LANÇAMENTO
EM GUARACIABA DO NORTE
O lançamento do livro prefaciado
pela Professora Isaurora Claudia Martins de Freitas foi lançado na cidade da autora, no último dia 9 de
abril, no auditório do Colégio Oriento.
A autora Clécia Maria
Lopes do Nascimento fez a apresentação de seu livro, destacando que: O presente livro se propõe a compreender o
fenômeno da autolesão entre jovens estudantes de uma escola de ensino médio na
modalidade regular de educação pública em uma cidade do interior do estado do
Ceará. Os jovens estão na faixa etária de 13 a 18 anos e apresentam
comportamentos tidos como desviantes pela sociedade e pela instituição escolar.
No entanto, não é uma realidade singular apenas desta escola e sim um fato
recorrente na vida de muitos jovens atualmente. A prática de autolesão corporal
pode ser compreendida como um ato de se machucar com objetos cortantes,
pontiagudos ou perfurantes de uma forma superficial sem a intenção de cometer
suicídio, apenas com o intuito de sentir dor temporariamente.
A autora nos convidou para
fazer a mediação daquele momento porque considera que o nosso livro PROFESSOR
COM PRAZER – Vivência e convivência na sala de aula, aponta soluções para
os graves problemas detectados em suas pesquisas de Mestrado.
Na oportunidade, perante o
grande número de Professores presentes e considerando a gravidade do assunto,
propusemos ao Vereador Ariecílio Nobre, destacado Professor no
município, que apresentasse na Câmara Municipal a realização de Audiências
Públicas, na sede e nos distritos para discussão com todos os Professores,
Gestores Escolares, Pais de Alunos e servidores da área de Saúde sobre a
temática detectada e estudada no livro VIVER À FLOR (e ao corte) DA PELE.
Após as apresentações e
comentários de vários professores presentes, seguiu-se o momento de autógrafos.
Viver à flor (e ao corte) da pele
PREFÁCIO
da professora Isaurora
Cláudia Martins de Freitas, da UVA.
No dia 19 de maio de 2017,
Clécia, recém-contratada como professora em uma escola pública no município de
Guaraciaba do Norte (CE), enviou-me uma mensagem por meio de uma rede social
pedindo sugestões de leituras, pois estava iniciando uma pesquisa com alguns
dos seus alunos que se cortavam. Em um dos trechos da mensagem explicava:
“Estamos com muitos casos de alunos com evasão escolar, atestados médicos de
jovens que estão passando por esses problemas. Dessa forma, quero compreender
esse fenômeno em uma perspectiva sociológica, os motivos pessoais ou sociais da
automutilação desses jovens, o perfil desse jovem, qual o papel da escola e professores
[…]”. Ali começava a história deste livro. Tive, portanto, a oportunidade e o
prazer de acompanhar sua feitura desde a fase embrionária, quando ele era ainda
uma tentativa de uma professora compreender melhor o que se passava com seus
alunos para conseguir ajudá-los.
Quando a preocupação virou um
esboço de projeto acadêmico apresentado à comissão de seleção da primeira turma
do Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional (PROFSOCIO), da
Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), desde a primeira leitura uma
questão invadiu-me: o que pode uma professora sensível e atenta ao que se passa
ao seu redor? A resposta a essa questão vai sendo tecida em cada uma das
páginas desta obra nas quais a autora apresenta sua pesquisa de mestrado (já
finalizada) que tomou como interlocutores os alunos para os quais leciona.
Formada em Ciências Sociais e
lecionando a disciplina de Sociologia para jovens do ensino médio e atuando
como professora diretora de turma numa escola da rede estadual de educação do
Ceará, a autora atentou para um fenômeno que vem crescendo entre os jovens do
mundo inteiro neste século XXI: a prática da autolesão, que consiste em fazer
cortes e perfurações no corpo de forma sistemática por motivos diversos. O
fenômeno é apenas uma das facetas das vivências das juventudes na
contemporaneidade e representa a ponta do iceberg de diversos problemas que os
afetam.
A partir da observação e da
escuta sensível de 20 jovens que praticam autolesão, a autora descortinou o
universo íntimo desses jovens, que, em resposta à confiança conquistada por
ela, expuseram as dores, os sofrimentos e angústias que os levam a tal prática.
Conflitos familiares, violência doméstica, separação dos pais, alcoolismo,
sentimento de rejeição familiar devido à orientação sexual e carência afetiva
são os principais motivos apontados pelos jovens como desencadeadores da
prática de autolesão. O que os interlocutores da pesquisa nos mostram,
portanto, é que a autolesão é um modo de aliviar o sofrimento psíquico. Como
conclui a autora (2021), “a dor auto infligida é um ato racional e consciente
tido como um antídoto para aliviar tensões e problemas com os quais o indivíduo
não consegue lidar”.
Os relatos dos jovens por si
só já bastariam para mostrar ao leitor os significados que autolesão assume no
universo juvenil, mas a autora foi além e conseguiu imagens impressionantes que
revelam outra faceta do fenômeno: a sua dimensão gregária, ou seja, os jovens
que se cortam formam grupos a partir dos quais exercitam uma forma peculiar de sociabilidade
e de solidariedade que tem no compartilhamento de imagens um dos seus
sustentáculos. Assim, cortar-se, fotografar os cortes e compartilhar via redes
sociais é uma prática em torno da qual se cria uma rede que é ao mesmo tempo
suporte afetivo e incentivo à continuidade da autolesão.
Invisibilizados pela capa da
homogeneidade com a qual a escola fabrica o aluno (ser abstrato, desprovido de
saberes, sem história, sem desejos, sem voz), os jovens estudantes nem sempre
reconhecem a escola como um lugar acolhedor e aberto a saber o que eles sabem
ou sentem. Entre os muros da escola, problemas como “mau comportamento”,
infrequência e baixo rendimento comumente são julgados como atitudes de alunos
que “não querem nada com a escola”.
Em sua prática docente, Clécia
quis saber o que havia por trás dessas atitudes e por querer saber, encontrou o
fenômeno da autolesão. Diante disso, compreendeu que a escola e a sala de aula
são espaços privilegiados de pesquisa e que o bom professor é aquele que
transforma o seu fazer cotidiano em exercício de construção de conhecimento
sobre os sujeitos aprendentes para incrementar a sua própria prática.
A pesquisa é uma atividade
racional, mas o seu fazer, como ensina Evans-Pritchard, envolve cabeça e
coração. Pesquisar exige olhos e ouvidos atentos, mas também alma e coração.
Assim também deve ser o trabalho do professor, pois, como disse o mestre Paulo
Freire, “não se pode falar em educação sem amor”. Como demonstração do amor
pelo que faz, Clécia nos presenteia com um livro que une sensibilidade e rigor
científico, trazendo para o campo das ciências sociais um fenômeno que
comumente vem sendo abordado apenas por psicólogos e profissionais de saúde.
Além disso, põe em tela os jovens das pequenas cidades, sujeitos que raramente
ocupam a cena dos estudos sobre juventudes.
Pelo exposto, considero este
livro uma leitura obrigatória para todos os que lidam cotidianamente com
jovens, sejam pais, educadores, psicólogos, assistentes sociais, profissionais
de saúde ou operadores de políticas públicas.
Fortaleza, dezembro de
2020
Professora Isaurora
Cláudia Martins de Freitas
Doutora
em Sociologia e professora associada ao departamento de Ciências Sociais da
Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA)-CE.






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