O PIONEIRISMO DA IGREJA POTIGUAR
Ao comentarmos sábado passado sobre o
Carnaval, fizemos um retrospecto da Festa do Rei Momo, na história, em consonância
com a prática religiosa da Igreja Católica, sobre a Quaresma, um tempo em que
se parava de comer carne, como penitência. No final, prometíamos abordar hoje a
reflexão sobre a Quaresma e sua mais do que sexagenária Campanha da
Fraternidade.
Tudo começou na Arquidiocese de Natal e de suas duas dioceses sufra-ganeas ou do interior potiguar: Caicó e Mossoró. O Sr. Arcebispo de Natal era Dom Eugênio Sales, o de Caicó era seu irmão, Dom Heitor Sales e o Bispo de Mossoró era Dom Gentil Diniz Barreto.
O
Sr. Arcebispo entendeu e levou à compreensão dos dois, que o Rio Grande do
Norte se estava abrindo para uma série de novidades que poderia ser contemplada
pela Igreja, como propícia a um trabalho conjunto. Além dos Padres novos que se
espalhavam pelas 03 dioceses, os trabalhadores se estavam organizando em
sindicatos rurais e até se espalhando para outras classes socais.
Concomitantemente, da Bahia ao Maranhão já havia um tipo de organização
semelhante. Porque os potiguares não começavam uma organização interna, depois
espalhavam mais pelo Nordeste e não cobririam todo o Brasil com uma organização
nacional? Internamente, no Rio Grande do Norte, estava havendo ousadias pastorais
que mereciam uma reflexão e certo ponderamento, por ex. as religiosas, vigárias
em Nísia Floresta, levando o santo viático, aos doentes, com a santa comunhão
deixada pelos sacerdotes, que se revezavam, nas celebrações eucarísticas. Isto
era fantástico. Eu fui ver e presidi celebrações para deixar as reservas
eucarísticas. Que coisa bonita!
O
grande Papa João XXIII, apesar de ter sido escolhido já com certa idade, estava
convocando o Mundo Todo para dar início à realização de um Concílio, o Vaticano
II. Era uma enorme ousadia: reunir quase 3.000 cardeais, bispos e peritos de
todo o mundo para revisar a Igreja, recolocá-la nos trilhos, fazer um “aggiornamento geral”. Os três bispos
não estavam inventando nada. Estavam somente, dando mais asas ao Espírito Santo
que voa onde quer e inspira e ilumina onde parece escuro. Ele dá a força. Não
foi sempre assim?
Chegara
a hora de pôr em prática o que a Igreja sempre ensinou: “que o Espírito é quem vivifica”. O que Jesus não havia
feito no pouco tempo que convivera conosco, o Espírito daria, perenemente. Nós
acreditamos nisso?
O
Espírito preparou o Concílio em todos os recantos do mundo. Durante quatro
anos, todos os Cardeais, Bispos, Teólogos e peritos foram convocados a Roma
para se encontrarem com o Papa: inicialmente, João XXIII. Depois, Paulo VI. AÍ,
a gente pode imaginar: se fossem só “homens”, discutindo, era difícil chegar a
um acordo. Mas, com a luz do Espírito Santo, com os seus enfoques, os caminhos
se abriram. Todos os Documentos foram editados.
Com
esse material todo, em mãos, com todas as Atas Conciliares, ao retornarem aos
seus países de origem, o mundo foi invadido por um novo conteúdo há mais de 60
anos.
Na
preparação para o Concílio, a Arquidiocese de Natal, onde já funcionava a
Caritas Brasileira, deu um ‘chute
inicial’ a um movimento visando
angariar fundos que sustentassem a CARITAS.
Deu-lhe o nome de Campanha da Fraternidade. Em 1962, todos os Bispos já estavam
em Roma para a 1ª sessão Conciliar. Dom
Eugênio deu a boa notícia ao episcopado brasileiro, já garantindo que no 2º ano
da CF, as outras duas Dioceses do Rio Grande do Norte, já fariam também o
movimento evangelizador, e assim aconteceu.
Todos
os Padres Conciliares voltaram às suas dioceses de origem, retornando a Roma
para a 2ª sessão do Concílio. As 03 dioceses do RN deram as boas notícias de
suas participações na iniciante CF, motivando mais 16 Dioceses Nordestinas a
entrarem na CF em 1963. Na reabertura das sessões conciliares, os Bispos do
Brasil entenderam que estava na hora de toda a Conferência Episcopal do Brasil
assumir a CF como programa da Igreja do Brasil. Em 1964 houve a 1ª Campanha da
Fraternidade, em âmbito nacional.
Os
Senhores Bispos ainda estavam passando em Roma, o 2º semestre, desde 1962. No
1º semestre tomavam contato com suas bases diocesanas e no 2º semestre voltavam
à Escola Conciliar para a atualização dada em Roma. Era a oração e ação do
eterno esquema da Igreja. Da união de teoria e prática ou da Comunhão e
Participação tão insistente do Concílio.
Este ano de 2024 está completando
60 anos de Evangelização sugerida pelo Concílio, programada e executada por
muitos pastores de Igreja, bem-motivados pelo conhecimento e estudos dos
Documentos Conciliares, mas nem sempre estudados e relidos com a finalidade de
se “renovarem” como objetivava o Papa Giovanni ao convocar o Concílio: ‘aggiornarsi’ era a ordem.
A Campanha da
Fraternidade não é uma atividade opcional. Quando a CNBB assumiu como uma Pastoral
Nacional, com temas e lemas, aprovados pela Igreja do Brasil e em consonância
com o Papa, com uma mensagem de apoio, todos os anos ao abrir a Quaresma, tornou-se
obrigatória a realização da CF em todo o país. Pena é que Bispos e Padres do Brasil
não ouviram, não leram, não se atualizaram nem quiseram saber de qualquer coisa
a respeito do Concílio e do que apareceu na Igreja por influencia dele. Além de
ouvirem mais fofocas negacionistas, informações dadas por conservadores e reacionários
políticos, católicos preconceituosos e os Decretos, Constituições Dogmáticas e
Atas Conciliares ficaram só no papel e as normas da Igreja ficaram de lado.
Quantas Paróquias
passam pela Quaresma sem nenhum comentário sobre a CF, sem nenhuma alusão aos
temas e lemas estudados e debatidos, sem nem sequer cantar o Hino da
Fraternidade que se canta por todo o país. É uma tristeza. É um desperdício de
tempo tão precioso para a Evangelização e a conversão tão, tradicionalmente,
propagadas no Tempo Quaresmal.
Quantos criticam o
conteúdo das Campanhas da Fraternidade por falarem de problemas sociais, pela
abordagem de temas políticos, pela crítica às malconduzidas políticas públicas,
deixando o povo à míngua, desalentado?!
A Campanha da
Fraternidade deste ano é a sexagésima desta história. Faz parte de um elenco de
reflexões, voltadas para a realidade brasileira. Não é problema só dos
católicos. É um problema da pessoa humana: logo, é nosso.
Foi inspirado na
Encíclica do Papa Francisco “Fratelli
Tutti”. Daí, o tema: Fraternidade e Amizade Social. O
lema é tirado de Mateus 23,8: Vós sois todos irmãos e irmãs. Nas mensagens
de abertura da CF–2024, tanto o Papa como a presidência da CNBB “refletem a preocupação do episcopado
nacional em aprofundar a fraternidade como contraponto ao processo de divisão,
ódio, guerras e indiferença que tem marcado a sociedade brasileira e o mundo”.
Como ficar de fora num
momento como este, se estamos cada vez mais, voltando à nossa realidade tão
gritante? Você vai ficar de fora? Eu não! Eu vou ficar gritando, esperneando e
continuando a fazer o que aprendi: ficar com a minha Igreja. Dar ainda o
restinho da minha vida por ela. Amanhã é o 1º Domingo da Quaresma. Temos mais
04 pela frente pra iniciar a Semana Santa.
Voltaremos a esta reflexão.
Não vou pecar por omissão. Até a próxima!
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