sexta-feira, 15 de julho de 2022

O COMENTÁRIO DA SEMANA


Dom Phillips e Bruno Pereira: É URGENTE A AÇÃO DO JORNALISMO INVESTIGATIVO

Faz menos de 02 meses – fins de maio - o Dr. João de Paula e Eu, participamos de uma ‘live’ – como o próprio nome significa – ‘ao vivo’, intitulada Diálogos pela Democracia, através do Canal do Youtube, da Secretaria de Proteção Social - SPS do Estado do Ceará - sob a coordenação do Professor Leunam Gomes, Presidente da Comissão Especial pela Anistia Wanda Sidou.

Os 03, ocupamos o espaço de uma hora e 45 minutos, para discorrer sobre os ‘anos de chumbo’, ocorridos durante a ditadura militar, que prendeu, torturou, exilou e matou inúmeros brasileiros durante 21 anos (1964 a 1985).

Tais “Diálogos” nos trouxeram tristezas, muito sofrimento, emoções e muita saudade, sobretudo ao recordarmos irmãos nossos, brasileiros, expulsos da pátria, da família, à procura de um asilo ou refúgio, em terras estranhas, já que não podiam permanecer na terra que os viu nascer.

Lembramos fatos tão verdadeiros que pareciam ter acontecido agora e, ao nos referirmos a eles, enchíamo-nos dos mesmos sentimentos de então.

Pelo espaço de 33 anos após o fim da ditadura, com eleições realizadas a cada 04 anos, mais ou menos democráticas, as de 2018 vieram para destoar a democracia. Apesar de termos escolhido entre os candidatos, um com o maior número de votos, este veio atropelando a vontade popular que o havia escolhido como opção da maioria. O povo o havia legitimado no poder, mas ele começou a agir como ditador. Tinha formação militar, embora tivesse sido defenestrado das hostes, ainda capitão, mas não perdeu a orientação, a truculência e o despreparo para a democracia que a caserna não dá.

Pouco depois dessa nossa “live”, apareceu um fato novo, de dimensão internacional: no dia 05 de junho, o indigenista Bruno Pereira e o Jornalista inglês Dom Phillips foram mortos na região amazônica do Vale do Javari, segunda maior terra indígena do país. Um mês depois, no dia 04 de julho, o duplo homicídio seguia com alguns pontos em aberto, mesmo sendo investigado pela Polícia Federal que reconstituíra o crime, levara restos dos corpos esquartejados, queimados e enterrados, para o Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília e já dando como encerradas as buscas, o laudo técnico e outras desobrigas policiais, já que a região é palco de conflitos típicos da Amazônia: tráfico de drogas, roubo de madeira e avanço do garimpo.

É uma história semelhante à de Mariele que, desde 2018, continua sem se saber a eventual existência de um mandante ou a motivação do crime. Neste duplo homicídio, só no dia 24 de junho, os restos mortais de Bruno foram cremados na Região Metropolitana do Recife, e o que restou do corpo de Dom Phillips foi levado no dia 26, para cremação no Cemitério Parque da Colina, em Niterói, onde vive a família de Alessandra Sampaio, mulher de Dom.

O “descarte” dos dois corpos se deu, exatamente, uma semana depois de a Polícia Federal declarar que as investigações sobre a morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips apontavam que não houve mandante ou organização criminosa, envolvida no crime. Será que dá para acreditar, sem mais nem menos, nesta versão? Não será um modo muito simplista de concluir ou fechar o inquérito? A quem interessa cruzar os braços ou parar a investigação? Afinal de contas, eram dois pesquisadores, profundos conhecedores e estudiosos da região que estavam denunciando, de há muito, pescadores do Vale do Javari que estavam atirando contra equipes de fiscais da região. E conclui a PF: “os executores agiram sozinhos”. E agora! Vamos admitir que fique só nisso? Vai ficar impune como no caso Mariele?

Será que a apuração destes e de outros crimes semelhantes vai ficar entre os que o atual governo está remetendo só para daqui a cem anos? Além do maior indigenista brasileiro, o Bruno Pereira, foi-se também um dos maiores Jornalistas Investigativos do Mundo, o Dom Phillips, colaborador do Jornal Britânico, The Guardian, porta aberta para a divulgação na Imprensa Mundial, do controle do crime organizado na Amazônia. Nada disso ‘importa’?

O Governo Brasileiro, sem tomar qualquer medida oficial que desvende os crimes, expressou seus “sentimentos aos familiares”, acrescentando um comentário: “esse inglês era malvisto. Fazia muita matéria contra garimpeiros. Naquela região, ninguém gostava dele. Ele tinha que ter mais redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão”. Foi excursão?

Diante deste descaso oficial e em face do acontecimento estar quase esquecido da mídia, pensei em apelar para o Jornalismo Investigativo Brasileiro, tão característico de Dom Phillips, para empunhar esta bandeira e continuar aprofundando a investigação. Não é para deixar o governo de fora. A ele cabe a captura, a punição dos criminosos e a prática da justiça. A nós outros, especialmente aos jornalistas, caberia o detalhamento do processo criminoso, a investigação aprofundada, documentada e denunciada através de um Jornalismo sério, verdadeiro no desempenho de uma insubstituível função social. Fazendo assim, o duplo assassinato, no interior da floresta amazônica, vai assinalar um momento em que, o exercício do Jornalismo ultrapassa os limites de uma cobertura normal. Marca um contexto em que a investigação jornalística se torna indispensável à produção de informações capazes de habilitar a sociedade brasileira a reassumir o controle sobre a Amazônia, hoje, parcialmente nas mãos do crime organizado.

A prestação de serviço, feita por Bruno e Dom, juntamente com sua presença, diuturnamente, na região, colocou-os em confronto direto com a organização criminosa que por lá se estendia, daí ter ela recorrido à execução sumária de ambos por estarem desencavando informações e nomes muito importantes, capazes de comprometer uma estrutura que envolvia narcotráfico, milícias, políticos e grupos empresariais.

É inegável que esse trabalho feito pelos dois, precisa ser continuado, tanto como uma homenagem ao sacrifício e à memória deles, como pela demonstração de que o Jornalismo está ciente das responsabilidades que a profissão tem, quando a profissão passou a ser a principal arma do cidadão comum na defesa do patrimônio coletivo. Quanto mais soubermos das investigações arquivadas, gravadas e filmadas por Bruno e Dom, tanto mais descobriremos os passos que eles pretendiam dar não só na área geográfica onde se deu o crime, mas também na divulgação em âmbito estadual, regional, nacional e até internacional.

Estamos propondo esse Jornalismo Investigativo porque, pelo que conhecemos das medidas adotadas, oficialmente pelo Governo Brasileiro - até protelando desvendar crimes para daqui a cem anos - não vamos chegar a lugar algum e o processo de instalação e solução de crimes assim, nunca será tocado e, neste ponto está o diferencial entre a instalação jornalística e a atividade jurídico-policial. Só então, o Jornalismo Brasileiro pode transformar Dom Phillips e Bruno Pereira em baluartes ou ícones perpétuos desta imensa tarefa assumida pelo nosso Jornalismo Investigativo Nacional. Mãos à obra!











 

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