JOÃO – O PROTÓTIPO DO COMUNICADOR QUE MEXE COM AS ESTRUTURAS
Para iniciar os festejos do ciclo
junino, há 15 dias refleti sobre Santo Antônio, ”o insigne pregador e martelo dos hereges” que deixara de ser um
“frade maior” da Ordem de Santo Agostinho para ser um “fradinho menor” da Ordem
de São Francisco. Prometia retornar a S. João e S. Pedro no tempo certo. Hoje
quero comentar sobre o 2º Santo, festejado no ciclo junino, cuja data litúrgica
de seu nascimento foi celebrada ontem, 23, devido à prevalência da Solenidade ao
Sagrado Coração de Jesus, festejada hoje, dia 24, véspera dos tradicionais
festejos de São João, “conforme
determinação da Congregação para os Sacramentos”.
São João comunicou uma mensagem com o
seu modo de ser, de falar, de vestir, de se apresentar ao público e, sobretudo
de tomar posição ética e política diante do adultério do Rei Herodes.
De sua infância, nada se sabe. Só
aparece aos 30 anos, chamando muito, a atenção de todos, pela vestimenta de
couro de camelo, pelo alimento de gafanhoto com mel, e por percorrer toda a
região do Jordão, pregando um batismo de arrependimento para remissão dos pecados.
Falava, comunicava ou transmitia
uma mensagem, dizendo que depois dele viria alguém muito mais poderoso, de
quem não era digno de lhe desatar a correia das sandálias. Era, realmente, a
voz que clamava no deserto.
Pelas respostas que João dava a seus
interlocutores, a vinda de Jesus traria também uma mensagem política, ética e
justa, com fortes implicações sociais: quem tem duas túnicas, dê uma a quem
não tem, e quem tem o que comer, faça o mesmo. Não exijais mais do que vos foi
ordenado. Não pratiqueis a violência, nem roubeis a ninguém. Contentai-vos com
o vosso salário. Raça de víboras. Fazei penitência, pois está próximo o reino
de Deus.
Nosso intuito, nestas ocasionais reflexões semanais,
é mostrar como nós temos uma história, desde os primórdios do cristianismo,
voltada para a Pregação, a Proclamação da Palavra, a Comunicação da Verdade. João
é um protótipo perfeito do comunicador que mexe com as estruturas e que apela
para a transformação da sociedade. Assim como ele enfrentou o próprio Rei,
reclamando de seu comportamento moral e foi levado à prisão, assim também
devemos ter coragem de reclamar pelo erro de quem quer que seja, visando uma
mudança na comunidade. Muitas pessoas têm medo de imitá-lo e até, metem medo em
quem tem coragem de denunciar injustiças, falcatruas e outros erros. Temos que
mostrar João Batista fazendo o seu papel, partindo na frente, denunciando
injustiças, anunciando Jesus e sua doutrina de salvação. Por isso é que ele é
chamado de “o precursor”. Diante de sua coragem, de seus ensinamentos e
do poder de persuasão que ele tinha ao comunicar, todos pensavam e até lhe
perguntavam se ele já não era o Cristo tão esperado. Ele respondia que não, mas
tudo faria para que Cristo crescesse e ele diminuísse.
Jesus - que ainda não havia começado sua
vida pública - ouviu dizer que João fora preso por causa de sua ousadia e
coragem de denunciar o Rei. Saiu então da cidade de Nazaré e foi para
Cafarnaum, onde começou a pregar, usando o mesmo linguajar de J. Batista: fazei
penitência, pois o reino de Deus está próximo. Era o maior comunicador da
humanidade, dando continuidade a seu antecessor que havia anunciado a
proximidade do reino dos céus. E dizia mais: “entre os filhos das
mulheres, não surgiu outro maior que João Batista”.
São Lucas, em
seu Evangelho diz que João “ficará cheio do Espírito Santo ainda no ventre
de sua mãe, Isabel, e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu
Deus”. Lembram-se da narração bíblica? No início da gravidez de Maria, ela
visita sua prima Isabel, grávida de 06 meses. Ao se saudarem, as crianças se
intercomunicaram e estremeceram nos ventres das próprias mães. Os primos eram
tão conectados que os judeus chegavam a confundi-los, chamando João, de
Messias. E o que dizia ele? “Eu não sou o Cristo... Eu sou a voz que clama
no deserto. Eu não sou digno nem de desatar as sandálias dele. Eu quero é que
ele cresça e eu diminua”. Até que, em certa ocasião, João estava preso “por
ter denunciado o concubinato do Rei Herodes com sua cunhada, a mulher de seu
irmão” ao ver Jesus passar nas imediações da prisão, enquanto seus
discípulos o visitavam, João exclama: “eis o cordeiro de Deus”. Então os
discípulos de João acompanharam Jesus.
Jesus os
havia advertido: vocês serão perseguidos, do mesmo modo que eu fui perseguido.
“mas aquele que perseverar até o final, será salvo” (Mt. 24, 13). João
perseverou até o fim. Serve de modelo para todos nós. É claro, contando com a
graça de Deus. Sem ela, isso não é possível. Posso atestar por experiência
própria. Durante a vida enfrentamos todas as tentações: do ter, do poder, da
vaidade, do egoísmo e do erro sob todos os aspectos. É muito difícil
renunciá-los; como eu disse, “só contando com a graça de Deus” e esta
nos vem pelo batismo, não só com a água, como fazia João, “mas com o
Espírito Santo e o fogo” como está em Mateus 3, 11-12.
O Papa
Francisco nos tem falado em uma Igreja em saída. Não é uma novidade.
João Batista foi marcado a vida toda por esse dinamismo de anuncio ou de saída,
de entrega generosa pelo Reino de Deus que ele anunciava. Não agradou a todos,
como nós não agradamos a todos, quando levamos a sério a nossa missão. Do jeito
que Herodes se sentiu ofendido pelo posicionamento de João diante da verdade,
qualquer um de nós pode ser mal-entendido pelos ‘reis Herodes’ de hoje:
autoritários, negacionistas, dando maus exemplos, respostas grosseiras,
desrespeitando normas comuns a todos, favoráveis à morte de inocentes e
desprotegidos, discriminadores da cor da pele, do sexo, da religião enfim,
encontram todo tipo de motivos, os mais esdrúxulos, para extravasarem seus
preconceitos. E o pior: usam o nome de Deus em vão, a toda hora para se
sentirem acobertados de seus erros, sua falta de fé e enganando a todos.
Ponhamo-nos
na frente de São João não para homenageá-lo com fogos e com pamonha, com danças
de quadrilhas e fantasias matutas, com bebidas e fogueiras, mas como um
personagem que nos ensina com sua vida e palavras, a ser fiéis discípulos e
missionários de Jesus. Quanta programação errada já se fez e quanta ainda tem programada
para se fazer, em nome da Festa de São João! Quanta desobediência às normas
restritivas para nos preservar da Covid 19, aglomerando em festinhas nos sítios
e fazendas, arriscando a vida de muitos! Quanta conivência de autoridades que
aproveitam dessas ocasiões, mais para fazer politicagem do que zelar pelo bem
estar social! Se se restringe agora/ é tendo em vista uma liberação consciente,
mais tarde sem a Pandemia. Esta, eu tenho esperança que vai acabar; pelo menos
em outros países do mundo. Aqui no Brasil com cerca de 670 mil mortos
a pandemia é política. Está mais longe de acabar. A do Coronavírus, aos poucos
está-se indo.
Nossa
“pandemia política” está em nossas mãos. Não é problema da OMS ou da Ciência. É
muito mais de nossa Consciência: do conhecimento e aperfeiçoamento da
Democracia, do respeito ás urnas, ao voto dado. Jamais, vendido. Quem tem caráter,
não vende seu voto. Não fica em cima do muro. É certo ficar no “centro” como
vitrine, esperando quem dê mais? É um canalha!
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