segunda-feira, 29 de agosto de 2022

IDEIAS & NOTÍCIAS

Série: Nossas Ruas, Nossa História (I) 

A CASA PAROQUIAL DE GUARACIABA DO NORTE: NO PASSADO, ACOLHEDORA!

Texto de Leunam Gomes (*)

A Casa Paroquial de Guaraciaba do Norte  sempre teve, para mim, um significado especial. Quando menino, acólito, sentia-me bem acolhido quando ali chegava. Muitas vezes, acompanhei meu pai em suas visitas periódicas ao vigário e amigo. Além de Presidente da Congregação Mariana e Vicentino, meu pai gostava de conversar com o vigário. Muitos homens tinham o mesmo costume. Por meio do Padre, tomavam conhecimento das últimas notícias. Ele era, à época,  um dos poucos a possuir um rádio para se atualizar com as notícias.

Mais tarde, como Seminarista, por indicação do vigário e apoio da Obra das Vocações Sacerdotais, o acolhimento era mais afetivo ainda. A casa parecia-me um prolongamento da Igreja que era o lugar mais importante da nossa cidade. Era o centro de todas as nossas atenções. Ali era um local onde todos eram bem acolhidos. Durante as férias do Seminário, à tarde, após a visita diária, ao Santíssimo, sempre íamos à Casa Paroquial. Não éramos poucos.

Na casa Paroquial morava o nosso vigário Mons. Antonino a quem tínhamos, quase, uma veneração. Ele conhecia as suas ovelhas e as ovelhas o conheciam e respeitavam.  Percebia que todos os padres convidados, vinham à Paróquia com muito prazer, na certeza de uma boa acolhida. O Monsenhor construíra, ao lado da casa, alguns pequenos apartamentos para acolher os seus visitantes e convidados.

Daquela casa  ele nos transmitia, pela amplificadora, o mais moderno meio de comunicação da época, as músicas clássicas que foram ficando em nossas mentes.  Aprendemos a ouvir Bethoven, Mozart, Chopin, Strauss, Haendel. Nosso despertador eram aquelas músicas. Os sinos complementavam a comunicação, chamando-nos à oração pela manhã, ao meio-dia e à hora do Angelus. Agora, emudeceram, sem a permissão do povo.

No último dia 12 de agosto, retornei à Casa Paroquial com a mesma esperança de ser ali bem acolhido, como acontecia a todos. Programara, desde a saída de Fortaleza, levar alguns dos meus livros que poderiam, ao meu julgamento, contribuir com as ações pastorais.  Um livro que conta a importância do Seminário de Sobral em nossas vidas. Daí o titulo SEMINÁRIO DE SOBRAL – AD LABOREM – Nossa caminhada Profissional; o segundo com experiências pedagógicas que deram ótimos resultados em sala de aula – PROFESSOR COM PRAZER – Vivência e Convivência em Sala de Aula  e o terceiro, recém-lançado com um retrato da minha cidade sob o meu olhar de menino de doze anos, nos anos 50 e 60, antes do ingresso no Seminário: GUARACIABA DO NORTE – Nossa Ruas, Nossa História. Supunha que interessariam à Paróquia.

Na porta de acesso, havia uma cartela informando os horários de atendimento. Estávamos, Romulo e eu, dentro do horário, mas a porta trancada. Descobrimos e acionamos uma sirene colocada na parte alta da entrada.  Algum tempo depois apareceu um senhor a quem nos identificamos e informamos da nossa intenção. Ele era um dos padres da casa, com sotaque espanhol. Gentilmente, atendeu e dirigiu-se ao vigário que estava em algum dos aposentos da casa. Logo retornou dizendo que o vigário não podia atender. Estava muito ocupado.  Sem acreditar naquela justificativa, entregamos ao padre mensageiro os três livros com as nossas justificativas e um pouco de informação sobre nossa vinculação com a Paróquia.  Mais rápido do que na vez anterior, o padre retornou com os livros, com a insistente resposta de que “o vigário não tinha tempo para atender. Estava muito ocupado”.

Eu não fui à busca de algum privilégio. Nada fui pedir. Fui levar os resultados de minha produção acadêmica até para justificar que o investimento da Obra das Vocações Sacerdotais não fora em vão.  Não me fiz padre, embora tenha concluído todas as etapas de estudo de Filosofia e Teologia, no Seminário Regional do Nordeste. Havia recebido a Tonsura, o primeiro passo para o sacerdócio que me foi conferida por Dom Helder Câmara, na Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife. “Todos são chamados e poucos os escolhidos”. Eu não fui escolhido, mas a vida toda vivi a missão “Ide e Ensinai”.

Convivi com inúmeros padres e Bispos e sempre mereci muito respeito e atenção. Mas não fui recebido pelo vigário da minha terra. Mas será que sou apenas eu? Pelo que soube, não. Se muitas pessoas têm sido tratadas com arrogância por quem tem a missão de servir, algo precisa mudar. Será na população?

Foram 55 anos dedicados à Educação e sempre fazendo com qualidade aquilo que me cabia fazer. Daí sempre ter sido convidado para os cargos que ocupei. A opção pela Educação foi, absolutamente, consciente, pela certeza de que este é o único caminho seguro para ascensão dos pobres. O primeiro emprego foi com Alfabetização de Adultos, pela Rádio Educadora, como Coordenador do Movimento de Educação de Base, criado pela CNBB, em Sobral. Depois, no MEB Fortaleza, onde fui demitido pela ditadura, em 1971, graças ao grande alcance do programa  A ESCOLA EM SUA CASA, pela Rádio Assunção Cearense. Daí ter ido para São Luís do Maranhão onde fiquei por 20 anos e, a convite, vim para a Secretaria de Croatá, recém-emancipado.

Em Croatá, em 1989, por exemplo, onde fui o primeiro Secretário de Educação, foi o primeiro município a criar a sua Secretaria de Educação, o primeiro a realizar um Seminário para saber o que a população desejava da gestão que se implantava, especialmente, na educação; o primeiro a adaptar o calendário escolar ao calendário agrícola; o primeiro a realizar concurso público e o primeiro a pagar salário-mínimo aos professores que, até então recebiam apenas 10%.

Em Guaraciaba do Norte, em 1993, pela primeira vez foi realizada uma série de Seminários sob o titulo  A EDUCAÇÃO QUE TEMOS E A EDUCAÇÃO QUE QUEREMOS, a partir de uma questão básica: Por que de cada cem crianças que entravam nas classes de Alfabetização, apenas 16 chegavam à quarta série?  A partir dali a educação mudou de rumo. Tudo está documentado.  Fomos o primeiro município a acabar com a evasão escolar, numa experiencia que virou modelo nacional e serviu de base para a criação do FUNDEF, hoje FUNDEB.

Na sequência, fui convidado para o Conselho de Educação do Ceará; para assumir a Coordenação de Alfabetização da SEDUC; para a Universidade Estadual Vale do Acaraú onde ocupei a Função de Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e, depois, de Extensão e Desenvolvimento Municipal. Foi quando cuidamos da expansão dos cursos de graduação pra vários municípios. E começamos por Guaraciaba do Norte e São Benedito com o Curso de Formação de Professores.  Na UVA, fomos convidados e levamos a experiência de Formação de Alfabetizadores para Cabo Verde, na África.

Na UVA me aposentei e, a convite, assumi a Presidência da Comissão Especial Wanda Sidou que concede indenizações aos Presos e Perseguidos Políticos pela ditadura, no Ceará, onde ainda estou.

Com esta trajetória, considero que tenho cumprido a minha missão, especialmente, nos meus compromissos com o meu município. Nossa terra é, hoje, o que é, graças aos cursos superiores instalados e que abriram perspectivas para muitos conterrâneos. Praticamente, em todas as famílias há alguém com curso de graduação. Levei a sério a missão: Ide e Ensinai. E da Casa Paroquial, as melhores lembranças.

  (*) Leunam Gomes, guaraciabense, ex-aluno dos Seminários de Sobral, Ce. e Olinda-Pe. Coordenador do MEB de Sobral e Fortaleza; Ex- Coordenador da TV Educativa do Maranhão, Diretor das Rádio Educadora, Gurupi e Timbira do Maranhão; Ex Secretário de Educação de Croatá,         Poranga e Guaraciaba do Norte, Membro do Conselho de Educação do Ceará,  Pró-Reitor de Extensão da UVA.                                                                                                                                   Atual Presidente da Comissão Especial Wanda Sidou (Anistia), da SPS, Governo do Cea




























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