Lembrando nomes
importantes, neste Dia do Vaqueiro
Texto do Mons. Assis Rocha, de Bela Cruz, com as lembranças de seu pai Doca Rocha e da Fazenda Santa Maria, nesta data especial!Hoje, 29 de agosto, 2ª feira, comemoramos o DIA
DO VAQUEIRO, instituído desde 2004, por Projeto de Lei, que homenageava o Vaqueiro
como verdadeiro representante da Cultura Brasileira, especialmente do Sertão
Nordestino. O Vaqueiro faz parte da fusão de diversas raças e tem no gado, no
cavalo e na música seus grandes companheiros, tornando-o, legitimamente,
símbolo da garra, do destemor, da força e da fé de um povo e de verdadeiro
representante da Cultura Popular Brasileira.
Tornou-se
Lei, regulamentada, sancionada e publicada há apenas 18 anos, mas a vivência, a
prática de vaquejadas, o folclore, o cordel e os aboios tão característicos e
saudosos fazem parte de uma Cultura, de uma tradição, de um Sentimento que
nenhuma Lei regulamenta ou determina quando vai começar ou terminar. O termo “vaqueiro” é muito antigo e se
refere àquele que guarda ou conduz
qualquer gado vacum. Sendo assim, desde quando existe vaca no mundo,
que existe vaqueiro ou o seu condutor. O Profeta Amós, lá no Antigo Testamento,
no capítulo 7, versículo 14, de sua Profecia, já dizia: “não sou profeta nem
sou filho de profeta; sou pastor de gado... O Senhor me chamou quando eu tangia
o rebanho”... Sem apelar para tais ou semelhantes fundamentações bíblicas,
aqui entre nós temos notícias da derrubada de touros pela cauda, em O Nosso Cancioneiro de José de Alencar
e em Os Sertões de Euclides da
Cunha, de 1870 para cá. Diferentemente de outros Vaqueiros – como os
Gaúchos, os Marajoaras ou os Nortistas de Rio Branco – o Vaqueiro Nordestino
se caracteriza pelo uso de gibão, guarda-peito, perneiras, chapéu e chicote,
tudo feito de couro curtido, preferencialmente de pele de veado, por ser macia
e resistente. Tanto o chapéu de couro, preso ao queixo por barbicacho, como
as demais vestimentas, são feitos sob medida e bem apertados para evitar pregas
e para não se engancharem no mato. Para completar a indumentária, o Vaqueiro
usa a tiracolo, uma corda-de-laçar, feita de couro cru em, pelo menos, 05 fios
que se entrelaçam ou entrançados, com 25 a 30 metros de comprimento, para
jogar, à distancia, pelos chifres ou pelo pescoço da rês que quer apanhar e
amarrar.
Neste
Dia do Vaqueiro, celebrado nesta 2ª feira, dia 29, pensei em homenagear alguns
Vaqueiros, com quem convivi muito de perto: a começar pelo meu pai – Seu Doca
Rocha - e por tantos vaqueiros, comandados por ele, montados em cavalo bom de
gado, “paramentados” com os apetrechos de uso no dia-a-dia, na captura de “ferozes
barbatões”, enfrentando cipoal, “unha de gato”, mato fechado, saltando
cerca ou passando por baixo de galho grosso de árvore, colado no lombo do
cavalo ou sem descer dele, porque por onde passava um cavalo, ele afinava para
o vaqueiro passar também. Além do meu “pai herói” outros heróis são lembrados
pela coragem, pelos desafios enfrentados e pelas lições de vida que tanto
guardamos e recordamos. Nem havia Projeto de Lei, nem a sua regulamentação para
rendermos homenagens aos Irmãos Cordeiro: Fransquim, Raimundo, João, José. Esse
Tio Dedé era uma fera. Peitava onça braba, desafiava, matava de pau ou de facão
e ainda mostrava o couro como troféu ou prova pela bravura e aventura
realizada. Filhos e netos estão aí para recontar essa história.
Os
“Bazil” formavam
outro grupo de destemidos homens do campo, a começar do “patriarca” João Bazil
e sua geração: Geraldo, Raimundo, Zé Bazil e tantos
descendentes, ainda hoje vivos. Sempre que os encontro, recordo com alegria e
saudade o que passou. Junto a estes estavam o Joaquim Baralho e seus irmãos: o
Batista, o Folharal, o Raimundo, todos da família Paulino, todos empenhados no seu
trabalho e na condução do gado.
E os “Tomé – Mariano”? Os que já se foram, os que ainda estão conosco. Como não lhes lembrar a amizade, a convivência, o cuidado com os animais, as histórias de Trancoso, a debulha do feijão, a poesia fácil, cantada, improvisada... Será que se pode esquecer, todos os anos, em Julho, as férias na Santa Maria, a Vaquejada, o leilão, “as comedorias”, à época do aniversário de Seu Doca Rocha? Seu afilhado, o Fransquim Cordeiro se esmerava, tanto na Vaquejada, promovida pelo seu Padrinho, como nas pegas de gado ou Vaquejadas acontecidas na região. Seu aboio era especial. Encantava a todos pela melodia tristonha ou saudosa, mas sempre cheia de sentimentos, que acompanhava o gado e apaixonava as jovens que o ouviam cantando. Estas se sentiam atraídas pelo porte físico, másculo, atraente, quem sabe, “animalesco” que mexia com os corações femininos.
É só ouvir a música de Mastruz com Leite – “saga de um vaqueiro” - para
entender tudo o que estou querendo dizer e tudo o que está retratado na tão
popular melodia. Por falar em Fransquim Cordeiro, ele está homenageado na
“Chico City” de nosso amigo Chico Carlos, nos arredores de Bela Cruz, num reconhecimento
ao homem do campo, corajoso, cheio de fé, montador de cavalo bom de gado e que
nos deixou lição de bravura. Perguntado se ele alcançaria qualquer bicho que
quisesse pegar, respondeu sem pestanejar: “se for andando pelo chão eu
pego pelo rastro; se for voando pelos ares, eu derrubo pela sombra”. Além de tanta coragem e sabedoria, ainda lhe
admirávamos como artesão com couro, madeira e tudo o mais que pegava e
transformava em alguma coisa de útil.
Todos estes
Vaqueiros e outros que tanto conhecíamos e admirávamos participavam de
vaquejadas, conquistavam simples troféus como: um par de esporas, uma sela ou
gibão. Não havia a indústria ou o comércio
da vaquejada, como se tem hoje, em que médicos, advogados, fazendeiros
ricos conquistam prêmios caríssimos e brigam por eles. A verdade é que não se
fazem mais vaquejadas como antigamente.
Parabéns a
todos os Vaqueiros, antigos ou novos, não só pelo seu “dia legal” votado pela
Câmara Federal, mas por toda a vida, dedicada ao cuidado com o gado pelo mundo.


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