UMA DECLARAÇÃO DE AMOR
Reflexão de
M. Goretti, ‘mãe do coração’ de J. Murilo, em seus 18 anos.
Meu amor!
Falar em você e de você sempre foi um prazer. Desde seu nascimento (15/01/2008),
vivemos juntos, uma linda história, onde aprendi muito com você, meu anjo. Vou
recordar alguns momentos, já no seu 1º ano, que penso você não lembrar, mas há outros,
mais recentes, que lembrará.
Quando você
tinha dois anos, o levamos ao Aeroporto de Fortaleza para ver os aviões
decolando e aterrissando. Você ficou encantado, olhando para o céu e
contemplando o imenso “pássaro metálico” fazendo suas manobras. Mas quando o
primeiro avião aterrissou e andou pela pista, que decepção! Toda a expectativa
se externou num frio comentário: “um
carro, um carro”! e logo quis ir embora, já buscando outros encantos.
À saída do
Aeroporto, observou que as portas se abriam e se fechavam, diante da simples
aproximação ou afastamento das pessoas. Aí foi difícil parar a sua brincadeira
diante das portas que “obedeciam” ao seu comando, fazendo os passageiros
adultos pararem para verem você se divertindo. Desde o início foi assim a nossa
vida: uma sucessão de alegrias, de surpresas e de aprendizagem mútua. De sua
parte se mostrou, desde cedo, uma criança sensível e companheira.
Em outra
oportunidade, estávamos em Sobral, numa Pizzaria. Você tinha 03 anos. Passou um
menininho, mais ou menos do seu tamanho, pedindo um pouquinho de comida. Como a
pizza, ainda não estava pronta, ele foi embora e você o acompanhou com os
olhos, até desaparecer. Quando a pizza chegou, você falou: “queria tanto que aquele menino viesse para eu dar um pedaço de pizza
pra ele”! Bateu-lhe uma tristeza... e o pedido para que fôssemos
procurá-lo.
É, meu amor,
apesar da pouca idade, você já demonstrou sensibilidade para o problema social
de seu “irmãozinho”! Agradeci a Deus por me tê-lo presenteado com tamanha
graça.
Em sua
primeira viagem de avião, fomos com você a Recife: o ‘vovô padre’ e eu. Você
tinha seus 03 aninhos. Observava tudo: sinais luminosos, uso de cinto, de
toilete, da mesinha para refeição, fone de ouvido, telefone no “modo avião”,
até o nervosismo da ‘Mamá’ com o seu tradicional medo de viajar. Foi à cabine
falar com o piloto, fez fotografia com ele, teve um tal desempenho e
desenvoltura que a Mamá esqueceu que estava dentro do avião, transformando suas
viagens, dali pra frente, menos sofridas. Temos viajado bastante e graças a
você e seu jeitinho carinhoso de falar, a distração que você me faz, ‘de que não precisa ter medo, que está tudo
bem’ que o tempo passa e a viagem se torna mais rápida e agradável. Sem dúvida alguma, você é meu raio de sol que
torna meus dias mais iluminados.
Nossos
preciosos momentos continuam. Numa de nossas viagens para Fortaleza, logo à
entrada, pela Av. Bezerra de Menezes, até nossa chegada na Tia Zuzuis, você
queria saber tudo o que estava escrito nas placas, nas propagandas e nas
paredes. Você não se conformava em não saber ler, rapidamente. Quando ia
decifrando algo pra ler, já havia passado; e você dizia: “eu nunca vou ler
igual a vocês”. Nós lhe dizíamos: “vai, nenê, é porque você é muito pequenino
ainda”. De fato, hoje você está lendo mais rápido que nós. Já está um rapazinho
e temos vários momentos atuais e você os lembra.
Em 2017
fomos a Sobral assistir a um filme, sugerido por você: “Meu malvado favorito
II”. Ia tudo tão bem quando, de repente, você se engasgou com uma pipoca e
ficou desesperado, dizendo: “mamá, eu vou morrer”. Saímos correndo para o
Hospital da UNIMED, fomos logo atendidos e era apenas uma “palhinha” da pipoca
que arranhou sua garganta. Lembra disso?
Por tudo dou
graças a Deus por você fazer parte da minha vida e por ser essa “pessoinha” tão
especial, solidária e amável que Deus a conserve assim e lhe guie no caminho da
luz. Lembra-se do ocorrido em Fev./2019, com seu “Vovô Padre”? Ele teve um
probleminha de saúde num Domingo, pela manhã. Tivemos que levá-lo,
urgentemente, ao Hospital do Coração e à Santa Casa, em Sobral. Apesar do
desespero que você ficou, vendo seu avô, esquecido, sem falar e raciocinar
direito, você manteve a calma; ia, no carro, conversando com ele, fazendo-lhe
perguntas para que ele as respondesse, de tal modo que o neurologista da Santa
Casa disse ter sido fundamental o seu papel, aguçando o raciocínio do seu avô;
foi um passo para se recuperar. Por isso dizemos: nosso anjo da guarda é você.
Que dizer
sobre o irmão da mamá, seu ‘Tio Marconi’?
Meu irmão
passou 120 dias hospitalizado, por causa de um carcinoma: um tipo de câncer raro. Há 04 anos já vinha
lutando contra ele. Os últimos 04 meses foram de tensão e sofrimento para ele e
para toda a família. Aqui longe, eu recebia notícias todos os dias. Ficava
triste, chorava e você, meu amor, me consolava e me dava ânimo, com palavras
carinhosas, mais ou menos assim: “mamá,
não chora; reza. Tio Marconi vai ficar bem”. E quando chegávamos do
Brasileirão de Parauapebas, no dia 21/05/19, recebi a pior notícia da minha
vida – o falecimento do meu irmão – fiquei pensando: como vou dizer ao João
Murilo? Enchi-me de forças e fui comunicar-lhe. Você chorou muito e desta vez,
eu tive que lhe consolar. Foi muito difícil, mas sua presença é como se fosse o
ar que me dá condição para que eu possa respirar. É só gratidão ter você em
minha vida, meu João. Juntos, pegamos um voo para Recife. Tínhamos que nos
solidarizar com a família.
Momento
muito especial e angustiante foi o que passamos, em julho/ 2019, mais uma vez,
indo para Trindade, no Estado de Goiás, em busca de uma classificação em
Campeonato Brasileiro de Karatê. Nosso ônibus foi atingido, cedo da noite, logo
após o jantar, entre o Piauí e o Maranhão, por objeto não identificado, bem na
janela do nosso lado, cujo vidro foi quebrado. Além de sermos assaltados pelo
pânico, pelo susto e pelo medo, perdi minha bolsa com dinheiro, cartões de
crédito e todos os meus documentos e tendo que me controlar para manter-me
calma e lhe acalmar, abraçado comigo, tenso, chorando, sem conseguir dormir,
soluçando e eu encontrando palavras, explicações para fazê-lo entender que
estávamos vivos, que Deus já nos tinha livrado de coisas piores e que
documentos, dinheiro e cartões nós os conseguiríamos de volta. Foi quando você
falou assim: “é mamá! Amanhã vai ser outro dia e Deus vai fazer o melhor pra
nós”. Conseguimos dormir.
Nas
primeiras horas da madrugada, a previsão do nenê de que “amanhã seria outro dia e que Deus iria fazer o melhor pra nós” já
se concretizou: fomos acordados com a notícia de que “dois anjos irmãos” haviam encontrado tudo: bolsa, dinheiro, cartões
e tudo seria encaminhado para nosso endereço. Você disse: “eu sabia. Deus faria
o melhor para nós”. Sempre confiei na sua fé e isto é o que peço mais a Deus:
que você seja mais fortalecido nessa virtude para fortificar todos nós.
Para
completar minha reflexão sobre você, João Murilo, valho-me de parte de um
artigo escrito por seu avô, Pe. Assis, para o Jornal “Correio da Semana” de
Sobral, intitulado: “Pequena História de um Grande Campeão”.
Durante um
curto espaço de tempo, João Murilo – à época, com 11 anos – já conquistara 40
Medalhas em Campeonatos Mundiais, Brasileiros, Sul e Pan-Americanos, Cearenses
e em Circuitos pelo Vale do Acaraú: 09 Ouro, 14 Prata e 17 Bronze. Além de ter
conquistado ainda 02 Troféus de “Melhor Atleta” em 2014 e 2017.
Entre os
dias 17 e 20 de Outubro de 2019, a convite da Confederação Brasileira de Karatê
Esportivo, João Murilo participou da delegação nacional no Campeonato Mundial
em Fortaleza, onde mais de mil atletas, procedentes de 32 países, encheram os
olhos, os hotéis, as áreas de lazer e os tatames da super quadra do Ginásio de
Esportes, Paulo Sarasate, por 04 dias inteiros e intensos, amealhando mais duas
medalhas: uma de Katá em equipe e outra de Kumitê individual.
Os 700
Atletas Brasileiros se sobressaíram como Campeões Mundiais – o João Murilo
estava entre eles – cabendo à aguerrida Delegação Italiana, o 2º lugar. Todos
já se sentiam estimulados e até convidados a participarem do 5º Campeonato
Mundial, na Itália, em 2021. Todo mundo sabe: a Pandemia atrapalhou nossos
planos. Não fomos à Itália. O sufoco foi passando e João Murilo assumiu “aulas
de Karatê” no I.I.C. em troco da sua ‘mensalidade’, até poder reaparecer em
treinos e tatames de competições: Pan-americanas, Brasileirões, Cearenses e Circuitos
Regionais. Recomeçou sua vida esportiva.
Até esse intervalo pandêmico involuntário,
ao chegar das Competições fazíamos uma recepção festiva, com foguetes, a
qualquer hora, para anunciar a chegada do Campeão. Dependendo da hora,
servia-se um pouco de suco, salgadinhos, para alegrá-lo e alegrar os fãs que o
ficavam esperando.
Às vezes,
ouvíamos comentários assim: ‘este menino
está estudando’? ‘Este esporte não está atrapalhando’? É claro, o João era
bem orientado. Estava crescendo e entendendo que o esporte não atrapalha.
Ajuda. Não se faz mais a “festividade” da chegada, porque, de fato, ele
cresceu, não só, fisicamente, como intelectualmente. Continua sendo o meu João,
o meu nenê.
Foi ao Mundial da Argentina. Aos
Pan-americanos, onde quer que se tenham realizado, inclusive o último do ano,
em Natal – RN, de 19 a 23/11 e em todos os anos, nas 03 Etapas do Brasileirão,
que acontecem em qualquer ponto do país. Para quem pensava que você se dedicava
ao esporte e deixava os estudos, sempre dissemos e continuamos a dizer-lhe: “você faz parte daqueles que estão no melhor
caminho: do esporte, da academia, do Pilates”.
Eu disse ali
acima que você ‘cresceu física e
intelectualmente’, isto é, amadureceu.
De 23 a 27/04 do ano passado, você estava com 17 anos. Fomos participar de um
campeonato em Taubaté – SP. No sábado, 26, antes da sua competição, sua tia
Ivete, minha irmã, pensando em não me chocar, deu-lhe a notícia da morte de seu
tio, nosso irmão Eugênio. Foi um susto, mas você resistiu melhor do que quando
morreu seu tio Marconi. Você deu-me força.
Incentivamos
um ao outro. Vá em frente, campeão! Você faz parte daqueles que estão no melhor
caminho: o do esporte. Fuja do mal, do vício, da droga, com ‘uma mente sã, num corpo são’. Parabéns
por estudar!
Parabéns,
por estar completando 18 anos. Quando seu avô lhe deu uma Suíte com A.C.,
computador, telefone, note book dizia-lhe que tal conforto era instrumento de
estudos. Lembro-me de tê-lo ouvido falar-lhe, mostrando a Biblioteca dele, lá
na Fazenda: “este foi o modo que eu tive
de usar para aprender. Foi preciso ‘queimar as pestanas’ lendo tudo isso,
diariamente, se quisesse aprender, entender e armazenar conhecimentos”.
Tantos anos
depois, os métodos de estudo, as tarefas escolares, o modo de avaliar
conhecimentos, tudo mudou; e mudou para melhor; aproveite esse momento. O ENEM
já o pôs no Curso de Educ. Física da Universidade e já lhe está
garantindo um início de trabalho remunerado
Até o Papa
Leão XIV, Cientista e Matemático, está usando o Modo Digital para organizar os
Arquivos da Igreja e a Economia do Vaticano.
É o que
espero de você, meu filho. Você está “com a faca e o queijo na mão”. Com tanta
tecnologia, com tantos novos caminhos abertos a serem seguidos, ainda é a
sabedoria popular quem me está sugerindo fechar minha reflexão. Continue a ser
um exemplo para todos e sua luz nunca se apagará.
Quero honrá-lo, respeitá-lo e amá-lo por toda a vida. Sua Mamá.




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