quinta-feira, 14 de abril de 2022

EVENTOS

 

                  LANÇAMENTO EM                               GUARACIABA DO NORTE

O lançamento do livro prefaciado pela Professora Isaurora Claudia Martins de Freitas foi lançado  na cidade da autora, no último dia 9 de abril, no auditório do Colégio Oriento.

 


A autora Clécia Maria Lopes do Nascimento fez a apresentação de seu livro, destacando que:  O presente livro se propõe a compreender o fenômeno da autolesão entre jovens estudantes de uma escola de ensino médio na modalidade regular de educação pública em uma cidade do interior do estado do Ceará. Os jovens estão na faixa etária de 13 a 18 anos e apresentam comportamentos tidos como desviantes pela sociedade e pela instituição escolar. No entanto, não é uma realidade singular apenas desta escola e sim um fato recorrente na vida de muitos jovens atualmente. A prática de autolesão corporal pode ser compreendida como um ato de se machucar com objetos cortantes, pontiagudos ou perfurantes de uma forma superficial sem a intenção de cometer suicídio, apenas com o intuito de sentir dor temporariamente.

A autora nos convidou para fazer a mediação daquele momento porque considera que o nosso livro PROFESSOR COM PRAZER – Vivência e convivência na sala de aula, aponta soluções para os graves problemas detectados em suas pesquisas de Mestrado.

Na oportunidade, perante o grande número de Professores presentes e considerando a gravidade do assunto, propusemos ao Vereador Ariecílio Nobre, destacado Professor no município, que apresentasse na Câmara Municipal a realização de Audiências Públicas, na sede e nos distritos para discussão com todos os Professores, Gestores Escolares, Pais de Alunos e servidores da área de Saúde sobre a temática detectada e estudada no livro VIVER À FLOR (e ao corte) DA PELE.

Após as apresentações e comentários de vários professores presentes, seguiu-se o momento de autógrafos.


 



PREFÁCIO

Viver à flor  (e ao corte) da pele          

         

   PREFÁCIO da professora Isaurora Cláudia Martins de Freitas, da UVA.

 

No dia 19 de maio de 2017, Clécia, recém-contratada como professora em uma escola pública no município de Guaraciaba do Norte (CE), enviou-me uma mensagem por meio de uma rede social pedindo sugestões de leituras, pois estava iniciando uma pesquisa com alguns dos seus alunos que se cortavam. Em um dos trechos da mensagem explicava: “Estamos com muitos casos de alunos com evasão escolar, atestados médicos de jovens que estão passando por esses problemas. Dessa forma, quero compreender esse fenômeno em uma perspectiva sociológica, os motivos pessoais ou sociais da automutilação desses jovens, o perfil desse jovem, qual o papel da escola e professores […]”. Ali começava a história deste livro. Tive, portanto, a oportunidade e o prazer de acompanhar sua feitura desde a fase embrionária, quando ele era ainda uma tentativa de uma professora compreender melhor o que se passava com seus alunos para conseguir ajudá-los.

Quando a preocupação virou um esboço de projeto acadêmico apresentado à comissão de seleção da primeira turma do Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional (PROFSOCIO), da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), desde a primeira leitura uma questão invadiu-me: o que pode uma professora sensível e atenta ao que se passa ao seu redor? A resposta a essa questão vai sendo tecida em cada uma das páginas desta obra nas quais a autora apresenta sua pesquisa de mestrado (já finalizada) que tomou como interlocutores os alunos para os quais leciona.

Formada em Ciências Sociais e lecionando a disciplina de Sociologia para jovens do ensino médio e atuando como professora diretora de turma numa escola da rede estadual de educação do Ceará, a autora atentou para um fenômeno que vem crescendo entre os jovens do mundo inteiro neste século XXI: a prática da autolesão, que consiste em fazer cortes e perfurações no corpo de forma sistemática por motivos diversos. O fenômeno é apenas uma das facetas das vivências das juventudes na contemporaneidade e representa a ponta do iceberg de diversos problemas que os afetam.

A partir da observação e da escuta sensível de 20 jovens que praticam autolesão, a autora descortinou o universo íntimo desses jovens, que, em resposta à confiança conquistada por ela, expuseram as dores, os sofrimentos e angústias que os levam a tal prática. Conflitos familiares, violência doméstica, separação dos pais, alcoolismo, sentimento de rejeição familiar devido à orientação sexual e carência afetiva são os principais motivos apontados pelos jovens como desencadeadores da prática de autolesão. O que os interlocutores da pesquisa nos mostram, portanto, é que a autolesão é um modo de aliviar o sofrimento psíquico. Como conclui a autora (2021), “a dor auto infligida é um ato racional e consciente tido como um antídoto para aliviar tensões e problemas com os quais o indivíduo não consegue lidar”.

Os relatos dos jovens por si só já bastariam para mostrar ao leitor os significados que autolesão assume no universo juvenil, mas a autora foi além e conseguiu imagens impressionantes que revelam outra faceta do fenômeno: a sua dimensão gregária, ou seja, os jovens que se cortam formam grupos a partir dos quais exercitam uma forma peculiar de sociabilidade e de solidariedade que tem no compartilhamento de imagens um dos seus sustentáculos. Assim, cortar-se, fotografar os cortes e compartilhar via redes sociais é uma prática em torno da qual se cria uma rede que é ao mesmo tempo suporte afetivo e incentivo à continuidade da autolesão.

Invisibilizados pela capa da homogeneidade com a qual a escola fabrica o aluno (ser abstrato, desprovido de saberes, sem história, sem desejos, sem voz), os jovens estudantes nem sempre reconhecem a escola como um lugar acolhedor e aberto a saber o que eles sabem ou sentem. Entre os muros da escola, problemas como “mau comportamento”, infrequência e baixo rendimento comumente são julgados como atitudes de alunos que “não querem nada com a escola”.

Em sua prática docente, Clécia quis saber o que havia por trás dessas atitudes e por querer saber, encontrou o fenômeno da autolesão. Diante disso, compreendeu que a escola e a sala de aula são espaços privilegiados de pesquisa e que o bom professor é aquele que transforma o seu fazer cotidiano em exercício de construção de conhecimento sobre os sujeitos aprendentes para incrementar a sua própria prática.

A pesquisa é uma atividade racional, mas o seu fazer, como ensina Evans-Pritchard, envolve cabeça e coração. Pesquisar exige olhos e ouvidos atentos, mas também alma e coração. Assim também deve ser o trabalho do professor, pois, como disse o mestre Paulo Freire, “não se pode falar em educação sem amor”. Como demonstração do amor pelo que faz, Clécia nos presenteia com um livro que une sensibilidade e rigor científico, trazendo para o campo das ciências sociais um fenômeno que comumente vem sendo abordado apenas por psicólogos e profissionais de saúde. Além disso, põe em tela os jovens das pequenas cidades, sujeitos que raramente ocupam a cena dos estudos sobre juventudes.

Pelo exposto, considero este livro uma leitura obrigatória para todos os que lidam cotidianamente com jovens, sejam pais, educadores, psicólogos, assistentes sociais, profissionais de saúde ou operadores de políticas públicas.

Fortaleza, dezembro de 2020

Professora Isaurora Cláudia Martins de Freitas

Doutora em Sociologia e professora associada ao departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA)-CE.







Nenhum comentário:

Postar um comentário

COLUNA PRIMEIRO PLANO

  LUIZIANE, A CAMINHO DO SENADO, SAI DO PT, MAS APOIARÁ LULA E ELMANO.                                        EDIÇÃO DE 04.04.26            ...