sábado, 9 de setembro de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

LEIA OS SEIS CAPÍTULOS DA CARTA AOS EFÉSIOS

Terminei o meu Comentário da Semana passada, dizendo ‘até sábado’ porque eu havia garantido em parágrafo anterior que ‘a comissão bíblico-catequética da CNBB havia divulgado roteiros e estudos baseados na Carta aos Efésios que iríamos refletir até o fim deste mês’; e promessa é dívida...

             Aqui estamos para pagar. A Carta aos Efésios tem apenas 06 capítulos, divididos em dois blocos: os três primeiros capítulos têm um conteúdo Teológico, referindo-se a Cristo e à Igreja. E os três últimos, cheios de exortações à comunidade, de origens diversificadas, mas, pelo batismo tinham que se manter na unidade de Cristo como norma. É a confusão de sempre: uns acham que é ‘assim’, outros acham que é ‘assado’. O ‘achismo’ sempre esteve atrapalhando o diálogo no mundo.

            A mensagem paulina, dada aos efésios, não tem meio termo. Destaca-se pela sua densidade teológica, relevando o Cristo-Deus na Igreja de Cristo.  A fé é vivida num conjunto abrangente de verdades concêntricas, teologais. Deus é o centro: Aquele que cria. Aquele que redime e salva. Aquele que santifica na Comunidade, que é a Igreja. Entendendo esta trindade unida numa comunidade ou assembleia reunida, entender-se-á a mensagem da Carta aos Efésios. Está na lógica de São Paulo, proposta aos efésios, o sentido da catequese a ser feita neste Mês da Bíblia de 2023. É difícil de entender?

            Menos mal que teremos ainda tempo para ler, reler, ir descobrindo os caminhos, repassando estes seis capítulos e procurando entender o porquê de se ter criado um Mês da Bíblia, e destes já 52 anos de estudos. Depois de tanto tempo que temos, em mãos, a Palavra de Deus, estamos descobrindo luzes de compreensão e entendimento da salvação que esta Palavra nos garante. É o caso de se dizer: antes tarde do que nunca.

            O próprio texto sobre o que nos estamos debruçando em seu 1º capítulo, 22-23, nos diz: “Deus colocou tudo sob seus pés, e Cristo enche o cosmo com sua plenitude de vida”. E, mais adiante, em 2, 13, completa: “a cruz é compreendida como um ato de reconciliação entre judeus e gentios, constituindo um só corpo, a Igreja”. Todas as “nações do mundo”, na variedade das línguas, das culturas, da geografia, são unidas num único Cristo e na mesma Igreja. São Paulo, falando sobre isso em Efésios 5,32, diz que é um “grande mistério, em Cristo e na Igreja”. Por isso mesmo deve ser desvelado a toda a humanidade que forma o “corpo da Igreja por meio de Jesus Cristo”.

            A Carta aos Efésios é, fundamentalmente, eclesiológico-comunitária, tendo Cristo como centro. Somente Ele nos une num só povo, uma só Igreja, fundamentada nos profetas e nos apóstolos, tendo Cristo como ‘pedra angular’. 

Meu caro leitor: aproveite a sugestão dada pelo Mês da Bíblia deste ano e leia os seis capítulos da Carta aos Efésios. Releia, grife, assinale pontos e faça a leitura orante. Faça dela, uma oração. Medite sobre ela com esta orientação do Mês da Bíblia e enverede suas leituras bíblicas, daqui pra frente, seguindo este mesmo tipo de esquema: sem pressa.

 Não é a quantidade de textos que você lê que é mais importante; é a qualidade de sua leitura. É o enfoque que você vai dando ao que lê. Ler a Bíblia não é ler um romance. Este pode ser atraente pelo interesse que o enredo desperta. A gente quer acabar logo, para ler um outro mais interessante.

            Ler um Livro da Bíblia – longo como os Salmos, ou curto como II e III de João – não depende da quantidade ou do volume da leitura; depende da maior qualidade da oração que se faz ou da reflexão empreendida. Vamos começar?

            Disse ali acima que não depende da quantidade ou do volume da leitura ao nos ligarmos à Palavra de Deus. Depende da qualidade de nossa oração e reflexão a respeito do que lemos. Daí, deixar para o próximo Comentário, o final da Carta aos Efésios que aborda o tema da “Ressurreição e vida eterna”, que tantas vezes nos amedronta. A mim, nem tanto. Aguarde!

            No entanto, vou retornar a uma reflexão feita nas Comemorações das Bodas de Ouro do Mês da Bíblia, em 2021, sobre a Carta Paulina, aos Gálatas.

            Está colocada, imediatamente depois, das 1ª e 2ª Cartas aos Coríntios. Como a Carta aos Efésios, tem apenas seis capítulos, mas, em nada é menos importante ou menos eloquente do que qualquer outra Carta de São Paulo. O apelo ao tema da “comunidade” é afirmado nos versículos 1 e 2: “eu e todos os irmãos que estão comigo somos os autores desta Carta”. E para mostrar sempre a centralidade de Jesus ele afirma em Gal.1,4: “Ele não nos quis tirar, simplesmente, do mundo, mas do mundo mau”, isto é, de um mundo com relações sociais escravocratas e alienadores.

            No mesmo capítulo 1º, 6-7, ele abomina a ideia de “vários evangelhos” como se fosse possível moldar o Evangelho de Cristo, segundo interesses de classe e domesticá-lo para justificar posturas hipócritas e cúmplices de relações sociais de opressão. Sobretudo no versículo sete ele confirma o que ensina: “maldito quem anunciar a vocês um evangelho diferente”. E acrescenta algumas perguntas: “eu busco aprovação dos homens ou de Deus? Procuro agradar aos homens?”

É claro que ele não se está referindo a todo e qualquer homem. Estão fora os homens do poder, dos que sustentam e reproduzem relações políticas, sociais, escravagistas. Estes são dirigidos para uma vida fundamentalista, voltada mais para o ritualismo, o moralismo ou para uma espiritualidade fora do real. Paulo nos conclama a um compromisso radical com o Evangelho, com Jesus, com uma vida simples, batalhando do lado dos mais empobrecidos, na luta pela conquista dos seus direitos à terra, ao teto, ao trabalho com salário justo, num meio ambiente sustentável, superando todos os preconceitos e discriminações. Quando tais dissenções aconteciam, Paulo as rechaçava, dizendo serem promovidas por “falsos irmãos”, judeus não convertidos, que ainda não tinham entendido a mensagem cristã.

Paulo entendeu tudo. Assim como Jesus não nasceu “Cristo”, mas se tornou “Cristo”, o “ungido de Deus”, o Apóstolo Paulo não nasceu “discípulo de Jesus”. Como Judeu se chamava “Saulo”, perseguidor de cristãos, antes de se converter ao Evangelho. Convertido, batizou-se, chamou-se “Paulo”, o maior de todos os Apóstolos. Enfrentou “noites escuras” e “deserto”. Foi pra Arábia (Gal.1-17). Sofreu perseguição, incompreensão e martírio. Identificou-se, radicalmente, com Jesus, ao ponto de dizer: “não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim” (Gal.2,20).

Será que “falsos cristãos de hoje” que não querem ouvir a Palavra de Deus, interpretada assim, não se assemelham àqueles “falsos irmãos” do tempo de Paulo que não haviam entendido sua mensagem cristã? Não seria Paulo, tachado de “comunista” por se preocupar tanto com “comunidades”, “bem-comum”, “comunhão”, palavras da mesma origem grega: “koinonia”?

Por favor, deem-se ao trabalho de ler no Livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 2, versículos 43 e seguintes; capítulo 4, versículos 32 e seguintes. Releiam, mais uma vez, repitam e entendam a antiguidade do ensinamento, para não criticarem tanto aqueles que são fiéis à Palavra de Deus.

  

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