segunda-feira, 11 de julho de 2022

IDEIAS & NOTÍCIAS

 

BETÂNIA ETERNA

Soneto de Juarez Leitão

                                 
Aquelas salas, aqueles corredores,

o refeitório, o pátio e a capela…

O tempo ficou lá, mas atropela

com saudades servidas em várias cores.

 

O austero casarão nos seus fulgores

era da boa formação a cidadela,

fonte de luz, caminho e sentinela

das melhores virtudes e valores.

 

Passaram os anos, tomamos outros rumos,

a vida tem corrido assim veloz

em escolhas diversas noutros prumos.

 

Mas com certeza o velho seminário

nunca saiu de nosso itinerário

nem deixou de luzir dentro de nós.


A MORTE DE UM CÃO,     de Carlos Neto

Chamavam-no Gelert. Soberbo cão de raça

Que um caçador famoso, um doido pela caça

Mandara vir de fora a peso de dinheiro;

Era um ídolo, o cão, e no carinho doce

Dos agrados gentis, o cão acostumou-se

A consagrar também, a vida ao companheiro.


Na época melhor das ótimas caçadas,

Os dois partiam sós, à luz das alvoradas,

Buscando o coração estúpido das matas

E voltavam depois, alegres e contentes,

Despertando, em redor, os íncolas dormentes           

Ao compassar do som de estranhas serenatas.

 

Quantas vezes, na caça, o dente das panteras,

O bramido soturno e tétrico das feras,

Ameaçaram, do cão, o derradeiro instante!

Que perigos passou, quanta arriscada empresa

Não sofrera fiel, para apanhar a presa,

Que, ao dono provocasse um bravo! Delirante!


Mas, depois de algum tempo, o cão envelhecido,

Desdentado, sem força, exausto, entorpecido,

Já bem dificilmente, acompanhava o dono;

Era um cão sem valor, inútil companhia,

Que, preciso se fez, de dia para dia,

Ir deixando ficar em mísero abandono.

 

A fortuna também girou, rapidamente,

E o velho caçador, tão rico, de repente,

Sentiu minguar-lhe o pão, sentiu faltar-lhe o ouro.

A morte lhe roubara a esposa muito amada,

E ele viu sua casa erma e abandonada,

Tendo um filho só, por único tesouro.

    

Um dia, disfarçando o peso da desgraça,

Que, aos poucos, lhe esmagava o triste coração,

Ele partiu, cantando as emoções da caça;

Mas quis partir sozinho... e acorrentara o cão.

Do pobre companheiro, a pérola do pranto

Descera. Mas, ao ver o caçador contente,

O pobre cão, lá foi, resignado a um canto

Deitar-se, e carregando o peso da corrente.


 A noite, que descia,

Em silêncio profundo e em trevas envolvia

A casa. De repente, ouve-se estranhos passos.

E logo, frente a frente,

Negro, ameaçador, sinistro, feroz, enorme,

Farejando a amplidão, faminto, um lobo avança.

E lá no berço, a criancinha dorme,

Como dorme no berço, uma criança.


Nesse momento, no turvo olhar do cão, lucila um pensamento.

O lobo se aproxima... Escancarada, a porta

Encontrava-se então... Eis, repentinamente,

A ganir, a uivar, o cão forceja e corta,

Num ímpeto de amor, os elos da corrente.

Travou-se então uma horrorosa luta,

No silêncio da noite, indiferente e bruta...


Surdo ranger de dentes, ossos que estalam, ímpetos frementes

E contrações de dor, e urros, e gemidos;

Mil instintos de raiva em gritos comprimidos,

Na sede da vingança, e baques pelo chão,

Tudo acordava em torno, a quieta solidão...

E o sangue a borbulhar, e o fogo do cansaço,

E a relva machucada, estendem pelo espaço

Um acre odor de guerra...

Depois... o baquear d’um corpo cheio em terra;

Depois... um abafado e último gemido...

Um preito ao vencedor por parte do vencido.

Depois, diminuindo, gradativamente,

Vagaroso arrastar de um corpo indiferente.

Depois... depois mais nada:

Era a tragédia finda e a noite sossegada.

 

Mais tarde, ao despertar da fresca madrugada,

O caçador voltara;

E vendo a porta aberta e a casa palmilhada

Com o sangue do cão,

Corre para o filhinho... anseia... estanca... pára...

E, ao ver ensangüentado o berço da criança

E vazio... estremece, aperta o coração;

E louco de amor paterno e louco de vingança,

Apanha junto ao peito, o cabo do punhal...

E vendo aos pés, a festejar-lhe, o cão,

Atira um golpe rijo ao peito do animal,

Que, exânime, resvala em último estertor...

Mas nisto, ouve uma voz que chama o caçador;

“Papá... Papá”! Alucinado, incerto...

(Era a voz do filhinho... o filho estava perto)

Correu e espavorido, atônito, absorto,

O foi achar contente, e rindo, e sossegado,

Junto à casa do cão. E ali, bem perto, ao lado,

O lobo enorme, ensanguentado e morto.

 


HISTÓRIA DE UM CÃO

             (Luís Guimarães)

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:

Magro, asqueroso, revoltante, imundo;

Para dizer, numa palavra, tudo:

Foi o mais feio cão, que houve no mundo.


Recebi-o das mãos dum camarada,

Na hora da partida. O cão gemendo

Não me queria acompanhar por nada; 

Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.


                   O meu amigo, cabisbaixo, mudo,

                   Olhava-o... O sol nas ondas se abismava...

                   “Adeus”! – me disse – e ao afagar Veludo,

                   Nos olhos seus, o pranto borbulhava.


 “Trata-o bem. Verás como o rafeiro

  Te indicará os mais sutis perigos;

  Adeus! E que este amigo verdadeiro

  Te console no mundo, ermo de amigos”.


 Veludo, a custo, habituou-se à vida

Que o destino, de novo, lhe escolhera;

Sua rugosa pálpebra, sentida,

Chorava o antigo dono que perdera.


Nas longas noites de luar brilhante,

Febril, convulso, trêmulo, agitando

A sua cauda – caminhava errante,

À luz da lua, tristemente, uivando.


Toussenel! Figuier! E a lista imensa

Dos modernos zoológicos, doutores

Dizem que o cão é um animal que pensa;

Talvez tenham razão esses senhores.


Lembro-me ainda: trouxe o Correio,

Cinco meses depois, do meu amigo,

Um envelope, fartamente, cheio.

Era uma carta. Carta? Era um artigo.


Contendo a narração miúda e exata

Da travessia. Dava-me importantes

Notícias do Brasil e de La Plata;

Falava em rios, árvores gigantes.


Gabava o “steamer” que o levou: dizia

Que ia tentar inúmeras empresas.

Contava-me também, que a bordo havia

Toda sorte de risos e belezas.


Finalmente, por baixo disso tudo,

Em “nota bene” do melhor cursivo,

Recomendava o pobre do Veludo,

Pedindo a Deus que o conservasse vivo.


Enquanto eu lia, o cão, tranquilo e atento,

Me contemplava, e – creia que é verdade –

Vi, comovido, vi nesse momento,

Seus olhos gotejarem de saudade. 


Depois, lambeu-me as mãos, humildemente,

Estendeu-se aos meus pés, silencioso,

Movendo a cauda; e adormeceu contente,

Farto d’um puro e satisfeito gozo.


Passou-se o tempo. Finalmente, um dia

Vi-me livre daquele companheiro.

Para nada Veludo me servia,

Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.


E respirei: “Graças a Deus já posso”,

Dizia eu, “viver neste bom mundo,

Sem ter que dar, diariamente, um osso

A um bicho vil, a um feio cão imundo”.


Gosto dos animais, porém prefiro,

A essa raça baixa e aduladora,

Um alazão inglês, de sela ou tiro,

Ou uma gata branca cismadora.


Mal respirei, porém, quando dormia

E a negra noite amortalhava tudo,

Senti que à minha porta alguém batia.

Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.


Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés, ganindo,

Farejou toda a casa, satisfeito

E, de cansado, foi rolar, dormindo,

Como uma pedra, junto ao meu leito.

                  

 Praguejei, furioso. Era execrável

Suportar esse hóspede importuno,

Que me seguia como o miserável

Ladrão, ou como um pérfido gatuno.


E resolvi-me enfim. Certo, é custoso

Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:

Para livrar-me desse cão leproso,

Havia um meio só; era matá-lo.


Zunia a asa fúnebre dos ventos;

Ao longe, o mar, na solidão, gemendo.

Arrebentava em uivos e lamentos...

De instante a instante, ia o tufão crescendo.


Chamei Veludo. Ele seguiu-me. No entanto,

A fremente borrasca me arrancava

Dos frios ombros, o revolto manto,

E a chuva, meus cabelos fustigava.


Despertei um barqueiro. Contra o vento,

Contra as ondas coléricas, vagamos;

Dava-me força, o torvo pensamento:

Peguei num remo e, com furor, remamos.


Veludo, à proa, olhava-me choroso,

Como o cordeiro no final momento.

Embora, era fatal! Era forçoso!

Livrar-me enfim desse animal nojento.


No largo mar, ergui-o nos meus braços,

E arremessei-o às ondas, de repente...

Ele moveu, gemendo, os membros lassos,

Lutando contra a morte. Era pungente!


Voltei à terra. Entrei em casa. O vento

Zunia sempre na amplidão profunda.

E pareceu-me ouvir o atroz lamento

De Veludo, nas ondas, moribundo.


Mas, ao despir dos ombros meus, o manto,

Notei – Oh! Grande dor! – haver perdido,

Uma relíquia que eu prezava tanto:

Era um cordão de prata; eu tinha-o unido

                           

Contra o meu coração, constantemente,

E o conservava no maior recato,

Pois, minha mãe me dera essa corrente

E, suspenso à corrente, o seu retrato.


Certo caíra além, no mar profundo,

No eterno abismo que devora tudo;

E foi o cão, foi esse cão imundo,

A causa do meu mal! Ah! Se Veludo...


Duas vidas tivera – duas vidas

Eu arrancara àquela besta morta;

E àquelas vis entranhas corrompidas!

Nisto, senti uivar à minha porta.


Corri... abri... Era Veludo! Arfava.

Estendeu-se aos meus pés e, docemente,

Deixou cair da boca, que espumava,

A medalha suspensa na corrente.

                           

Fora incrível, oh Deus! Ajoelhado,

Junto ao cão – estupefato, absorto,

Palpei-lhe o corpo; estava enregelado.

Sacudi-o, chamei-o. Estava morto.


    Estas duas poesias  foram enviadas 

 pelo colega Betanista ASSIS ROCHA


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