Série: Nossas Ruas, Nossa História (I)
A CASA PAROQUIAL DE GUARACIABA DO NORTE: NO PASSADO,
ACOLHEDORA!
Texto de Leunam Gomes (*)
A Casa
Paroquial de Guaraciaba do Norte sempre
teve, para mim, um significado especial. Quando menino, acólito, sentia-me bem acolhido
quando ali chegava. Muitas vezes, acompanhei meu pai em suas visitas periódicas
ao vigário e amigo. Além de Presidente da Congregação Mariana e Vicentino, meu
pai gostava de conversar com o vigário. Muitos homens tinham o mesmo costume. Por
meio do Padre, tomavam conhecimento das últimas notícias. Ele era, à época, um dos poucos a possuir um rádio para se atualizar
com as notícias.
Mais tarde,
como Seminarista, por indicação do vigário e apoio da Obra das Vocações Sacerdotais,
o acolhimento era mais afetivo ainda. A casa parecia-me um prolongamento da
Igreja que era o lugar mais importante da nossa cidade. Era o centro de todas
as nossas atenções. Ali era um local onde todos eram bem acolhidos. Durante as
férias do Seminário, à tarde, após a visita diária, ao Santíssimo, sempre íamos
à Casa Paroquial. Não éramos poucos.
Na casa
Paroquial morava o nosso vigário Mons. Antonino a quem tínhamos, quase,
uma veneração. Ele conhecia as suas ovelhas e as ovelhas o conheciam e
respeitavam. Percebia que todos os
padres convidados, vinham à Paróquia com muito prazer, na certeza de uma boa
acolhida. O Monsenhor construíra, ao lado da casa, alguns pequenos apartamentos
para acolher os seus visitantes e convidados.
No último dia
12 de agosto, retornei à Casa Paroquial com a mesma esperança de ser ali bem
acolhido, como acontecia a todos. Programara, desde a saída de Fortaleza, levar
alguns dos meus livros que poderiam, ao meu julgamento, contribuir com as ações
pastorais. Um livro que conta a importância
do Seminário de Sobral em nossas vidas. Daí o titulo SEMINÁRIO DE SOBRAL –
AD LABOREM – Nossa caminhada Profissional; o segundo com experiências
pedagógicas que deram ótimos resultados em sala de aula – PROFESSOR COM
PRAZER – Vivência e Convivência em Sala de Aula e o terceiro, recém-lançado com um retrato da
minha cidade sob o meu olhar de menino de doze anos, nos anos 50 e 60, antes do
ingresso no Seminário: GUARACIABA DO NORTE – Nossa Ruas, Nossa História.
Supunha que interessariam à Paróquia.
Na porta de
acesso, havia uma cartela informando os horários de atendimento. Estávamos,
Romulo e eu, dentro do horário, mas a porta trancada. Descobrimos e acionamos
uma sirene colocada na parte alta da entrada.
Algum tempo depois apareceu um senhor a quem nos identificamos e
informamos da nossa intenção. Ele era um dos padres da casa, com sotaque
espanhol. Gentilmente, atendeu e dirigiu-se ao vigário que estava em algum dos
aposentos da casa. Logo retornou dizendo que o vigário não podia atender.
Estava muito ocupado. Sem acreditar
naquela justificativa, entregamos ao padre mensageiro os três livros com as
nossas justificativas e um pouco de informação sobre nossa vinculação com a
Paróquia. Mais rápido do que na vez
anterior, o padre retornou com os livros, com a insistente resposta de que “o
vigário não tinha tempo para atender. Estava muito ocupado”.
Eu não fui à
busca de algum privilégio. Nada fui pedir. Fui levar os resultados de minha
produção acadêmica até para justificar que o investimento da Obra das
Vocações Sacerdotais não fora em vão.
Não me fiz padre, embora tenha concluído todas as etapas de estudo de
Filosofia e Teologia, no Seminário Regional do Nordeste. Havia recebido a
Tonsura, o primeiro passo para o sacerdócio que me foi conferida por Dom
Helder Câmara, na Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife. “Todos
são chamados e poucos os escolhidos”. Eu não fui escolhido, mas a vida toda
vivi a missão “Ide e Ensinai”.
Convivi com
inúmeros padres e Bispos e sempre mereci muito respeito e atenção. Mas não fui
recebido pelo vigário da minha terra. Mas será que sou apenas eu? Pelo que
soube, não. Se muitas pessoas têm sido tratadas com arrogância por quem tem a
missão de servir, algo precisa mudar. Será na população?
Foram 55 anos
dedicados à Educação e sempre fazendo com qualidade aquilo que me cabia fazer. Daí
sempre ter sido convidado para os cargos que ocupei. A opção pela Educação foi,
absolutamente, consciente, pela certeza de que este é o único caminho seguro
para ascensão dos pobres. O primeiro emprego foi com Alfabetização de Adultos,
pela Rádio Educadora, como Coordenador do Movimento de Educação de Base,
criado pela CNBB, em Sobral. Depois, no MEB Fortaleza, onde fui demitido pela
ditadura, em 1971, graças ao grande alcance do programa A ESCOLA EM SUA CASA, pela Rádio Assunção
Cearense. Daí ter ido para São Luís do Maranhão onde fiquei por 20 anos e, a
convite, vim para a Secretaria de Croatá, recém-emancipado.
Em Croatá,
em 1989, por exemplo, onde fui o primeiro Secretário de Educação, foi o
primeiro município a criar a sua Secretaria de Educação, o primeiro a realizar
um Seminário para saber o que a população desejava da gestão que se implantava,
especialmente, na educação; o primeiro a adaptar o calendário escolar ao
calendário agrícola; o primeiro a realizar concurso público e o primeiro a
pagar salário-mínimo aos professores que, até então recebiam apenas 10%.
Em Guaraciaba
do Norte, em 1993, pela primeira vez foi realizada uma série de Seminários
sob o titulo A EDUCAÇÃO QUE TEMOS E A EDUCAÇÃO
QUE QUEREMOS, a partir de uma questão básica: Por que de cada cem crianças
que entravam nas classes de Alfabetização, apenas 16 chegavam à quarta série? A partir dali a educação mudou de rumo. Tudo
está documentado. Fomos o primeiro município
a acabar com a evasão escolar, numa experiencia que virou modelo nacional e
serviu de base para a criação do FUNDEF, hoje FUNDEB.
Na sequência,
fui convidado para o Conselho de Educação do Ceará; para assumir a Coordenação
de Alfabetização da SEDUC; para a Universidade Estadual Vale do Acaraú onde
ocupei a Função de Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e, depois, de Extensão e
Desenvolvimento Municipal. Foi quando cuidamos da expansão dos cursos de
graduação pra vários municípios. E começamos por Guaraciaba do Norte e São Benedito
com o Curso de Formação de Professores.
Na UVA, fomos convidados e levamos a experiência de Formação de
Alfabetizadores para Cabo Verde, na África.
Na UVA me
aposentei e, a convite, assumi a Presidência da Comissão Especial Wanda Sidou
que concede indenizações aos Presos e Perseguidos Políticos pela ditadura, no
Ceará, onde ainda estou.
Com esta
trajetória, considero que tenho cumprido a minha missão, especialmente, nos
meus compromissos com o meu município. Nossa terra é, hoje, o que é, graças aos
cursos superiores instalados e que abriram perspectivas para muitos
conterrâneos. Praticamente, em todas as famílias há alguém com curso de
graduação. Levei a sério a missão: Ide e Ensinai. E da Casa Paroquial, as melhores lembranças.
.jpg)

.jpg)
.png)
.png)


.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.png)
.jpg)
.jpg)


.jpg)
.jpg)

.jpg)

.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.png)

.jpg)




.png)