NA DITADURA:
O APOIO DE PADRES CEARENSES AOS EXILADOS POLÍTICOS, NA
EUROPA!
(PARTE I)
Faz um bom tempo, o blogueiro, responsável por este site – Leunam Gomes - gentilmente,
me cede este espaço para um Comentário
Semanal, na maioria das vezes, endossado e corroborado por ele. É uma
parceria mútua e histórica que nos acompanha desde a mais tenra idade. Agora,
adultos e, até, anciãos, não perdemos nossos bons costumes.
Como sempre nos aconteceu, agora na primeira semana de Abril, em momentos tão diferentes – um sexagenário e um centenário – nos unimos em uma mesma linha de reflexão: os 60 anos da ditadura militar no Brasil e os cem anos do nascimento de Dom Francisco Austregésilo, respectivamente, no dia 1º e no dia 03. A ditadura chegou para destruir a Democracia e assim o fez. Em nossa mente, tudo ainda se faz muito presente. Lembramos, por ex., a morte do cartunista Ziraldo, 91 anos, criador do tabloide Pasquim, oposto à ditadura.
Entre
tantos que ainda se lhe opuseram, destacamos mais artistas, compositores
musicais, intelectuais e uma boa parte de Bispos, sacerdotes e estudiosos da
Teologia da Libertação, fundamentando bem os acontecimentos.
Espalharam-se pelo Brasil e, até, no Exterior, os testemunhos concretos, dados por Cardeais, Bispos, Padres e leigos brasileiros, comprometidos com a verdade e sem medo de desagradarem aos ditadores militares, arriscando-se a darem opiniões e a serem solidários com o sofrimento do povo de nossa terra.
Os que morávamos fora, por motivação acadêmica ou especialização em estudos, nos encontrávamos com representantes da CNBB, conscientes da sua Missão Evangelizadora, responsáveis pela orientação da fé de nosso povo e comprometidos com a sua participação na vida religiosa, política e social. Era um embate muito desigual: dos que tinham a força, contra os que tinham a fé.
No Pontifício Colégio Pio Brasileiro, à Via Aurélia, 527, em Roma, participávamos de celebrações, encontros em auditório ou para refeições, com os Senhores Cardeais, Arcebispos e Bispos, Professores Universitários e de Seminários, espalhados pelo Brasil para nos informarmos das últimas notícias do País e, é claro, da situação política: era sempre a parte mais desagradável.
Mas os bispos, oficialmente, circulavam por
Roma, por seu dever de ofício. Visitavam o Papa, em grupos, na visita ad limina. Para um contato
pessoal. Pra prestar conta de alguma ‘comissão pontifícia’ ou de qualquer ‘missão
especial’.
Passagem constante e muito esperada era a de D. Helder Câmara, pelo Aeroporto Fiumicino, de Roma, tanto para apanhá-lo na chegada, como para deixá-lo, na saída. Ia em “missões internacionais” em qualquer Diocese da Europa, ou apenas em trânsito para qualquer ponto da Ásia. Sempre encontrava um tempinho para visitar suas “equipes de minorias abraâmicas” ou
para encontrar “brasileiros refugiados políticos’, agendados pela Anistia Internacional.
Padre José Maria Cavalcante,
filho de Santana do Acaraú e eu, de Bela Cruz, também no Vale do Acaraú, estudávamos
em Roma e, por isso, tomávamos contatos com as equipes de “minorias abraâmicas de D. Helder”
e com “os refugiados políticos” onde
estivessem, para agendar um encontro com eles, via Anistia Internacional, com
quem nos mantínhamos ligados.
Naquele tempo, final da década de 1960-início da de 1970, não havia internet, telefone celular, tradução de textos em computador, mas Dom Helder encontrou um meio mais rápido e fácil de traduzir suas mensagens: mantinha aqui no Brasil e em lugares estratégicos por onde ele passava (Itália, França, Holanda, EEUU e em alguns pontos da Ásia) equipes de 4 – 5 pessoas: uma brasileira e três – quatro estrangeiras, que haviam morado no Brasil.
Todas, portanto, sabiam
português. Quando ele ia às suas viagens inter-nacionais, levava seu texto
escrito em Português. Sua equipe de ‘minorias
abaâmicas’ traduzia do português para as línguas estrangeiras. Era
repassado à imprensa internacional e tanto na véspera, como no dia de sua
apresentação, já estava espalhado, entre todos, o conteúdo da sua palestra.
A
presença de brasileiros, exilados e saudosos, ou de estrangeiros, curiosos e
querendo ouvir informações sobre a situação política do Brasil davam plateia a
D. Helder que, em tais ocasiões, entregava mensagens de familiares do Brasil, a
exilados políticos e, de volta ao Brasil trazia respostas aos seus familiares.
Dom
Helder – como vários Bispos Brasileiros (Dom Arns, Dom Aloísio, Dom Pedro
Casaldáliga, D. Adriano Hipólito, Dom Fragoso, Dom José Maria Pires, D. Tomás
Balduíno, Dom Ivo, D. Francisco Austregésilo, Dom Luciano, D. Angélico Sândalo...
e tantos outros Padres Conciliares participantes do Vaticano II) – que
circulavam por Roma e pela Europa nos mantinham em dia e informados. Não dava
para a ditadura os controlar, pois o S.C.V. o fazia.
Todos
estes agentes pastorais, passando por Roma ou lá estudando, tínhamos encontros
muito fraternos e esperançosos no retorno à Democracia.
Padre
José Maria e eu não éramos refugiados. Passados os estudos em Roma, tínhamos nosso
retorno garantido ao Brasil. Pela nossa ação pastoral, pelos nossos
compromissos com a Igreja do Vaticano II e pelo apoio que tínhamos de nossos
bispos, o nosso contato com as “minorias
abraâmicas” e com os “exilados”
era desempenhado com o maior prazer. Basta lembrar que tínhamos no recesso
natalino, uns 15 dias livres. Aproveitávamos para marcar nossos encontros com
refugiados brasileiros e íamos para um país mais central onde alguém estava só
ou isolado e, para lá nos dirigíamos para contatar com quem estivesse mais
solitário. Assim aconteceu em Paris, em Grenoble, em Munique, nos Castelli Romani, Tivoli, enfim, onde
houvesse brasileiro, troncho de saudade, a gente procurava aliviar, visitando-o
para que o Natal tivesse mais significado naquele momento tão forte para os
cristãos.
O
espírito natalino pousava sobre todos nós: nos que tínhamos fé e nos que, a
tendo recebido pelo batismo, não a praticavam. Embora dividissem seu tempo,
seus poucos recursos, sua partilha ao ajudar um colega na viagem ou em outro
tipo de amor, respeito, solidariedade, vividos pelos primeiros cristãos. Assim,
praticavam as comunidades cristãs, segundo o Livro dos Atos: “entre eles, não havia necessitados”.
Aprendemos isto em nossas famílias. Faltava, a alguns, o cultivo ou o
aperfeiçoamento. “As minorias abraâmicas
Helderianas” cultivavam nosso engajamento e alimentavam a nossa fé.
E
ele nos dava a justificativa bíblica: “assim
como Deus pediu a Abraão para lhe oferecer em holocausto, seu filho Isaque e
ele, sem resmungar, ia fazê-lo, assim também deve ser a nossa fé em Deus, sem
questioná-Lo, na realização da Sua vontade”. Nós acreditamos assim?
Pena
é que, depois de 21 anos do regime ditatorial – 1964 a 1985 – os filhotes da
ditadura têm dado muito trabalho para retornarmos à Democracia. As eleições têm
sido muito extremistas, polarizadas, incapazes de se darem debates de ideias e
respeitosos. São cheios de acusações mútuas, de fake News, de mau uso das redes sociais, da Inteligência
Artificial, de modo que, ao aproximar-se cada eleição, candidatos e eleitores
ficam nervosos. Apelam para a fé, mesmo
sem vivenciá-la, sem seguir normas corretas, como um santo matrimônio, usam o
nome de Deus em vão, montam-se em slogans enganosos
‘terrivelmente evangélicos’ e mentem
descaradamente. Isso é política? Voltarei!
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