A INCONFIDÊNCIA E OS JESUÍTAS
EUDES DE SOUSA
A
história da Inconfidência Mineira é rica, deveria ser mais aprofundada e
difundida pela sua raiz, no período que sucedeu
o movimento, da luta contra a submissão do pensamento religioso ao poder
político. Os Jesuítas proclamavam os princípios libertários, começaram
defendendo a igualdade jurídica dos Estados. Por isso, deveríamos partir dela
e, cada vez mais, compreender a História do Brasil.
Os jesuítas começaram defendendo
a igualdade jurídica dos Estados, e, indo bastante longe para o tempo. Pela
palavra do padre João Mariana, os
Jesuítas sustentavam que a origem do Estado estava no consentimento dos governantes,
e que os poderes eram limitados. O jesuíta francês Roberto Bellarmin, mais
tarde Cardial, chegou esboçar o que seria uma democracia moderna. Bellarmin
declarava que o melhor regime seria a monarquia se a natureza humana não fosse
corruptível. Como se sabe que o é, necessário se tornava que o poder temporal
fosse limitado por meio de órgãos representativos da vontade geral.
Abalando a concepção absolutista
da origem divina do poder, Bellarmin declarava o povo como detentor da
autoridade delegada ao monarca para que este promovesse o bem comum.
Outro Jesuíta, Francisco Suarez,
professor da Universidade de Coimbra, caminhando no rastro dos demais,
impugnava o poder absoluto, afirmando do que o poder pertencia ao povo, que o
transferia aos governantes, sentido lícito retirá-lo se estes, advertidos pelos
órgãos representativos da vontade dos governados, se obstinassem em sua má
conduta.
Como se sabe, no Brasil colônia,
era proibido a divulgação dessa efervescência do pensamento filosófico europeu.
Em Vila Rica, nas Minas Gerais, florescera uma aristocracia intelectual, fruto
de enriquecimento de uma sociedade que prosperara com o ouro. Este período
apresentou impressionante produção na arquitetura, pintura, escultura, música e
literatura. E, é claro, o acesso à literatura proibida se produziu, seja porque
os jovens ricos iam estudar em Coimbra onde os temas eram discutidos sobre liberdade, seja porque os padres
adquiriam na Europa estas obras filosóficas, que importavam clandestinamente, e
divulgavam nas suas igrejas, que, na época, também eram educandários.
O que passou à História com o
nome de Inconfidência Mineira foi um movimento, mais de intenções frustradas do
que de efetiva ação revolucionária. Os inconfidentes representavam a nata da
próspera e culta sociedade das Minas Gerais. Para citar somente alguns: Tomás
Antônio Gonzaga, desembargador, um dos maiores poetas da língua portuguesa;
padre José da Silva Rolim, homem famoso por sua vasta cultura, e
originário de família abastada; o tenente coronel Francisco de Paula Freire
de Andrade, sobrinho de Gomes Freire, cujo pai fora governador das Minas
Gerais; Domingos Vidal de Barbosa, que estudou nas Universidades de
Monttpellier e Bordeaux; Claudio Manoel da Costa, um dos homens mais
ricos da Capitania. No meio daqueles aristocratas, a figura do Alferes Joaquim
José não era a socialmente mais expressiva.
Os inconfidentes, mais idealistas
do que conspiradores, começavam pelo fim: discutia-se como seria o pavilhão do
país independente: no início, pensou-se em uma bandeira com o lema Aut
libertas, aut nihil. Ou liberdade, ou nada. O lema não agradou, sendo
substituído por libertas a quo spiritu, Liberdade do Espírito. encimado por um
gênio quebrando grilhões. Finalmente, decidiram-se pelos versos de Virgílio: líbertas
quae sera tamen. Liberdade, ainda que tardia. O escudo seria um triângulo.
Antes, havia sido proposto um escudo com três triângulos.
Havia consenso quanto à forma de
governo. Seria republicana. Quanto à escravidão, houve divergências: como o
número de negros na Capitania era superior ao de brancos, haveria o risco de
aqueles apoiarem a Coroa, para se tornarem livres como recompensa. Então
propôs-se a libertação dos negros. Mas, depois, o inconfidente José Álvares
Maciel ponderou que tal medida, tomada abruptamente, desorganizaria a economia,
estruturada no alicerce escravocrata.
O grande poeta Inácio José de
Alvarenga Peixoto, sugeriu que, então, se dessa liberdade imediata aos
mulatos, conservando-se ainda por um tempo, no cativeiro, os nascidos na
África. A Inconfidência abortou antes de ser esta pendência solucionada. Para
os africanos, o libertas quae sera tamen teria um leve sabor de ironia.
Na atual Ouro Preto, Monumento Nacional e
Patrimônio da Humanidade, repousam em austero mausoléu os Inconfidentes de Vila
Rica. Mas, onde ali está o Tiradentes? Tiradentes não está. Seu corpo, após a
execução, foi esquartejado. O mártir da Inconfidência não teria um funeral
cristão. Seus despojos, portanto, não estão em Ouro Preto. Seu túmulo foi a
terra do Brasil, que ele, com seu espírito, e até com seu sangue e sua carne,
fertilizou.
Precisamos sim, de aprofundar,
passagens frustrantes, eventos verdadeiramente heroicos, que muitos
historiadores e intérpretes do episódio histórico são forçados a cobrir os
claros da informação através da fantasia ou dos caminhos induzidos pela natureza dos fatos. Nessa
atividade, o fator pessoal, movido por sensibilização política ou ideológica,
haverá de pesar na configuração do seu discurso
narrativo.
EUDES SOUSA - Jornalista, crítico literário,
historiador, membro do Instituto Histórico Geográfico do Maranhão, ex-presidente
do II Congresso Nacional de Escritores e presidente da Academia Massapeense de
Letras e Artes
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