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“Não há democracia se
existe fome”. |
Celebramos hoje o
sábado depois das cinzas, e amanhã já é o 1º Domingo da Quaresma, como um tempo
especial de penitência que se estende pelos próximos 40 dias, a fim de nos
prepararmos para a Festa da Páscoa.
Em nosso último
Comentário, ao falar que estaríamos iniciando, na 4ª feira de cinzas, dia 22, o
Tempo da Quaresma, falávamos dos 60 anos da Campanha da Fraternidade, no
Brasil, nascida em Roma, no início do Concílio Ecumênico, e que este ano, pela
3ª vez, abordaria a reflexão sobre a realidade da fome, que teve Josué de
Castro, como seu maior estudioso na História atual de nossa região. Conhecemos
sua vasta bibliografia sobre o assunto, de modo especial, através do filme
neorrealista italiano O Drama das Secas, inspirado em suas obras: ‘Geografia
da Fome’ e ‘Geopolítica da Fome’.
Encerrávamos nosso
comentário, dizendo que ‘nos próximos 40 dias voltaríamos ao assunto’.
Comecemos logo.
Em setembro deste ano
(05/1908) faz 115 anos de seu nascimento e 50 de sua morte (24/1973) e apesar
da distância, sua obra ainda é uma referência para quem estuda, pesquisa ou
fala de fome entre nós. Se não mudou para melhor, até piorou. Pra que aberração
maior do que a vida dos Ianomâmis? E a constatação do Dr. Dráuzio Varela entre
os “nanicos”? “Mutatis mutandis” não foi a constatação do Dr. Josué de
Castro há tanto tempo?
Antes, depois e agora a
fome sempre foi e continua a ser um dos resultados mais cruéis da desigualdade.
Afeta, inicialmente, os mais carentes ou necessitados. Atinge a todos, à
sociedade inteira. Por isso o Papa Francisco afirma, sem rodeios, que “não
há democracia se existe fome”.
Por 03 vezes a fome é
tratada pela Igreja do Brasil durante a Campanha da Fraternidade: em 1975, com
o tema: “Fraternidade é repartir” e o lema: “Repartir o Pão”.
Justificou o tema e o lema dessa 1ª C.F. sobre a Fome, o Congresso Eucarístico
Nacional de Manaus, com os mesmos Tema e Lema que fizeram o povo de Deus
conhecer melhor e vivenciar a Eucaristia.
A 2ª C.F. sobre a fome
foi em 1985, por ocasião de outro Ano Eucarístico, com um Congresso
comemorativo em Aparecida – S.P. – sob o Lema: “Pão para quem tem fome”.
Agora, em 2023, pela 3ª
vez vamos refletir sobre a Fome, com base em mais um Congresso Eucarístico
Nacional, realizado em Recife, em Novembro último, sob o Tema: “Pão em todas
as mesas” e o Lema que é uma ordem de Jesus a seus discípulos: “dai-lhes
vós mesmos de comer” (Mt.14,16). Tanto no 18º Congresso, em Recife, como
nesta C.F./2023, nos é ensinado e cobrado que “obedecer e cumprir a ordem de
Jesus é vocação, graça e missão da Igreja”. Não podemos duvidar. Pena é que,
tantos congressos, campanhas da fraternidade, estudos e pesquisas desde Josué
de Castro, como falamos em nosso último comentário, em nada melhorou a situação
da fome entre nós.
Não devemos esquecer de
que a superação da miséria e da fome foi também objeto de reflexão da Conferência
Nacional de Bispos do Brasil na sua 40ª Assembleia Geral, em Abril de 2002, ao
comemorar seus 40 anos de existência, publicando o documento “Alimento, dom
de Deus, direito de todos”, lançando com ele um mutirão nacional de
superação da miséria e da fome.
Apesar dessa
preocupação constante mudam os tempos e as realidades e é preciso ainda
confrontarmo-nos com o Evangelho, frente a este grande desafio que permanece
gritante em nossa sociedade: a fome.
A FOME é uma
realidade do Brasil. Este fato não pode ser negado.
Ela é o flagelo de uma
multidão de brasileiros. No entanto, no Brasil não falta alimento. A cada ano o
país bate recordes de produção de milho, soja, trigo, cana de açúcar, carne
etc. O que então nos falta?
Falta-nos
convertermo-nos ao Evangelho, olhar com sinceridade as necessidades do outro,
aprender a repartir para que ninguém fique com fome, edificar aqui e agora o
Reino de Deus que buscamos e que se realizará em plenitude na eternidade.
Infelizmente quando a
Igreja liga estas realidades à Palavra de Deus e quer buscar nela, a resposta
para tantos problemas, os políticos enganadores do povo e até maus católicos
começam uma campanha de difamação do Padre ou do Bispo, muitas vezes, até do
Papa, atribuindo à sua ação missionária, uma atividade “comunista”, contrária
ao Evangelho e inventam mentiras e espalham doutrinas, nada cristãs, divulgando
o ódio e o mal-estar entre todos.
Para eles, porque falar
de fome, de sofrimento, analfabetismo ou avivar na cabeça do povo, problemas
sociais, desemprego, sem apresentar soluções? Pra que conscientizar, abrir a
mente pra tais assuntos que em nada vai mudar?
Deixa viver com fome,
para que angustiar o povo? Pensam até que é pra viver assim mesmo. Não está tão
bom até agora? Pra que botar essas ideias na cabeça do povo? Eles nem notam que
estão perdendo a própria dignidade, arrastando-se pela rua, revirando o lixo e
morrendo. É tudo tão natural que até é desejado por Deus.
No Brasil, a fome não é
simplesmente um problema ocasional, é um fenômeno social e coletivo,
estrutural, produzido e reproduzido no curso ordinário da sociedade, que
normatiza e naturaliza a desigualdade, é um projeto de manutenção da miséria em
vista de perpetuação no poder.
A escritora Carolina
Maria de Jesus já afirmava em seu Diário de uma Favelada, em 1960: “quem
inventou a fome são os que comem”.
São, exatamente, ‘os
que comem’ que protestaram contra a declaração recente da Ministra do Meio
Ambiente, Marina Silva, em Davos, na Suíça, de que “cerca de 120 milhões de
brasileiros viviam em algum nível de Insegurança Alimentar” (IA) isto é, em
nível leve, moderado ou grave. Será fake a afirmação dela, quando a mesma fonte
estatística, a que ela se referiu (abril de 2022) diz que “apenas 41,3% dos
domicílios brasileiros tinham seus moradores em Segurança Alimentar “(SA)?
Este dado é verdadeiro, o outro não?
“Grosso modo”, o número
de “Inseguros Alimentares”, abrange os 03 níveis: “leve”, “moderado” ou
“grave”. Será bonito falar só dos alcançados pelo nível grave? Aí vão para quem
interessar possa: 33 milhões de pessoas enfrentam a fome em nosso país. Vivem
na fome endêmica.
A propósito, o Brasil inteiro acompanhou, desde o início, a situação dos indígenas Ianomâmi que, através de um grande mutirão de conhecimento daquela área e de assistência emergencial, o atual governo está por lá com toda a estrutura de atendimento por causa da desnutrição, malária, pneumonia, verminoses, além de violência constante de garimpeiros ilegais que ocasionam uma crise sanitária sem precedentes na maior terra indígena do Brasil onde vivem cerca de 30 mil Ianomâmis.
A desnutrição atinge mais de 50% das crianças, numa área de 09
milhões de hectares entre os Estados do Amazonas e Roraima, já na fronteira com
a Venezuela. É um exemplo concreto de penúria e de fome, sobretudo causado pelo
Estado Brasileiro que, no governo anterior, deu as costas para os Índios e
apoiou os garimpeiros. O caos está instalado. Trata-se de um exemplo concreto
para ilustrar a C.F./2023 a respeito da Fome.
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