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Deixem-me
guardar a fé Edição de 04/03/2023 |
Meus últimos comentários se direcionaram mais para temas voltados prá
Doutrina Social da Igreja, Concílio, Fé e Política, Teologia da Libertação,
CEBs e MEB, ou para o compromisso maior da Igreja, com o Social, com os mais
pobres ou vulneráveis, como fez Jesus em sua vinda à terra há 2.000 anos.
Recebi
retornos pró e contra, como deve acontecer em qualquer grupo ou sociedade
democrática. O diálogo faz parte da convivência entre humanos.
Como
meus estudos foram sempre orientados na direção do diálogo, do entendimento
entre as pessoas, não quero impor a minha maneira de pensar e achar que somente
eu estou certo. A verdade surge do entendimento mútuo.
Aliás,
há quase dois meses – no dia 07/01 – citei uma frase do filósofo iluminista
Voltaire, que dizia: “eu detesto seus
pontos de vista, mas estou preparado para morrer por seu direito de
expressá-los”.
Tenho
certeza de que, se alguém ainda não me conheceu e não entendeu o meu modo de
pensar, vou refrescar-lhe a mente em fatos mais recentes.
Até o meio do ano de
1989, eu estava em Serra Talhada, como pároco da Matriz de Nossa Senhora do
Rosário, já na reta final de meus 05 anos à frente daquela Paróquia. Havia sido
convidado a participar entre 24-25/06/89, de um Seminário Ampliado, em
Petrópolis, com a finalidade de pensar, com outros convidados, na possibilidade
de lançar uma ideia, estudá-la e aprofundar, que se espalhasse por todo o
Brasil, no interesse de que houvesse um comprometimento de estudos em grupos
com “a fé e a política”. Já havia gente pensando nisso e já se queria
ampliar a notícia: seria “um movimento
ecumênico, não confessional e não partidário, aberto para todas as pessoas que
considerassem a política como campo preferencial da vivencia de sua fé e que
considerassem a fé como fundamento último de sua utopia”.
Interessei-me
pelo assunto e, embora já me estivesse preparando para retornar a Roma para
especialização em estudos, antes iniciados, fui e retornei no início de
fevereiro de 1990, com o propósito de retomar essa reflexão. Era-me muito
agradável fazer isso, já que tinha um bacharelado e um mestrado em Sociologia,
feitos, anteriormente, em Roma e retornara para fazer o Doutorado. A proposta
dos que me convidavam, estava dentro das minhas intenções. De fato, ao voltar
em fevereiro, fui convidado por D. José Maria Pires a integrar sua equipe de
Professores do Seminário Provincial da Paraíba, repassando aos seminaristas da
época (mais de 10 eram de Afogados da Ingazeira), alguns rudimentos de Fenômeno
Religioso e de Sociologia da Comunicação como instrumentos pastorais, a serem
utilizados depois na Missão.
Por
18 meses, morei em Mamanguape, cuidando da Paróquia e, ao mesmo tempo, dava
aulas no Seminário em João Pessoa e me renovava, à medida que tinha um bom
contato com os jovens seminaristas. Mantinha-me em ligação direta com as
pastorais sociais e seus agentes da Arquidiocese da Paraíba, sob a orientação
segura, coerente e corajosa de D. José Maria. Foi um estágio prático e
maravilhoso na junção de fé e política
a que me propunha.
D.
Francisco me chama, de volta, à Diocese de Afogados da Ingazeira e me nomeia
Pároco de Tabira. A maneira de fazer pastoral ali, era a mesma: voltada para o
social, sindicalismo, doutrina social da Igreja e o aval constante de D.
Francisco que não nos deixava a descoberto. Ele não aceitava
“irresponsabilidade” de nossa parte. Apoiava-nos em tudo: nos encontros de “fé
e política” onde quer que se realizassem: Campina Grande, Natal, João Pessoa ou
Recife, lá estávamos com a nossa equipe de “fé e política”. Uma vez fomos a São
Paulo, à Diocese de Lins, em Araçatuba e Guararapes, participar de um Encontro
Nacional. Nossa equipe diocesana, à época, era composta de Mel. Jerônimo,
Edson, Bartolomeu, Beto, Zenão, Adailson, Lula Aureliano, Mel. Santos e
Zefinha, Hauridete, Netinha, Luciete que apresentavam Programas de “Fé e
Política”, “o Homem e a Terra” e visitavam os grupos pelas Paróquias. A verdade
é que, estamos com 33 anos deste Movimento de Fé e Política, com equipe
renovada, com assistente eclesiástico de 1ª linha, o nosso Padre Luizinho,
usando os Meios de Comunicação, com Programa na Rádio Pajeú, como antes. Que
maravilha! Está melhor do que no meu tempo.
Depois
que D. Francisco renunciou e com a chegada de D. Pepeu, eu, vendo a velhice
chegar, me senti descompromissado com a Diocese. Voltei pro meu aconchego. Vim
pro Ceará. Aqui, já completei meus 82 anos. Nestes mais de 21 anos, trabalhei
até os 70 na Universidade Vale do Acaraú e até os 75 com funções na Diocese de
Sobral, sobretudo na Rádio Educadora (63) e no Jornal Correio da Semana (104),
quando deixei tudo pelo merecido descanso.
Para
não fugir à minha opção anterior de unir “fé e política”, enquanto estive na
U.V.A. escrevi – a 04 mãos – com um colega meu do Seminário – o Prof. Teodoro
Soares – (que não se tornou Padre, mas era Reitor da mesma Universidade), dois
livros sob os títulos: “Diálogos –
Política e Cidadania” e “Política
e Religião”, que a Professora Doutora da Universidade Nova de Lisboa comentou
em seu Posfácio: “é por essa
coragem de falar claro que este
livro nos interessou muito especialmente. Ele
poderá ser lido como uma cartilha de cidadania”. Partindo da
Catedrática Maria Helena, que fora Ministra da Educação em Portugal,
sentimo-nos até vaidosos e parabenizados pelo elogio.
Estou,
geograficamente, longe da Diocese, lá no sertão de Pernambuco, mas não me
encontro longe pelo sentimento de gratidão e pelo muito que aprendi na
convivência com todos. Sei que é difícil a gente ter 33 anos de história, de
catequese, de desejos de mudança social, política, econômica e cultural e ainda
nos depararmos com mentalidade tão fechada na compreensão desse trabalho. Se a gente defender a política reacionária,
nazifascista, anti- cristã, a favor do uso de arma, contrária a qualquer tipo
de doutrina social, desobedecendo à Organização Mundial da Saúde, está fazendo
a política certa. Está do lado correto. Saiu desse contexto, pensou diferente,
falou em favor do desempregado, do sem terra, sem teto, negro, criança
abandonada, tem que ser alijado da sociedade e da vida pública. Não dá pra ser
político. Não viram as últimas campanhas: municipal/estadual/nacional? Que
tristeza!
O
Movimento Fé e Política, que conheci desde sua origem, tinha como objetivo ‘fazer avançar a reflexão política e a vida
espiritual daqueles que estão comprometidos com uma prática política e social.
Trata-se daqueles que, atuando em movimentos sociais, organizações populares ou
partidos políticos, assumem a causa dos pobres e dos oprimidos; que conferem
prioridade à conscientização e organização popular de base; que recusam a
manipulação das bases e rejeitam qualquer vanguardismo; que afirmam as classes
populares como sujeitos da sua história, na construção de uma sociedade democrática
e socialista’. (Esta palavra “socialista” já é satanizada pela direita).
Quero
prestar minha homenagem à querida diocese de Afogados da Ingazeira que lá na
sua origem já entendeu sua responsabilidade na formação de seus líderes
comunitários e que hoje ainda tem um sacerdote à frente – o Pe. Luizinho – que,
com muita coragem, cuida, rega, aduba e faz a árvore crescer, participando do
último Encontro Nacional de “Fé e Política”, em Natal.
Na capital potiguar se
estudou o tema: Democracia, políticas públicas e alternativas sociais, sinais dos
tempos na construção do bem viver, sob a coordenação de Frei Beto, um
dos fundadores do Movimento Fé e Política.
Entre seus ensinamentos
ficou esta lembrança: “a política é tanto mais popular quanto mais
a gente se encontra ligada à luta do povo. A fé é tanto mais evangélica quanto
mais a gente se liga ao Deus da vida através da comunidade cristã”.
Penso que já deu pra
entender que, os meus 82 anos de idade, os meus 54 de Sacerdócio e a ausência
de “provisões diocesanas” para me firmarem numa Paróquia não me impedirão de
continuar a fazer o que aprendi: ser sacerdote para sempre. Como São
Paulo, posso dizer: “combati o bom
combate; terminei a minha carreira”. Deixem-me guardar
a fé que é a única cobrança que Jesus faz para nos garantir a
vida eterna.
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