sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O COMENTÁRIO DA SEMANA


NA DITADURA,

PADRES  APOIARAM OS EXILADOS BRASILEIROS!

No último 15 de Agosto, a família, os amigos e lugares por onde passou o grande Missionário, Pe. José Maria Cavalcante, celebramos os 60 anos de sua Ordenação Sacerdotal. Juntamo-nos para escrever algumas “Memórias” a seu respeito, que lhes repasso agora sobre sua vida e seu testemunho.

             Uni-me aos depoimentos de várias pessoas que trabalharam com ele ou que receberam sua influência pastoral ou seu serviço missionário, por onde quer que ele tenha passado. Todos têm dado opiniões. Tanto no Ceará, como em outros estados da Federação e até mesmo no Exterior, seu compromisso Missionário foi, bravamente, exercido.

 Tive o prazer de acompanhá-lo em vários locais de sua profícua Ação Missionária (na Arquidiocese de Fortaleza, nas Paróquias: de Nossa Senhora da Salete, de Aratuba, de Palmácia, de Acarape, de Barreiras, de Guajiru em Messejana, de Ideal, de Pitombeiras e de Timbaúba dos Marinheiros. Em São Mateus, na Arquidiocese de São Luís do Maranhão. Em Rio Branco, no Acre. Em Conceição do Araguaia, no Pará, substituindo dois Padres, que estavam presos. Planejava ir para a África, em Missão, mas D. Aloísio o enviou para Roma, a fim de dar uma parada e rever toda a sua ação pastoral, durante quase três anos). Lá nos encontramos pelos mesmos objetivos: eu revisava meus 05 anos de Padre, desde Outubro de 1973, e o Padre Zé Maria chegava, com 10 anos de trabalho pastoral, também buscando atualização.

                                                          Padre José Maria Cavalcante

Em Roma, estudávamos na mesma Universidade dos Padres Dominicanos: ele fazia teologia pastoral; eu, ciências sociais. A AMINE e outras opções pastorais nos levaram a tais aperfeiçoamentos, sempre em conexão com Bispos Brasileiros que por lá passavam: Dom Helder, Dom Aloísio, Dom Paulo Evaristo e outros Bispos que nos atualizavam com o Brasil e seu desgoverno.

De vez em quando estávamos recebendo ou embarcando Suas Excelências no Aeroporto Fiumicino de Roma. De um modo mais constante aparecia Dom Helder em suas “missões internacionais” em que ele dava tempo para se encontrar com “refugiados políticos brasileiros”, expulsos daqui pela ditadura militar. Além de levar-lhes notícias de suas famílias, trazia correspondências para serem entregues a elas.

            Dom Helder tinha suas equipes de “minorias abraâmicas” pela Europa que traduziam seus discursos do português para as línguas dos países onde ele iria falar. Toda a equipe falava suas próprias línguas e sabia português. Era através dela - que se conectava com a anistia internacional - que ele agendava esses encontros fraternais. Foi por essas vias, que eu também, com meu colega, Pe. Zemaria mantivemos um bom contato com brasileiros, nossos irmãos, que estavam exilados.  Empreendíamos qualquer esforço possível para irmos à Holanda, Alemanha, França, Inglaterra, Roma e interior da Itália para encontrar-nos com eles e falarmos da saudade, das esperanças que ficaram pra trás, do que faríamos se retornássemos, enfim, eram encontros de muito diálogo, muito incentivo e coragem para não desistirmos da luta. Nós dois não éramos refugiados. Estávamos em Roma por motivos de estudo, com retorno garantido no seu final. Pela nossa opção pastoral, nossos compromissos com a Igreja do Vaticano II e pelo apoio que tínhamos de nossos bispos diocesanos, nossos contatos com todos eram realizados com o maior dos prazeres.

            Sempre o fazíamos no Tempo do Natal: 1973, em Paris, com uns 15 brasileiros, “tronchos” de saudade. Tornei-me amigo de um ateu, que tinha sido preso político e se estava doutorando na Sorbone. Fiz-lhe o casamento, batizei seus dois filhos e somos amigos até hoje, inclusive participando de minhas bodas sacerdotais. Meu colega, Pe. Zemaria estava presente e até pregou.

            Em 1974 fomos passar o Natal em Grenoble, no sul da França, na casa de uma família “parabucana”, isto é, de Pedra de Fogo-Itambé situada bem no limite entre os dois estados: metade Paraíba, metade Pernambuco, cada lado com o seu nome: Pedra de Fogo/Itambé. Era o casal e duas filhinhas lindas. Os dois padres, mais uma vez, estávamos presentes, junto a um grupo maior de refugiados políticos: uns 25. 

            Em 1975, outro Natal maravilhoso. Dessa vez, na Alemanha. Estávamos lá, com um bom grupo de exilados brasileiros, inclusive com um casal alemão da Anistia Internacional, seguindo o mesmo esquema dos encontros anteriores.

            Porque no Natal? Porque nos países onde os brasileiros eram exilados havia o recesso natalino. Todos podiam participar, viajando para o local, até ajudando àquele ou àquela que não podia pagar o transporte. Sem serem todos cristãos, sabiam repartir: eram “companheiros”. E, para nós padres, era uma excelente oportunidade de marcar o nosso próprio natal, servindo a todos: com desconfiança, no início, mas se acostumando com nosso entrosamento.

            Todos demonstravam uma saudade enorme da família e do Brasil.

            Chegávamos ao local do encontro. Os que já se conheciam faziam aquela algazarra de sempre, abraços e beijos e deixavam de lado suas mochilas, sentindo-se em casa, sem muita procura por agasalho melhor. De olho no tapete, a gente já ia marcando lugar: pra se acomodar e até pra dormir.

            Púnhamos em dia as notícias da terrinha distante, sobretudo da política reinante. Os padres, tínhamos sido convidados pelo anfitrião de quem éramos conhecidos; sempre chegávamos por primeiro, de modo que, quando os desconhecidos chegavam, comentavam: "soube até que vêm uns padres aí, não sei porque. Não irão atrapalhar-nos?”. A essa altura estávamos entrosados e felizes pelo natal que iríamos passar. Víamos logo a partilha de todos. Além do dinheiro que ajudavam com as passagens, traziam um pouco de alimentos não perecíveis que eram colocados na cozinha para o consumo de todos. Era a prática dos antigos cristãos dos Atos dos Apóstolos: ‘punham tudo em comum’.

            Chegados, acomodados e entrosados uns com os outros e com a casa, íamos começando a nossa celebração do Natal: sem tempo para terminar, sem roteiro pré-estabelecido, sem esquemas intelectualizados e sem comando de uns sobre os outros. Entrávamos pela noite adentro. Em qualquer dos países da Europa em que nos encontrávamos, ouvíamos, à meia noite, as alegrias manifestadas ao modo europeu pela passagem do natal. Sabíamos que àquela hora não era a meia noite no Brasil. Faltavam ainda 04 horas. Iríamos aguardar a meia noite brasileira. Faltava bastante tempo para continuarmos nossos bate-papos, ingerindo a “caipirinha” feita de cachaça com limão, com tira-gosto de “paçoca”, tudo procedente do Brasil, de tal modo que, às 04 da manhã na Europa, meia noite no Brasil, todos estávamos mais saudosos do que embriagados. Ficávamos de pé, cantávamos o Hino Nacional Brasileiro, chorando, abraçados, unidos às alegrias de nossos familiares que, aqui, viviam o Natal, morrendo de saudades de nós que lá nos encontrávamos. E, diga-se de passagem, àquela época não tínhamos como nos comunicar nem sequer, por telefone, para ouvir alguém falando a nossa linguagem de amor.

            É isto que me está vindo à mente nas Noites de Natal. Foi assim que o comemoramos, tantas vezes, no “exílio” por conta da ditadura. A desconfiança que os irmãos refugiados tinham de nós padres, antes de nos conhecerem, era a mesma que tínhamos de qualquer brasileiro que encontrássemos no metrô, num museu, na Praça de São Pedro, nos Champs-Elysées, na Piazza Navona ou no Areópago ou em outro logradouro público de que nos aproximássemos. Podíamos encontrar um brasileiro, espião, a serviço da ditadura.

            Nestes últimos 02/03 anos completamos 50 anos de nossos natais sofridos, saudosos, solidários e, paradoxalmente, cristãos. Muitos já se foram, inclusive o meu irmão Padre Zemaria. Outros estamos à deriva, por mares nunca dantes navegados. Perdemos o contato. Com um casal de mineiros que tinha ido de carro: Paris - Grenoble viajamos pra Itália. Dormimos em Bolonha, passamos por Pietrelcina, de Frei Pio e fomos pra Roma onde morávamos. Pena que não sei mais, nem os nomes do gentil casal e se vivem ainda.

            Se, por milagre do Natal, alguém me lê, ou me reencontra por este ‘site’ e se interessa num reencontro pessoal, terei imenso prazer que isto aconteça. O meu tempo já está em contagem regressiva: estou com 84 anos. Com um pouco de boa vontade, ainda dá pra gente se ver... E vai ser muito bom!

            Que os nossos natais do modo que celebramos, as nossas lágrimas e emoções de outrora nos tenham treinado para vivermos melhor cada Natal.

            Neste ano de 2024 60 anos do Golpe Militar, 60 da Ordenação do Pe.  Zé Maria, 100 do nascimento de D. Francisco Austregésilo e 50 da morte de Fr. Tito – tivemos uma quádrupla motivação para nos encontrarmos: celebrar as alegrias pela vida de entrega total à Missão de Dom Francisco e do Padre José Maria e relembrar as dificuldades que a Ditadura Militar causou a eles e a tantos Agentes Pastorais que foram perseguidos, presos, torturados e mortos até, pela ditadura que tanto atrapalhou nosso trabalho de conscientização.

            Para debatermos sobre isto e recordar um pouco “a época de chumbo” que nos atingiu na alma, embora agradecendo aos “heróis da resistência” que tanto bem nos fizeram pelo apoio dado, reunimo-nos na Praia da Quixaba, em Aracati, vários exilados, com a presença do casal alemão, representante da Anistia Internacional, onde lembramos o Padre José Maria, suas cartas de apoio aos exilados, onde eles estivessem e de onde o Padre Zemaria estava para dar sua palavra de conforto, de solidariedade e de muito amor àqueles que, muitas vezes estavam à beira do desespero.

                      Na Quixaba/Aracati: Mons. Assis Rocha, Fred, Ruth, Barbara e João de Paula, 50 anos depois!

            O Professor Leunam Gomes, Presidente da Comissão de Anistia – Wanda Sidou – para o Ceará, ao acolher o casal da Anistia Internacional, Fred e Barbara, e os demais participantes, referiu-se à reunião, como um Encontro Histórico que, cerca de 50 anos depois, reuniu amigos que se conheceram no exílio, na Europa, foragidos pela ditadura militar, embora acolhidos pela Anistia Internacional ou por voluntários que se dispuseram em atendê-los”.

            Na verdade, além de lhes prestarem assistência oficial, pela Anistia Internacional, ainda lhes ajudavam, pessoalmente, providenciando soluções práticas para problemas de adaptação, interpretação da língua, diálogo entre órgãos oficiais, enfim, Fred e Bárbara, Juarez e Gabriela e outros alemães que sabiam bem as duas línguas, ajudaram, fraternalmente, a brasileiros que tinham dificuldades de comunicação ou de adaptação em terras estrangeiras.

            A minha participação nesta memória que se faz sobre o Padre Zemaria, certamente evoca fatos desconhecidos de sua vida, por se tratar de sua passagem pelo exterior, embora, sempre em Missão. Sobre sua ação missionária, aqui no Brasil, os depoentes de toda parte deverão ter feito de maneira intensa e profunda como seu trabalho pastoral merece ser tratado. Taí mais uma experiência missionária para ilustrar o Mês das Missões.

                        BORDADOS PEDAGÓGICOS                                     DA PROFª NAZARÉ ANTERO

 








 

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