“É fundamental um compromisso autêntico com a verdade e o respeito aos resultados nas eleições”
Quando a Igreja Católica se reuniu em seu
último Concílio Ecumênico - o Vaticano II, em Roma - foi instituída lá, a Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil, há exatos 60 anos.
Retornando de Roma, todos os anos, de lá para cá, a CNBB tem-se encontrado em Assembleia Geral, presencialmente até
bem pouco, e, virtualmente, do início da Pandemia para cá, como aconteceu
agora, na última semana de abril, sempre após as Semanas Santa e da 8ª da
Páscoa.
Em
cada Assembleia dessas, os Senhores Bispos e assessores sempre revisam as
atividades planejadas, avaliam os resultados e fazem novos planos a serem
executados dali pra frente e revisados depois.
Para
esta 59ª Assembleia Geral da CNBB, nossos Bispos católicos, em comunhão e unidade
com o Papa Francisco e com representantes de diversos organismos eclesiais,
dirigiram ao povo de Deus uma mensagem de fé, esperança e de corajoso
compromisso com a vida e o Brasil.
Apesar
da divulgação da CNBB, das Dioceses, Paróquias, Comunidades Eclesiais e dos
Meios de Comunicações ligados à Igreja, a grande imprensa oficial pouco se
interessa em repassar, sobretudo aquela mais negacionista, que vê na mensagem
dos Bispos uma oposição cerrada à realidade política.
Por
certo, aos meus possíveis leitores, não chegou ainda o conteúdo do “comentário”
que quero apresentar hoje, proveniente da CNBB.
“Enche o nosso coração de alegria perceber a
explosão de solidariedade que tem marcado todo o país na luta pela superação do
flagelo sanitário e social da COVID - 19. A partilha de alimentos, bens e
espaços, a assistência a pessoas solitárias e a dedicação incansável dos
profissionais de saúde são apenas alguns exemplos de incontáveis ações
solidarias. Gestores de saúde e agentes públicos, diante de um cenário de medo
e insegurança, foram incansáveis e resilientes. O Sistema Único de Saúde-SUS
mostrou sua fundamental importância e eficácia para a proteção social dos
brasileiros. A consciência lúcida da necessidade dos cuidados sanitários e da
vacinação em massa venceu a negação de soluções apresentadas pela ciência.
Contudo, não nos esquecemos da morte
de mais de 662.000 pessoas e nos solidarizamos com as famílias que perderam
seus entes queridos, trazendo ambas em nossas preces. Agradecemos ainda, de
modo particular às famílias e outros agentes educativos, que não se descuidaram
da educação das crianças, adolescentes, jovens e adultos, apesar de todas as
dificuldades. Com certeza, a pandemia teria consequências ainda mais
devastadoras, se não fosse a atuação das famílias, educadores e pessoas de boa
vontade, espírito solidário e abnegado. A Campanha da Fraternidade 2022 nos
interpela a continuar a luta pela educação integral, inclusiva e de qualidade.
A grave crise sanitária encontrou o
nosso país envolto numa complexa e sistêmica crise ética, econômica, social e
política, que já nos desafiava bem antes da pandemia, escancarando a
desigualdade estrutural, enraizada na sociedade brasileira. A COVID – 19, antes de ser responsável,
acentuou todas essas crises, potencializando-as, especialmente na vida dos mais
pobres e marginalizados.
O quadro atual é gravíssimo. O
Brasil não vai bem! A fome e a insegurança alimentar são um escândalo para o
País, segundo maior exportador de alimentos no mundo, já castigado pela alta
taxa de desemprego e informalidade. Assistimos estarrecidos, mas não inertes, aos
criminosos descuidos com a Terra, nossa casa comum.
Num sistema voraz de ‘exploração e
degradação’ notam-se a dilapidação dos ecossistemas, o desrespeito com os
direitos dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, a perseguição e
criminalização de líderes sócio-ambientais, a precarização das ações de combate
aos crimes contra o meio ambiente e projetos parlamentares desastrosos contra a
casa comum.
Tudo isso desemboca numa violência
latente, explícita e crescente em nossa sociedade. A crueldade das guerras, a
que assistimos pelos meios de comunicação, pode nos deixar anestesiados e
desapercebidos do clima de tensão e violência em que vivemos no campo e nas
cidades. A liberação e o avanço da mineração em terras indígenas e n’outros territórios,
a flexibilização da posse e do porte de armas, a legalização do jogo de azar, o
feminicídio e a repulsa aos pobres não contribuem para a civilização do amor e
ferem a fraternidade universal.
Diante deste cenário esperamos que
os governantes promovam grandes e urgentes mudanças, em harmonia com os Poderes
da República, atendo-se aos princípios e aos valores da Constituição de 1988,
já tão desfigurada por meio de Projetos de Emendas Constitucionais. Não se
permita a perda de direitos dos trabalhadores e dos pobres, grande maioria da
população brasileira. A lógica do confronto que ameaça o estado democrático de
direito e suas instituições, transforma adversários em inimigos, desmonta
conquistas e direitos consolidados, fomenta o ódio nas redes sociais, deteriora
o tecido social e desvia o foco dos desafios fundamentais a serem enfrentados.
Neste contexto, iremos este ano às
urnas. O cenário é de incertezas e radicalismos, mas, potencialmente, carregado
de esperança. Nossas escolhas para o Executivo e Legislativo determinarão o
projeto de nação que desejamos. Urge o
exercício da cidadania, com consciente participação política, capaz de promover
a ‘boa política’, como nos diz o Papa Francisco.
Necessitamos de uma política
salutar, que não se submeta à economia, mas seja capaz de reformar as
instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, como as conquistas
da Lei da Ficha Limpa, Lei Complementar 135 de 2010, que afasta do pleito
eleitoral, candidatos condenados em decisões colegiadas e da Lei 9.840 de 1999
que criminaliza a compra de votos.
Não existe alternativa no campo
democrático fora da política com a ativa participação no processo eleitoral. Tentativas
de ruptura da ordem institucional, hoje propagadas abertamente, buscam colocar
em cheque a lisura do processo eleitoral e a conquista irrevogável do voto. Tumultuar
o processo político, fomentar o caos e estimular ações autoritárias não são, em
definitivo, projeto de interesse do povo brasileiro. Reiteramos nosso apoio às Instituições da
República, particularmente aos servidores públicos, que se dedicam em garantir
a transparência e a integridade das eleições.
Duas ameaças merecem atenção
especial. A primeira é a manipulação religiosa, protagonizada tanto por alguns
políticos como por alguns religiosos, que coloca em prática um projeto de poder
sem afinidade com os valores do Evangelho de Jesus Cristo. A autonomia e
independência do poder civil em relação ao religioso são valores adquiridos e
reconhecidos pela Igreja e fazem parte do patrimônio da civilização ocidental.
A segunda é a disseminação das “fake news”, que através da mentira e do ódio
falseia a realidade. Carregando em si o perigoso potencial de manipular
consciências, elas modificam a vontade popular, afrontam a democracia e
viabilizam, fraudulentamente, projetos orquestrados de poder.
É
fundamental um compromisso autêntico com a verdade e o respeito aos resultados
nas eleições. A democracia brasileira, ainda em construção, não pode ser
colocada em risco. Conclamamos toda a sociedade brasileira a participar das eleições
e a votar com consciência e responsabilidade, escolhendo projetos representados
por candidatos e candidatas comprometidos com a defesa integral da vida,
defendendo-a em todas as suas etapas, desde a concepção até a morte natural.
Que também não negligenciem os direitos humanos e sociais e nossa casa comum
onde a vida se desenvolve.
Todos os cristãos somos chamados a
preocuparmo-nos com a construção de um mundo melhor, por meio do diálogo e da
cultura do encontro, na luta pela justiça e a paz. Agradecemos os muitos gestos
de solidariedade de nossas comunidades, por ocasião da pandemia e dos desastres
ambientais. Encorajamos as organizações e os movimentos sociais a continuarem
se unindo em mutirão pela vida, especialmente por terra, teto e trabalho.
Convidamos a todos, irmãos e irmãs, particularmente a juventude, a deixarem-se guiar pela esperança e pelo desejo de uma sociedade justa e fraterna. Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, obtenha de Deus as bênçãos para todos nós”.
.png)
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário