sábado, 11 de março de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA


Dom Helder Câmara:

“Se eu tenho fome, o problema é meu. Se meu irmão tem fome, o problema é nosso”.

Como em todos os Tempos da Quaresma - celebrados pela Igreja Católica, no mundo cristão - iniciamos na Quarta feira de Cinzas, 22 de fevereiro, mais um período penitencial, que sempre nos convidou à conversão e à preparação para viver a Páscoa, como os Judeus a vivenciavam, já no A.T., comemorativa da safra colhida, depois de plantadas as sementes.

            Nos últimos 60 anos, durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, o Papa João XXIII, seguido pelo Papa Paulo VI, convocou e realizou um grande evento em Roma, reunindo todos os Cardeais e Bispos do Mundo, ocasião em que a CNBB deliberou, como fruto do Concílio, iniciar um movimento missionário a ser celebrado, todos os anos, durante a Quaresma, chamando-o de Campanha de Fraternidade. Seria escolhido um Tema concreto, que tivesse fundamento na Palavra de Deus, a ser estudado, refletido e rezado, com a participação de todas as Comunidades Eclesiais do Brasil, as CEBs. E assim se fez e se faz.

            Os Tema e Lema, escolhidos para este ano, são a fome e o versículo tirado do Evangelho de Mateus, 14,16: “dai-lhes vós mesmos de comer”.

            Para este final e início de semana, a liturgia nos convida a ler e refletir sobre as Parábolas: do Filho Pródigo (hoje) e da Samaritana que pede água a Jesus (amanhã). Em ambas se apresentam os problemas da Fome e da Sede, como alude a atual Campanha da Fraternidade.

            O Deus, que é Pai, tem o coração sempre a transbordar de amor misericordioso para com seus filhos: homens e mulheres. Na parábola de hoje, o pai que espera o regresso de seu filho, é a figura de Deus Pai que sempre está à nossa espera para nos acolher e converter. Daí, a compaixão, a corrida ao seu encontro, os abraços e beijos e a ordem para vestir-lhe a melhor túnica, pôr-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés, além de matar um novilho gordo para fazer-lhe uma festa “pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”. E foi grande a comemoração festiva!

            O Filho, que também é Deus, jamais aprovou a escravidão, a dominação ou a restrição da autêntica liberdade. Jesus, no diálogo com a samaritana, fê-la entender que, livremente, poderia servir ao seu Reino. É bem isso que Jesus realiza em seu encontro com a samaritana no poço de Jacó. Um fato comum, que se tornou grande, pelo anúncio do Reino, até então, desconhecido.

E o que ela fez? Deixou seu pote ali mesmo e foi à cidade, gritar para o povo: ‘vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será ele o Cristo?’

As duas narrativas (a de hoje: Lc. 15ss e a de amanhã: Jo. 4,5-42) nos colocam diante do Tema: “fome e sede” e do Lema: “dai-lhes de comer/beber”, sugeridos pela CF 2023.  A desigualdade de acesso aos alimentos e à água potável se manifestam com maior força em domicílios rurais: cerca de 18,6%, segundo informação do Pontifício Conselho Cor Unum em sua publicação A fome no mundo.

O Papa Francisco acrescenta a esta informação que “é doloroso constatar que a luta contra a fome e a subalimentação é obstada pela ‘prioridade de mercado’ e pela ‘primazia do lucro’ que reduziram os alimentos a uma mercadoria qualquer, sujeita a especulações, até financeiras. E quando se fala em novos direitos, o faminto está ali, na esquina da rua, e pede o direito de cidadania, pede para ser considerado na sua condição, para receber uma alimentação básica sadia. Pede-nos dignidade, não esmola”.

                                                                                                    Quantas vezes, o “servo de Deus”, D. Helder dizia: “se eu tenho fome, o problema é meu. Se meu irmão tem fome, o problema é nosso”.

Não entendo por que políticos reacionários a este tipo de reflexão cristã e até católicos conservadores - mesmo sacerdotes e bispos – se opõem tanto, a trabalhos pastorais conscientizadores, como as Campanhas da Fraternidade, já no seu 60º ano de realização. Ainda não se habituaram com as Constituições Dogmáticas, emanadas do Concílio, sobre Revelação e Igreja, Liturgia e Ação  Missionária e com o seu acompanhamento e atualização constantes, através de Sínodos que vão revisando as atividades já encaminhadas. Que pena!

A Igreja tem tido a melhor das intenções na atualização de seu trabalho missionário e pastoral. Porque o Papa faz tantas viagens ao redor do mundo, senão para transmitir uma mensagem de esperança? Porque faz tanta questão do Ecumenismo, isto é, do desejo de que nos entendamos como moradores da Casa Comum, com diálogo mútuo, principalmente conversando sobre o que nos une e não sobre o que nos separa? Será mais racional partir pra briga, ou para o confronto, do que buscar o entendimento, o diálogo em torno de temas que nos sejam comuns?

Quantas vezes já falamos sobre o Ecumenismo, explicando a etimologia desta palavra, que vem do grego: oikos, que significa “casa”? É o desejo claro de que sejamos unidos como se estivéssemos dentro de um mesmo ambiente, um mesmo prédio ou numa mesma casa, numa mesma família, sem intrigas ou separações, sem agressões ou sem nos atirarmos pedras, mutuamente.

Quantas vezes ouvi críticas a Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, pelo fato de participarem pastores, ortodoxos, judeus e católicos da preparação e da execução de serviços?

Seria um bom testemunho de nossa parte, fomentar intrigas, ódio, ira ou quaisquer tipos de agressões, morais ou físicas, em vez de reconciliação?

A Igreja tem buscado uma unidade sempre maior, com todas as pessoas de boa vontade, levando-as a refletir sobre a sua realidade social, econômica, religiosa, cultural e política, que é a realidade de todo mundo, independente de cores partidárias, da pele, religiosa e financeira. Não se trata de uma realidade, somente dos católicos. É uma realidade humana e, por isso mesmo, interessa à Igreja. Também por isso, ela estudou, em profundidade, o possível bom relacionamento entre todas as pessoas, tendo em vista uma unidade. É difícil! Muito difícil. Mas não será impossível.

Por que nós não nos entendemos e somos tão desunidos? Porque não nos conformamos e criticamos tanto, uns aos outros? Porque alguém que se diz, católico, é tão crítico com as medidas pastorais tomadas por sua Igreja no atendimento e na orientação que ela está dando? Será que Jesus se enganou ao pedir que “nós fôssemos UM, como Ele e o Pai são UM”? E por que nós nos posicionamos em lados tão opostos? Porque alguém que se diz “cristão”, se põe, totalmente ao contrário, do que a Igreja está orientando? Porque tanto medo do “comunismo”, que é uma ideologia tão recente, em comparação com o ensinamento, bimilenar, já feito por Jesus, de viver em “comunidade” e, por isso mesmo, “em comunhão”?

Não esqueçamos de que, só posso comungar se estiver em comunhão com Cristo e com a Igreja. Cuidado com as “comunhões sacrílegas”! Ser unido não é uma propriedade só de cristãos. Deve ser desejo de toda a sociedade: civil, cultural, humana, política e religiosa. Qualquer que seja nossa aspiração deve ser uma exigência de todos; deve atender ao bem-comum. Porque xingar a Igreja, o Papa, a C.F., o Ecumenismo, o Concílio se tudo visa o bem comum e a convivência na Casa Comum? Paciência, meus irmãos!








 

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