Aparições de N. Senhora, em Pesqueira – Pe. -1936
Dando sequencia a estes Comentários sobre os exercícios marianos, tradicionalmente,
celebrados dentro do Mês de maio, ao me referir, no último sábado, sobre as
Aparições de Maria, em Fátima, Portugal, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917,
referi-me a semelhantes Aparições em outros lugares do mundo, citando uma no
Brasil, 19 anos depois – 1936 - em Cimbres, interior de Pernambuco. Não
esqueci de citar, rapidamente, outras famosas e divulgadas “mundo afora”, mas
gostaria de me deter nesta acontecida e menos divulgada, aqui no Nordeste
Brasileiro, onde existimos e moramos. Espero agradá-los.
Quatro
anos depois, do início destas Aparições, eu nasci, aqui no Ceará, em 1940. Com
11 anos fui para o Seminário de Sobral, mas não tomei conhe-cimento da ‘novidade’,
pois, naquele tempo, a distancia entre Sobral e um vila-rejo do interior de
Pernambuco, em todos os aspectos, era intransponível.
Só
quando completei vinte anos, saí do Ceará para cursar Filosofia e Teologia no
Seminário de Olinda. Foi quando comecei a ouvir falar em Cimbres e nas
Aparições de Nossa Senhora, porque, bem perto do Seminário havia a Academia
Santa Gertrudes e um contíguo Colégio das Irmãs Dorotéias, onde vivia uma
Freira, Irmã Adélia, que tinha sido uma das videntes de Nossa Sra. em Cimbres e
era comparada com a Irmã Lúcia, vidente de Fátima.
Os
seminaristas tínhamos 02 motivos pra visitar a Academia e o Colégio; aliás,
motivos bem diferentes: na Academia havia uma linda freira Austro-germânica
(Irmã Shneider), irmã da não menos bela atriz Romy Shneider, que fazia muito sucesso nas telas cinematográficas da
época. Morreu em 1982.
No
Colégio havia a Irmã Adélia, que se chamava Maria da Luz, à época das Aparições
em Cimbres. Por causa dela, conheci o Padre José Kehrle, que era alemão, vivia
no Brasil desde 1909 e trabalhara em Quixadá, no Ceará e se transferira,
inicialmente, para Floresta em Pernambuco, seguindo para Arcoverde, Serra
Talhada, Belmonte, Venturosa, Afogados da Ingazeira, Brejo da Madre de Deus e
Pesqueira, à época das Aparições, onde prestou um grande serviço, intermediando
o diálogo entre Maria e as 02 crianças videntes: Maria da Conceição e Maria da
Luz, que se tornou a freira, Ir. Maria Adélia.
Como
em Fátima, corria entre o povo, a ‘descrença’
nas crianças. Então, o Bispo de Pesqueira, Dom Alberto Accioly Sobral designou
o Padre José Kehrle para ir até o
local das Aparições para observar o contato de Nossa Senhora com as crianças e
ele usou de uma pedagogia interessante: dirigia-se a Maria em latim ou alemão e
falava em português, a resposta dada por ela.
Daí,
porque, o Padre Kehrle se tornou uma figura central no contexto das Aparições de Nossa Senhora, iniciadas em 06 de agosto de
1936, no Sítio Guarda (Vila de Cimbres) relatadas por Maria da Luz e Maria
da Conceição.
Eu
me tornei padre em 04 de agosto de 1968, em Bela Cruz – CE; e o Padre José
Kehrle morreu aos 06 de gosto, de 1968, em Buíque – PE.
Vejam
a coincidência: as Aparições iniciaram
no dia 06 de agosto e o Padre Kehrle terminou
seus dias, também aos 06 de agosto: 42 anos depois. A Ir. Adélia
(1922-2013) já está pra ser “canonizada”. Mas, onde ficava Cimbres?
Era
uma comunidade pobre, habitada em sua quase totalidade pelos indígenas Xucurus,
que cultivavam a terra e praticavam o extrativismo vegetal para a subsistência.
Toda a região era palco de intensos conflitos entre a população local e grupos
de cangaceiros que se provocavam, mutuamente, até cometendo assassinatos e não
havia quem apaziguasse os ânimos. Só por um milagre ou por uma “intercessão”
forte, poderia dar-se uma mudança. E veio.
Igreja do Santuário em Cimbres,
Pesqueira, Pernambuco
Exatamente, quando a “servidora” pede a seu
Filho e Ele atende. É o que sempre dizemos, relembramos há poucos dias,
repetimos para ninguém esquecer o que tem dito a palavra oficial da Igreja e o
Papa Leão tem repetido:
“Maria
não é deusa; é intercessora. Meu Filho, eles não têm vinho”. E Jesus
fez o milagre.
Lá em Cimbres ela disse:
“Meu Filho eles não têm paz. Eles vivem em
guerra. Não entendem a cultura dos indígenas. Dá um jeito, meu Filho”.
E outras súplicas semelhantes.
Dom Alberto Sobral falou com o Padre Kehrle e ele usou da
criatividade se comunicando em línguas diferentes para estabelecer o diálogo e
dar credibilidade em quem não estava acreditando. Enfim, ali estava o dedo de Deus e sua
sabedoria divina.
Em
Fátima, Maria pedia para acabar a guerra em curso. Em Cimbres, a mesma Maria
vem apaziguar indígenas, cangaceiros e agricultores em conflitos, “guerreando”
entre si e amedrontando a sociedade.
Em ambas as Aparições, ela pedia a
paz. Nos dias de hoje – em meio a tantas guerras – acompanhamos, ouvimos e
vemos Papa Leão, pedindo a paz e até se referindo ao governante do seu país, os
EEUU, ao afirmar: “o mundo precisa de paz
e não deste delírio de onipotência imprevisível e agressivo”.
Tanto
em Fátima, como em Cimbres, Maria dialoga com os “videntes”. No sábado passado,
apresentamos o diálogo entre Maria e as crianças em Fátima. Hoje quero
apresentar o diálogo com as crianças de Cimbres, com a diferença que, neste, as
crianças estavam intermediadas pelo Pe. José Kehrle como mediador, não só para
dar credibilidade à Igreja, mas ao povo também.
Entre muitas perguntas, girou na Entrevista:
- “Quem sois e o que quereis”?
- “Sou a
Mãe da Graça. Venho avisar-lhes: aproximam-se 3 grandes castigos”.
- “Que é necessário fazer
para desviar tais castigos”
- “Penitencia
e oração”.
- “Qual a invocação desta
aparição”?
- “Das
Graças”.
- “O que significa este
sangue correndo de vossas mãos”?
- “O
sangue que inundará o Brasil, se não vos prevenirdes”.
- “Quais devoções preventivas devemos praticar
para afastar estes males”?
- “Sobretudo
invocar ao Coração de Jesus e a mim”.
Estou
apresentando uma “pequena mostra” do
diálogo entre Maria, Pe. Kehrle e videntes de Cimbres, embora haja perguntas e
respostas em alemão ou latim, que foram um artifício do Bispo de Pesqueira, D.
Alberto, ao ‘designar’ o
experiente, sábio – deixou de ser médico para ser Padre – José Kehrle para
dirimir as inúmeras dúvidas da Igreja e do povo, sobre tais Aparições.
Inicialmente,
todos a queriam chamar de N. Sra. da
Montanha, como já existia na Colômbia desde 1754. No entanto, como Maria se
disse ser “A Mãe da Graça”, Igreja e
Povo a adotaram como sua Padroeira sem mais dúvidas.
Eu
disse ali acima que “o Padre Kehrle se
tornou uma figura central no contexto dessas Aparições”. Seu desempenho foi
tal que ficou até, conhecido como o “Sacerdote da Graça”. Em Buíque, sua última
Paróquia, onde construiu uma Capela a N. Sra. das Graças, morreu em 06 de agosto
de 1968 (02 dias depois de minha ordenação) e nela está sepultado, com esta
inscrição em sua lápide: eu vou
para preparar os vossos lugares junto à nossa Mãe do Céu.
Certamente, o fato de ter eu me comprometido
tanto com este relato e com a região onde ele se deu, eu me tenha dispersado
muito nesta narrativa. Talvez seja o caso de voltar a ela para completá-la. Perdoem-me!