sábado, 1 de março de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

Fraternidade e Ecologia Integral

Encerrei meus quatro Comentários do mês passado, falando sobre Dom José e o Centenário de seu Seminário São José, de Sobral, prometendo que, de hoje em diante, voltaria às minhas habituais reflexões semanais. Aqui estou.

E volto numa hora muito especial: quando nesta 4ª feira de Cinzas, 05 de março, o Mundo encerra seus festejos ao Reinado de Momo, e a Igreja Católica inicia sua Campanha da Fraternidade, de Evangelização e Catequese, durante a Quaresma, tempo preparatório para celebrar a Páscoa.

Mas, por que motivações tão antagônicas se estreitam tanto? Não são eventos tão diferentes? É que ambos nasceram no seio da Igreja.

Tradicionalmente, a Igreja celebrava um longo tempo de penitencia, bem antes do início da Quaresma. Havia uma sequência: octogésima, septuagésima, sexagésima, quinquagésima. Só então, vinha a Quaresma. Os párocos, missionários e pregadores iam dosando as penitencias desde o início dos 80 dias, para na segunda metade, nos 40 dias restantes, isto é, durante a Quaresma, todos se abstivessem de carne. Era penitencia ou puro sacrifício. O povo se despedia da carne, pra valer. Daí, o nome: carnaval: festival de carne. Portanto, durante muito tempo, as duas coisas iam funcionando juntas: à folia do carnaval, sucedia-se a Quaresma.

O Santo Padre, João XXIII, convocou, iniciou a realização e sistematizou o Concílio Ecumênico Vaticano II. Graças a Deus eu era seminarista em Olinda no Estado de Pernambuco e, com todos os colegas que estudávamos em Olinda, inclusive o nosso Blogueiro – Leunam, fomo-nos atualizando com todos os Documentos, Constituições, Decretos e Atas que nos vinham de Roma. Não havia internet, Google, redes sociais para agilizar a chegada das notícias, mas a gente recebia rascunhos enviados por nossos bispos, mais para o fim, folhas mimeografadas; o fato é que, acompanhávamos, mesmo precariamente, tudo o que fosse possível e importante para a nossa atualização e missão depois.

Os 04 anos de “aulas conciliares” dadas aos nossos bispos, os levaram a um “aggiornamento”, uma renovação mental, de tal maneira que eles retornaram às suas Dioceses, mais abertos para realizarem as mudanças que o Concílio passara e as Dioceses, seus padres e leigos também mudaram.

A vida comunitária de nossos bispos, a participação nas Aulas Magnas, os trabalhos em comissões, as celebrações em comum, foram mostrando aos Senhores Bispos uma nova maneira de agir em suas Dioceses. Todos se sentiram motivados a se organizarem numa Conferência Nacional de Bispos, começando sua convivência colegiada lá mesmo em Roma. Foram até apresentados como modelos pra outros bispos de outros países e continentes.

Uma das experiências mais básicas e sustentáveis da Igreja do Brasil foi a fundação da CNBB, desde o Concílio, em Roma. Alguns ousaram mais.

A província do Rio Grande do Norte compreende três Dioceses: Natal, Mossoró e Caicó. Entusiasmada com o início do Concílio, já em Roma, os três Bispos se reuniram, por inspiração do Arcebispo de Natal, Dom Eugênio Sales, para começarem a viver a colegialidade do Concílio. Dois anos depois, 16 bispos da região nordeste uniram-se ao grupo do Rio Grande do Norte, ainda em Roma numa das Sessões Conciliares, para engrossar as Dioceses no novo grupo que colocou as bases da Campanha da Fraternidade, em 1963, para ser implantada em todo o Brasil a partir de 1964. Foi um verdadeiro incêndio que não apagou mais. Tem enfrentado incompreensões históricas, muitos bispos não têm aquela força do Concílio, mas a gente confia na força do Espírito.

Nestes últimos 61 anos (1964 a 2025) estivemos envolvidos com este diferenciado Tempo Quaresmal, sem perder a sua origem penitencial, convidando-nos à conversão e abordando um Tema voltado para a nossa realidade. Daí porque, não muito grata a governantes e a setores mais conservadores da Igreja que também não aceitam. Mesmo assim, tivemos muitas Campanhas da Fraternidade, voltadas para a Ecologia como a que faremos nesses próximos dias quaresmais. Muitos ainda preferem uma Quaresma que nos peça sacrifícios físicos, no corpo, do que mudar por dentro, na alma, na mentalidade conservadora, contrária a qualquer tipo de mudança. É negar a “conversão”, melhor e maior lição deixada pelo Concílio Vaticano II.

A C.F. 2025 - motivada pelos 800 anos da Composição do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis; pelos 10 anos de publicação da Carta Encíclica Laudato Si; pela recente publicação da Exortação Apostólica, Laudato Deum; pelos 10 anos de criação da (REPAM) = Rede Eclesial Pan Amazônica e pela realização da COP 30, em Belém, a primeira na Amazônia - acolheu a sugestão da Comissão Episcopal Especial para a Mineração e a Ecologia Integral, e escolheu o Tema: Fraternidade e Ecologia Integral e o lema: Deus viu que tudo era muito bom (Gn 1,31), já tratado, pelo menos, 08 vezes em Campanhas anteriores. Não é novidade. Aprofundá-lo-emos mais, ainda nesta Quaresma que está chegando com um objetivo geral: “promover, em espírito penitencial e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da Terra”.

Nesta C.F., como nas anteriores sob os mantos da renovação conciliar e pós-sinodal - tão estimulados pelo Papa Francisco –

“a Ecologia Integral é também espiritual. Professamos com alegria e gratidão que Deus criou tudo com seu olhar amoroso. Todos os elementos materiais são bons, se orientados para a salvação dos seres humanos e de todas as criaturas. Assim, Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31

Nestes Tema e Lema fundamentaremos todas as reflexões desta 61ª C.F. de 2025 que apenas estamos começando.

Tenho bastante consciência da dificuldade para se pôr em prática as normas, orientações e adaptações emanadas do Concílio e de suas frequentes atualizações através de Sínodos, Conferencias Episcopais, Reuniões de clero e de Leigos que, em vez de entenderem que o esforço é para renovar a todos, uma grande parte permaneça no saudosismo, no fechamento da mente e do coração para pouco ouvir e, muito menos, aceitar a sã mudança e praticá-la.

Disse que tinha “bastante consciência disto” porque, antes mesmo que fosse aberto o Concílio (1962), instituída a Campanha da Fraternidade (1964) e tantas outras criatividades pastorais na Igreja, eu me preparava para ser Padre (1968) e já me atualizava para viver numa Igreja Libertadora e Salvadora.

Acompanho, com grande admiração e oração, o “calvário” que tem vivido o Papa Francisco, desde o início do seu Pontificado. Não são os inimigos da Igreja que o têm atacado. São fiéis cristãos, católicos, que nada entenderam da renovação conciliar, da atualização buscada pelo Sínodo, recentemente, acontecido e da catequese atualizada que Sua Santidade vem fazendo em todos os recantos do mundo, cristão ou não. Agora, convalescendo, mesmo assim, lutando, na prorrogação do 2º tempo, 88 anos, preparando o Conclave para sua sucessão, sem entregar o leme, o comando, a ninguém, vivendo o que ensinava S. Paulo, II Tim. 4,7:

“Combati o bom combate; terminei a minha carreira; guardei a fé. Resta-me só esperar o grande momento do reencontro”.


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