sábado, 13 de dezembro de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

LUIZ GONZAGA:

amante da natureza, dos animais, dos pássaros, da mulher...

 

No dia 02 de agosto último, rememoramos os 36 anos da morte de Luís Gonzaga, o famoso Rei do Baião, que nascera aos 13 de dezembro de 1912 e neste 13 de dezembro, está completando 113 anos de seu nascimento.

Além do meu amigo escritor/jornalista potiguar, Gildson Oliveira (in memoriam) - que escreveu sobre Gonzagão, chamando-o de “o matuto que conquistou o mundo” - há uma vasta literatura e vídeos sobre o assunto, mas, certamente, poucos se atreveram a mostrar o lado “político” do que ele cantou e ensinou, mesmo sem fazer disso seu “cavalo de batalha”.

            Não é por ter ideia fixa, ou por querer ser diferente dos outros, que o faço. É porque não se pode ensinar nada neste mundo, desligado da realidade.

            O próprio Gonzagão não tinha tanta consciência desse seu papel, pois ele jamais demonstrou ter idéias de política social. Até o víamos, ao contrário: ao lado de políticos reacionários, prestigiando inaugurações de obras faraônicas e, de vez em quando, com uma música, elogiando os dois. Mas isso, não lhe tira o mérito. Ele emprestou sua voz, sua parceria, sua sanfona, sua alegria, seu prestígio e sua simpatia junto ao povo, para transmitir-lhe uma mensagem de esperança.

             Luís Gonzaga não foi um “pop star” na visão que temos hoje, do artista que atrai fãs, enche auditórios, provoca delírios e histerismos e, na maioria das vezes, não transmite mensagem alguma: nem própria, nem de outrem.

            Há alguns que até se dizem, apolíticos, e não têm coragem de tecer um só comentário sobre a situação do país ou do povo. O que lhes importa é vender, lucrar e fazer da arte, um meio de vida e não, um instrumento de conscientização. Quando defendem alguém, é a um direitista reacionário.

            Ultimamente, têm aparecido astros religiosos, esotéricos, místicos ou Gospel, defensores de novas comunidades: exploram bem, os sentimentos do povo, atraindo-o para grandes concentrações, alienando-o da realidade e da reflexão sobre ela. Nem falam nada que o conscientize, nem cantam nada que lhe abra a mente.  E esses agradam muito a governantes reacionários e à MIDIA alienadora. Têm espaço à vontade. Claro, não incomodam a ninguém. 

            Não era o caso do “Rei do Baião”. Além de ter voz, cantava composições de outrem, ou em parceria com ele, cujas letras chamavam a atenção do público para os grandes problemas que nos afligiam. Dedilhava uma sanfona de 120 baixos, tinha um vozeirão de encher qualquer quadra esportiva, mesmo sem serviço de som, e transmitia uma mensagem, voltada para a realidade e para a vida do povo.

            Em 1947 gravou pela RCA o seu “hino nacional”: a ASA BRANCA. Em parceria com Humberto Teixeira, há 78 anos, abordou o tema mais cruciante do Nordeste: A SECA.

            Descreveram a realidade mais nua e crua que, ainda hoje, enfrentamos, e poucos passos foram dados para aliviá-la. Basta pensar na disputa pela “paternidade” da transposição do Rio S Francisco, nas manobras apresentadas pelas autoridades, para irem enganando o povo e o descaso com nossos grandes reservatórios d’água no Nordeste, para entendermos tal realidade.

            Três anos depois, com Zé Dantas, fala da chuva, dos rios, da mata verde, da esperança e da alegria do povo pela VOLTA DA ASA BRANCA.

Como “alegria de pobre dura pouco”, em 1953, com o mesmo Zé Dantas, o tema principal do Nordeste vem à tona, em VOZES DA SECA, oferecendo aos governantes, um verdadeiro programa de desenvolvimento; mas eles não o quiseram pôr em prática. Preferem o povo pedindo esmola, morrendo de vergonha ou viciado na malandragem, dependendo de cestas básicas, de carros pipas, de frentes de emergência e de outros paliativos que produzam votos.

Em 1964 a situação vai de mal a pior. A TRISTE PARTIDA, de Patativa do Assaré, ecoava pelo Brasil afora, como a verdadeira descrição do sofrimento, da dor, do nomadismo, próprio do nordestino, perambulando pelas estradas em busca do sonho, que era São Paulo, onde chegava à triste conclusão:  “Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo, viver como escravo no norte e no sul”...

Mas, a grande lição mesmo, dada por Luís Gonzaga, sem parceria com ninguém, foi quando ele se doou à própria terra, Exu, no Sertão do Araripe, como mediador e pacificador entre membros de tradicionais famílias Exuenses.

Ali ele mostrou que não era partidário de seu ninguém, não era socialista ou reacionário, mas tinha um poder que ninguém tinha: além de ser filho da terra, era o artista mais popular do país.

E foi nessas duas condições que ele se apresentou para resolver o problema, gravando, pela Odeon, essa contundente mensagem:

Volto agora à minha terra

Volto agora ao meu torrão

Trago paz pra minha gente

Trago amor no coração...

E para demonstrar que não estava conversando fiado, e que queria ser, como ensinou São Francisco de Assis, “um instrumento de paz”, transformou um antigo casarão seu, velho e mal-assombrado, nos arredores de Exu, no Parque Asa Branca, com Hotel, abrigo e museu, e ainda desenvolveu lavoura e criação de gado, dando, ele mesmo, o exemplo de que acreditava na paz que estava propondo. Se não acreditasse, não estaria voltando para lá.

O Evangelho diz que “ninguém é profeta em sua terra”; que a sabedoria popular traduz, dizendo que “santo de casa não obra milagre”.

O Rei do Baião desfez as duas máximas: transmitiu um recado aos exuenses e conseguiu o milagre de sua união.



Um homem que tinha as amizades que Luís Gonzaga tinha, não podia ser individualista ou agir diferentemente daquilo que dizemos a seu respeito. Não poderia alimentar egoísmo, vaidade pessoal, sem colocar tais amizades a serviço dos outros. O que ele devia fazer mesmo, era se utilizar delas para fazer o bem, para transmitir uma mensagem, para se perpetuar na história.

Nomes famosos, conhecidos e desconhecidos, fazem parte dessa lista de amigos de Luís Gonzaga: Pedro Raimundo, Renato Murce, César de Alencar, Ari Barroso, Paulo Gracindo, Chacrinha, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Zé Marcolino etc., foram seus parceiros em inúmeras lições de vida.

Lembro-me, tão bem, na Missa do 1º Aniversário da morte do Poeta Zé Marcolino, setembro de 1988, em Serra Talhada, Luís Gonzaga esteve lá. Foi prestar sua solidariedade à família do Poeta e dizer ao grande público ali reunido, da sua gratidão, admiração e saudade do velho companheiro.

E, num gesto concreto de suas palavras, fez um show na AABB de Serra Talhada, cujo rendimento reverteu para a viúva do “Poeta”, a fim de que ela pudesse comprar uma casa para morar.

É desse tipo de homem, com H – maiúsculo, como ele, que nós estamos precisando: na vida pública, na artística, cultural, religiosa e em todos os aspectos. Homens que dêem bons exemplos do começo ao fim de suas vidas, que valorizem as profissões, por mais humildes que sejam, como Luiz Gonzaga o fez e decantou. Propomo-nos a fazer um comentário, sempre nessa visão socio-política, de sua pessoa e de sua mensagem, para mostrar como ele valorizava qualquer profissional, desde que fosse competente.

Não entendo porque não se faz com ele, a mesma coisa que ele fez. Jamais compreenderei – e eu morei lá e observei - porque Pernambuco tem um filho tão ilustre, com tanto conteúdo e mensagem, colocando seu próprio patrimônio à disposição da cultura e da arte, e não o valoriza tanto.

Porque o Parque Asa Branca, a que nos referimos, anteriormente, ficou quase abandonado, carcomido pelo cupim e pelo descaso, e não cumpriu as finalidades para as quais o Rei o destinou?!...

Se, nele, não se realizou a máxima evangélica de que “ninguém é profeta em sua terra”, desmoralizando o ditado popular de que “santo de casa não obra milagre”, pelo exemplo que ele mesmo deu,/ com ele, a situação ocorre, exatamente, como os dois ensinamentos apregoam: quase que o relegaram e desprezaram, sobretudo os poderes públicos.

Somente os amigos e os que vêem na sua obra, um poço de ensinamentos e de lições, estão ligados à sua vida e à sua mensagem.

Nunca imaginamos que, com apenas 36 anos de sua morte, o nosso Rei do Baião, fosse esquecido, em sua própria terra.

Ainda bem que, em outros recantos do Brasil, especialmente, no Centro Sul, a memória de Luiz Gonzaga está respeitada e continua bem lembrada. E isso deixa seus verdadeiros amigos muito felizes e agradecidos pelo reconhecimento que os de fora têm para com ele.

Felizes e agradecidos também, estão todos aqueles e aquelas, que ele decantou e homenageou ao longo de sua vida. Ele não buscava glórias e vantagens somente para si. Ele reconhecia o valor dos outros, sobretudo dos mais humildes, e prestava a eles a mais carinhosa e merecida homenagem.

Começo pelas composições de caráter religioso, dada a grande influência que a fé e a religião tinham em sua origem e em sua vida.

            Jesus, Nossa Senhora, os santos, canonizados ou não, o Papa, os Padres, ocupavam um lugar de destaque, em seu cancioneiro.

            Também aquelas de exaltação às riquezas naturais, belíssimas.

            “Paulo Afonso”, por ex., baião de 1953, com Zé Dantas, é uma louvação do engenheiro ao cassaco, mas é também um brado de esperança no país.

 “Vozes da seca”, do mesmo ano e em parceria com o mesmo Zé Dantas, forma uma verdadeira cartilha de conscientização crítica e política, que jamais será esquecida.

            Uma e outra composições abordam a nossa realidade: otimista, de um lado, sem dúvida, até pra agradar, mas realista, de outro, para chamar atenção.

            E o que dizer daquelas composições de elogios aos mais variados profissionais, mostrando a grandeza do seu coração e das suas mensagens?

            O Vaqueiro, o Viajante, o Barbeiro, o Sanfoneiro, a Parteira, o Alfaiate, o Carteiro, o Chofer de Praça, o Professor, a Rendeira (tricoteira), todos são elogiados pelo Rei do Baião, num reconhecimento do seu valor, da sua arte, da sua função social. São também motivo de risos e alegrias, porque ninguém é de ferro, fazendo-nos ver o lado cômico, ou agradável das pessoas.

            Luiz Gonzaga era um amante da natureza, dos animais, dos pássaros, da mulher e os louvava e homenageava do modo mais carinhoso e respeitoso.

            Entre as aves estão: “pássaro carão”, “codorna”, “acauã”, “assum preto”, “sabiá”, “vem-vem”, “fura-barreira”, “rolinha” e a famosa e internacionalmente, conhecida, “asa branca”, para não nos alongarmos tanto.

            Ao decantar a natureza, ele não escondia a sua paixão, ou seu romantismo e afeto pela obra prima dela, a mulher: “Dona Vera, tricotando”; “Carolina”, “Lígia”, “Verônica”, “Wanda”, “Ivone”, “Marieta”, ”Rosinha”, “Santana”, “Helena”, “Marilu”, “Mara”, “Orélia”, “Xanduzinha”, “Juvita”, “Creuza”, “Severina”, “Juliana”, “Mariá” e outras de quem ele contemplava: a “cintura fina”, a “cintura de pilão”, a “cor morena”, o “balanço”, o “cheiro”, o “cabelo”, sempre preto, a “dança”, e tudo mais que, nelas, o deixava “quase maluco”.

Tenho ainda muito o que falar sobre o Rei do Baião. Por hoje, contentemo-nos com isso. Noutra oportunidade, voltaremos ao assunto. Agrada-me fazê-lo. Ligo-me, constantemente, em filmes, reportagens, redes sociais do Google que, ‘foi não foi’, reaparecem para dar-nos um suspiro.

É graças a esse ‘foi não foi’ que a gente vai aliviando, ou alimentando, ou mesmo, aumentando a saudade que temos e que nunca se deve matá-la.

Temos é que, aumentá-la, cada vez que nele falarmos, para imortalizá-lo na mente, em nossos corações e na conservação e aprofundamento das muitas mensagens e lembranças que ele nos deixou e que ainda vamos carregá-las conosco por muito tempo ainda.

   

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