EXPULSA
PELA DITADURA DE 64, RECEBE HONORIS CAUSA NA UFC!
EDIÇÃO DE 12.10.24
Como era previsível, em Guaraciaba do
Norte, os vencedores foram o Cientista Político Cefas Melo e o Médico Dr.
Wellington Melo.
Nunca tinha visto tanto entusiasmo de uma população. Os vencedores estão intimamente ligados ao ex-prefeito e ex-deputado José Maria Melo.
O primeiro é filho. O vice é sobrinho. Senti, nas manifestações da população, nitidamente, a presença do ex-prefeito, Zemaria, nos inúmeros comentários que ouvi.
As comemorações foram acima de todas as expectativas. Logo após a divulgações dos primeiros resultados, a população já começou a se manifestar e continuou noite adentro.
Na quinta feira aconteceu a grande festa de comemoração. Na praça de eventos, ao lado do Terminal Rodoviário, uma verdadeira multidão reuniu-se para celebrar.
É decisão de Cefas Melo promover uma ampla avaliação da situação da Prefeitura, em todas as áreas. Para tanto, uma equipe de especialistas já foi contratada.
Na Universidade Federal do Ceará, aconteceu uma festa muito simbólica, nas comemorações dos 70 anos da nossa Universidade.
Ali o Reitor Custódio Almeida conferiu o titulo de Doutora Honoris Causa à Professora Ruth Cavalcante que, no regime da ditadura fora expulsa da UFC.
Mais do que isto. Presa, fugiu da prisão, numa ação, cinematograficamente, programada e executada com pleno êxito. Total desmoralização dos ditadores.
O gesto da UFC foi uma forma simbólica de lavar a alma de todos os que estavam presentes no auditório Prof. Martins Filho.
Ali estavam contemporâneos da Ruth em sua ação de política acadêmica, da JEC -Juventude Estudantil Católica, do MEB-Movimento de Educação de Base, do CDH, da Biodança e Educação Biocêntrica.
Os três discursos foram verdadeiras páginas antológicas. Ítalo Gurgel,
Professor Custódio Almeida e Ruth Cavalcante foram muito cumprimentados. Na
sequência desta coluna está o discurso de Ítalo Gurgel
Nos jardins da Reitoria, num clima de muitas emoções e belas músicas, foram muitos os abraços e fotos históricas de encontros e reencontros.
Em Bela Cruz, na zona norte do Ceará, neste sábado, aconteceu a comemoração do aniversário do Mons. Assis Rocha, na Fazenda Santa Maria.
Foi uma grande reunião da família, naquele local que mexe com a alma de cada um que ali nasceu ou viveu importantes momentos.
A família organizou, com muito carinho, uma festa que teve início, às 10 horas, com uma missa celebrada pelo aniversariante, num dos espaços de trabalho do casarão.
Ali estavam pessoas vindas de diversos lugares. Praticamente todos os familiares estavam presentes. A Fazenda Santa Maria fica a uns 50 quilômetros de Bela Cruz.
A Missa foi celebrada ao estilo do Mons. Assis Rocha, com muita participação. Na homilia, ele leu o texto que está publicado neste blog, sob o título: MISSÃO: UMA EXPERIENCIA PESSOAL.
Foi um momento de muitas emoções e declarações de amor ao aniversariante e à família. A celebração foi transmitida pela Rádio Santa Genoveva FM.
A seguir foi servido um grande almoço. Myrtes e eu não esperamos porque tínhamos que retornar a Fortaleza. Na véspera, tivemos a oportunidade de conhecer a cidade de Bela Cruz. Valeu a pena.
Vez por outra recebo surpresas de
meus ex-alunos. Desta vez foi a caríssima Vânia Pontes, Coordenadora Pedagógica
do Curso de Direito da UNINTA, de Sobral.
Ela foi minha aluna no curso de Letras, da UVA. Encantou-se com a metodologia que adotamos, especialmente com um Curso de Metodologia de Ensino Superior, com fundamentos na Educação Biocêntrica.
Publicou um poema, a mim dedicado, em que fala de minha trajetória, especialmente, da metodologia que adotamos em nossas aulas.
Vânia Pontes é de Ipueiras, graduada em Letras e Psicologia, Mestra de Doutora na área do Direito. Cada ano tem-se destacado em suas atividades como Coordenadora Pedagógicas.
“AQUELE ERA
UM TEMPO DE SONHAR”
Discurso do Professor e Jornalista Ítalo Gurgel
na solenidade de outorga do título de Doutora Honoris Causa à Professora Ruth
Cavalcante
“Magnífico Reitor Custódio Almeida; Prof.ª Bernardete Porto, através de quem saúdo os demais componentes da Mesa, onde tomam assento grandes amigos e pessoas a quem muito admiro; Prof.ª Ruth Cavalcante, homenageada desta noite; Prof. Leunam Gomes, Presidente da Comissão da Anistia, a quem cumprimento, estendendo minha reverência a todo o auditório.
Senhoras e senhores.
Aquele era um tempo de sonhar. Inspirados em generosas
convicções, os jovens acreditavam ser possível edificar um mundo melhor, onde
se partilhasse Justiça a mancheias, onde se entronizasse a fraternidade e a
igualdade entre os cidadãos.
Menina do interior, transferida para a Capital, Ruth
Cavalcante estudou em colégios que sempre puseram à prova seu gosto pela
liberdade. Aos poucos, refinou-se nela o espírito de liderança e a inquietação
diante da crua realidade social em seu entorno. Amadureceu. Novas leituras passaram
a trafegar por sua cabeceira, enquanto se consolidava uma vocação irrefreável
para o magistério. Essa missão ela abraçara ainda criança, quando descobriu que
a sexagenária Terta não sabia ler nem escrever. Estreou como professora ali
mesmo, na cozinha, ensinando o ABC à velha babá, que a chamava carinhosamente
de Ruivinha.
Os anos 1960 encontram a secundarista Ruth integrando a
Juventude Estudantil Católica, onde se familiarizou com o pensamento de Paulo
Freire. Aos 20 anos, entrou para o Movimento de Educação de Base e participou
da mais extraordinária experiência de educação popular do país, qual seja, o
trabalho de alfabetização e conscientização através das Escolas Radiofônicas.
Eis que, em um infausto 1º de abril, os brasileiros acordam
sob a ditadura. Acolitados pela burguesia e sob as bênçãos do Grande Irmão do
Norte, os militares usurparam o poder. Logo viriam as prisões, a tortura
institucionalizada, os “desaparecimentos” de presos políticos... Instalou-se a
censura, o medo. Naqueles dias sombrios, Ruth alfabetizava operários, donas de
casa, trabalhadores do campo, que, através do rádio, aprendiam não apenas a
ler, mas também a pensar. Suprema ousadia!
Participante ativa, também, do movimento estudantil, em 1968,
ano do truculento AI-5, ela foi detida, primeiro no interior de São Paulo, durante
o Congresso da UNE, depois em Fortaleza, no momento em que ministrava um curso
sobre Paulo Freire no campus desta Universidade.
Na cela, os dias eram longos, as noites insones. Mas sempre
havia motivos para que seus olhos azuis brilhassem. Um deles eram as visitas. Certo
dia, a porta se abriu para deixar entrar Seu Chiquinho, o pai, que trazia
afagos e bênçãos de Donana, a mãe. Em gesto dissimulado, ele tirou do bolso um
papel dobrado que recebera no centro da cidade. Era um panfleto no qual as
forças da resistência ao regime exigiam a soltura de Ruth. Ao desdobrar o
papelucho e repassá-lo às mãos da filha, Seu Chiquinho deixou transparecer um
ar de genuíno orgulho que, naquele instante, redimiu todas as provações e
temores da jovem prisioneira.
Desconheciam os algozes que Ruth tem asas. As asas da
liberdade, que sempre carregou, lhe ensejaram uma fuga bem urdida, que
demonstrou ser a inteligência mais forte que a força bruta. Então, ela voou
para o Sul, qual ave migratória. Foi levar força e fé aos companheiros de luta.
Mas os cães farejadores não saíam do seu encalço. Pressionada, ameaçada, partiu
para o exílio no Chile, onde Salvador Allende realizava reformas cruciais para
resgatar o país do jugo imperialista.
Ali onde o condor sobrevoa cumes nevados e vulcões, Ruth casou-se
com João de Paula, companheiro do movimento estudantil. Eram dias tranquilos.
Até que eclode o golpe liderado por Pinochet, que instalaria no país uma das
mais brutais ditaduras militares da América Latina.
Impunha-se partir outra vez. A Alemanha estendeu a mão e Ruth
e João inauguraram nova etapa do exílio, agora às margens do Reno, onde o
carrilhão da Catedral de Colônia soava tão afinado quanto o sino da igreja de
São Sebastião, na Pedra Branca. Foi lá que Mariana nasceu, apontando caminhos
que levariam Ruth a se engajar na Educação Especial e diplomar-se em Psicopedagogia.
No Brasil, pressionada pelo movimento popular, a ditadura exalava
os últimos estertores. Veio a Anistia e os exilados puderam retornar. Os anos
que se seguiram marcaram, para Ruth, uma fase das mais produtivas, com novas realizações
e a descoberta de Rolando Toro. Ruth partilhava agora seus sonhos e sua vida
profissional com o professor César Wagner, desta Universidade. A seu lado,
exploraria os dadivosos campos da Biodança e da Educação Biocêntrica. Da união
dos dois, brotaram Sara e David, que já lhes deram quatro netos.
Hoje, Ruth reparte lições de reeducação afetiva e prega o
convívio amoroso. Orienta, cuida, acende luzes. Continua nas salas de aula, nas
lives, nos auditórios e grupos populares, numa espécie de atuação que transita
entre o sonho e a luta. Daí, o natural reconhecimento. Daí o prestigioso título
de Doutor Honoris Causa de uma das maiores e mais bem avaliadas universidades
do País.
Professora Ruth, dirijo-me agora a você. Quero falar àquela
que foi a musa da minha geração, e a quem conheci já nos meus primeiros dias de
aula na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, neste mesmo Campus do
Benfica.
Profundamente agradecido ao reitor Custódio Almeida, que me deu
a honra de saudá-la esta noite, quero felicitá-la pelo ingresso na assembleia
dos Doutores Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará. Hoje, você
fortalece vínculos com a instituição que a viu crescer como cidadã, educadora e
liderança na luta pelas liberdades em nosso País.
Esta casa, Professora Ruth, guarda bem guardada a história do
tempo em que sonhar era perigoso. Preserva, na verdade, a herança de muitos
séculos de história. O ritual que presenciamos, essas vestes, o cerimonial,
nunca foram mais atuais, mais pertinentes. Eles simbolizam o triunfo do
Conhecimento, a apoteose do Saber. São nossa indumentária quando enfrentamos o
obscurantismo e negacionismo de falanges como aquelas que, recentemente,
ameaçaram a democracia brasileira, pondo em risco nossa cultura, ciência, artes,
nossos valores humanistas.
Sim, temos uma tradição e dela nos orgulhamos. Quem avaliza
nossas teses não são charlatães terraplanistas, mas cientistas de Oxford,
poetas de Coimbra, pensadores de Heidelberg. Já as hordas do atraso, essas ostentam
apenas as armas do ódio, da violência e da mentira, que usam para atacar o Estado
democrático, a Justiça, a Imprensa livre, o arcabouço do Saber, que detestam...
porque o temem.
Seja bem-vinda, Professora, ao convívio de uma universidade
pública da qual todos se orgulham: inclusiva, democrática, pautada pela
excelência e profundamente engajada na redenção do Ceará e do Nordeste. Nos
registros desta casa, que celebra 70 anos de existência, seu nome será escrito
em letras garrafais – Ruth Cavalcante. Mas tenho certeza de que, na certidão
afetiva da Terta, lá em sua estrela particular, você agora se chamará...
Doutora Ruivinha”.
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