, JULGAR E AGIR

       

 Estamos iniciando a última semana do período quaresmal e da 63ª celebração da C.F., aqui no Brasil, já que, no Domingo seguinte, 29/03, faremos a Coleta da Solidariedade, símbolo material de nossa “fraternidade cristã” para dar início à Semana Santa com o Domingo de Ramos.

 Apesar de tantas críticas feitas por maus católicos e conservadores, às vezes, até por Padres - contrários à orientação da Igreja, após o Vaticano II - essa nova modalidade de viver a Quaresma tem continuado firme e corajosa.

             Eu, que era seminarista no tempo do Concílio, que me preparei para a Pastoral durante sua realização, nunca duvidei que estivesse no caminho certo e nele permaneço, no alto dos meus 85 anos. Nos Comentários semanais, feitos nesta Quaresma, como nas anteriores e na realização das respectivas C.F. não deixei passar nenhuma, sem que aplicasse o esquema da Ação Católica do Ver, Julgar e Agir, aprendido e treinado no Seminário de Olinda. Toda vida lamentei e continuo lamentando agora, pela desatualização ‘cristã’.

            Este ano, não foi diferente. Apesar de emérito, graças à compreensão e amizade de infância, com Leunam, sinto-me encorajado a manter neste comentário semanal tudo aquilo que entendi, aprendi, divulguei pelos meios de comunicação e realizei até agora. Nesta C. F. sobre Moradia, não foi diferente.

            Depois de uma visão geral sobre o Tema, de um julgamento à luz da Palavra de Deus ou do Magistério da Igreja, chegou a hora de agir: sugerir encaminhamentos de soluções ou de ações que resolvam tais dificuldades. Não se trata só de uma ação. É hora de uma transformação. Como fazer?

            Apesar de estarmos buscando caminhos concretos e até ações práticas, vamos encontrá-los na própria Palavra de Deus, através de Isaías 65,17ss:

 “Vou criar novos céus e nova terra! Não haverá ali crianças que só vivam alguns dias, nem adultos que não completem a sua idade; pois será ainda um adolescente quem morrer centenário, e quem não chegar aos cem anos será considerado maldito. Construirão casas, e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão seus frutos

             Essa previsão de Isaías se consolidou no Lema da C.F. deste ano. Está em João 1,14, referindo-se a Jesus: “Ele veio morar entre nós”. Ao assumir nossa humanidade e morar entre nós, Jesus entra nessa morada, símbolo da fragilidade humana, que se revela também na precariedade das habitações. É o próprio Deus que nos está convocando à conversão, à ação solidária e ao compromisso cristão com a fraternidade e a moradia digna em nosso país.

            Inspirados no agir de Jesus pensemos em algumas pistas para que se concretizem nossos anseios de fraternidade através de

1) Ações Comunitárias;

2) Ações Eclesiais;

3) Ações Educativas;

4) Ações Sociopolíticas, entre outras.

             Apontamos essas 04 Ações, só como exemplo, para um chute inicial ou para abrir a criatividade de cada grupo, comunidade ou mesmo individual, contanto que ninguém se omita ou deixe de criar. Fique sem pensar. Por fora. É talvez, o maior pecado: “a lei do menor esforço”. É melhor criticar, ficar como está. Talvez este seja o maior motivo da falta de compromisso com as C.F.

            Quem sabe! Pensar que essas ações são contrárias ao governo; são invenções de “esquerdista”, de gente inconformada! Quem embarcar “nessa” vai ser perseguido, malvisto, etc. Pois eu garanto: estude a Lei 11.888/2008 sobre a Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social, que “assegura à população de baixa renda, assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social”. Você sabia?

            É claro que não. Entra C.F. sai fora, entra outra, cada vez mais voltada para a nossa realidade e preocupada com o nosso bem estar, e você não se mexe, não participa, engrossa as fileiras dos reacionários, fica ouvindo seu chefe político, que lhe quer cada vez mais desinformado e a Igreja é que está errada, desmiolando a cabeça do povo. Está certo isso?

            O mesmo se diga da Constituição Federal, inciso XIII, Art. 5º, referente ao exercício do direito à moradia, quando há tantos imóveis ociosos que poderiam ser ocupados em políticas habitacionais de interesse social. Estão em ruínas, fechados, abandonados em todas as cidades e fica por isso. Você já pensou nisso ou nunca lhe passou pela mente que isso é um pecado social?

            Se ninguém pensou nisso ainda, durante esse tempo apropriado e está dando graças a Deus porque a Quaresma está terminando e eu até me confessei, mas não me converti, converta-se enquanto é tempo. Não espere a Quaresma do próximo ano (2027) e sua C.F. que você vai criticar e que já tem Tema e Lema escolhidos, respectivamente: Fraternidade e cuidado das crianças e Quem recebe uma criança em meu nome a mim recebe (Mt18,5)

            Ouça mais este apelo do velho padre, que doou todo o tempo útil de sua vida àquilo que a Mãe Igreja lhe deu, preparou, cobrou e enviou e que a própria aposentadoria a que tem direito, ainda está usando para evangelizar.

            Ao lembrar Tema e Lema da C.F. de 2007 é para ainda dizer que quem tem fé não pára o compromisso de ‘combater’ e ‘correr’, mesmo limitadamente. Somente a fé é ilimitada. Tem que ser “forte” até o fim. Não é assim, S. Paulo?

             Por isso, arrisco-me a propor ainda algumas ações - como lembrei ali acima - que espero lhes sejam úteis, para não pecarem por omissão e não deixarem “passar em branco” alguma Quaresma e C.F. daqui pra frente. Falta de aviso, não é. É melhor comprometer-se com um pouquinho, do que nada.

             Como Ação comunitária: começar a conhecer a realidade do problema da Moradia nos bairros e os desafios para garantir este direito para todos, identificando as organizações populares existentes que lutam pela moradia digna, sendo ela a “porta de entrada de todos os outros direitos”.

 

     Como Ação eclesial: fortalecer a presença eclesial de escuta e empatia transformadora nas periferias por meio de uma espiritualidade do encontro, da solidariedade e com a valorização do “rosto periférico”, superando uma “teologia da prosperidade”, “do domínio” ou individualista.

      Como Ação educativa: realizar encontros, seminários, grupos de estudo e debates sobre a realidade da moradia, promovendo este entendimento, ou a conscientização dessa realidade, como direito e não como uma mercadoria.

      Como Ação sociopolítica: realizar a incidência política nas 03 esferas de governo (municipal, estadual e federal) para efetivação de políticas públicas de habitação, garantindo recursos públicos compatíveis com a escala do problema, a serem destinados, prioritariamente, para a população de mais baixa renda. Para isso, tem-se que exigir que as ações governamentais tenham controle social, acompanhamento e participação da população.

             Vejam que são apenas 04 Ações, dentre as inúmeras que podem ser sugeridas; daí a dificuldade maior de se levar a sério uma C.F. Talvez por isso é que elas estejam tão banalizadas. Porque eu me comprometi tanto com isso?

            Agora entendo porque fui tão criticado e incompreendido na missão. Não me arrependo de tê-la encarado assim e de certo modo, compreendo a omissão de muitos: padres e leigos. Tenho feito, todo dia, minhas avaliações.

Sou muito grato ao Seminário de Olinda pela formação vital que me deu.



            


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