sábado, 17 de janeiro de 2026

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

UMA DECLARAÇÃO       DE AMOR

                O Mons. Assis Rocha compartilha este espaço coma Professora Goretti Jerônimo 

Reflexão de M. Goretti, ‘mãe do coração’ de J. Murilo, em seus 18 anos.

Meu amor! Falar em você e de você sempre foi um prazer. Desde seu nascimento (15/01/2008), vivemos juntos, uma linda história, onde aprendi muito com você, meu anjo. Vou recordar alguns momentos, já no seu 1º ano, que penso você não lembrar, mas há outros, mais recentes, que lembrará.

Quando você tinha dois anos, o levamos ao Aeroporto de Fortaleza para ver os aviões decolando e aterrissando. Você ficou encantado, olhando para o céu e contemplando o imenso “pássaro metálico” fazendo suas manobras. Mas quando o primeiro avião aterrissou e andou pela pista, que decepção! Toda a expectativa se externou num frio comentário: “um carro, um carro”! e logo quis ir embora, já buscando outros encantos.

À saída do Aeroporto, observou que as portas se abriam e se fechavam, diante da simples aproximação ou afastamento das pessoas. Aí foi difícil parar a sua brincadeira diante das portas que “obedeciam” ao seu comando, fazendo os passageiros adultos pararem para verem você se divertindo. Desde o início foi assim a nossa vida: uma sucessão de alegrias, de surpresas e de aprendizagem mútua. De sua parte se mostrou, desde cedo, uma criança sensível e companheira.

Em outra oportunidade, estávamos em Sobral, numa Pizzaria. Você tinha 03 anos. Passou um menininho, mais ou menos do seu tamanho, pedindo um pouquinho de comida. Como a pizza, ainda não estava pronta, ele foi embora e você o acompanhou com os olhos, até desaparecer. Quando a pizza chegou, você falou: “queria tanto que aquele menino viesse para eu dar um pedaço de pizza pra ele”! Bateu-lhe uma tristeza... e o pedido para que fôssemos procurá-lo.

É, meu amor, apesar da pouca idade, você já demonstrou sensibilidade para o problema social de seu “irmãozinho”! Agradeci a Deus por me tê-lo presenteado com tamanha graça.

Em sua primeira viagem de avião, fomos com você a Recife: o ‘vovô padre’ e eu. Você tinha seus 03 aninhos. Observava tudo: sinais luminosos, uso de cinto, de toilete, da mesinha para refeição, fone de ouvido, telefone no “modo avião”, até o nervosismo da ‘Mamá’ com o seu tradicional medo de viajar. Foi à cabine falar com o piloto, fez fotografia com ele, teve um tal desempenho e desenvoltura que a Mamá esqueceu que estava dentro do avião, transformando suas viagens, dali pra frente, menos sofridas. Temos viajado bastante e graças a você e seu jeitinho carinhoso de falar, a distração que você me faz, ‘de que não precisa ter medo, que está tudo bem’ que o tempo passa e a viagem se torna mais rápida e agradável.  Sem dúvida alguma, você é meu raio de sol que torna meus dias mais iluminados.

Nossos preciosos momentos continuam. Numa de nossas viagens para Fortaleza, logo à entrada, pela Av. Bezerra de Menezes, até nossa chegada na Tia Zuzuis, você queria saber tudo o que estava escrito nas placas, nas propagandas e nas paredes. Você não se conformava em não saber ler, rapidamente. Quando ia decifrando algo pra ler, já havia passado; e você dizia: “eu nunca vou ler igual a vocês”. Nós lhe dizíamos: “vai, nenê, é porque você é muito pequenino ainda”. De fato, hoje você está lendo mais rápido que nós. Já está um rapazinho e temos vários momentos atuais e você os lembra.

Em 2017 fomos a Sobral assistir a um filme, sugerido por você: “Meu malvado favorito II”. Ia tudo tão bem quando, de repente, você se engasgou com uma pipoca e ficou desesperado, dizendo: “mamá, eu vou morrer”. Saímos correndo para o Hospital da UNIMED, fomos logo atendidos e era apenas uma “palhinha” da pipoca que arranhou sua garganta. Lembra disso?

Por tudo dou graças a Deus por você fazer parte da minha vida e por ser essa “pessoinha” tão especial, solidária e amável que Deus a conserve assim e lhe guie no caminho da luz. Lembra-se do ocorrido em Fev./2019, com seu “Vovô Padre”? Ele teve um probleminha de saúde num Domingo, pela manhã. Tivemos que levá-lo, urgentemente, ao Hospital do Coração e à Santa Casa, em Sobral. Apesar do desespero que você ficou, vendo seu avô, esquecido, sem falar e raciocinar direito, você manteve a calma; ia, no carro, conversando com ele, fazendo-lhe perguntas para que ele as respondesse, de tal modo que o neurologista da Santa Casa disse ter sido fundamental o seu papel, aguçando o raciocínio do seu avô; foi um passo para se recuperar. Por isso dizemos: nosso anjo da guarda é você.

Que dizer sobre o irmão da mamá, seu ‘Tio Marconi’?

Meu irmão passou 120 dias hospitalizado, por causa de um carcinoma: um tipo de câncer raro. Há 04 anos já vinha lutando contra ele. Os últimos 04 meses foram de tensão e sofrimento para ele e para toda a família. Aqui longe, eu recebia notícias todos os dias. Ficava triste, chorava e você, meu amor, me consolava e me dava ânimo, com palavras carinhosas, mais ou menos assim: “mamá, não chora; reza. Tio Marconi vai ficar bem”. E quando chegávamos do Brasileirão de Parauapebas, no dia 21/05/19, recebi a pior notícia da minha vida – o falecimento do meu irmão – fiquei pensando: como vou dizer ao João Murilo? Enchi-me de forças e fui comunicar-lhe. Você chorou muito e desta vez, eu tive que lhe consolar. Foi muito difícil, mas sua presença é como se fosse o ar que me dá condição para que eu possa respirar. É só gratidão ter você em minha vida, meu João. Juntos, pegamos um voo para Recife. Tínhamos que nos solidarizar com a família.

Momento muito especial e angustiante foi o que passamos, em julho/ 2019, mais uma vez, indo para Trindade, no Estado de Goiás, em busca de uma classificação em Campeonato Brasileiro de Karatê. Nosso ônibus foi atingido, cedo da noite, logo após o jantar, entre o Piauí e o Maranhão, por objeto não identificado, bem na janela do nosso lado, cujo vidro foi quebrado. Além de sermos assaltados pelo pânico, pelo susto e pelo medo, perdi minha bolsa com dinheiro, cartões de crédito e todos os meus documentos e tendo que me controlar para manter-me calma e lhe acalmar, abraçado comigo, tenso, chorando, sem conseguir dormir, soluçando e eu encontrando palavras, explicações para fazê-lo entender que estávamos vivos, que Deus já nos tinha livrado de coisas piores e que documentos, dinheiro e cartões nós os conseguiríamos de volta. Foi quando você falou assim: “é mamá! Amanhã vai ser outro dia e Deus vai fazer o melhor pra nós”. Conseguimos dormir.

Nas primeiras horas da madrugada, a previsão do nenê de que “amanhã seria outro dia e que Deus iria fazer o melhor pra nós” já se concretizou: fomos acordados com a notícia de que “dois anjos irmãos” haviam encontrado tudo: bolsa, dinheiro, cartões e tudo seria encaminhado para nosso endereço. Você disse: “eu sabia. Deus faria o melhor para nós”. Sempre confiei na sua fé e isto é o que peço mais a Deus: que você seja mais fortalecido nessa virtude para fortificar todos nós.

Para completar minha reflexão sobre você, João Murilo, valho-me de parte de um artigo escrito por seu avô, Pe. Assis, para o Jornal “Correio da Semana” de Sobral, intitulado: “Pequena História de um Grande Campeão”.

Durante um curto espaço de tempo, João Murilo – à época, com 11 anos – já conquistara 40 Medalhas em Campeonatos Mundiais, Brasileiros, Sul e Pan-Americanos, Cearenses e em Circuitos pelo Vale do Acaraú: 09 Ouro, 14 Prata e 17 Bronze. Além de ter conquistado ainda 02 Troféus de “Melhor Atleta” em 2014 e 2017.

Entre os dias 17 e 20 de Outubro de 2019, a convite da Confederação Brasileira de Karatê Esportivo, João Murilo participou da delegação nacional no Campeonato Mundial em Fortaleza, onde mais de mil atletas, procedentes de 32 países, encheram os olhos, os hotéis, as áreas de lazer e os tatames da super quadra do Ginásio de Esportes, Paulo Sarasate, por 04 dias inteiros e intensos, amealhando mais duas medalhas: uma de Katá em equipe e outra de Kumitê individual.

Os 700 Atletas Brasileiros se sobressaíram como Campeões Mundiais – o João Murilo estava entre eles – cabendo à aguerrida Delegação Italiana, o 2º lugar. Todos já se sentiam estimulados e até convidados a participarem do 5º Campeonato Mundial, na Itália, em 2021. Todo mundo sabe: a Pandemia atrapalhou nossos planos. Não fomos à Itália. O sufoco foi passando e João Murilo assumiu “aulas de Karatê” no I.I.C. em troco da sua ‘mensalidade’, até poder reaparecer em treinos e tatames de competições: Pan-americanas, Brasileirões, Cearenses e Circuitos Regionais. Recomeçou sua vida esportiva.

Até esse intervalo pandêmico involuntário, ao chegar das Competições fazíamos uma recepção festiva, com foguetes, a qualquer hora, para anunciar a chegada do Campeão. Dependendo da hora, servia-se um pouco de suco, salgadinhos, para alegrá-lo e alegrar os fãs que o ficavam esperando.

Às vezes, ouvíamos comentários assim: ‘este menino está estudando’? ‘Este esporte não está atrapalhando’? É claro, o João era bem orientado. Estava crescendo e entendendo que o esporte não atrapalha. Ajuda. Não se faz mais a “festividade” da chegada, porque, de fato, ele cresceu, não só, fisicamente, como intelectualmente. Continua sendo o meu João, o meu nenê.  

  Foi ao Mundial da Argentina. Aos Pan-americanos, onde quer que se tenham realizado, inclusive o último do ano, em Natal – RN, de 19 a 23/11 e em todos os anos, nas 03 Etapas do Brasileirão, que acontecem em qualquer ponto do país. Para quem pensava que você se dedicava ao esporte e deixava os estudos, sempre dissemos e continuamos a dizer-lhe: “você faz parte daqueles que estão no melhor caminho: do esporte, da academia, do Pilates”.

Eu disse ali acima que você ‘cresceu física e intelectualmente’, isto é, amadureceu. De 23 a 27/04 do ano passado, você estava com 17 anos. Fomos participar de um campeonato em Taubaté – SP. No sábado, 26, antes da sua competição, sua tia Ivete, minha irmã, pensando em não me chocar, deu-lhe a notícia da morte de seu tio, nosso irmão Eugênio. Foi um susto, mas você resistiu melhor do que quando morreu seu tio Marconi. Você deu-me força.

Incentivamos um ao outro. Vá em frente, campeão! Você faz parte daqueles que estão no melhor caminho: o do esporte. Fuja do mal, do vício, da droga, com ‘uma mente sã, num corpo são’. Parabéns por estudar!

Parabéns, por estar completando 18 anos. Quando seu avô lhe deu uma Suíte com A.C., computador, telefone, note book dizia-lhe que tal conforto era instrumento de estudos. Lembro-me de tê-lo ouvido falar-lhe, mostrando a Biblioteca dele, lá na Fazenda: “este foi o modo que eu tive de usar para aprender. Foi preciso ‘queimar as pestanas’ lendo tudo isso, diariamente, se quisesse aprender, entender e armazenar conhecimentos”.

Tantos anos depois, os métodos de estudo, as tarefas escolares, o modo de avaliar conhecimentos, tudo mudou; e mudou para melhor; aproveite esse momento. O ENEM já o pôs no Curso de Educ. Física da Universidade e já lhe está garantindo um início de trabalho remunerado

Até o Papa Leão XIV, Cientista e Matemático, está usando o Modo Digital para organizar os Arquivos da Igreja e a Economia do Vaticano.

É o que espero de você, meu filho. Você está “com a faca e o queijo na mão”. Com tanta tecnologia, com tantos novos caminhos abertos a serem seguidos, ainda é a sabedoria popular quem me está sugerindo fechar minha reflexão. Continue a ser um exemplo para todos e sua luz nunca se apagará.

         Quero honrá-lo, respeitá-lo e amá-lo por toda a vida. Sua Mamá.      

        

   

 




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