Mudança radical
José Maria de Jesus dos Santos orgulhava-se do seu nome. Seu pai, católico fervoroso, escolheu-o para homenagear Jesus e seus pais. E ainda todos os moradores celestiais. Seu pai queria-o padre. Não o foi. No entanto, ascendeu hierarquicamente na Igreja Católica. Foi coroinha; em seguida, mariano e irmão do Santíssimo. Hierarquia um tanto burlesca, mas legítima – ninguém pode negar.
José Maria nasceu numa pequena
cidade do Sertão dos Inhamuns, no Ceará, onde morou até seus 29 anos, quando
foi embora para o sul do Pará. Fugia da seca.
Era um pequeno lavrador. Vivia
da agricultura de subsistência, do plantio de milho e feijão. E da venda do
leite do seu pequeno rebanho. A esposa, Santinha, era uma zelosa dona de casa.
E ajudava o marido na roça. Tinham dois filhos – um menino e uma menina.
Vivia para a família e para o
trabalho. Era intensa sua vida religiosa. Rezava o terço com a família todos os
dias. Não perdia as missas dominicais e outros eventos religiosos – procissão,
novenas, quermesses... Quando não era possível ir à igreja, assistia à missa
pela TV.
Na seca de 2012, no Sertão dos
Inhamuns, no Ceará, perdeu quase todas as vacas leiteiras do seu pequeno
rebanho de 20 cabeças. Não conseguia manter o alimento e a água para os
animais. A despeito dos carros-pipas e das cisternas construídas pelo
governo...
Aceitando o convite de um amigo
agropecuarista, que morava no Pará, pegou a estrada.
No Pará, tornou-se um bem-sucedido
fazendeiro. Proprietário de uma próspera fazenda.
Em 2013, foi ao Rio de Janeiro
para a Jornada Mundial da Juventude, durante a visita do Papa Francisco ao
Brasil. “Foi um momento memorável, inesquecível” – costumava dizer.
Sua fé cristã era cada vez mais
sólida. Não faltava aos eventos religiosos em sua paróquia. Tornou-se amigo
íntimo do padre Maurício. Ajudou-o na reforma da igreja. Aliás, sempre fazia
uma doação generosa, principalmente quando contabilizava os pródigos lucros da
venda de soja.
Era período pré-eleitoral. O
país estava dividido, polarizado. Embora não tivesse afinidade por política
partidária, amigos agropecuaristas estimularam-no a participar da campanha de
reeleição do mandatário do país. O grupo não poupava ninguém que fosse empecilho
ao seu candidato.
− Veja, José Maria, o que o Papa Francisco, que você tanto respeita, falou: "Deus Todo-Poderoso
abençoe abundantemente aqueles que
dividem o pão com os famintos" – disse Dutra.
Fez uma pausa, sorriu
sarcasticamente, e prosseguiu, com ar de reprovação:
− Isso é coisa de comunista! De gente de esquerda! Ele
deveria dizer: “Deus abençoe o agronegócio, que
alimenta 11% da população mundial”.
José quis contra-argumentar. Foi
contido pelos presentes.
Dutra continuou, com desdém:
− Observe
outra desse papa: “Peço a Nossa Senhora Aparecida que proteja e cuide do povo
brasileiro, que o livre do ódio, da intolerância e da violência”.
Sem dar chance para contestação,
emendou.
− Ardiloso,
insinua que nosso querido presidente seja a favor da violência e da
disseminação do ódio...
E sugeriu:
− Deveria
ter pedido a Nossa Senhora Aparecida que defenda o Brasil do comunismo.
Comentaram também sobre o pároco
da cidade.
− Padre Maurício defende os pobres, a divisão do pão, entre
outras coisas. Por que não divide os bens da igreja?
E, apontando para o José Maria,
disparou:
− Esse aí ajudou a reformar a igreja. E de quando em quando
faz uma gorda doação...
Embora instigado, não polemizou.
Manteve-se em silêncio. Depois, refletiria sobre essas acusações, que, segundo
ele, eram absurdas. Eram heresias...
E foi incluído no grupo de
divulgação do candidato, nas redes sociais. “Você precisa estar bem-informado”
– justificaram.
A partir de então, todos os
dias, muitas informações chegavam ao celular de José Maria de Jesus. Um
verdadeiro bombardeio de notícias. A maioria era fake news...
Certo dia, o pároco questionou:
− Santinha,
o que está acontecendo com seu marido? Não tem participado dos eventos de nossa igreja. E não mais contribuiu com doações.
− Padre, não
consigo entender a mudança ocorrida em meu esposo. Virou a cabeça. Só fala em
política. E está revoltado com a nossa santa igreja...
Padre Maurício, que acompanhava
a política no país, entendeu tudo.
− Minha
querida paroquiana, como ele, milhões de
nossos irmãos brasileiros são bombardeados por intensa e vigorosa propaganda
política. Muitas informações falsas. Sofreram uma lavagem cerebral...
Fez uma pausa e disparou:
−A paixão política, já dizia Nelson Rodrigues, imbeciliza o homem.
Davi Helder Vasconcelos, Sobralense, Betanista, Farmacêutico, Professor, Escritor
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