sábado, 18 de fevereiro de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

Neste sábado gordo, já viu alguém confessando sua fome? 

Todo ano, ao chegar o sábado gordo, isto é, o dia de hoje, eu aproveito para refletir sobre o Carnaval, sua história, seus exageros, suas ligações com o Calendário Litúrgico - pois dá início à Quaresma - exatamente na 4ª feira de cinzas – dia 22 – e vai até a Semana Santa, Domingo de Ramos, 02 de Abril.

            Já se vão 60 anos do início da Campanha da Fraternidade, lançada em Roma, por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II, dando seus primeiros passos na Província do Rio Grande do Norte – Natal, Caicó e Mossoró – como fase experimental, que deu certo, e se espalhou, rapidamente, por todo o país.

            Em cada ano se aprofundou um tema específico a ser refletido em todo o Brasil, de acordo com a nossa realidade, sendo que a Fome nos chamou mais a atenção em 1975, 1985 e agora, em 2023, sob o tema – Fraternidade e Fome - e o lema – dai-lhes vós mesmos de comer – Mt.12,16.

Nas duas primeiras Campanhas (1975 e 1985) tínhamos como referência histórica – Josué de Castro - um médico, sociólogo e cientista político que muito influenciou em minha vida, sobretudo no contato que tive com a sua obra, durante meus estudos no Seminário de Olinda e através das minhas atividades pastorais, voltadas para o social, ao tempo em que convivi na Zona Canavieira de Pernambuco, na Paróquia de Amaraji.

            Nasceu em Recife aos 05 de setembro de 1908 onde viveu, estudou e fez vestibular para Medicina na Universidade da Bahia, graduando-se no Rio de Janeiro em 1929. Ao se formar, retorna ao Recife e é convidado a trabalhar na Secretaria de Educação do Estado com Sílvio Rebelo, Gilberto Freire, Olívio Montenegro, convidados a integrar a equipe do novo governador José Maria Belo. Nenhum deles assumiu. A Revolução de 1930 mudou a sorte de todos, inclusive a de Josué de Castro, que começou a clinicar em Recife, a trabalhar como médico em uma grande fábrica que, em 1932, o levaram a realizar um “Inquérito sobre as condições de vida das classes operárias no Recife”.

             Isto o fez mostrar a que veio. Casou-se com Dona Glauce Rego Pinto, companheira pra toda vida, cúmplice, parceira e guardiã de seus escritos. Com ela teve 03 filhos. Prestou concurso para o cargo de Professor Titular em Geografia Humana da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, defendendo a Tese: “Fatores da localização da Cidade do Recife”.

            Mesmo longe, não esqueceu suas origens. No Rio, clinicava, lecionava, estudava e pesquisava, passando a ter atuação destacada em políticas públicas: nos movimentos em prol da criação de um salário mínimo justo; na fundação dos Arquivos Brasileiros de Nutrição sob o comando do Serviço Técnico de Alimentação Nacional, em parceria com a Nutrition Foundation of New York; na fundação da Sociedade Brasileira de Alimentação, tudo em conexão com o Serviço de Alimentação da Previdência Social – SAPS – criado pelo Ministério do Trabalho. Sua ação foi tão eficaz em âmbito nacional que repercutiu entre os “Hermanos Argentinos” que o convidaram para estudar e implantar algo semelhante ao que fazia no Brasil, quanto à alimentação e nutrição, e isto se espalhou pelo México, República Dominicana e EEUU.

            De 1943 a 1954 centrava seus esforços aqui no Brasil, como: Professor Catedrático da cadeira de Nutrição do Curso de Sanitaristas do Departamento Nacional de Saúde enquanto dirigia o Serviço Técnico de Alimentação Nacional e se desdobrava na assessoria que ia prestando a países que o convidavam.

            Com tantas atividades dentro e fora do Brasil, ainda foi eleito Presidente do Conselho Executivo da FAO e reeleito, por unanimidade, para mais um mandato. Na época, enquanto vivia na Europa, ainda despertou interesses em cineastas do neorrealismo italiano, que se motivaram e realizaram o filme “O Drama das Secas”, baseados em sua “Geografia da Fome” e “Geopolítica da Fome”. Josué de Castro era o gênio que “tocava todos os instrumentos”. Com a facilidade que tinha de comunicação, com os livros que ia escrevendo, abordando a vida real do povo, não precisou nem de “campanha política” para se eleger e reeleger-se deputado federal por dois mandatos pelo seu Estado de Pernambuco. Não precisava de propaganda melhor do que sua obra escrita (mais de 100 livros) e sua prática profissional como já aventamos neste texto.

            Quando estudei no Seminário de Olinda – na 1ª metade da década de 1960 – nas aulas de sociologia do Pe. Almery Bezerra ou nas aulas de filosofia dos professores Newton Sucupira e Zeferino Rocha ou nas de Economia do Professor Vamireh Chacon, fui orientado pastoralmente pelo Pe. Paulo Crespo.

            Éramos seminaristas, provenientes do norte/nordeste, cheios do espírito renovador do Concílio Vaticano II e ansiosos pela atualização dos currículos que o Seminário Regional do Nordeste nos estava oferecendo. Tínhamos uma competente equipe de direção e o braço forte de D. Carlos Coelho, sucedido pelo “profetismo” de D. Helder Câmara, arcebispos de Olinda e Recife.

            Acompanhávamos toda a efervescência política de Pernambuco e sua consequente ação social, bem como a evolução do pensamento ideológico que nos ia norteando. Um deles, sem dúvida, foi Josué de Castro.

            Nossos professores citavam suas obras e nos estimulavam a conhecer algumas, pelo menos, as mais importantes. Falavam-nos de suas pesquisas, por exemplo, “Sobre as Condições de Vida das Classes Operárias no Recife” ou sobre o “O Nanismo a que estavam ameaçados os Trabalhadores Rurais da Zona da Mata” em Pernambuco, Alagoas e Paraíba. Eram gerados na fome, subalimentados com fome e desnutridos pela fome. Que estatura poderiam ter?

             Eu me tornei Padre em 1968. Josué de Castro ainda era vivo, exercendo a função de embaixador do Brasil na ONU, desde 1962. Com o golpe militar em 1964, ele foi destituído do cargo de embaixador-chefe em Genebra, teve seus direitos políticos cassados por 10 anos e foi impedido de voltar ao Brasil. Ficou exilado na França. Como seus valores pessoais eram muito maiores do que o cargo que ocupava, ele permaneceu em Paris, exercendo suas atividades intelectuais. Fundou em 1965 e dirigiu até 1973, o Centro Internacional para o Desenvolvimento, tornou-se Presidente da Associação Médica Internacional para o Desenvolvimento, além de ser também Presidente da Associação Médica Internacional para o Estudo das Condições de Vida e Saúde. Como se não bastasse, em 1969, o Governo Francês o designou Professor Estrangeiro associado ao Centro Universitário de Vincennes (setor VIII) da Universidade de Paris, onde trabalhou até sua morte de saudade aos 24 de setembro de 1973.

Como eu disse acima, no 1º parágrafo, ‘ao tempo em que convivi na Zona Canavieira de Pernambuco, na Paróquia de Amaraji’ é porque eu tive a felicidade de trabalhar naquela área, quando eu tinha 10 anos de sacerdócio.

 Iniciei meu ministério em Afogados da Ingazeira – de 1968 a 1973 – fui pra Roma, estudar um pouco e, quando retornei, assumi a direção de uma Escola Polivalente em Paratibe, no grande Recife, quando me decidi – em 1978 - a abandonar tudo e trabalhar na Arquidiocese, que me ofereceu como missão pastoral, a Paróquia de Amaraji, onde fiquei até 1983. Foi muito bom!

Experimentei de perto, ao vivo, convivendo com aquela realidade, no meio de Engenhos e dentro da Usina Bonfim, o que Josué de Castro já falara sobre a sucessão de gerações “nanicas”. Na Missa da Criança, comparávamos o físico de um menino nutrido, bem-criado e alimentado, com um menino da mesma idade, desnutrido, faminto, gerado já nessa situação. Era a verdade pura, denunciada e comprovada por Josué de Castro e ensinada no Seminário.

É claro que o proprietário de 20.000 hectares de terra, toda cheia de cana de açúcar, não gostava da denúncia que fazíamos, pela imprensa, com exemplos concretos e com dados fornecidos pela FEBEM Local. A melhor oposição ao trabalho da Igreja era de desmoralização dos seus padres e leigos conscientes da sua missão ou de apelidá-los de comunistas como, infelizmente ainda se faz hoje. Ah! Josué de Castro! Você foi vítima de um sistema podre que o matou de saudades. Mas o que um agricultor me dizia lá, ainda é verdade: “vou morrer como nasci: nu e com fome”. Nunca o esqueci.

A fome é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano. Vamos voltar a ele, com base nesta história de Josué de Castro, tão comprometida com tal realidade e, infelizmente, pouco transformada. Mostraremos com dados atuais e concretos. Depois de tanto tempo, a mudança é mínima. Nos próximos 40 dias, voltaremos ao assunto.











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