sexta-feira, 11 de outubro de 2024

O COMENTÁRIO DA SEMANA


MISSÃO: UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Antes de começar este mês de outubro e mesmo no sábado passado, 1ª Semana do Mês Missionário, eu anunciava aqui no meu “comentário” (no Blog do Leunam) que iria enfocar o Mês das Missões, sobretudo referindo-me à Mensagem de Francisco para o 3º Domingo de Outubro (20), Dia Mundial das Missões, sob o Tema: “ide e convidai a todos para o banquete” (Mt 22,9). Garanto que o farei sábado, 19. É que, este momento preparatório é tão propício, que vou aproveitá-lo melhor, partindo de uma experiência pessoal.

 

            Desculpem-me! Ontem eu completei 84 anos. Minha família começou a chegar desde cedo, à Fazenda Sta. Maria – Bela Cruz, onde todos fomos criados, com nossos pais, sempre rodeados de amigos, para as alegres comemorações. O avançado da idade não é para fazer desistir ou dar por esquecido. É mais uma motivação para louvar e agradecer a Deus pela felicidade de ainda estar vivo. Logo eu, que venci a barreira dos 80 anos! Obrigado, meu Deus!

            Até o Papa Francisco me animou, enfocando o texto de Mateus, válido para o mundo inteiro, que eu direcionei e apliquei a mim, como se ele tivesse se dirigido, pessoalmente, a mim: “ide e convidai a todos para o banquete”.

            Quando eu nasci aqui, em 1940, já era o sexto filho da casa, dentre os 21 que fomos gerados. Quando eu tinha sete anos de idade, os irmãos anteriores a mim, tinham 12, 10, 08 e os posteriores tinham 05, 04, 02 e um na barriga da mãe... Fomos para a cidade. Imaginem! Para a vila de Bela Cruz. Todos a cavalo, dentro de caçoás, formando uma carga; deitados de um lado, com areia ou pedra do outro, para igualar o peso! Será que um menino de hoje, entende isso? Éramos “comboieiros” ou “retirantes”. Numa linguagem de hoje, talvez, “nômades”, ou “refugiados” em busca de pousada. Assim, adentramos em Bela Cruz. Para uma família tão grande, só uma casa espaçosa, como tínhamos nas “matas” onde morávamos. Padre Odécio nos socorreu. Fazia 06 anos era o Pároco de Bela Cruz. Conseguiu uma bem localizada moradia para todos, bem na Praça da Matriz, com cem metros de fundo onde meu pai poderia montar uma vacaria, ter leite de gado com derivados para sustentar a grande família que ia constituindo e, na ida e volta, cerca de 80 km semanais, sempre a cavalo, ia sustentando a família, com a mamãe coordenando tudo.

            Padre Odécio, não só se tornou amigo da gente, como era o verdadeiro amigo de meu pai. Preparou-nos a moradia, deu-nos assistência e nos encaminhou para o Instituto Imaculada Conceição, da Paróquia e, quatro anos depois, enviou a mim, para o Seminário de Sobral. Com onze anos de idade, eu já me encaminhava para o Seminário de Sobral, usando o mesmo transporte que me havia trazido para Bela Cruz: um cavalo. Com 36 horas de viagem, o garoto de onze anos de idade, filho de Seu Doca Rocha e Dona Benedita, adentrava os paredões, salões imensos, áreas desportivas e de recreação, também de Oração, do Seminário São José de Sobral. Era o futuro Padre, que tem agora, 56 anos de sacerdócio, que iniciava a sua preparação.

            Nunca esqueci esta história. Conto-a e a reconto, de vez em quando, pra dizer que ela foi planejada e programada na medida em que se desenvolvia. Faz poucos dias, na antepenúltima noite da Festa de São Vicente, na minha pregação da Missa em Bela Cruz, eu dizia, comentando o Evangelho do dia: “os discípulos partiram e percorriam os povoados, anunciando a Boa Nova e fazendo curas em todos os lugares”. E eu concluía: ‘E eles saíam, confiados apenas no poder de quem os enviava e na boa vontade de quem os haveria de acolher’. E concluía: ‘Jesus não mudou. Nós é que esquecemos sua palavra’.

            Ordenei-me presbítero da Igreja, na minha Bela Cruz, de origem, para servir à Diocese de Afogados da Ingazeira – PE, onde estava o meu ex-Reitor, ex-professor e formador, à época, Bispo da Diocese: D. Francisco Austregésilo e com ele permaneci por 36 anos, até ele se tornar emérito, i. é., aposentar-se.

            Durante esse tempo, dediquei-me a estudar Religiosidade Popular no Nordeste Brasileiro, Sociologia da Comunicação, até frequentando Cursos em Universidades Pontifícias em Roma, galgando títulos acadêmicos, que muito me aperfeiçoaram na realização da Missão pelo Nordeste Brasileiro.

            Com outros colegas Padres, Religiosos, Religiosas e muitos Leigos consagrados, integrei a AMMINE (Associação de Missionários e Missionárias do Nordeste) por dez anos, preparando (pré-missão), pregando (missão) e revi-sando (pós missão) pra realizar bem, todo o esquema de Missões Populares.

            Ao todo, éramos uns 60 Missionários, que formávamos uma Associação, composta de Sacerdotes, Religiosos e de Leigos e que nos encontrávamos em Assembléia a cada final de ano para revisar o que havíamos planejado antes e planejar novas atividades para o próximo ano. Dividíamo-nos em novos grupos para nos conhecermos melhor e para realizar um trabalho mais proveitoso, no próximo ano de repetidas atividades missionárias. Achávamos que não seria muito produtivo a gente permanecer nas mesmas equipes sem espaço para um conhecimento mútuo. E assim, agíamos e nos comportávamos. Nas revisões anuais, víamos os prós e os contras a metodologia usada. As avaliações eram maravilhosas e nossas Assembléias sempre muito proveitosas e enriquecidas.

            Inicialmente, a AMMINE tinha sua sede em Recife, devido a assessoria de grandes professores do ITER. Fechou e mudamo-nos para o Seminário Provincial da Paraíba que acatou grande parte da equipe docente do ITER, que funcionava em Serra Redonda com Missionários, formados no meio rural. São até, conhecidos como Padres da Teologia da Enxada e me dou muito bem com alguns, ainda remanescentes da época.

            Como eu disse, passei dez anos, integrando a Associação. Estive, pelo menos, três vezes, em grandes cidades dos Estados do Nordeste: ia preparar a Missão, como equipe de fora, retornava na realização da Missão e revisava após a sua realização. Em cada um desses contatos, nós nos encontrávamos com a equipe de dentro: aqueles que ficavam conosco na coordenação geral.

            Foi um tempo excelente de trabalho pastoral em minha vida. Eu era muito novo, cheio de entusiasmo, gostava de viajar e ia onde a missão exigia.

            Cada Missionário tinha que dispor de um tempo em sua atividade pastoral para dedicar-se à ação missionária, como eu disse: na pré-missão, na missão em si e na pós-missão. Esse trabalho tem que ser bem feito. Depende tão somente, em 1º lugar, da equipe missionária “de fora”. Cabe a ela preparar a “equipe de dentro”: a que organiza os grupos, as equipes de trabalho, de recepção e hospedagem, de refeições, de liturgia e animação, de mutirão, de som e divulgação, de saúde, de rezadeiras, da Fogueira, do Sto. Cruzeiro, etc.

            Na visita que a ‘equipe de fora’ fazia à ‘equipe de dentro’ ia revisando as atividades e as responsabilidades, de tal modo que, à época das Missões, tudo corresse bem e sem atropelos. Todos os integrantes das “equipes de fora”, éramos 60. Em todo o Nordeste e em todas as cidades missionadas, as “equipes de dentro” formavam um exército de cerca de dez mil pessoas. Crescia muito. Fazia parte da mística da Missão: “ser eficaz, renovada e numa linha evangelizadora”. Penso que não teríamos algo mais concreto a apresentar num Mês Missionário, do que um exemplo como este. Parabéns!


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