sexta-feira, 20 de maio de 2022

COMENTÁRIO DA SEMANA

 “É fundamental um compromisso autêntico com a verdade e o respeito aos resultados nas eleições”

Quando a Igreja Católica se reuniu em seu último Concílio Ecumênico - o Vaticano II, em Roma - foi instituída lá, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, há exatos 60 anos. Retornando de Roma, todos os anos, de lá para cá, a CNBB tem-se encontrado em Assembleia Geral, presencialmente até bem pouco, e, virtualmente, do início da Pandemia para cá, como aconteceu agora, na última semana de abril, sempre após as Semanas Santa e da 8ª da Páscoa.

            Em cada Assembleia dessas, os Senhores Bispos e assessores sempre revisam as atividades planejadas, avaliam os resultados e fazem novos planos a serem executados dali pra frente e revisados depois.

            Para esta 59ª Assembleia Geral da CNBB, nossos Bispos católicos, em comunhão e unidade com o Papa Francisco e com representantes de diversos organismos eclesiais, dirigiram ao povo de Deus uma mensagem de fé, esperança e de corajoso compromisso com a vida e o Brasil.

            Apesar da divulgação da CNBB, das Dioceses, Paróquias, Comunidades Eclesiais e dos Meios de Comunicações ligados à Igreja, a grande imprensa oficial pouco se interessa em repassar, sobretudo aquela mais negacionista, que vê na mensagem dos Bispos uma oposição cerrada à realidade política.

            Por certo, aos meus possíveis leitores, não chegou ainda o conteúdo do “comentário” que quero apresentar hoje, proveniente da CNBB.

 

            “Enche o nosso coração de alegria perceber a explosão de solidariedade que tem marcado todo o país na luta pela superação do flagelo sanitário e social da COVID - 19. A partilha de alimentos, bens e espaços, a assistência a pessoas solitárias e a dedicação incansável dos profissionais de saúde são apenas alguns exemplos de incontáveis ações solidarias. Gestores de saúde e agentes públicos, diante de um cenário de medo e insegurança, foram incansáveis e resilientes. O Sistema Único de Saúde-SUS mostrou sua fundamental importância e eficácia para a proteção social dos brasileiros. A consciência lúcida da necessidade dos cuidados sanitários e da vacinação em massa venceu a negação de soluções apresentadas pela ciência.

            Contudo, não nos esquecemos da morte de mais de 662.000 pessoas e nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, trazendo ambas em nossas preces. Agradecemos ainda, de modo particular às famílias e outros agentes educativos, que não se descuidaram da educação das crianças, adolescentes, jovens e adultos, apesar de todas as dificuldades. Com certeza, a pandemia teria consequências ainda mais devastadoras, se não fosse a atuação das famílias, educadores e pessoas de boa vontade, espírito solidário e abnegado. A Campanha da Fraternidade 2022 nos interpela a continuar a luta pela educação integral, inclusiva e de qualidade.

            A grave crise sanitária encontrou o nosso país envolto numa complexa e sistêmica crise ética, econômica, social e política, que já nos desafiava bem antes da pandemia, escancarando a desigualdade estrutural, enraizada na sociedade brasileira.  A COVID – 19, antes de ser responsável, acentuou todas essas crises, potencializando-as, especialmente na vida dos mais pobres e marginalizados.

            O quadro atual é gravíssimo. O Brasil não vai bem! A fome e a insegurança alimentar são um escândalo para o País, segundo maior exportador de alimentos no mundo, já castigado pela alta taxa de desemprego e informalidade. Assistimos estarrecidos, mas não inertes, aos criminosos descuidos com a Terra, nossa casa comum.

            Num sistema voraz de ‘exploração e degradação’ notam-se a dilapidação dos ecossistemas, o desrespeito com os direitos dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, a perseguição e criminalização de líderes sócio-ambientais, a precarização das ações de combate aos crimes contra o meio ambiente e projetos parlamentares desastrosos contra a casa comum.

            Tudo isso desemboca numa violência latente, explícita e crescente em nossa sociedade. A crueldade das guerras, a que assistimos pelos meios de comunicação, pode nos deixar anestesiados e desapercebidos do clima de tensão e violência em que vivemos no campo e nas cidades. A liberação e o avanço da mineração em terras indígenas e n’outros territórios, a flexibilização da posse e do porte de armas, a legalização do jogo de azar, o feminicídio e a repulsa aos pobres não contribuem para a civilização do amor e ferem a fraternidade universal.

            Diante deste cenário esperamos que os governantes promovam grandes e urgentes mudanças, em harmonia com os Poderes da República, atendo-se aos princípios e aos valores da Constituição de 1988, já tão desfigurada por meio de Projetos de Emendas Constitucionais. Não se permita a perda de direitos dos trabalhadores e dos pobres, grande maioria da população brasileira. A lógica do confronto que ameaça o estado democrático de direito e suas instituições, transforma adversários em inimigos, desmonta conquistas e direitos consolidados, fomenta o ódio nas redes sociais, deteriora o tecido social e desvia o foco dos desafios fundamentais a serem enfrentados.

            Neste contexto, iremos este ano às urnas. O cenário é de incertezas e radicalismos, mas, potencialmente, carregado de esperança. Nossas escolhas para o Executivo e Legislativo determinarão o projeto de nação que desejamos.  Urge o exercício da cidadania, com consciente participação política, capaz de promover a ‘boa política’, como nos diz o Papa Francisco.

            Necessitamos de uma política salutar, que não se submeta à economia, mas seja capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, como as conquistas da Lei da Ficha Limpa, Lei Complementar 135 de 2010, que afasta do pleito eleitoral, candidatos condenados em decisões colegiadas e da Lei 9.840 de 1999 que criminaliza a compra de votos.

            Não existe alternativa no campo democrático fora da política com a ativa participação no processo eleitoral. Tentativas de ruptura da ordem institucional, hoje propagadas abertamente, buscam colocar em cheque a lisura do processo eleitoral e a conquista irrevogável do voto. Tumultuar o processo político, fomentar o caos e estimular ações autoritárias não são, em definitivo, projeto de interesse do povo brasileiro.  Reiteramos nosso apoio às Instituições da República, particularmente aos servidores públicos, que se dedicam em garantir a transparência e a integridade das eleições.

            Duas ameaças merecem atenção especial. A primeira é a manipulação religiosa, protagonizada tanto por alguns políticos como por alguns religiosos, que coloca em prática um projeto de poder sem afinidade com os valores do Evangelho de Jesus Cristo. A autonomia e independência do poder civil em relação ao religioso são valores adquiridos e reconhecidos pela Igreja e fazem parte do patrimônio da civilização ocidental. A segunda é a disseminação das “fake news”, que através da mentira e do ódio falseia a realidade. Carregando em si o perigoso potencial de manipular consciências, elas modificam a vontade popular, afrontam a democracia e viabilizam, fraudulentamente, projetos orquestrados de poder.

            É fundamental um compromisso autêntico com a verdade e o respeito aos resultados nas eleições. A democracia brasileira, ainda em construção, não pode ser colocada em risco. Conclamamos toda a sociedade brasileira a participar das eleições e a votar com consciência e responsabilidade, escolhendo projetos representados por candidatos e candidatas comprometidos com a defesa integral da vida, defendendo-a em todas as suas etapas, desde a concepção até a morte natural. Que também não negligenciem os direitos humanos e sociais e nossa casa comum onde a vida se desenvolve.

            Todos os cristãos somos chamados a preocuparmo-nos com a construção de um mundo melhor, por meio do diálogo e da cultura do encontro, na luta pela justiça e a paz. Agradecemos os muitos gestos de solidariedade de nossas comunidades, por ocasião da pandemia e dos desastres ambientais. Encorajamos as organizações e os movimentos sociais a continuarem se unindo em mutirão pela vida, especialmente por terra, teto e trabalho.

            Convidamos a todos, irmãos e irmãs, particularmente a juventude, a deixarem-se guiar pela esperança e pelo desejo de uma sociedade justa e fraterna. Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, obtenha de Deus as bênçãos para todos nós”.  




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