sexta-feira, 9 de setembro de 2022

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

  Independência para quem?                     Qual independência há, de fato, no Brasil”?

No último sábado, ao falarmos do final do Mês Vocacional, dizíamos estar iniciando, Setembro, o Mês da Bíblia, todo ele dedicado ao contato maior com a Palavra de Deus, para formarmos uma sequência: cuidar da Vocação, em Agosto, alimentá-la com a Bíblia, em Setembro e praticar tudo, em Outubro, com o Mês Missionário. Além de termos todo este mês dedicado à Bíblia, ainda teremos um dia inteiro, no último Domingo de setembro, 25, voltado pra ela e o dia 30, liturgicamente festejado a S. Jerônimo, tradutor dos originais: hebraico, aramaico e grego, para o Latim, a língua popular do Império Romano, a quem foi dado o nome de Bíblia Vulgata. Falaremos das duas datas no final do mês.

            Hoje, não quero obscurecer uma data pátria: o Bicentenário da Independência, já tão propagado, desde a celebração do sesquicentenário, em 1972. Àquela época, a Ditadura Militar deitou e rolou nas comemorações. Agora, 50 anos depois, o fascismo reinante está ameaçando a democracia, os poderes constitucionais, impondo um esquema de solenidades mais ditatoriais do que mesmo fez o governo militar. E o pior é que se faz tudo isso, dentro de uma campanha eleitoral, como motivação para conquistar votos, abusando das cores nacionais como se fossem cores partidárias, usando de fake News, como se fossem verdades, enganando a boa fé do povo. Aliás, este comportamento ‘contra o povo’ foi o que sempre levou as elites à Inconfidência Mineira, ao Grito da Independência, à Proclamação da República, ao Golpe Militar ou Fascismo do Governo atual.

A maneira de comemorar a data bicentenária, nós já vimos como foi: a cavalaria, fumacentos tanques, velhos navios de guerra, soldados armados de todas as forças, até “tratoraço”, e esquadrilhas da fumaça, que tanto enfeitam nessas ocasiões. Também estudantes - crianças e adolescentes - foram obrigadas a desfilar, mesmo em escolinhas interioranas, como se isso fosse real prova de civismo. Para comporem o quadro, estavam autoridades, corpos diplomáticos e até o “coração de D. Pedro I”, vindo de Portugal, por uma concessão especial. Sobre tal data cívica, não tenho mais o que dizer. Basta!

            Mas, sobre uma atividade paralela – o grito dos excluídos – desde 1995, encabeçada pela CNBB e por seus movimentos sociais, eu quero me referir agora. Sua origem remonta à II Semana Social Brasileira, entre 1993-94. Além da CNBB, outros organismos participam da coordenação, realização e execução: o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), os Movimentos Sociais, a OAB, MEB, CEBs e outras entidades envolvidas com a justiça social.

            Pelo Tema estabelecido desde o início: A vida em 1º lugar e os Lemas aprofundados a cada ano, dá para perceber que são gritos bem diferentes: o estático de Independência ou Morte, só lembrando o fato histórico e o dinâmico Grito dos Excluídos, renovado a cada ano.

            Você, meu leitor amigo, se participa da Vida Pastoral da Igreja, conhece o esquema de atualização que o Grito dos Excluídos está dando há 28 anos. Se está contente com o Grito do Ipiranga, é uma pena: você parou no tempo.

            Nós, que nos ligamos no dinamismo da Igreja, refletimos, aprofundamos e nos manifestamos, massivamente, desenvolvendo os lemas sugeridos, que lhes recordo agora: ‘trabalho e terra para viver’; ‘queremos justiça e dignidade’; ‘aqui é o meu país’; ‘Brasil, um filho teu não foge à luta’; ‘progresso e vida -pátria sem dívidas’; ‘por amor a essa pátria – Brasil’; ‘Soberania não se negocia’; ‘tirem as mãos... o Brasil é nosso chão’; ‘Brasil: mudança pra valer, o povo faz acontecer’; ‘Brasil! Em nossas mãos, a mudança’; ‘Brasil: na força da indignação, sementes de transformação’; ‘isto não vale: queremos participação no destino da Nação’; ‘direitos e participação popular’; ‘a força da transformação está na organização popular’; ‘onde estão nossos direitos? Vamos às

ruas para construir o projeto popular’; ‘pela vida grita a terra... por direitos, (gritamos) todos nós’; ‘queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda a população’; ‘juventude que ousa lutar, constrói projeto popular’; ‘ocupar ruas e praças por liberdade e direitos’; ‘que país é este, que mata gente, que a mídia mente e nos consome’? ‘este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata’; ‘por direitos e democracia, a luta é todo dia’; ‘desigualdade gera violência: basta de privilegio’; ‘este sistema não vale; lutamos por justiça, direitos e liberdade’; ‘basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação’; ‘na luta por participação popular: saúde, comida, moradia, trabalho e renda já’.

            Neste ano do bicentenário, o Grito dos Excluídos - que sempre motivou o povo, antes do Dia Sete, no próprio Dia, e o movimentou depois - está perguntando: “Independência para quem? Qual independência há, de fato, no Brasil”? Foi na busca de respostas para perguntas semelhantes a estas, que o meu vizinho e colega sacerdote, Padre Vito Miracapillo foi expulso de sua Paróquia, em Ribeirão, na Mata Sul de Pernambuco, quando vivíamos sob o regime militar, aos 07 de setembro de 1980.

            Quando iniciamos o Grito, 15 anos depois, alcançamos 170 localidades, onde o povo se ia organizando em cozinhas comunitárias e em movimentos populares em um verdadeiro mutirão para enfrentar a fome. Em 28 anos, o Nº de famintos tem aumentado, de moradores de rua, de frequentadores de lixões à procura de um punhado de ossos para fazer uma sopa, de restos de comida, disputada com ratos e guabirus, enfim, um país que se ufana de estar entre as 10 maiores economias do mundo e de ser o 2º maior produtor de alimentos pra exportação, continua com um povo desprezado, sem trabalho, faminto, sem escola, analfabeto, sem salário e sendo orientado a usar “pix”, “cartões de crédito”, ou a fazer “empréstimo consignado” ou a frequentar  “Homeschooling”. Não é o grito de Independência ou Morte que está fazendo o povo construir ou crescer de baixo pra cima. É o Grito dos Excluídos que está ecoando nas ruas, desesperadamente gritando contra a exclusão social, numa busca constante de construir no dia a dia, a resistência e a sobrevivência.

            Será que não dá para perceber a contradição do grito de uma minoria que tem o poder, o dinheiro, o prestígio, aumentando sempre mais os seus lucros, visando, cada vez mais, a sua Independência social, econômica, material, em detrimento de uma maioria marginalizada e desalentada? Será que o Grito destes não incomoda os que tem poder, riqueza, mesa farta, luxo e se sentem mais e mais “independentes”?

            Está na hora de pensarmos nestas contradições; daqui a pouco, teremos eleições. Se estivermos satisfeitos com a situação reinante, com a ascensão daqueles que sobem sozinhos, sem pensar na maioria, mantenha-os no poder. Deixe-os gritando “independência” pra si, e “morte” pros outros. Continue encostando-se “num pau que tenha sombra”, mesmo que a sombra seja só pra ele. Se você pensa numa sociedade com um tratamento equânime pra todos, “grite com os excluídos”.  Como diz meu querido irmão, Frei Beto, “os que querem governar a sociedade não suportam os que querem governar com a sociedade, abraçados aos fundamentos da democracia”. E conclui o Frei Beto: “se o salário não paga a vida, a vida parece não valer um salário”.













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