“Independência para quem? Qual independência há, de fato, no Brasil”?
No último sábado, ao falarmos do final do Mês
Vocacional, dizíamos estar iniciando, Setembro, o Mês da Bíblia,
todo ele dedicado ao contato maior com a Palavra de Deus, para formarmos uma sequência:
cuidar da Vocação, em Agosto, alimentá-la com a Bíblia, em Setembro e praticar
tudo, em Outubro, com o Mês Missionário. Além de termos todo este mês
dedicado à Bíblia, ainda teremos um dia inteiro, no último Domingo de setembro,
25, voltado pra ela e o dia 30, liturgicamente festejado a S. Jerônimo,
tradutor dos originais: hebraico, aramaico e grego, para o Latim, a língua
popular do Império Romano, a quem foi dado o nome de Bíblia Vulgata.
Falaremos das duas datas no final do mês.
Hoje,
não quero obscurecer uma data pátria: o Bicentenário da Independência, já tão
propagado, desde a celebração do sesquicentenário, em 1972. Àquela época, a
Ditadura Militar deitou e rolou nas comemorações. Agora, 50 anos depois, o fascismo
reinante está ameaçando a democracia, os poderes constitucionais, impondo um
esquema de solenidades mais ditatoriais do que mesmo fez o governo militar. E o
pior é que se faz tudo isso, dentro de uma campanha eleitoral, como motivação
para conquistar votos, abusando das cores nacionais como se fossem cores
partidárias, usando de fake News,
como se fossem verdades, enganando a boa fé do povo. Aliás, este comportamento
‘contra
o povo’ foi o que sempre levou as elites à Inconfidência Mineira, ao Grito da Independência, à
Proclamação da República, ao Golpe Militar ou Fascismo do Governo atual.
A maneira de comemorar
a data bicentenária, nós já vimos como foi: a cavalaria, fumacentos tanques,
velhos navios de guerra, soldados armados de todas as forças, até “tratoraço”,
e esquadrilhas da fumaça, que tanto enfeitam nessas ocasiões. Também estudantes
- crianças e adolescentes - foram obrigadas a desfilar, mesmo em escolinhas
interioranas, como se isso fosse real prova de civismo. Para comporem o quadro,
estavam autoridades, corpos diplomáticos e até o “coração de D. Pedro I”, vindo
de Portugal, por uma concessão especial. Sobre tal data cívica, não tenho mais
o que dizer. Basta!
Mas,
sobre uma atividade paralela – o grito dos excluídos – desde 1995,
encabeçada pela CNBB e por seus movimentos sociais, eu quero me referir agora.
Sua origem remonta à II Semana Social Brasileira, entre 1993-94. Além da CNBB,
outros organismos participam da coordenação, realização e execução: o CONIC (Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs), os Movimentos Sociais, a OAB, MEB, CEBs e outras
entidades envolvidas com a justiça social.
Pelo
Tema estabelecido desde o início: A vida em 1º lugar e os Lemas
aprofundados a cada ano, dá para perceber que são gritos bem diferentes: o estático
de Independência ou Morte, só lembrando o fato histórico e o dinâmico Grito
dos Excluídos, renovado a cada ano.
Você,
meu leitor amigo, se participa da Vida Pastoral da Igreja, conhece o esquema de
atualização que o Grito dos Excluídos está dando há 28 anos. Se está contente
com o Grito do Ipiranga, é uma pena: você parou no tempo.
Nós,
que nos ligamos no dinamismo da Igreja, refletimos, aprofundamos e nos
manifestamos, massivamente, desenvolvendo os lemas sugeridos, que lhes recordo
agora: ‘trabalho e terra para viver’; ‘queremos
justiça e dignidade’; ‘aqui é o meu país’; ‘Brasil, um filho teu não foge à
luta’; ‘progresso e vida -pátria sem dívidas’; ‘por amor a essa pátria –
Brasil’; ‘Soberania não se negocia’; ‘tirem as mãos... o Brasil é nosso chão’;
‘Brasil: mudança pra valer, o povo faz acontecer’; ‘Brasil! Em nossas mãos, a
mudança’; ‘Brasil: na força da indignação, sementes de transformação’; ‘isto
não vale: queremos participação no destino da Nação’; ‘direitos e participação
popular’; ‘a força da transformação está na organização popular’; ‘onde estão
nossos direitos? Vamos às
ruas para
construir o projeto popular’; ‘pela vida grita a terra... por direitos, (gritamos)
todos nós’; ‘queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda
a população’; ‘juventude que ousa lutar, constrói projeto popular’; ‘ocupar
ruas e praças por liberdade e direitos’; ‘que país é este, que mata gente, que
a mídia mente e nos consome’? ‘este sistema é insuportável: exclui, degrada,
mata’; ‘por direitos e democracia, a luta é todo dia’; ‘desigualdade gera
violência: basta de privilegio’; ‘este sistema não vale; lutamos por justiça,
direitos e liberdade’; ‘basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos
trabalho, terra, teto e participação’; ‘na luta por participação popular:
saúde, comida, moradia, trabalho e renda já’.
Neste
ano do bicentenário, o Grito dos Excluídos - que sempre motivou o povo, antes
do Dia Sete, no próprio Dia, e o movimentou depois - está perguntando: “Independência para quem? Qual independência
há, de fato, no Brasil”? Foi na busca de respostas para perguntas
semelhantes a estas, que o meu vizinho e colega sacerdote, Padre Vito Miracapillo
foi expulso de sua Paróquia, em Ribeirão, na Mata Sul de Pernambuco, quando
vivíamos sob o regime militar, aos 07 de setembro de 1980.
Quando
iniciamos o Grito, 15 anos depois, alcançamos 170 localidades, onde o povo se
ia organizando em cozinhas comunitárias e em movimentos populares em um
verdadeiro mutirão para enfrentar a fome. Em 28 anos, o Nº de famintos tem
aumentado, de moradores de rua, de frequentadores de lixões à procura de um
punhado de ossos para fazer uma sopa, de restos de comida, disputada com ratos
e guabirus, enfim, um país que se ufana de estar entre as 10 maiores economias
do mundo e de ser o 2º maior produtor de alimentos pra exportação, continua com
um povo desprezado, sem trabalho, faminto, sem escola, analfabeto, sem salário
e sendo orientado a usar “pix”, “cartões de crédito”, ou a fazer “empréstimo
consignado” ou a frequentar “Homeschooling”.
Não é o grito de Independência ou Morte que está fazendo o povo construir ou
crescer de baixo pra cima. É o Grito dos Excluídos que está ecoando nas ruas,
desesperadamente gritando contra a exclusão social, numa busca constante de
construir no dia a dia, a resistência e a sobrevivência.
Será
que não dá para perceber a contradição do grito de uma minoria que tem o poder,
o dinheiro, o prestígio, aumentando sempre mais os seus lucros, visando, cada
vez mais, a sua Independência social, econômica, material, em detrimento de uma
maioria marginalizada e desalentada? Será que o Grito destes não incomoda os
que tem poder, riqueza, mesa farta, luxo e se sentem mais e mais
“independentes”?
Está
na hora de pensarmos nestas contradições; daqui a pouco, teremos eleições. Se
estivermos satisfeitos com a situação reinante, com a ascensão daqueles que
sobem sozinhos, sem pensar na maioria, mantenha-os no poder. Deixe-os gritando
“independência” pra si, e “morte” pros outros. Continue encostando-se “num pau
que tenha sombra”, mesmo que a sombra seja só pra ele. Se você pensa numa
sociedade com um tratamento equânime pra todos, “grite com os excluídos”. Como diz meu querido irmão, Frei Beto, “os que querem governar a sociedade não
suportam os que querem governar com a sociedade, abraçados aos fundamentos da
democracia”. E conclui o Frei Beto: “se
o salário não paga a vida, a vida parece não valer um salário”.
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