“PARA QUE TODOS TENHAM VIDA”
No meu Comentário do
Sábado passado, 30/03, falei sobre a Semana da Oitava da Páscoa, que
iria até amanhã, como se fosse um Domingão Só, ou apenas UM DIA, por
causa da importância da Festa da
Ressurreição de Jesus para o Mundo. Encerrei o mesmo Comentário da Semana
como se se tratasse de um dia só e que
todos vivêssemos este momento lindo.
Hoje quero dar continuidade a este momento lindo, sob outro aspecto: a celebração festiva do Centenário de Nascimento de D. Francisco Austregésilo, em Afogados da Ingazeira – PE, onde ele foi Bispo Diocesano por 40 anos: de 1961 a 2001. Foi, imediatamente, antecedido por D. Mota, e sucedido por Dom Pepeu, Dom Egídio e, agora, por Dom Limacedo.
A
Pastoral de Comunicação da Diocese, por um de seus membros, a Silmara, entrou
em contato comigo, por ser um dos padres mais antigos e vivo, a trabalhar por
lá, pedindo-me alguma informação, a respeito de D. Francisco, minha convivência
com ele, seu destemor no uso da Rádio, sobretudo através do MEB, de seus
sermões e programas radiofônicos ou outros aspectos de sua ação evangelizadora
por toda a Diocese. Claro que não me neguei a fazê-lo.
Enviei-lhe
03 vídeos de 10 a 12 minutos, abordando 03 aspectos: um pouco de sua biografia
e de nossa convivência; outro tanto do seu trabalho de evangelização e
catequese pela PASCOM e pelo MEB; e algo mais folclórico ou “causos” que,
apesar da seriedade dele, aconteciam, esporadicamente.
Transcrevo
para meus leitores, neste meu comentário desta semana, um pouco do que já
enviei em vídeo, para meus amigos e colegas, em Afogados da Ingazeira, como
colaboração para a Festa Centenária.
Conheci
Dom Francisco, em 1952. Eu tinha meus 11 anos de idade, e ele tinha 27.
Dezesseis anos de diferença. Eu, ingressando no Seminário de Sobral, e ele meu
professor de Língua Portuguesa e Matemática. Mais tarde, de Literatura
Brasileira e Portuguesa, e também, meu Reitor do Seminário.
Em
comum, tínhamos o nome dos lugares onde havíamos nascido: SANTA CRUZ - já em
projeto de mudarem de nomes para evitarem confusão, sobretudo do serviço
telegráfico. Com a mudança de um dos nomes, findava a confusão. Mudaram os dois
nomes de uma vez: a Santa Cruz dele passou a ser Reriutaba e a minha Santa Cruz
passou a chamar-se Bela Cruz. E assim, fomo-nos acostumando com essa história e
a recontamos até hoje.
Dom
Francisco nasceu aos 03 de Abril de 1924. Por isso é que no dia 03 de
Abril de 2024, quarta feira desta semana, Afogados da Ingazeira esteve
celebrando os 100 anos do seu nascimento, que Reriutaba, bem que poderia
comemorar, com mais propriedade do que nós.
Depois
de cursar 1º e 2º graus no Seminário de Sobral, com grande brilhantismo,
em Literatura, língua portuguesa e ciências matemáticas, ingressou, no
Seminário da Prainha, em Fortaleza, nos Cursos Superiores de Filosofia,
Teologia, Sagradas Escrituras e Direito Canônico com mais brilhantismo ainda,
credenciando-se à Ordenação Sacerdotal, que se deu aos 08 de dezembro
de 1951 das mãos de seu Bispo de Sobral, Dom José Tupinambá, assumindo
tarefas ministeriais, como professor e, mais tarde, como Reitor do Seminário, tornando-se
o grande formador dos futuros padres da Diocese. Era conhecido por todos, como Padre
Austregésilo, o mais preparado do clero sobralense, o mais admirado pelas
aulas bem ministradas, pelos sermões cheios de sabedoria, por suas palestras
convincentes, pelos retiros convertedores de pessoas, pela segurança, energia e
destemor que passava em tudo o que fazia. Isto o credenciou a ser Bispo.
Sua
nomeação de Roma aconteceu aos 25 de Maio de 1961, nove dias antes de
completar seus 37 anos de idade. Em 24 de Agosto do mesmo ano, recebeu a
Ordenação Episcopal, em sua Diocese de origem, Sobral – CE, e no dia 17 de
setembro de 1961 substituiu o 1º Pastor, Dom Mota, que fora transferido para
Sobral.
Ele
chegara a Afogados, em Setembro de 1961, como eu já disse. Eu cheguei a
Pernambuco, primeiro que ele: em Fevereiro, para cursar o 2º Ano de Filosofia
no Seminário Regional do Nordeste, em Olinda. O 1º ano eu havia feito em 1960, no
Seminário Arquidiocesano de Fortaleza.
Dom
Mota, em 04 anos, fundara duas instituições básicas para seu trabalho de
evangelização: a Rádio Pajeú e a A.S.D. (Ação Social Diocesana). O novo bispo,
Dom Francisco, nem se preocupou em “criar” algo “de novo”. O novo já existia.
Era só pô-lo em prática. Os políticos, para mostrarem serviço, destroem o que
seus antecessores deram início. Bispos sérios não fazem isso.
E aqui está o 2º motivo da minha reflexão sobre
o episcopado de D. Francisco.
Dom Mota fora escolhido
para a Missão em Afogados da Ingazeira, no momento em que os Bispos de todo o
Brasil, sobretudo do Norte, Nordeste e Centro Oeste eram convidados pelo
Presidente da República, J.K. a fazerem uma parceria, via CNBB, para iniciarem
um projeto de Educação pelo Rádio, que atingisse os interiores mais longínquos
do país, onde ninguém chegava, a não ser as ondas do Rádio. O Ministério das
Comunicações, associado à Igreja do Brasil, desenvolveria esse trabalho através
do M.E.B. (Movimento de Educação de Base). Mas, porque Juscelino pensara nisso?
Ele fora seminarista no
grande Seminário Lazarista, do Monte Caraça, em Minas Gerais. Seu “slogan” era pura ousadia: “fazer o Brasil crescer 50 anos em cinco”.
Juscelino tinha pressa. Tinha de fazer muito em pouco tempo. Queria construir no seu momento presente, o
que o Brasil fosse precisar mais tarde. Deu início com ousadia e planejamento à
Indústria Brasileira, às fábricas de automóveis, às refinarias de petróleo, à
frota naval, à marinha mercante nacional, à transferência da Capital do Rio de
Janeiro para o Planalto Central, enfim, motivou, investiu, construiu não só sob
o aspecto material, mas cuidou da Educação como sua principal meta. Não queria
o povo só para trabalhar pesado. Tinha também que pensar, ativar os conhecimentos,
aprender para ser mais. Não era o ter que era mais importante. E a melhor
maneira que achou de pagar o que recebeu do Seminário do Caraça, foi nesta
parceria com a CNBB.
Em 05 anos, a Diocese
de Afogados da Ingazeira, com o início dado por D. Mota e a continuidade
expressa pela coragem e destemor de D. Francisco, tinha instalado um serviço de
educação integral para a vida comunitária, social e política e para a
evangelização que movimentava mais de 400 Escolas Radiofônicas, espalhadas por
toda a Diocese. Com o golpe militar de 1964, todo o sonho de Juscelino, todo o
empenho da CNBB, todo o material de trabalho e das pessoas envolvidas, tudo
foi de água abaixo. A ditadura os destruiu.
Em Afogados, policiais
tomavam os “radinhos cativos” das Escolas e amedrontavam os monitores, ameaçando-os
de prisão. O Bispo se indignava.
Procurava o 4º exército,
na 10ª região militar em Recife, bradando diante da autoridade: “quem
já viu fechar-se um chuveiro, arrolhando cada um de seus buraquinhos? Porque
não fechá-lo, enroscando a torneira geral?” Era o desafio do Bispo
Sertanejo para o exército fechar a Rádio Pajeú, coisa que nunca aconteceu.
Dom Francisco se
caracterizava, por onde andava, como um homem de muita coragem. Sempre dizia
que “medo” era uma palavra que não existia em seu dicionário; e justificava o
seu destemor, à luz da Palavra de Deus, que tem em 366 ocasiões: “não tenhais medo”. Só da boca de Jesus
tem, pelo menos, 18 vezes. Com essas
suas maneiras de pensar e agir, eu vou passando para a terceira solicitação da
Silmara, na abordagem de alguns “causos” mais hilários de D. Francisco que,
dada a seriedade dele, tem pouca graça, mas é parte do seu jeitão. Como eu
disse acima, falando da sugestão de Silmara, quanto aos causos, apesar de sua seriedade, aconteciam esporadicamente.
Vamos a eles.
Eu sempre convivi com Dom Francisco, admirando sua sabedoria, quer no seminário menor, em Sobral, quer no Seminário Maior, em Fortaleza, no tocante ao seu Curso de Direito Canônico. Sob este aspecto, orientava por toda a Diocese, sobre a liberdade que o casal de namorados ou noivos deveria ter para realizar-se como marido e mulher. Sustentava com toda coragem que ninguém era obrigado a casar. Assim estava ensinando na Paróquia de S. José do Belmonte, dizendo que casamento obrigado é nulo. Não houve sacramento.
Ao dizer isso, um
promotor público que estava na Igreja atreveu-se a dizer que, em certas
circunstancias, para evitar uma tragédia na família, talvez fosse mais prudente
realizar o casamento. Dom Francisco revidou com mais indignação ainda: “Não, Senhor! Não há lei que obrigue um
casamento”. O tal promotor é que não sabia quem era D. Francisco e do que
ele era capaz. Replicou-o, dizendo que ‘ele
orientava daquele modo por desconhecer a lei’. O suficiente para criar “um
bafafá” em que o Bispo saiu à meia noite daquela cidade, 600 km. para Recife, e
se inscreveu no último dia do vestibular de Direito da Universidade Católica de
Pernambuco. Ficou num dos 1ºs lugares.
Fez todo o Curso,
dividido em 03 Faculdades: na Católica, em Caruaru e na Federal, devido
dificuldades de frequência; mas venceu. Entre os convites a serem enviados,
pediu apenas três, para pessoas que não estariam presentes: Dona Clausídia, sua
mãe, já idosa, em Sobral. Para mim, que estava em Roma e também não viria; e
para o tal promotor que o desafiara, na Missa, em São José do Belmonte, com o
seguinte recado: ‘terei imenso prazer em
contar com o prezado colega, em minha formatura’. Será que ele foi?
Gostaria de acrescentar aos causos já citados (não ter medo/ discussão com o promotor/
defesa do MEB no 4º exército) mais um, em âmbito mundial: durante o
Concílio Vaticano II, propôs a restauração do Diaconato Permanente, que
funcionou no começo da Igreja, como narram os Atos dos Apóstolos 6,13: “escolham entre vocês, sete homens de
confiança, cheios do Espírito Santo e de sabedoria e nós entregaremos as
prestações de serviços a eles e nós continuaremos a usar todo o nosso tempo na
oração e no anuncio da palavra”.
Dom
Francisco impôs tanta seriedade no pleito dele, dando exemplos das necessidades
de sua própria Diocese de 11 mil km quadrados, 300 mil habitantes, 06 padres,
o mais novo era ele mesmo, que os Padres Conciliares se renderam aos seus
argumentos e aprovaram o projeto. Voltando do Concílio começou a preparar por
03 anos, seus 1ºs Diáconos. A ele
nossa homenagem.
.jpg)

.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário