quarta-feira, 22 de junho de 2022

IDEIAS & NOTÍCIAS

 

SAUDAÇÃO AO POETA GERALDO AMANCIO, NO SEU INGRESSO NA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS, 21.06.2022.


Senhoras e Senhores:

Por mais paradoxal e estranha que pareça, esta será uma noite ensolarada.

Porque banharão suas horas e o seu mistério os raios fecundos e coruscantes da felicidade, para a Academia Cearense de Letras e para a Literatura Cearense.

 E´ que, nesta noite de celebração e fulgor estamos recebendo o poeta GERALDO AMANCIO PEREIRA, filho dos sopros estivais do Centro-Sul do Ceará e afilhado de Orfeu, esse deus brincalhão e sedutor, que frequenta com assiduidade os salões eruditos, mas também sai pelos sertões, namorando as musas campesinas e incendiando de inspiração os caminhos, as mentes e os corações.

 Quis o destino, dono dos rumos da vida, que nesta noite de acesas venturas eu estivesse aqui, nomeado pelos meus pares, para receber, em nome desta instituição centenária este luminar da poesia popular do Nordeste que, eleito por unanimidade, vai agora fazer parte da mesa larga de nosso convívio e repartir conosco o segredo de suas criações, a expressão inquieta e versátil de sua poesia e sua maneira de olhar o mundo com a força, o encanto e a graça da simplicidade.

 Esperamos por 128 anos, ansiosos e expectantes à porta de nossa casa, a chegada do poeta Geraldo Amâncio. Circunstâncias difusas, vesgos preconceitos e desculpas amassadas impediram o seu advento. Geraldo deixou de vir, encarnado em outros nomes célebres, ora cego, ora magro, ora gordo, maneta, torto ou caolho, alto, baixo, preto ou branco, atendendo pelos nomes de Jacó Passarinho, Neco Martins, Anselmo Vieira, Fausto Correia Lima, cego Aderaldo, João Siqueira de Amorim, Antônio Maracajá, Antônio Ferreira, José Mota Pinheiro, Louro Branco e o grande épico do sertão, Patativa do Assaré. Todos grandes menestréis da viola e do improviso, que se encabularam de vir buscar o seu lugar.

 O preconceito e o sapiencismo atravessaram um século, impedindo que os arautos estelares da cultura popular, seus criadores natos, seus bardos espontâneos e cheios de talento se sentassem conosco, como companheiros da iluminação fulgurante concedida por Deus para o exercício do verso e da prosa.  Esse esquecimento, esse menoscabo, como muito bem define Ariano Suassuna, é um crime de lesa-origem cultural, uma atitude bastarda de negação das raízes culturais, pois somos todos filhos da criatividade, das histórias e façanhas da tradição, dos dizeres, comeres, fazeres e de todo o saber do povo, nosso dono e senhor por direito de origem.

 Homero foi um cantador da Grécia antiga. Virgílio, Dante e Camões também beberam nas fontes cristalinas e nas vertentes do saber popular.

Eu sei, por convicção pessoal, que a cadência, os motivos e os símbolos de minha poesia foram gerados no alpendre e no terreiro da amada e poeirenta fazenda em que nasci, o Barro Vermelho. Tenho no peito uma velha viola e a minha alma ponteia quadrões, martelos e galopes à beira mar. Li centenas de cordéis e ouvi grandes desafios no País da Infância.

 E sobre isso, tenho uma história para contar.

 ERA UMA VEZ UMA NOITE DE VIOLAS NA FAZENDA BARRO VERMELHO, o lugar onde nasci.

Meu pai gostava de Reisados, sanfonas e repentistas. E para seus convidados daquela noite enluarada contratara os cantadores Apolônio e Ângelo Vieira.

Eu, menino, escutara abismado o embate poético que se prolongou até a meia-noite.

De manhãzinha, com sua arte já paga, os dois violeiros selaram os seus cavalos e partiram.

Mas, pelas sete horas da manhã, a casa reunida para o café, sentiram a falta do menino. Um clamor, um corre-corre desesperado por todas as dependências e também pela vizinhança. Nada.

“Os repentistas carregaram o meu filho!” – Exclamava aos brados um pai louco de ódio, se armando e reunindo os cabras para a perseguição. Cavalos e homens prontos, tomaram a estrada em feroz calopada. “Iriam pagar caro o atrevimento” - Rosnava o chefe, repleto de franco rancor.

Em pouco tempo me alcançaram, pés descalços no areal, vestindo a camisolinha de dormir, cabelos ao vento, na doce inocência dos seis anos, atrás dos cantadores que, certamente, já se faziam distantes com suas montarias.

 Episódios da infância muitas vezes definem um destino. E a sorte me nutriu da melhor fonte, das águas da nascente, do ponto original.

 Embalaram a mim e a outros meninos do sertão as violas e os seus tangedores. Crescemos ouvindo os poetas populares e envolvidos pelo encanto das histórias rimadas dos romances de cordel. Aventuras incríveis vindas das feiras em folhetos rudes diretamente para a fulguração de nossas mentes em processo de formação.

 Como não se encantar com aquela

História de um Pavão Misterioso,

que levantou vôo na Grécia

com um rapaz corajoso

raptando uma condessa

filha de um conde orgulhoso?”

 E as danações daquele sujeitinho, sem-vergonha até a medula, que inspirou Ariano Suassuna em sua melhor produção teatral, O Ato da Compadecida. O espertíssimo presepeiro João Grilo:

 “João Grilo foi um cristão

que nasceu fora do dia

criou-se sem formosura

mas tinha sabedoria

e morreu depois da hora

pelas artes que fazia.”

 

Mas reboliço grande foi quando Lampião, o Rei do Cangaço, decidiu invadir o inferno, conforme contava o poeta Zé Pacheco:

 “Um cabra de Lampião

Por nome Pilão Deitado

Que morreu numa trincheira

Em certo tempo passado,

Agora pelo sertão

Anda correndo visão

Fazendo mal assombrado.

 

E foi quem trouxe a notícia

Que viu Lampião chegar

O inferno nesse dia

Faltou pouco pra virar:

Incendiou-se o mercado

Morreu tanto cão queimado

Que faz pena até contar.”

  Geraldo Amâncio Pereira é um filho dileto da alma sonora e comovida do sertão.

Pertence a uma raça de poetas de mente afiada e superior inteligência, capaz de engendrar, com a rapidez de um disparo, uma estrofe perfeita em rimas e métrica, sem perder o sentido nem o objetivo de seu pensamento, muitas vezes submetida a um mote sugerido por alguém da plateia.

 A história de sua vida se confunde com a própria história da quarta geração dos grandes repentistas do Nordeste, uma safra de poetas de peso que incluem Pedro Bandeira, Ivanildo Vilanova, Sebastião da Silva, Moacir Laurentino, Louro Branco, Sebastião Dias, João Paraibano, Oliveira de Panelas, Severino Feitosa, Fenelon Dantas, Valdir Teles...onde ele se afirmou entre os mais brilhantes e foi além, tornando-se escritor e conferencista, representando o Brasil, em nome de nossa cultura popular, na Europa e no Oriente Médio.

 Hoje, reconhecido e conceituado, consolida-se como uma referência magistral da poesia contemporânea, aplaudido, não só pelas plateias embevecidas que frequentam suas apresentações, mas pelos outros poetas, acadêmicos e populares, que lhe fazem a louvação respeitosa e admirada. Quando se espalhou a notícia de sua eleição para a Academia Cearense de Letras, o poeta Tião Simpatia assim comemorou:

“Geraldo Amâncio Pereira

É um poeta brilhante

da viola é um gigante

na poesia altaneira.

A cultura brasileira

sem Geraldo não teria

esta fonte de poesia

que não para de jorrar.

A cultura popular

se senta na Academia.

 

 

Publique-se no jornal

no rádio e televisão

tem poeta do sertão

que se tornou imortal.

Só um poeta genial

tem direito à honraria

e pode subir nesse dia

ao mais alto patamar:

a cultura popular

se senta na Academia.”

 

O poeta Chico Torres também se manifestou:

 “ Geraldo Amâncio Pereira

hoje o povo está presente

você representa a gente

sem eira, beira e tribeira.

A notícia alvissareira

deixou a terra orgulhada

se postando na vanguarda

abrindo sua academia

para ouvir sua cantoria

e ficar maravilhada.”

 Seu parceiro atual nas cantorias, o jovem repentista Guilherme Nobre, declara em seu elogio:

 “Gasto todo adjetivo

que o Português me assegura

com a pessoa mais pura

das pessoas que convivo.

O maior cantador vivo

da história brasileira

que ao longo da carreira

tornou-se pra o povo um gênio.

O cantador do milênio

Geraldo Amâncio Pereira.

 O poeta e acadêmico Virgílio Maia, que foi um dos articuladores da candidatura de Geraldo Amâncio à nossa academia, vê desta forma o nosso poeta:

 “É andarilho do canto

da palavra é grande amante;

Cada verso é um diamante

de alegria ou de pranto.

A poesia abre seu manto

quando ele impunha a viola

de sua nobre cachola

sai repente em borbotão;

Canta o espaço, louva o chão

e cada estrofe é uma escola.”

 O acadêmico Carlos Augusto Viana, outro grande articulador da eleição de Geraldo Amâncio, resolveu utilizar no seu elogio uma das modalidades tradicionais da cantoria:

 “Geraldo Amâncio, cantor de cantares

é sempre operário do verso-canção

desfibra segredos em seu coração

e diz dos saberes e diz dos olhares

no açúcar das águas, nas plagas dos mares

conserva os espinhos da estrela polar

que vive sozinha, mas ao escutar

a voz do poeta se derrama em brilhos

os trens enlouquece retirando os trilhos

nos dez de galope da beira do mar.”

 Estão se tornando frequentes as análises e estudos, no ambiente acadêmico, especialmente dedicados à poesia popular.

Seguem a rota do que fizeram no passado João Ribeiro, Leonardo Mota e Câmara Cascudo.

Da nova safra de estudiosos, destacamos Alberto Rolphe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ana Maria de Oliveira Galvão, da Universidade Federal de Pernambuco.

E a nossa querida professora ELBA BRAGA RAMALHO, autora de um livro-marco, CANTORIA NORDESTINA: MÚSICA E PALAVRA, onde afirma que, propositadamente, sai do engessamento da análise da cultura erudita para um outro campo referencial - a arte popular do Cantador – na certeza de que ela é portadora de verdades universais e, mais do que isto, de um modo de expressão contemporânea.

 Nesta obra, publicada em 2000, Geraldo Amâncio é demoradamente comentado.

 Outros e outras há tempos vem estudando e escrevendo sobre a arte do improviso em verso e a especial destreza dos poetas nordestinos na concepção instantânea de belas estrofes, algumas certamente antológicas.

 Como não admirar o derramamento lírico do cantador João Paraibano para sua esposa Anabela, chamada na intimidade de Bela, quando em porfia de repentes, em Recife, ouviu de seu companheiro de viola que, no dia seguinte, estaria passando pela cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira, onde João morava. O poeta João Paraibano aproveitou a oportunidade para mandar um recato amoroso para sua mulher, no estalo do repente:

 “Ao passar por Afogados

diga à minha esposa Bela

que eu derramei duas lágrimas

sentindo saudades dela:

Tive sede, bebi uma,

e guardei a outra pra ela.”

 

Senhoras e Senhores Acadêmicos.

Senhoras e Senhores Convidados:

 Está acontecendo aqui, nesta noite e nesta cerimônia, a celebração nupcial da Academia Cearense de Letras com a Poesia Popular.

 Foi um namoro longo, que demorou mais de cem anos, mas o noivado foi abreviado e hoje, a atual geração acadêmica se redime perante a história da literatura do Ceará.

 Recebemos em nossa casa o poeta Geraldo Amâncio Pereira e queremos que ele esteja entre nós, no laço de nossa benquerença, porque o admiramos, o respeitamos muito e reconhecemos o seu valor.  

Que esteja à vontade e simplesmente faça o que sabe fazer com tanta distinção e com tanto talento.

Que faça versos como estes, ao receber a notícia da morte de Ariano Suassuna:

 “Onde a cultura é tribuna

sua voz foi a mais alta.

houve o primeiro, mas falta

um segundo Suassuna.

Parte e deixa uma lacuna

que não será preenchida.

sua forma definida

na maneira de escrever,

não tinha como dever,

mas como missão de vida.

 

Com originalidade

a sua missão cumpriu

foi quem melhor traduziu

nossa nordestinidade.

Porta-voz e autoridade

dos valores culturais,

das fontes originais

um divulgador constante

como um cavaleiro andante

dos tempos medievais.”

 

Em cantoria com Ivanildo Vilanova, passaram os dois poetas a comparar os poetas repentistas com várias profissões. Assim, o cantador encarnava o VAQUEIRO, o TROPEIRO, o CARPINTEIRO, o GARIMPEIRO, o JANGADEIRO... das estrofes de Geraldo, destacamos:

 

“Entre facheiro e favela

unha-de-gato e cancela

rolando em cima da sela

poeta é como vaqueiro:

Tira o leite, guarda o soro,

monta burro, veste couro

rasga o mato, pega o touro

cantando quadrão mineiro.

 

 

Na margem do bebedouro

com o relho da cor de ouro

armando um surrão de couro

o poeta é um tropeiro:

Tangendo a tropa cansada

deixa uma canção gravada

na poeira da estrada

cantando quadrão mineiro.

 

Carpinteiro com a pua

furando a madeira crua

serra, corta, prega e sua

como sofre o carpinteiro:

Poeta que tem talento

martela a todo momento

as tábuas do pensamento

cantando quadrão mineiro.

 

Na mata desconhecida

para achar uma jazida

a pedra que se lapida

poeta é um garimpeiro:

Entre a pedra e a poeira

dinamita a cordilheira

vende a pedra e faz a feira

cantando quadrão mineiro.

 

Com o mar azul defronte

céu, distância e horizonte

o sol lhe queimando a fronte

o poeta é um jangadeiro:

Segue o rumo, pega a trilha

deixa um ai em cada milha

uma lágrima em cada ilha

cantando quadrão mineiro.”

Poeta GERALDO AMANCIO, por quem sois, SEJAS BEM VINDO!

Estamos aqui perfilados no pátio aconchegante do sentimento de camaradagem e no esplendor de nossa emoção para vos receber.

Estão convosco os vivos, vossos novos companheiros de jornada acadêmica, e os outros que por aqui passaram e hoje repousam permanentes na imortalidade.

 Sim, porque os fantasmas dos que nos antecederam continuam a vigiar as nossas atitudes. Zelam por nós e costumam conferir com quem estamos nos casando.

 Geraldo, meu poeta:

 Certamente fostes aprovado pelos barões assinalados.

Porque não chegastes aqui de mãos vazias.

 Trouxestes convosco os alforges repletos de encantos, preenchidos sem pressa nos estatutos da simplicidade.

Luzes e sonhos, rimas, símbolos, esperanças e cantigas conseguidos no fogo das batalhas poéticas, nas saborosas noites de violas.

 Vêm convosco os velhos alpendres, providos de armadores e das preguiçosas redes esticadas no sossego das tardes sertanejas.

 Trazeis também os queijos bem prensados e os potes repletos de manhãs chuvosas.  

 Vinde, poeta, para o nosso abraço!

E deste abraço fazei o que lhe apraz:

Um bolo de fubá, um catavento.

Um anseio de ternura. Uma viagem

pelas rotas rurais do pensamento.

 

Fazei de nosso abraço qualquer coisa:

Um tépido travesseiro, uma cantiga,

uma tigela de canjica doce

um barulhinho bom, como se fosse

chuva nas telhas de uma casa antiga.

  

Fazei do nosso abraço uma campina

ou uma rua cheia de meninos

uma montanha azul de onde se vejam

os nebulosos rastros do destino.

 

Porque, poeta, teus versos são faíscas,

chicotes que se espalham como raios

penetrantes, caídos da memória,

são éguas russas, são cavalos baios

são lampiões ardentes, lamparinas

acesas em casa, levadas nas esquinas

das ruas do viver. São melodias

pancadas de trovões pelas matinas

rompendo medos, despertando os dias.

 

Tua saga, poeta, bem consola

o triste arfar de quem não tem amor.

Prega o tempo adequado da colheita

a semente que brota no calor.

Faz reto o ímpio, transforma e endireita

o desgarrado. E converte o ateu

que chora por ter fé e por doutrina.

E acende o fogo, como Prometeu,

sem temor do castigo da colina.

 

Poeta GERALDO AMANCIO, a nossa casa é vossa!

Sejais bem-vindo à Cadeira 14  e à imortalidade!

                                                                      

                                                                       MUITO OBRIGADO.

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