sábado, 25 de fevereiro de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

“Não há democracia se existe fome”.

Celebramos hoje o sábado depois das cinzas, e amanhã já é o 1º Domingo da Quaresma, como um tempo especial de penitência que se estende pelos próximos 40 dias, a fim de nos prepararmos para a Festa da Páscoa.

Em nosso último Comentário, ao falar que estaríamos iniciando, na 4ª feira de cinzas, dia 22, o Tempo da Quaresma, falávamos dos 60 anos da Campanha da Fraternidade, no Brasil, nascida em Roma, no início do Concílio Ecumênico, e que este ano, pela 3ª vez, abordaria a reflexão sobre a realidade da fome, que teve Josué de Castro, como seu maior estudioso na História atual de nossa região. Conhecemos sua vasta bibliografia sobre o assunto, de modo especial, através do filme neorrealista italiano O Drama das Secas, inspirado em suas obras: ‘Geografia da Fome’ e ‘Geopolítica da Fome’.

Encerrávamos nosso comentário, dizendo que ‘nos próximos 40 dias voltaríamos ao assunto’. Comecemos logo.

Em setembro deste ano (05/1908) faz 115 anos de seu nascimento e 50 de sua morte (24/1973) e apesar da distância, sua obra ainda é uma referência para quem estuda, pesquisa ou fala de fome entre nós. Se não mudou para melhor, até piorou. Pra que aberração maior do que a vida dos Ianomâmis? E a constatação do Dr. Dráuzio Varela entre os “nanicos”? “Mutatis mutandis” não foi a constatação do Dr. Josué de Castro há tanto tempo?

Antes, depois e agora a fome sempre foi e continua a ser um dos resultados mais cruéis da desigualdade. Afeta, inicialmente, os mais carentes ou necessitados. Atinge a todos, à sociedade inteira. Por isso o Papa Francisco afirma, sem rodeios, que “não há democracia se existe fome”.

Por 03 vezes a fome é tratada pela Igreja do Brasil durante a Campanha da Fraternidade: em 1975, com o tema: “Fraternidade é repartir” e o lema: “Repartir o Pão”. Justificou o tema e o lema dessa 1ª C.F. sobre a Fome, o Congresso Eucarístico Nacional de Manaus, com os mesmos Tema e Lema que fizeram o povo de Deus conhecer melhor e vivenciar a Eucaristia.

A 2ª C.F. sobre a fome foi em 1985, por ocasião de outro Ano Eucarístico, com um Congresso comemorativo em Aparecida – S.P. – sob o Lema: “Pão para quem tem fome”.

Agora, em 2023, pela 3ª vez vamos refletir sobre a Fome, com base em mais um Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Recife, em Novembro último, sob o Tema: “Pão em todas as mesas” e o Lema que é uma ordem de Jesus a seus discípulos: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt.14,16). Tanto no 18º Congresso, em Recife, como nesta C.F./2023, nos é ensinado e cobrado que “obedecer e cumprir a ordem de Jesus é vocação, graça e missão da Igreja”. Não podemos duvidar. Pena é que, tantos congressos, campanhas da fraternidade, estudos e pesquisas desde Josué de Castro, como falamos em nosso último comentário, em nada melhorou a situação da fome entre nós.

Não devemos esquecer de que a superação da miséria e da fome foi também objeto de reflexão da Conferência Nacional de Bispos do Brasil na sua 40ª Assembleia Geral, em Abril de 2002, ao comemorar seus 40 anos de existência, publicando o documento “Alimento, dom de Deus, direito de todos”, lançando com ele um mutirão nacional de superação da miséria e da fome.

Apesar dessa preocupação constante mudam os tempos e as realidades e é preciso ainda confrontarmo-nos com o Evangelho, frente a este grande desafio que permanece gritante em nossa sociedade: a fome.

A FOME é uma realidade do Brasil. Este fato não pode ser negado.

Ela é o flagelo de uma multidão de brasileiros. No entanto, no Brasil não falta alimento. A cada ano o país bate recordes de produção de milho, soja, trigo, cana de açúcar, carne etc. O que então nos falta?

Falta-nos convertermo-nos ao Evangelho, olhar com sinceridade as necessidades do outro, aprender a repartir para que ninguém fique com fome, edificar aqui e agora o Reino de Deus que buscamos e que se realizará em plenitude na eternidade.

Infelizmente quando a Igreja liga estas realidades à Palavra de Deus e quer buscar nela, a resposta para tantos problemas, os políticos enganadores do povo e até maus católicos começam uma campanha de difamação do Padre ou do Bispo, muitas vezes, até do Papa, atribuindo à sua ação missionária, uma atividade “comunista”, contrária ao Evangelho e inventam mentiras e espalham doutrinas, nada cristãs, divulgando o ódio e o mal-estar entre todos.

Para eles, porque falar de fome, de sofrimento, analfabetismo ou avivar na cabeça do povo, problemas sociais, desemprego, sem apresentar soluções? Pra que conscientizar, abrir a mente pra tais assuntos que em nada vai mudar?

Deixa viver com fome, para que angustiar o povo? Pensam até que é pra viver assim mesmo. Não está tão bom até agora? Pra que botar essas ideias na cabeça do povo? Eles nem notam que estão perdendo a própria dignidade, arrastando-se pela rua, revirando o lixo e morrendo. É tudo tão natural que até é desejado por Deus.

No Brasil, a fome não é simplesmente um problema ocasional, é um fenômeno social e coletivo, estrutural, produzido e reproduzido no curso ordinário da sociedade, que normatiza e naturaliza a desigualdade, é um projeto de manutenção da miséria em vista de perpetuação no poder.

A escritora Carolina Maria de Jesus já afirmava em seu Diário de uma Favelada, em 1960: “quem inventou a fome são os que comem”.

São, exatamente, ‘os que comem’ que protestaram contra a declaração recente da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em Davos, na Suíça, de que “cerca de 120 milhões de brasileiros viviam em algum nível de Insegurança Alimentar” (IA) isto é, em nível leve, moderado ou grave. Será fake a afirmação dela, quando a mesma fonte estatística, a que ela se referiu (abril de 2022) diz que “apenas 41,3% dos domicílios brasileiros tinham seus moradores em Segurança Alimentar “(SA)? Este dado é verdadeiro, o outro não?

“Grosso modo”, o número de “Inseguros Alimentares”, abrange os 03 níveis: “leve”, “moderado” ou “grave”. Será bonito falar só dos alcançados pelo nível grave? Aí vão para quem interessar possa: 33 milhões de pessoas enfrentam a fome em nosso país. Vivem na fome endêmica.

A propósito, o Brasil inteiro acompanhou, desde o início, a situação dos indígenas Ianomâmi que, através de um grande mutirão de conhecimento daquela área e de assistência emergencial, o atual governo está por lá com toda a estrutura de atendimento por causa da desnutrição, malária, pneumonia, verminoses, além de violência constante de garimpeiros ilegais que ocasionam uma crise sanitária sem precedentes na maior terra indígena do Brasil onde vivem cerca de 30 mil Ianomâmis. 

A desnutrição atinge mais de 50% das crianças, numa área de 09 milhões de hectares entre os Estados do Amazonas e Roraima, já na fronteira com a Venezuela. É um exemplo concreto de penúria e de fome, sobretudo causado pelo Estado Brasileiro que, no governo anterior, deu as costas para os Índios e apoiou os garimpeiros. O caos está instalado. Trata-se de um exemplo concreto para ilustrar a C.F./2023 a respeito da Fome.












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