LUIZ GONZAGA:
amante da natureza, dos
animais, dos pássaros, da mulher...
No dia 02 de agosto último,
rememoramos os 36 anos da morte de Luís Gonzaga, o famoso Rei do Baião, que nascera
aos 13 de dezembro de 1912 e neste 13 de dezembro, está completando 113 anos de
seu nascimento.
Além do meu amigo escritor/jornalista
potiguar, Gildson Oliveira (in memoriam) -
que escreveu sobre Gonzagão, chamando-o de “o matuto que conquistou o mundo” - há
uma vasta literatura e vídeos sobre o assunto, mas, certamente, poucos se
atreveram a mostrar o lado “político” do que ele cantou e ensinou, mesmo sem
fazer disso seu “cavalo de batalha”.
Não
é por ter ideia fixa, ou por querer ser diferente dos outros, que o faço. É
porque não se pode ensinar nada neste mundo, desligado da realidade.
O
próprio Gonzagão não tinha tanta consciência desse seu papel, pois ele jamais
demonstrou ter idéias de política social. Até o víamos, ao contrário: ao lado
de políticos reacionários, prestigiando inaugurações de obras faraônicas e, de
vez em quando, com uma música, elogiando os dois. Mas isso, não lhe tira o
mérito. Ele emprestou sua voz, sua parceria, sua sanfona, sua alegria, seu
prestígio e sua simpatia junto ao povo, para transmitir-lhe uma mensagem de
esperança.
Luís Gonzaga não foi um “pop star” na visão que temos hoje, do artista que atrai fãs, enche
auditórios, provoca delírios e histerismos e, na maioria das vezes, não
transmite mensagem alguma: nem própria, nem de outrem.
Há
alguns que até se dizem, apolíticos, e não têm coragem de tecer um só
comentário sobre a situação do país ou do povo. O que lhes importa é vender,
lucrar e fazer da arte, um meio de vida e não, um instrumento de
conscientização. Quando defendem alguém, é a um direitista reacionário.
Ultimamente,
têm aparecido astros religiosos, esotéricos, místicos ou Gospel, defensores de novas comunidades: exploram bem, os
sentimentos do povo, atraindo-o para grandes concentrações, alienando-o da
realidade e da reflexão sobre ela. Nem falam nada que o conscientize, nem
cantam nada que lhe abra a mente. E
esses agradam muito a governantes reacionários e à MIDIA alienadora. Têm espaço
à vontade. Claro, não incomodam a ninguém.
Não
era o caso do “Rei do Baião”. Além de ter voz, cantava composições de outrem,
ou em parceria com ele, cujas letras chamavam a atenção do público para os
grandes problemas que nos afligiam. Dedilhava uma sanfona de 120 baixos, tinha
um vozeirão de encher qualquer quadra esportiva, mesmo sem serviço de som, e
transmitia uma mensagem, voltada para a realidade e para a vida do povo.
Em
1947 gravou pela RCA o seu “hino nacional”: a ASA BRANCA. Em parceria com
Humberto Teixeira, há 78 anos, abordou o tema mais cruciante do Nordeste: A
SECA.
Descreveram
a realidade mais nua e crua que, ainda hoje, enfrentamos, e poucos passos foram
dados para aliviá-la. Basta pensar na disputa pela “paternidade” da
transposição do Rio S Francisco, nas manobras apresentadas pelas autoridades,
para irem enganando o povo e o descaso com nossos grandes reservatórios d’água
no Nordeste, para entendermos tal realidade.
Três
anos depois, com Zé Dantas, fala da chuva, dos rios, da mata verde, da
esperança e da alegria do povo pela VOLTA DA ASA BRANCA.
Como “alegria de pobre dura
pouco”, em 1953, com o mesmo Zé Dantas, o tema principal do Nordeste vem à
tona, em VOZES DA SECA, oferecendo aos governantes, um verdadeiro programa de
desenvolvimento; mas eles não o quiseram pôr em prática. Preferem o povo
pedindo esmola, morrendo de vergonha ou viciado na malandragem, dependendo de
cestas básicas, de carros pipas, de frentes de emergência e de outros
paliativos que produzam votos.
Em 1964 a situação vai de mal a
pior. A TRISTE PARTIDA, de Patativa do Assaré, ecoava pelo Brasil afora, como a
verdadeira descrição do sofrimento, da dor, do nomadismo, próprio do
nordestino, perambulando pelas estradas em busca do sonho, que era São Paulo,
onde chegava à triste conclusão: “Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo,
viver como escravo no norte e no sul”...
Mas, a grande lição mesmo, dada
por Luís Gonzaga, sem parceria com ninguém, foi quando ele se doou à própria
terra, Exu, no Sertão do Araripe, como mediador e pacificador entre membros de
tradicionais famílias Exuenses.
Ali ele mostrou que não era
partidário de seu ninguém, não era socialista ou reacionário, mas tinha um
poder que ninguém tinha: além de ser filho da terra, era o artista mais popular
do país.
E foi nessas duas condições que
ele se apresentou para resolver o problema, gravando, pela Odeon, essa
contundente mensagem:
Volto agora à minha terra
Volto agora ao meu torrão
Trago paz pra minha gente
Trago amor no coração...
E para demonstrar que não
estava conversando fiado, e que queria ser, como ensinou São Francisco de
Assis, “um instrumento de paz”, transformou um antigo casarão seu, velho e
mal-assombrado, nos arredores de Exu, no Parque Asa Branca, com Hotel, abrigo e
museu, e ainda desenvolveu lavoura e criação de gado, dando, ele mesmo, o
exemplo de que acreditava na paz que estava propondo. Se não acreditasse, não
estaria voltando para lá.
O Evangelho diz que “ninguém é
profeta em sua terra”; que a sabedoria popular traduz, dizendo que “santo de
casa não obra milagre”.
O Rei do Baião desfez as duas
máximas: transmitiu um recado aos exuenses e conseguiu o milagre de sua união.
Um homem que tinha as amizades
que Luís Gonzaga tinha, não podia ser individualista ou agir diferentemente
daquilo que dizemos a seu respeito. Não poderia alimentar egoísmo, vaidade
pessoal, sem colocar tais amizades a serviço dos outros. O que ele devia fazer
mesmo, era se utilizar delas para fazer o bem, para transmitir uma mensagem,
para se perpetuar na história.
Nomes famosos, conhecidos e
desconhecidos, fazem parte dessa lista de amigos de Luís Gonzaga: Pedro
Raimundo, Renato Murce, César de Alencar, Ari Barroso, Paulo Gracindo,
Chacrinha, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Zé Marcolino etc., foram seus
parceiros em inúmeras lições de vida.
Lembro-me, tão bem, na Missa do
1º Aniversário da morte do Poeta
Zé Marcolino, setembro de 1988, em Serra Talhada, Luís Gonzaga esteve
lá. Foi prestar sua solidariedade à família do Poeta e dizer ao grande público ali reunido, da sua
gratidão, admiração e saudade do velho companheiro.
E, num gesto concreto de suas
palavras, fez um show na AABB de Serra Talhada, cujo rendimento reverteu para a
viúva do “Poeta”, a fim de que ela pudesse comprar uma casa para morar.
É desse tipo de homem, com H –
maiúsculo, como ele, que nós estamos precisando: na vida pública, na artística,
cultural, religiosa e em todos os aspectos. Homens que dêem bons exemplos do
começo ao fim de suas vidas, que valorizem as profissões, por mais humildes que
sejam, como Luiz Gonzaga o fez e decantou. Propomo-nos a fazer um comentário,
sempre nessa visão socio-política, de sua pessoa e de sua mensagem, para
mostrar como ele valorizava qualquer profissional, desde que fosse competente.
Não entendo porque não se faz
com ele, a mesma coisa que ele fez. Jamais compreenderei – e eu morei lá e
observei - porque Pernambuco tem um filho tão ilustre, com tanto conteúdo e
mensagem, colocando seu próprio patrimônio à disposição da cultura e da arte, e
não o valoriza tanto.
Porque o Parque Asa Branca, a
que nos referimos, anteriormente, ficou quase abandonado, carcomido pelo cupim
e pelo descaso, e não cumpriu as finalidades para as quais o Rei o
destinou?!...
Se, nele, não se realizou a máxima evangélica de que “ninguém é profeta
em sua terra”, desmoralizando o ditado popular de que “santo de casa não obra
milagre”, pelo exemplo que ele mesmo deu,/ com
ele, a situação ocorre, exatamente, como os dois ensinamentos apregoam: quase
que o relegaram e desprezaram, sobretudo os poderes públicos.
Somente os amigos e os que vêem
na sua obra, um poço de ensinamentos e de lições, estão ligados à sua vida e à
sua mensagem.
Nunca imaginamos que, com
apenas 36 anos de sua morte, o nosso Rei do Baião, fosse esquecido, em sua
própria terra.
Ainda bem que, em outros
recantos do Brasil, especialmente, no Centro Sul, a memória de Luiz Gonzaga
está respeitada e continua bem lembrada. E isso deixa seus verdadeiros amigos
muito felizes e agradecidos pelo reconhecimento que os de fora têm para com
ele.
Felizes e agradecidos também,
estão todos aqueles e aquelas, que ele decantou e homenageou ao longo de sua
vida. Ele não buscava glórias e vantagens somente para si. Ele reconhecia o
valor dos outros, sobretudo dos mais humildes, e prestava a eles a mais
carinhosa e merecida homenagem.
Começo pelas composições de caráter religioso, dada
a grande influência que a fé e a religião tinham em sua origem e em sua vida.
Jesus,
Nossa Senhora, os santos, canonizados ou não, o Papa, os Padres, ocupavam um
lugar de destaque, em seu cancioneiro.
Também
aquelas de exaltação às riquezas
naturais, belíssimas.
“Paulo
Afonso”, por ex., baião de 1953, com Zé Dantas, é uma louvação do engenheiro ao
cassaco, mas é também um brado de esperança no país.
“Vozes da seca”, do mesmo ano e em parceria
com o mesmo Zé Dantas, forma uma verdadeira cartilha de conscientização crítica
e política, que jamais será esquecida.
Uma
e outra composições abordam a nossa realidade: otimista, de um lado, sem
dúvida, até pra agradar, mas realista, de outro, para chamar atenção.
E
o que dizer daquelas composições de elogios
aos mais variados profissionais, mostrando a grandeza do seu coração e das
suas mensagens?
O
Vaqueiro, o Viajante, o Barbeiro, o Sanfoneiro, a Parteira, o Alfaiate, o
Carteiro, o Chofer de Praça, o Professor, a Rendeira (tricoteira), todos são
elogiados pelo Rei do Baião, num reconhecimento do seu valor, da sua arte, da
sua função social. São também motivo de risos e alegrias, porque ninguém é de
ferro, fazendo-nos ver o lado cômico, ou agradável das pessoas.
Luiz
Gonzaga era um amante da natureza, dos animais, dos
pássaros, da mulher e os louvava e homenageava do modo mais carinhoso e
respeitoso.
Entre
as aves estão: “pássaro carão”, “codorna”, “acauã”, “assum preto”, “sabiá”,
“vem-vem”, “fura-barreira”, “rolinha” e a famosa e internacionalmente,
conhecida, “asa branca”, para não nos alongarmos tanto.
Ao
decantar a natureza, ele não escondia a sua paixão, ou seu romantismo e afeto
pela obra prima dela, a mulher: “Dona Vera, tricotando”; “Carolina”, “Lígia”,
“Verônica”, “Wanda”, “Ivone”, “Marieta”, ”Rosinha”, “Santana”, “Helena”,
“Marilu”, “Mara”, “Orélia”, “Xanduzinha”, “Juvita”, “Creuza”, “Severina”,
“Juliana”, “Mariá” e outras de quem ele contemplava: a “cintura fina”, a
“cintura de pilão”, a “cor morena”, o “balanço”, o “cheiro”, o “cabelo”, sempre
preto, a “dança”, e tudo mais que, nelas, o deixava “quase maluco”.
Tenho ainda muito o que falar
sobre o Rei do Baião. Por hoje, contentemo-nos com isso. Noutra oportunidade,
voltaremos ao assunto. Agrada-me fazê-lo. Ligo-me, constantemente, em filmes,
reportagens, redes sociais do Google que, ‘foi não foi’, reaparecem para
dar-nos um suspiro.
É graças a esse ‘foi não foi’
que a gente vai aliviando, ou alimentando, ou mesmo, aumentando a saudade que
temos e que nunca se deve matá-la.
Temos é que, aumentá-la, cada vez que nele falarmos, para imortalizá-lo na mente, em nossos corações e na conservação e aprofundamento das muitas mensagens e lembranças que ele nos deixou e que ainda vamos carregá-las conosco por muito tempo ainda.



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