PAPA FRANCISCO:
a pastoral da ternura e amorosidade
No sábado passado - o Papa
Francisco ainda estava vivo - eu comentei o Tema, escolhido por ele para este
Ano Santo – Somos peregrinos da Fé
– por agradar-me tanto em fazê-lo, já que era mais uma ocasião de apresentar a
nossa visão de um Deus Libertador, a partir da escravidão do Egito e, ao mesmo
tempo, misericordioso e redentor, a partir do perdão de Jesus Salvador.
Exemplifiquei meu comentário, citando um Teólogo da
Libertação, de Praga, na Tchecoslováquia, Padre Tomás Halik, comparando-o com
outros da América Latina, já famosos e nossos conhecidos, ressaltando Frei
Betto e sua reflexão teológica, a respeito da Igreja Católica, do Papa
Francisco e de sua vivência pastoral como Padre, Bispo e Cardeal na Argentina e
seus 12 anos de Papado, na Igreja e no Mundo
. Francisco, o Sumo Pontífice, veio a falecer, logo que passou o Domingo de Páscoa, cedinho, na segunda feira (21/04), início da Oitava da Páscoa, comoveu o mundo inteiro, com uma semana de peregrinos – cristãos ou não -,autoridades, das várias ideologias políticas, procedentes de todo o mundo, até o sétimo dia (Domingo, 27/04). Agora estamos aguardando o início do “Conclave”, a começar após os 15 dias de sua morte, para dar início à eleição do novo Papa, entre os 134 Cardeais com menos de 80 anos que podem votar.
Como
me debrucei sobre a reflexão do teólogo, Fr. Betto, apresentando o seu
pensamento sobre a ação pastoral do Papa Francisco, que comoveu a todos, quero
continuar hoje, com o que pensa, outro Teólogo, de origem alemã, embora nascido
no Brasil, que nos iluminou, com sua lucidez, sobre o que representou para nós,
o Pontificado do Papa Francisco.
Nestes
dias que antecedem o conclave e permanecem em sua
duração, reflitamos com Leonardo Boff, sem preconceito com seu ensinamento,
pois muitos nem o conhecem e como criticam Frei Betto, criticam Boff também.
Leonardo
Boff começa admirando-se da escolha de Bergoglio pelo nome de Francisco, sem
antecedentes. Além de ser “alguém que vem
do fim do mundo”, isto é, da Argentina, do extremo sul da terra, tinha no
nome escolhido, um projeto de Igreja, um programa de vida, centrado no Jesus
histórico e já experimentado por S. Francisco: pobre, amigo dos desprezados e
humilhados, exatamente o que já vivia Bergoglio, até sua escolha para ser Papa.
Não era novidade para ele. Era a continuidade da missão inicial.
Francisco já tinha em
mente, um programa a ser executado. Já o tinha realizado na prática, em uma
circunscrição menor. Agora, ele o aplicaria numa dimensão universal. Francisco
tinha pressa. Queria uma Igreja pobre para os pobres. Despojou-se das vestes
honoríficas, da tradição dos imperadores romanos, cheias de joias, símbolos do
poder absoluto, até então, incorporadas às vestimentas papais. Recusou tudo.
Vestiu um simples manto branco com a Cruz de ferro que sempre usou, quebrou
ritos pra poder estar perto do povo. É claro que isso ia escandalizar a muitos
da velha cristandade europeia, já muito acostumada à pompa e à glória das
vestimentas papais e dos prelados curiais. Tais tradições nada tinham a ver com
o pobre artesão e camponês de Nazaré.
Surpreendendo a todos,
apresenta-se primeiro, como Bispo local: de Roma, como, de fato, o é. Cumulativamente,
de direito, é o Papa: o “papá”, como
dizem as criancinhas. O abbá,
como se diz em aramaico, língua
original do Antigo Testamento. Francisco não quis dar satisfação à lei, mas ao
amor. Escolheu o nome de FRANCISCO para tratar a todos como “irmão e irmã”. Não
quis morar no Palácio Pontifício, para ficar na Casa de hóspedes, Santa Marta.
De imediato, foi dando
a linha do seu modo de pensar e de agir, realçando sua Missão colocada na
preferencia do cuidado com os pobres, especialmente, com os migrantes e assinou,
com pequenos retoques, ainda em 2013, a Carta Encíclica – Lumen Fidei - iniciada
pelo seu antecessor, Bento XVI, embora já transmitindo com muita honradez, um
duro recado: “vocês europeus estiveram
primeiro lá (no fim do mundo de onde eu vim) ocuparam suas terras e riquezas e
foram bem recebidos. Agora eles estão aqui e vocês não estão dispostos a
recebê-los... é a globalização da indiferença”.
O Pontificado de
Francisco, em 12 anos, por várias vezes, se colocou na defesa dos direitos
negados aos mais vulneráveis, nos famosos 03 Ts: Teto, Terra e Trabalho. Tudo
deve começar, por lá, onde moram, para se construir uma comunidade sustentável:
em âmbito mundial, bioregional que supere a acumulação de poucos, com mais
participação e justiça social para muitos.
Depois, escreveu mais
duas Cartas, para dar sustentação e suporte à 1ª que fora feita a 04 mãos: a Laudato Si, sobre o cuidado da
Casa Comum: por uma ecologia integral que implica o meio ambiente, a política,
a economia, a cultura, a vida cotidiana e a espiritualidade ecológica. Também a
Fratelli Tutti, diante da
degradação generalizada dos ecossistemas, em que faz uma severa advertência: “estamos no mesmo barco: ou nos salvamos
todos ou ninguém se salva”. Assim, Francisco se colocou na ponta da
discussão ecológica mundial que vai além da simples ecologia verde e de outras
formas de produção sem nunca questionar o sistema capitalista que, por sua
lógica, cria acumulação de um lado, à custa da exploração do outro, que forma a
imensa maioria.
Ele não trouxe para a
sua Diocese de Roma, como seu Bispo, sua vivência pessoal e pastoral. Ele
trouxe para o mundo, como Pontífice de todos, a ponte que nos liga e não o
muro, ou a cerca que nos separa ou que nos segrega. Sua experiência era a de
entrar nas casas, informar-se dos problemas dos pobres e suscitar esperança em
todos. Os anos vividos na Igreja Particular Argentina foram cheios de polêmicas
e desentendimentos assistencialistas e paternalistas como políticas do estado.
Dizia-lhes com todas as forças, embora lhe faltasse um pulmão, que aquele modo
de conduzir o povo, jamais o levaria à justiça social e à real libertação dos
pobres., a quem era solidário, vivia num modesto apartamento, cozinhava sua
comida, comprava seu jornal e vivia modestamente, como os pobres viviam.
Com todo o seu cabedal
cultural, todas as línguas que falava e com toda a sua experiência de vida, ao
tornar-se Papa, chefe da Igreja no Mundo, não poderia continuar igual aos seus
antecessores. O Papa Francisco só podia mesmo dar o testemunho que deu ao Mundo
e ser admirado por todos como é.
Ele não se apresentou
como Doutor da Fé, mas como um Pastor que acompanhou os fiéis de quem sentiu o cheiro de ovelhas tal a sua
proximidade e compromisso com o povo, exercendo a pastoral
da ternura e amorosidade.
Talvez nenhum Papa na História da Igreja demonstrou tanta coragem quanto ele ao criticar o sistema vigente que mata e que produz duas ferozes injustiças: a ecológica, devastando os ecossistemas, e a injustiça social, explorando, até o sangue, à humanidade. Nunca na história houve tanto acúmulo de riqueza em poucas mãos. É um crime que brada ao céu, ofende o Criador e sacrifica seus filhos e filhas. A mensagem de Francisco é fundada, de modo especial no Jesus Histórico, amigo dos pobres, dos doentes, dos oprimidos e marginalizados. Aí vem o “Conclave”. Esperamos que o eleito dê continuidade a esses bons ventos, soprados pelo mesmo Espírito que nos trouxe Francisco.
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