SAUDAÇÃO AO POETA
GERALDO AMANCIO, NO SEU INGRESSO NA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS, 21.06.2022.
Senhoras e Senhores:
Por mais paradoxal e
estranha que pareça, esta será uma noite ensolarada.
Porque
banharão suas horas e o seu mistério os raios fecundos e coruscantes da
felicidade, para a Academia Cearense de Letras e para a Literatura Cearense.
E´
que, nesta noite de celebração e fulgor estamos recebendo o poeta GERALDO
AMANCIO PEREIRA, filho dos sopros estivais do Centro-Sul do Ceará e afilhado de
Orfeu, esse deus brincalhão e sedutor, que frequenta com assiduidade os salões
eruditos, mas também sai pelos sertões, namorando as musas campesinas e
incendiando de inspiração os caminhos, as mentes e os corações.
Quis
o destino, dono dos rumos da vida, que nesta noite de acesas venturas eu
estivesse aqui, nomeado pelos meus pares, para receber, em nome desta
instituição centenária este luminar da poesia popular do Nordeste que, eleito
por unanimidade, vai agora fazer parte da mesa larga de nosso convívio e
repartir conosco o segredo de suas criações, a expressão inquieta e versátil de
sua poesia e sua maneira de olhar o mundo com a força, o encanto e a graça da
simplicidade.
Esperamos
por 128 anos, ansiosos e expectantes à porta de nossa casa, a chegada do poeta
Geraldo Amâncio. Circunstâncias difusas, vesgos preconceitos e desculpas
amassadas impediram o seu advento. Geraldo deixou de vir, encarnado em outros
nomes célebres, ora cego, ora magro, ora gordo, maneta, torto ou caolho, alto,
baixo, preto ou branco, atendendo pelos nomes de Jacó Passarinho, Neco Martins,
Anselmo Vieira, Fausto Correia Lima, cego Aderaldo, João Siqueira de Amorim,
Antônio Maracajá, Antônio Ferreira, José Mota Pinheiro, Louro Branco e o grande
épico do sertão, Patativa do Assaré. Todos grandes menestréis da viola e do
improviso, que se encabularam de vir buscar o seu lugar.
O
preconceito e o sapiencismo atravessaram um século, impedindo que os arautos
estelares da cultura popular, seus criadores natos, seus bardos espontâneos e
cheios de talento se sentassem conosco, como companheiros da iluminação
fulgurante concedida por Deus para o exercício do verso e da prosa. Esse esquecimento, esse menoscabo, como muito
bem define Ariano Suassuna, é um crime de lesa-origem cultural, uma atitude
bastarda de negação das raízes culturais, pois somos todos filhos da
criatividade, das histórias e façanhas da tradição, dos dizeres, comeres,
fazeres e de todo o saber do povo, nosso dono e senhor por direito de origem.
Homero
foi um cantador da Grécia antiga. Virgílio, Dante e Camões também beberam nas
fontes cristalinas e nas vertentes do saber popular.
Eu
sei, por convicção pessoal, que a cadência, os motivos e os símbolos de minha
poesia foram gerados no alpendre e no terreiro da amada e poeirenta fazenda em
que nasci, o Barro Vermelho. Tenho no peito uma velha viola e a minha alma
ponteia quadrões, martelos e galopes à beira mar. Li centenas de cordéis e ouvi
grandes desafios no País da Infância.
E
sobre isso, tenho uma história para contar.
ERA
UMA VEZ UMA NOITE DE VIOLAS NA FAZENDA BARRO VERMELHO, o lugar onde nasci.
Meu
pai gostava de Reisados, sanfonas e repentistas. E para seus convidados daquela
noite enluarada contratara os cantadores Apolônio e Ângelo Vieira.
Eu,
menino, escutara abismado o embate poético que se prolongou até a meia-noite.
De
manhãzinha, com sua arte já paga, os dois violeiros selaram os seus cavalos e
partiram.
Mas,
pelas sete horas da manhã, a casa reunida para o café, sentiram a falta do
menino. Um clamor, um corre-corre desesperado por todas as dependências e
também pela vizinhança. Nada.
“Os repentistas carregaram o meu filho!” – Exclamava aos brados um pai louco de ódio, se
armando e reunindo os cabras para a perseguição. Cavalos e homens prontos, tomaram
a estrada em feroz calopada. “Iriam pagar caro o atrevimento” - Rosnava
o chefe, repleto de franco rancor.
Em
pouco tempo me alcançaram, pés descalços no areal, vestindo a camisolinha de
dormir, cabelos ao vento, na doce inocência dos seis anos, atrás dos cantadores
que, certamente, já se faziam distantes com suas montarias.
Episódios
da infância muitas vezes definem um destino. E a sorte me nutriu da melhor
fonte, das águas da nascente, do ponto original.
Embalaram
a mim e a outros meninos do sertão as violas e os seus tangedores. Crescemos
ouvindo os poetas populares e envolvidos pelo encanto das histórias rimadas dos
romances de cordel. Aventuras incríveis vindas das feiras em folhetos rudes
diretamente para a fulguração de nossas mentes em processo de formação.
Como
não se encantar com aquela
“
História de um Pavão Misterioso,
que levantou vôo na Grécia
com um rapaz corajoso
raptando uma condessa
filha de um conde orgulhoso?”
E
as danações daquele sujeitinho, sem-vergonha até a medula, que inspirou Ariano
Suassuna em sua melhor produção teatral, O Ato da Compadecida. O espertíssimo
presepeiro João Grilo:
“João Grilo foi um cristão
que nasceu fora do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.”
Mas
reboliço grande foi quando Lampião, o Rei do Cangaço, decidiu invadir o
inferno, conforme contava o poeta Zé Pacheco:
“Um cabra de Lampião
Por nome Pilão Deitado
Que morreu numa trincheira
Em certo tempo passado,
Agora pelo sertão
Anda correndo visão
Fazendo mal assombrado.
E foi quem trouxe a notícia
Que viu Lampião chegar
O inferno nesse dia
Faltou pouco pra virar:
Incendiou-se o mercado
Morreu tanto cão queimado
Que faz pena até contar.”
Geraldo
Amâncio Pereira é um filho dileto da alma sonora e comovida do sertão.
Pertence
a uma raça de poetas de mente afiada e superior inteligência, capaz de
engendrar, com a rapidez de um disparo, uma estrofe perfeita em rimas e
métrica, sem perder o sentido nem o objetivo de seu pensamento, muitas vezes
submetida a um mote sugerido por alguém da plateia.
A
história de sua vida se confunde com a própria história da quarta geração dos
grandes repentistas do Nordeste, uma safra de poetas de peso que incluem Pedro
Bandeira, Ivanildo Vilanova, Sebastião da Silva, Moacir Laurentino, Louro
Branco, Sebastião Dias, João Paraibano, Oliveira de Panelas, Severino Feitosa,
Fenelon Dantas, Valdir Teles...onde ele se afirmou entre os mais brilhantes e
foi além, tornando-se escritor e conferencista, representando o Brasil, em nome
de nossa cultura popular, na Europa e no Oriente Médio.
Hoje,
reconhecido e conceituado, consolida-se como uma referência magistral da poesia
contemporânea, aplaudido, não só pelas plateias embevecidas que frequentam suas
apresentações, mas pelos outros poetas, acadêmicos e populares, que lhe fazem a
louvação respeitosa e admirada. Quando se espalhou a notícia de sua eleição
para a Academia Cearense de Letras, o poeta Tião Simpatia assim comemorou:
“Geraldo Amâncio Pereira
É um poeta brilhante
da viola é um gigante
na poesia altaneira.
A cultura brasileira
sem Geraldo não teria
esta fonte de poesia
que não para de jorrar.
A cultura popular
se senta na Academia.
Publique-se no jornal
no rádio e televisão
tem poeta do sertão
que se tornou imortal.
Só um poeta genial
tem direito à honraria
e pode subir nesse dia
ao mais alto patamar:
a cultura popular
se senta na Academia.”
O
poeta Chico Torres também se manifestou:
“ Geraldo Amâncio Pereira
hoje o povo está presente
você representa a gente
sem eira, beira e tribeira.
A notícia alvissareira
deixou a terra orgulhada
se postando na vanguarda
abrindo sua academia
para ouvir sua cantoria
e ficar maravilhada.”
Seu
parceiro atual nas cantorias, o jovem repentista Guilherme Nobre, declara em
seu elogio:
“Gasto todo adjetivo
que o Português me assegura
com a pessoa mais pura
das pessoas que convivo.
O maior cantador vivo
da história brasileira
que ao longo da carreira
tornou-se pra o povo um gênio.
O cantador do milênio
Geraldo Amâncio Pereira.
O
poeta e acadêmico Virgílio Maia, que foi um dos articuladores da candidatura de
Geraldo Amâncio à nossa academia, vê desta forma o nosso poeta:
“É andarilho do canto
da palavra é grande amante;
Cada verso é um diamante
de alegria ou de pranto.
A poesia abre seu manto
quando ele impunha a viola
de sua nobre cachola
sai repente em borbotão;
Canta o espaço, louva o chão
e cada estrofe é uma escola.”
O
acadêmico Carlos Augusto Viana, outro grande articulador da eleição de Geraldo Amâncio,
resolveu utilizar no seu elogio uma das modalidades tradicionais da cantoria:
“Geraldo Amâncio, cantor de cantares
é sempre operário do verso-canção
desfibra segredos em seu coração
e diz dos saberes e diz dos olhares
no açúcar das águas, nas plagas dos mares
conserva os espinhos da estrela polar
que vive sozinha, mas ao escutar
a voz do poeta se derrama em brilhos
os trens enlouquece retirando os trilhos
nos dez de galope da beira do mar.”
Estão
se tornando frequentes as análises e estudos, no ambiente acadêmico,
especialmente dedicados à poesia popular.
Seguem
a rota do que fizeram no passado João Ribeiro, Leonardo Mota e Câmara Cascudo.
Da
nova safra de estudiosos, destacamos Alberto Rolphe, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Ana
Maria de Oliveira Galvão, da Universidade Federal de Pernambuco.
E
a nossa querida professora ELBA BRAGA RAMALHO, autora de um livro-marco,
CANTORIA NORDESTINA: MÚSICA E PALAVRA, onde afirma que, propositadamente, sai
do engessamento da análise da cultura erudita para um outro campo referencial -
a arte popular do Cantador – na certeza de que ela é portadora de verdades
universais e, mais do que isto, de um modo de expressão contemporânea.
Nesta obra, publicada em 2000, Geraldo Amâncio
é demoradamente comentado.
Outros
e outras há tempos vem estudando e escrevendo sobre a arte do improviso em verso
e a especial destreza dos poetas nordestinos na concepção instantânea de belas
estrofes, algumas certamente antológicas.
Como
não admirar o derramamento lírico do cantador João Paraibano para sua esposa
Anabela, chamada na intimidade de Bela, quando em porfia de repentes, em
Recife, ouviu de seu companheiro de viola que, no dia seguinte, estaria
passando pela cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira, onde João morava. O
poeta João Paraibano aproveitou a oportunidade para mandar um recato amoroso para
sua mulher, no estalo do repente:
“Ao passar por Afogados
diga à minha esposa Bela
que eu derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela:
Tive sede, bebi uma,
e guardei a outra pra ela.”
Senhoras
e Senhores Acadêmicos.
Senhoras
e Senhores Convidados:
Está
acontecendo aqui, nesta noite e nesta cerimônia, a celebração nupcial da
Academia Cearense de Letras com a Poesia Popular.
Foi
um namoro longo, que demorou mais de cem anos, mas o noivado foi abreviado e
hoje, a atual geração acadêmica se redime perante a história da literatura do
Ceará.
Recebemos
em nossa casa o poeta Geraldo Amâncio Pereira e queremos que ele esteja entre
nós, no laço de nossa benquerença, porque o admiramos, o respeitamos muito e
reconhecemos o seu valor.
Que
esteja à vontade e simplesmente faça o que sabe fazer com tanta distinção e com
tanto talento.
Que
faça versos como estes, ao receber a notícia da morte de Ariano Suassuna:
“Onde a cultura é tribuna
sua voz foi a mais alta.
houve o primeiro, mas falta
um segundo Suassuna.
Parte e deixa uma lacuna
que não será preenchida.
sua forma definida
na maneira de escrever,
não tinha como dever,
mas como missão de vida.
Com originalidade
a sua missão cumpriu
foi quem melhor traduziu
nossa nordestinidade.
Porta-voz e autoridade
dos valores culturais,
das fontes originais
um divulgador constante
como um cavaleiro andante
dos tempos medievais.”
Em
cantoria com Ivanildo Vilanova, passaram os dois poetas a comparar os poetas
repentistas com várias profissões. Assim, o cantador encarnava o VAQUEIRO, o
TROPEIRO, o CARPINTEIRO, o GARIMPEIRO, o JANGADEIRO... das estrofes de Geraldo,
destacamos:
“Entre facheiro e favela
unha-de-gato e cancela
rolando em cima da sela
poeta é como vaqueiro:
Tira o leite, guarda o soro,
monta burro, veste couro
rasga o mato, pega o touro
cantando quadrão mineiro.
Na margem do bebedouro
com o relho da cor de ouro
armando um surrão de couro
o poeta é um tropeiro:
Tangendo a tropa cansada
deixa uma canção gravada
na poeira da estrada
cantando quadrão mineiro.
Carpinteiro com a pua
furando a madeira crua
serra, corta, prega e sua
como sofre o carpinteiro:
Poeta que tem talento
martela a todo momento
as tábuas do pensamento
cantando quadrão mineiro.
Na mata desconhecida
para achar uma jazida
a pedra que se lapida
poeta é um garimpeiro:
Entre a pedra e a poeira
dinamita a cordilheira
vende a pedra e faz a feira
cantando quadrão mineiro.
Com o mar azul defronte
céu, distância e horizonte
o sol lhe queimando a fronte
o poeta é um jangadeiro:
Segue o rumo, pega a trilha
deixa um ai em cada milha
uma lágrima em cada ilha
cantando quadrão mineiro.”
Poeta
GERALDO AMANCIO, por quem sois, SEJAS BEM VINDO!
Estamos
aqui perfilados no pátio aconchegante do sentimento de camaradagem e no
esplendor de nossa emoção para vos receber.
Estão
convosco os vivos, vossos novos companheiros de jornada acadêmica, e os outros
que por aqui passaram e hoje repousam permanentes na imortalidade.
Sim,
porque os fantasmas dos que nos antecederam continuam a vigiar as nossas
atitudes. Zelam por nós e costumam conferir com quem estamos nos casando.
Geraldo,
meu poeta:
Certamente
fostes aprovado pelos barões assinalados.
Porque
não chegastes aqui de mãos vazias.
Trouxestes
convosco os alforges repletos de encantos, preenchidos sem pressa nos estatutos
da simplicidade.
Luzes
e sonhos, rimas, símbolos, esperanças e cantigas conseguidos no fogo das
batalhas poéticas, nas saborosas noites de violas.
Vêm
convosco os velhos alpendres, providos de armadores e das preguiçosas redes
esticadas no sossego das tardes sertanejas.
Trazeis
também os queijos bem prensados e os potes repletos de manhãs chuvosas.
Vinde,
poeta, para o nosso abraço!
E
deste abraço fazei o que lhe apraz:
Um
bolo de fubá, um catavento.
Um
anseio de ternura. Uma viagem
pelas
rotas rurais do pensamento.
Fazei
de nosso abraço qualquer coisa:
Um
tépido travesseiro, uma cantiga,
uma
tigela de canjica doce
um
barulhinho bom, como se fosse
chuva
nas telhas de uma casa antiga.
Fazei
do nosso abraço uma campina
ou
uma rua cheia de meninos
uma
montanha azul de onde se vejam
os
nebulosos rastros do destino.
Porque,
poeta, teus versos são faíscas,
chicotes
que se espalham como raios
penetrantes,
caídos da memória,
são
éguas russas, são cavalos baios
são
lampiões ardentes, lamparinas
acesas
em casa, levadas nas esquinas
das
ruas do viver. São melodias
pancadas
de trovões pelas matinas
rompendo
medos, despertando os dias.
Tua
saga, poeta, bem consola
o
triste arfar de quem não tem amor.
Prega
o tempo adequado da colheita
a
semente que brota no calor.
Faz
reto o ímpio, transforma e endireita
o
desgarrado. E converte o ateu
que
chora por ter fé e por doutrina.
E
acende o fogo, como Prometeu,
sem
temor do castigo da colina.
Poeta
GERALDO AMANCIO, a nossa casa é vossa!
Sejais
bem-vindo à Cadeira 14 e à imortalidade!
MUITO
OBRIGADO.