quarta-feira, 12 de abril de 2023

IDEIAS & NOTICIAS



Mudança radical

 José Maria de Jesus dos Santos orgulhava-se do seu nome. Seu pai, católico fervoroso, escolheu-o para homenagear Jesus e seus pais. E ainda todos os moradores celestiais. Seu pai queria-o padre. Não o foi. No entanto, ascendeu hierarquicamente na Igreja Católica. Foi coroinha; em seguida, mariano e irmão do Santíssimo. Hierarquia um tanto burlesca, mas legítima – ninguém pode negar.

José Maria nasceu numa pequena cidade do Sertão dos Inhamuns, no Ceará, onde morou até seus 29 anos, quando foi embora para o sul do Pará. Fugia da seca.

Era um pequeno lavrador. Vivia da agricultura de subsistência, do plantio de milho e feijão. E da venda do leite do seu pequeno rebanho. A esposa, Santinha, era uma zelosa dona de casa. E ajudava o marido na roça. Tinham dois filhos – um menino e uma menina.

Vivia para a família e para o trabalho. Era intensa sua vida religiosa. Rezava o terço com a família todos os dias. Não perdia as missas dominicais e outros eventos religiosos – procissão, novenas, quermesses... Quando não era possível ir à igreja, assistia à missa pela TV.

Na seca de 2012, no Sertão dos Inhamuns, no Ceará, perdeu quase todas as vacas leiteiras do seu pequeno rebanho de 20 cabeças. Não conseguia manter o alimento e a água para os animais. A despeito dos carros-pipas e das cisternas construídas pelo governo...

Aceitando o convite de um amigo agropecuarista, que morava no Pará, pegou a estrada.

No Pará, tornou-se um bem-sucedido fazendeiro. Proprietário de uma próspera fazenda.

Em 2013, foi ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, durante a visita do Papa Francisco ao Brasil. “Foi um momento memorável, inesquecível” – costumava dizer.

Sua fé cristã era cada vez mais sólida. Não faltava aos eventos religiosos em sua paróquia. Tornou-se amigo íntimo do padre Maurício. Ajudou-o na reforma da igreja. Aliás, sempre fazia uma doação generosa, principalmente quando contabilizava os pródigos lucros da venda de soja.

Era período pré-eleitoral. O país estava dividido, polarizado. Embora não tivesse afinidade por política partidária, amigos agropecuaristas estimularam-no a participar da campanha de reeleição do mandatário do país. O grupo não poupava ninguém que fosse empecilho ao seu candidato.

Veja, José Maria, o que o Papa Francisco, que você tanto respeita, falou: "Deus Todo-Poderoso abençoe abundantemente aqueles que dividem o pão com os famintos" disse Dutra.

Fez uma pausa, sorriu sarcasticamente, e prosseguiu, com ar de reprovação:

Isso é coisa de comunista! De gente de esquerda! Ele deveria dizer: Deus abençoe o agronegócio, que alimenta 11% da população mundial.

José quis contra-argumentar. Foi contido pelos presentes.

Dutra continuou, com desdém:

Observe outra desse papa: “Peço a Nossa Senhora Aparecida que proteja e cuide do povo brasileiro, que o livre do ódio, da intolerância e da violência”.

Sem dar chance para contestação, emendou.

Ardiloso, insinua que nosso querido presidente seja a favor da violência e da disseminação do ódio...

E sugeriu:

Deveria ter pedido a Nossa Senhora Aparecida que defenda o Brasil do comunismo.

Comentaram também sobre o pároco da cidade.

Padre Maurício defende os pobres, a divisão do pão, entre outras coisas. Por que não divide os bens da igreja?

E, apontando para o José Maria, disparou:

Esse aí ajudou a reformar a igreja. E de quando em quando faz uma gorda doação...

Embora instigado, não polemizou. Manteve-se em silêncio. Depois, refletiria sobre essas acusações, que, segundo ele, eram absurdas. Eram heresias...

E foi incluído no grupo de divulgação do candidato, nas redes sociais. “Você precisa estar bem-informado” – justificaram.

A partir de então, todos os dias, muitas informações chegavam ao celular de José Maria de Jesus. Um verdadeiro bombardeio de notícias. A maioria era fake news...

Certo dia, o pároco questionou:

Santinha, o que está acontecendo com seu marido? Não tem participado dos eventos de nossa igreja. E não mais contribuiu com doações.

Padre, não consigo entender a mudança ocorrida em meu esposo. Virou a cabeça. Só fala em política. E está revoltado com a nossa santa igreja...

Padre Maurício, que acompanhava a política no país, entendeu tudo.

Minha querida paroquiana, como ele, milhões de nossos irmãos brasileiros são bombardeados por intensa e vigorosa propaganda política. Muitas informações falsas. Sofreram uma lavagem cerebral...

Fez uma pausa e disparou:

A paixão política, já dizia Nelson Rodrigues, imbeciliza o homem.

                                                                          

Davi Helder Vasconcelos, Sobralense, Betanista, Farmacêutico, Professor, Escritor


 



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