NA DITADURA,
PADRES APOIARAM
OS EXILADOS BRASILEIROS!
No último 15 de Agosto, a família,
os amigos e lugares por onde passou o grande Missionário, Pe. José Maria
Cavalcante, celebramos os 60 anos de sua Ordenação Sacerdotal. Juntamo-nos
para escrever algumas “Memórias” a seu respeito, que lhes repasso agora sobre
sua vida e seu testemunho.
Uni-me aos depoimentos de várias pessoas que trabalharam com ele ou que receberam sua influência pastoral ou seu serviço missionário, por onde quer que ele tenha passado. Todos têm dado opiniões. Tanto no Ceará, como em outros estados da Federação e até mesmo no Exterior, seu compromisso Missionário foi, bravamente, exercido.
Tive o prazer de acompanhá-lo em vários locais de sua profícua Ação Missionária (na Arquidiocese de Fortaleza, nas Paróquias: de Nossa Senhora da Salete, de Aratuba, de Palmácia, de Acarape, de Barreiras, de Guajiru em Messejana, de Ideal, de Pitombeiras e de Timbaúba dos Marinheiros. Em São Mateus, na Arquidiocese de São Luís do Maranhão. Em Rio Branco, no Acre. Em Conceição do Araguaia, no Pará, substituindo dois Padres, que estavam presos. Planejava ir para a África, em Missão, mas D. Aloísio o enviou para Roma, a fim de dar uma parada e rever toda a sua ação pastoral, durante quase três anos). Lá nos encontramos pelos mesmos objetivos: eu revisava meus 05 anos de Padre, desde Outubro de 1973, e o Padre Zé Maria chegava, com 10 anos de trabalho pastoral, também buscando atualização.
Em Roma, estudávamos na mesma Universidade dos
Padres Dominicanos: ele fazia teologia
pastoral; eu, ciências sociais.
A AMINE e outras opções pastorais nos levaram a tais aperfeiçoamentos, sempre
em conexão com Bispos Brasileiros que por lá passavam: Dom Helder, Dom Aloísio,
Dom Paulo Evaristo e outros Bispos que nos atualizavam com o Brasil e seu
desgoverno.
De vez em quando
estávamos recebendo ou embarcando Suas Excelências no Aeroporto Fiumicino de
Roma. De um modo mais constante aparecia Dom Helder em suas “missões internacionais” em que ele dava
tempo para se encontrar com “refugiados políticos brasileiros”, expulsos daqui
pela ditadura militar. Além de levar-lhes notícias de suas famílias, trazia
correspondências para serem entregues a elas.
Dom
Helder tinha suas equipes de “minorias
abraâmicas” pela Europa que traduziam seus discursos do português para
as línguas dos países onde ele iria falar. Toda a equipe falava suas próprias
línguas e sabia português. Era através dela - que se conectava com a anistia
internacional - que ele agendava esses encontros fraternais. Foi por essas
vias, que eu também, com meu colega, Pe. Zemaria mantivemos um bom contato com
brasileiros, nossos irmãos, que estavam exilados. Empreendíamos qualquer esforço possível para
irmos à Holanda, Alemanha, França, Inglaterra, Roma e interior da Itália para
encontrar-nos com eles e falarmos da saudade, das esperanças que ficaram pra
trás, do que faríamos se retornássemos, enfim, eram encontros de muito diálogo,
muito incentivo e coragem para não desistirmos da luta. Nós dois não éramos
refugiados. Estávamos em Roma por motivos de estudo, com retorno garantido no
seu final. Pela nossa opção pastoral, nossos compromissos com a Igreja do
Vaticano II e pelo apoio que tínhamos de nossos bispos diocesanos, nossos contatos
com todos eram realizados com o maior dos prazeres.
Sempre
o fazíamos no Tempo do Natal: 1973, em Paris, com uns 15 brasileiros,
“tronchos” de saudade. Tornei-me amigo de um ateu, que tinha sido preso
político e se estava doutorando na Sorbone. Fiz-lhe o casamento, batizei seus
dois filhos e somos amigos até hoje, inclusive participando de minhas bodas
sacerdotais. Meu colega, Pe. Zemaria estava presente e até pregou.
Em
1974 fomos passar o Natal em Grenoble, no sul da França, na casa de uma família
“parabucana”, isto é, de Pedra de Fogo-Itambé situada bem no limite entre os
dois estados: metade Paraíba, metade Pernambuco, cada lado com o seu nome:
Pedra de Fogo/Itambé. Era o casal e duas filhinhas lindas. Os dois padres, mais
uma vez, estávamos presentes, junto a um grupo maior de refugiados políticos:
uns 25.
Em
1975, outro Natal maravilhoso. Dessa vez, na Alemanha. Estávamos lá, com um bom
grupo de exilados brasileiros, inclusive com um casal alemão da Anistia
Internacional, seguindo o mesmo esquema dos encontros anteriores.
Porque
no Natal? Porque nos países onde os brasileiros eram exilados havia o recesso
natalino. Todos podiam participar, viajando para o local, até ajudando àquele
ou àquela que não podia pagar o transporte. Sem serem todos cristãos, sabiam
repartir: eram “companheiros”. E, para nós padres, era uma excelente
oportunidade de marcar o nosso próprio natal, servindo a todos: com
desconfiança, no início, mas se acostumando com nosso entrosamento.
Todos
demonstravam uma saudade enorme da família e do Brasil.
Chegávamos
ao local do encontro. Os que já se conheciam faziam aquela algazarra de sempre,
abraços e beijos e deixavam de lado suas mochilas, sentindo-se em casa, sem
muita procura por agasalho melhor. De olho no tapete, a gente já ia marcando
lugar: pra se acomodar e até pra dormir.
Púnhamos
em dia as notícias da terrinha
distante, sobretudo da política reinante. Os padres, tínhamos sido
convidados pelo anfitrião de quem éramos conhecidos; sempre chegávamos por
primeiro, de modo que, quando os desconhecidos chegavam, comentavam: "soube até que vêm uns padres aí, não sei
porque. Não irão atrapalhar-nos?”. A essa altura estávamos entrosados e
felizes pelo natal que iríamos passar. Víamos logo a partilha de todos. Além do
dinheiro que ajudavam com as passagens, traziam um pouco de alimentos não
perecíveis que eram colocados na cozinha para o consumo de todos. Era a prática
dos antigos cristãos dos Atos dos Apóstolos: ‘punham tudo em comum’.
Chegados,
acomodados e entrosados uns com os outros e com a casa, íamos começando a nossa
celebração do Natal: sem tempo para
terminar, sem roteiro pré-estabelecido, sem esquemas intelectualizados e sem
comando de uns sobre os outros. Entrávamos pela noite adentro. Em qualquer dos
países da Europa em que nos encontrávamos, ouvíamos, à meia noite, as alegrias
manifestadas ao modo europeu pela passagem do natal. Sabíamos que àquela hora
não era a meia noite no Brasil. Faltavam ainda 04 horas. Iríamos aguardar a
meia noite brasileira. Faltava bastante tempo para continuarmos nossos
bate-papos, ingerindo a “caipirinha” feita de cachaça com limão, com tira-gosto
de “paçoca”, tudo procedente do Brasil, de tal modo que, às 04 da manhã na
Europa, meia noite no Brasil, todos estávamos mais saudosos do que embriagados.
Ficávamos de pé, cantávamos o Hino Nacional Brasileiro, chorando, abraçados,
unidos às alegrias de nossos familiares que, aqui, viviam o Natal, morrendo de
saudades de nós que lá nos encontrávamos. E, diga-se de passagem, àquela época
não tínhamos como nos comunicar nem sequer, por telefone, para ouvir alguém
falando a nossa linguagem de amor.
É
isto que me está vindo à mente nas Noites de Natal. Foi assim que o
comemoramos, tantas vezes, no “exílio” por conta da ditadura. A desconfiança
que os irmãos refugiados tinham de nós padres, antes de nos conhecerem, era a
mesma que tínhamos de qualquer brasileiro que encontrássemos no metrô, num
museu, na Praça de São Pedro, nos Champs-Elysées, na Piazza Navona ou no
Areópago ou em outro logradouro público de que nos aproximássemos. Podíamos
encontrar um brasileiro, espião, a serviço da ditadura.
Nestes
últimos 02/03 anos completamos 50 anos de nossos natais sofridos, saudosos,
solidários e, paradoxalmente, cristãos. Muitos já se foram, inclusive o meu
irmão Padre Zemaria. Outros estamos à deriva, por mares nunca dantes navegados. Perdemos o contato. Com um casal
de mineiros que tinha ido de carro: Paris - Grenoble viajamos pra Itália.
Dormimos em Bolonha, passamos por Pietrelcina, de Frei Pio e fomos pra Roma
onde morávamos. Pena que não sei mais, nem os nomes do gentil casal e se vivem
ainda.
Se,
por milagre do Natal, alguém me lê, ou me reencontra por este ‘site’ e se interessa num reencontro
pessoal, terei imenso prazer que isto aconteça. O meu tempo já está em contagem
regressiva: estou com 84 anos. Com um pouco de boa vontade, ainda dá pra gente
se ver... E vai ser muito bom!
Que
os nossos natais do modo que celebramos, as nossas lágrimas e emoções de
outrora nos tenham treinado para vivermos melhor cada Natal.
Neste
ano de 2024 – 60
anos do Golpe Militar, 60 da Ordenação do Pe. Zé Maria, 100 do
nascimento de D. Francisco Austregésilo e 50 da morte de Fr. Tito – tivemos uma quádrupla
motivação para nos encontrarmos: celebrar as alegrias pela vida de entrega
total à Missão de Dom Francisco e do Padre José Maria e relembrar as
dificuldades que a Ditadura Militar causou a eles e a tantos Agentes Pastorais
que foram perseguidos, presos, torturados e mortos até, pela ditadura que tanto
atrapalhou nosso trabalho de conscientização.
Para
debatermos sobre isto e recordar um pouco “a
época de chumbo” que nos atingiu na alma, embora agradecendo aos “heróis da resistência” que tanto bem
nos fizeram pelo apoio dado, reunimo-nos na Praia da Quixaba, em Aracati,
vários exilados, com a presença do casal alemão, representante da Anistia
Internacional, onde lembramos o Padre José Maria, suas cartas de apoio aos
exilados, onde eles estivessem e de onde o Padre Zemaria estava para dar sua
palavra de conforto, de solidariedade e de muito amor àqueles que, muitas vezes
estavam à beira do desespero.
Na Quixaba/Aracati: Mons. Assis Rocha, Fred, Ruth, Barbara e João de Paula, 50 anos depois!
O
Professor Leunam Gomes, Presidente da Comissão de Anistia – Wanda Sidou – para
o Ceará, ao acolher o casal da Anistia Internacional, Fred e Barbara, e os
demais participantes, referiu-se à reunião, como “um Encontro Histórico que, cerca de 50 anos depois, reuniu
amigos que se conheceram no exílio, na Europa, foragidos pela ditadura militar,
embora acolhidos pela Anistia Internacional ou por voluntários que se
dispuseram em atendê-los”.
Na
verdade, além de lhes prestarem assistência oficial, pela Anistia
Internacional, ainda lhes ajudavam, pessoalmente, providenciando soluções
práticas para problemas de adaptação, interpretação da língua, diálogo entre
órgãos oficiais, enfim, Fred e Bárbara, Juarez e Gabriela e outros alemães que
sabiam bem as duas línguas, ajudaram, fraternalmente, a brasileiros que tinham
dificuldades de comunicação ou de adaptação em terras estrangeiras.
A minha participação nesta memória que se faz sobre o Padre Zemaria, certamente evoca fatos desconhecidos de sua vida, por se tratar de sua passagem pelo exterior, embora, sempre em Missão. Sobre sua ação missionária, aqui no Brasil, os depoentes de toda parte deverão ter feito de maneira intensa e profunda como seu trabalho pastoral merece ser tratado. Taí mais uma experiência missionária para ilustrar o Mês das Missões.
BORDADOS PEDAGÓGICOS DA PROFª NAZARÉ ANTERO
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