quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

IDEIAS & NOTICIAS

 

UM OLHAR SOBRE A  DITADURA MILITAR

EUDES DE SOUSA

Neste início de século, percebe-se uma ânsia de parte de nossa população, especialmente os jovens, por ler o passado. Basta verificar nas bibliotecas ou nas feiras de livros, nas produções de cinemas e na tevê sobre fatos históricos. Foi o meu caso, dentro das bibliotecas, em busca de um humanismo, para alcançar um mundo melhor. A leitura exerce um papel fundamental, com o seu jogo fascinante de valorização das palavras.

Dando prosseguimento a estas leituras, sabe-se que no ano de 1964, o Brasil sofreu um forte abalo nas suas estruturas políticas e sociais, o Golpe Militar, tal golpe instalou um regime ditatorial que restringiu os direitos do povo brasileiro, reprimiu com violência o movimento opositor e afundou o País numa crise econômica.

Pois bem, há quem prefira abordar  este movimento militar de 64, cognominado de revolução por uns, golpe militar por outros. Por muito tempo, escritores norte americanos, ingleses e franceses dominaram a cena da histografia nacional contemporânea: John Foster Dulles Jr., filho do ex-secretário de Estado norte-americano do mesmo nome, escreveu a melhor biografia de Carlos Lacerda; Alfred Stephan elaborou o mais completo perfil dos militares brasileiros.

A escassez bibliográfica de autores nacionais justifica-se por vários fatores; pobreza de recursos para investir nas pesquisas e organização documental, na busca das fontes, e  em parte, censura intelectual. A melhor pesquisa sobre o papel dos Estados Unidos no movimento de 31 de março de 1964 é de Phyllis R. Parker, seu relatório baseou-se em arquivos manuseados pela autora nas bibliotecas presidenciais Lyndon Johnson e John Kennedy, e em documentos oficiais da Casa Branca.

Nas conclusões, Phyllis Parker assegura que o os estados Unidos não precisaram intervir diretamente na execução do golpe militar, cuidaram de dar incentivos estratégicos de natureza bélica, econômica e política. Deixaram aos brasileiros as tarefas operacionais propriamente ditas. Reporta que a assistência econômica durante o governo João Goulart se voltou para determinadas áreas: a Guanabara de Carlos Lacerda, e Minas Gerais, de Magalhães Pinto.

Em 1963, San Thiago Dantas tentou negociar um empréstimo que fora acordado ainda no governo Jânio Quadros, conseguiu que liberassem o empréstimo, mas o dinheiro nunca chegou porque havia ordens que impediam a remessa. Em junho de 1964 foi negociada, liberada e remetida a importância de  50 milhões, haviam transcorridos apenas três meses após 31 de março.

Mas é bom lembrar que os militares não deflagraram sozinhos o movimento político de 64. Liderança expressiva da política nacional como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Ademar de Barros, todos presidenciáveis, o apoiaram e participaram das articulações, ao lado de figuras expressivas do empresariado, da igreja, com decidido apoio das classes médias.

É não perder de vista que o mundo vivia o conflito da Guerra Fria entre o capitalismo e comunismo, efetivamente o Exército possuía um projeto nacional de modernização capitalista, a partir da doutrina da segurança nacional, estruturada depois da Segunda Guerra Mundial, cujo principal representante e ideólogo era o general Golbery Couto e Silva, o mesmo autor intelectual do plano da abertura lenta e gradual de devolução do poder político à sociedade, iniciada no governo Geisel, e completada no do general Figueiredo.

A obra da engenharia política exigia a travessia da eleição de Tancredo Neves e José Sarney pelo Colégio Eleitoral, em 1985. Nesse ponto é que um episódio recente salta do passado para as manchetes dos jornais, o general Newton Cruz declarou à imprensa que foi procurado pelo ex-prefeito e ex-governador de Paulo Maluf, convidando-o para abonar o plano de abertura política com o novo golpe militar.

O sobrinho de Tancredo Neves. Francisco Dornelles, na época ministro do Trabalho do Governo Fernando Henrique Cardoso, saiu em defesa de Maluf, afirmando na condição de participante íntimo daquelas articulações, que ao contrário, Maluf havia firmado o compromisso de manter a candidatura até o fim no Colégio Eleitoral indireto mesmo sabendo-se derrotado, e manteve o acordo até o desfecho.

Quem falará a verdade? O general ou o político? Ambos detêm parte da verdade do ponto de vista subjetivo de cada um. Mas é fato histórico que desde a Proclamação da República os políticos brasileiros cultivaram o hábito de rodear os quartéis. O marechal Castelo Branco chamava-os de vivandeiras. Aos invés de procurarem o apoio da sociedade, preferiam respaldar-se na força das baionetas. O hábito remonta a 15 de novembro de 1889, grande era o assédio a Deodoro da Fonseca e a Floriano Peixoto.

Hoje, é importante que saibamos o governo Bolsonarista derrotado pelos mesmos erros, de assédios aos quartéis, com seu discurso nacionalista e populista, com o apoio de uma horda de fanáticos, pelo autoritarismo salvador, comandado pelo então candidato à reeleição  a presidente Bolsonaro,  acreditava que o totalitarismo seria capaz de conter uma suposta ameaça a esquerda.  Foi um traço muito negativo.

O comunismo tornou-se sinônimo. Qualquer proposta de reforma social ou mobilização dos movimentos sociais eram vistas como obra dos comunistas. Era generalizada a percepção entre acadêmicos e representantes de governos dos cinco continentes de que o Brasil poderia, sim, enfrentar uma tentativa de golpe de Estado. 

No Brasil, a democracia ainda é vista como demasiadamente permissiva e incapaz de resolver  os problemas que afligem a maioria da população. Com isso, surge o movimento no sentido de testá-la e  de mostrar quem manda. Este tipo de discurso vinga até junto às classes mais abastadas e mais instruídas.  Enfim, estamos em processo regressivo, de afirmação dos sentimentos mais básico do ser humano, em recusa da razão. Digamos que o legado da própria Revolução Francesa está sob ameaça. É triste, mas foi o que criamos

Por isso, foi importante a vitória do Lula. É fundamental que o Brasil consiga se a firmar perante o mundo como um Estado democrático e não fique para a História como um país que, em pleno século XXI, optou pelo caminho contrário.

Os políticos devem legitimar-se, apoiar-se na sociedade, no povo, e a busca do poder justifica-se  acompanhado de projetos efetivos de governo do interesse dos cidadãos. A História, desde Heródoto, não é um amontoado de fatos, mas um conjunto significativo de lições a serem aprendidas por todos os povos. Repito, ao aprendizado de lições com a História, bem como manter acesa a chama da democracia.

EUDES SOUSA - Jornalista, historiador, crítico literário, membro do Instituto Histórico e

Geográfico do Maranhão e presidente da Academia Massapeense de Letras e Arte


Nenhum comentário:

Postar um comentário

COLUNA PRIMEIRO PLANO

  LUIZIANE, A CAMINHO DO SENADO, SAI DO PT, MAS APOIARÁ LULA E ELMANO.                                        EDIÇÃO DE 04.04.26            ...