BETÂNIA ETERNA
Soneto de Juarez Leitão
o refeitório, o pátio e a capela…
O tempo ficou lá, mas atropela
com saudades servidas em várias cores.
O austero casarão nos seus fulgores
era da boa formação a cidadela,
fonte de luz, caminho e sentinela
das melhores virtudes e valores.
Passaram os anos, tomamos outros rumos,
a vida tem corrido assim veloz
em escolhas diversas noutros prumos.
Mas com certeza o velho seminário
nunca saiu de nosso itinerário
nem deixou de luzir dentro de nós.
A MORTE DE UM CÃO, de Carlos Neto
Chamavam-no
Gelert. Soberbo cão de raça
Que um
caçador famoso, um doido pela caça
Mandara vir
de fora a peso de dinheiro;
Era um
ídolo, o cão, e no carinho doce
Dos agrados
gentis, o cão acostumou-se
A consagrar
também, a vida ao companheiro.
Na época melhor das ótimas caçadas,
Os dois partiam sós, à luz das
alvoradas,
Buscando o coração estúpido das
matas
E voltavam depois, alegres e
contentes,
Despertando, em redor, os íncolas dormentes
Ao compassar do som de estranhas serenatas.
Quantas
vezes, na caça, o dente das panteras,
O bramido
soturno e tétrico das feras,
Ameaçaram,
do cão, o derradeiro instante!
Que perigos
passou, quanta arriscada empresa
Não sofrera
fiel, para apanhar a presa,
Que, ao dono
provocasse um bravo! Delirante!
Mas, depois de algum tempo, o cão envelhecido,
Desdentado, sem força, exausto, entorpecido,
Já bem dificilmente, acompanhava o
dono;
Era um cão sem valor, inútil
companhia,
Que, preciso se fez, de dia para
dia,
Ir deixando ficar em mísero
abandono.
A fortuna
também girou, rapidamente,
E o velho
caçador, tão rico, de repente,
Sentiu
minguar-lhe o pão, sentiu faltar-lhe o ouro.
A morte lhe
roubara a esposa muito amada,
E ele viu
sua casa erma e abandonada,
Tendo um
filho só, por único tesouro.
Um dia, disfarçando o peso da desgraça,
Que, aos poucos, lhe esmagava o
triste coração,
Ele partiu, cantando as emoções da
caça;
Mas quis partir sozinho... e
acorrentara o cão.
Do pobre companheiro, a pérola do
pranto
Descera. Mas, ao ver o caçador
contente,
O pobre cão, lá foi, resignado a um
canto
Deitar-se, e carregando o peso da
corrente.
A noite, que descia,
Em silêncio
profundo e em trevas envolvia
A casa. De
repente, ouve-se estranhos passos.
E logo,
frente a frente,
Negro, ameaçador,
sinistro, feroz, enorme,
Farejando a
amplidão, faminto, um lobo avança.
E lá no
berço, a criancinha dorme,
Como dorme
no berço, uma criança.
Nesse momento, no turvo olhar do cão, lucila um pensamento.
O lobo se aproxima... Escancarada, a
porta
Encontrava-se então... Eis,
repentinamente,
A ganir, a uivar, o cão forceja e
corta,
Num ímpeto de amor, os elos da
corrente.
Travou-se então uma horrorosa luta,
No silêncio da noite, indiferente e
bruta...
Surdo ranger de dentes, ossos que estalam, ímpetos frementes
E contrações
de dor, e urros, e gemidos;
Mil
instintos de raiva em gritos comprimidos,
Na sede da
vingança, e baques pelo chão,
Tudo
acordava em torno, a quieta solidão...
E o sangue a
borbulhar, e o fogo do cansaço,
E a relva
machucada, estendem pelo espaço
Um acre odor de guerra...
Depois... o baquear d’um corpo cheio em terra;
Depois... um abafado e último gemido...
Um preito ao vencedor por parte do
vencido.
Depois, diminuindo, gradativamente,
Vagaroso arrastar de um corpo
indiferente.
Depois... depois mais nada:
Era a tragédia finda e a noite
sossegada.
Mais
tarde, ao despertar da fresca madrugada,
O
caçador voltara;
E
vendo a porta aberta e a casa palmilhada
Com
o sangue do cão,
Corre
para o filhinho... anseia... estanca... pára...
E,
ao ver ensangüentado o berço da criança
E
vazio... estremece, aperta o coração;
E
louco de amor paterno e louco de vingança,
Apanha
junto ao peito, o cabo do punhal...
E
vendo aos pés, a festejar-lhe, o cão,
Atira
um golpe rijo ao peito do animal,
Que,
exânime, resvala em último estertor...
Mas nisto, ouve uma voz que chama o caçador;
“Papá... Papá”! Alucinado, incerto...
(Era a voz do filhinho... o filho
estava perto)
Correu e espavorido, atônito, absorto,
O foi achar contente, e rindo, e
sossegado,
Junto à casa do cão. E ali, bem perto,
ao lado,
O lobo enorme, ensanguentado e morto.
HISTÓRIA DE UM CÃO
(Luís Guimarães)
Eu
tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro,
asqueroso, revoltante, imundo;
Para
dizer, numa palavra, tudo:
Foi o mais feio cão, que houve no mundo.
Recebi-o das mãos dum camarada,
Na hora da partida. O cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada;
Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.
O meu amigo, cabisbaixo,
mudo,
Olhava-o... O sol nas ondas
se abismava...
“Adeus”! – me disse – e ao
afagar Veludo,
Nos olhos seus, o pranto
borbulhava.
“Trata-o bem. Verás
como o rafeiro
Te indicará os mais
sutis perigos;
Adeus! E que este
amigo verdadeiro
Te console no mundo,
ermo de amigos”.
Veludo, a custo, habituou-se à vida
Que
o destino, de novo, lhe escolhera;
Sua
rugosa pálpebra, sentida,
Chorava
o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitando
A sua cauda – caminhava errante,
À luz da lua, tristemente, uivando.
Toussenel! Figuier! E a lista
imensa
Dos modernos zoológicos,
doutores
Dizem que o cão é um animal
que pensa;
Talvez tenham razão esses
senhores.
Lembro-me ainda:
trouxe o Correio,
Cinco meses depois,
do meu amigo,
Um envelope,
fartamente, cheio.
Era uma carta.
Carta? Era um artigo.
Contendo
a narração miúda e exata
Da
travessia. Dava-me importantes
Notícias
do Brasil e de La Plata;
Falava
em rios, árvores gigantes.
Gabava o “steamer” que o levou: dizia
Que ia tentar inúmeras empresas.
Contava-me também, que a bordo havia
Toda sorte de risos e belezas.
Finalmente, por baixo disso
tudo,
Em “nota bene” do melhor
cursivo,
Recomendava o pobre do
Veludo,
Pedindo a Deus que o conservasse
vivo.
Enquanto eu lia, o
cão, tranquilo e atento,
Me contemplava, e –
creia que é verdade –
Vi, comovido, vi
nesse momento,
Seus olhos gotejarem
de saudade.
Depois,
lambeu-me as mãos, humildemente,
Estendeu-se
aos meus pés, silencioso,
Movendo
a cauda; e adormeceu contente,
Farto
d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente, um dia
Vi-me livre daquele companheiro.
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
E respirei: “Graças a Deus já
posso”,
Dizia eu, “viver neste bom
mundo,
Sem ter que dar, diariamente,
um osso
A um bicho vil, a um feio cão
imundo”.
Gosto dos animais,
porém prefiro,
A essa raça baixa e
aduladora,
Um alazão inglês, de
sela ou tiro,
Ou uma gata branca
cismadora.
Mal
respirei, porém, quando dormia
E
a negra noite amortalhava tudo,
Senti
que à minha porta alguém batia.
Fui
ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés, ganindo,
Farejou toda a casa, satisfeito
E, de cansado, foi rolar, dormindo,
Como uma pedra, junto ao meu leito.
Praguejei, furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede
importuno,
Que me seguia como o
miserável
Ladrão, ou como um pérfido
gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:
Para livrar-me desse
cão leproso,
Havia um meio só;
era matá-lo.
Zunia
a asa fúnebre dos ventos;
Ao
longe, o mar, na solidão, gemendo.
Arrebentava
em uivos e lamentos...
De
instante a instante, ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo. Ele seguiu-me. No
entanto,
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros, o revolto manto,
E a chuva, meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro.
Contra o vento,
Contra as ondas coléricas,
vagamos;
Dava-me força, o torvo
pensamento:
Peguei num remo e, com furor,
remamos.
Veludo, à proa,
olhava-me choroso,
Como o cordeiro no
final momento.
Embora, era fatal!
Era forçoso!
Livrar-me enfim
desse animal nojento.
No
largo mar, ergui-o nos meus braços,
E
arremessei-o às ondas, de repente...
Ele
moveu, gemendo, os membros lassos,
Lutando
contra a morte. Era pungente!
Voltei à terra. Entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profunda.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo, nas ondas, moribundo.
Mas, ao despir dos ombros
meus, o manto,
Notei
– Oh! Grande dor! – haver perdido,
Uma relíquia que eu prezava
tanto:
Era um cordão de prata; eu
tinha-o unido
Contra o meu coração, constantemente,
E o conservava no maior recato,
Pois, minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à
corrente, o seu retrato.
Certo
caíra além, no mar profundo,
No
eterno abismo que devora tudo;
E
foi o cão, foi esse cão imundo,
A
causa do meu mal! Ah! Se Veludo...
Duas vidas tivera – duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta;
E àquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto, senti uivar à minha porta.
Corri... abri... Era Veludo!
Arfava.
Estendeu-se aos meus pés e,
docemente,
Deixou cair da boca, que
espumava,
A medalha suspensa na
corrente.
Fora incrível, oh Deus! Ajoelhado,
Junto ao cão – estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo;
estava enregelado.
Sacudi-o, chamei-o.
Estava morto.
Estas duas poesias foram enviadas
pelo colega Betanista ASSIS ROCHA

.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário